Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 11 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 9

 

19 de dezembro, 06h32

Oceano Ártico

Os dentes de Tommy Bolar doíam-lhe do frio. Não sabia que tal era possível. De pé junto à amurada do navio, na escuridão do despontar da manhã ártica, um vento rude fustigava-lhe as faces expostas. O gelo branco estendia-se adiante no horizonte. Para trás, um rasto esmagado de gelo azulado e água escura marcava a passagem do quebra-gelo através da paisagem glacial.

Olhava em volta, desesperado. Não fazia ideia de onde estava.

Ou mesmo do que era.

Tudo o que sabia era que não era o mesmo rapaz de catorze anos que vira os pais morrerem nos seus braços, sobre as ruínas de Massada, vítimas de um gás venenoso que os matara e que o salvara a ele. Olhou para o pedaço de pele nua, que se adivinhava entre as luvas de camurça e as mangas da sua sofisticada parka de penas. Em tempos, uma mancha escura de melanoma persistira no pulso pálido, revelando a sua condição terminal – agora, desaparecera por completo, como o resto do cancro. Até mesmo o cabelo, perdido na quimioterapia, recomeçara a crescer.

Tinha sido curado.

Ou amaldiçoado. Dependendo da perspetiva.

Desejava ter morrido no cimo daquela montanha com os pais. Em vez disso, fora sequestrado de um hospital militar israelita, arrancado aos médicos que tentavam perceber a sua milagrosa sobrevivência. Os seus mais recentes carcereiros alegavam que fizera mais do que sobreviver à tragédia de Massada, insistiam que fora mais do que curado do cancro.

Diziam que nunca morreria.

E pior do que isso, começara a acreditar neles.

Uma lágrima rolou-lhe pela face, deixando um rasto quente na sua pele gelada.

Limpou-a com as costas da luva, sentindo-se revoltado, frustrado, querendo gritar para aquela vastidão sem fim – não por ajuda, mas por libertação, para ver de novo os seus pais.

Dois meses antes, alguém o drogara, e acordara ali, naquele imenso quebra-gelo no meio de um oceano gelado. O navio tinha sido pintado recentemente, quase totalmente de negro, com as cabinas empilhadas no convés como peças de Lego vermelhas. Até ao momento contara aproximadamente uma centena de membros da tripulação a bordo, memorizando as caras, aprendendo a rotina do navio.

Por agora, a fuga era impossível – mas o conhecimento significava poder.

Era uma das razões por que passava tanto tempo na biblioteca da embarcação, esquadrinhando os poucos livros em inglês, tentando aprender o máximo que podia.

Todas as outras investigações se tinham deparado com o silêncio. A tripulação falava russo e ninguém lhe dirigia a palavra. Apenas duas pessoas a bordo do quebra-gelo tinham comunicado com ele – e deixavam-no aterrorizado, embora fizesse o melhor por dissimulá-lo.

Como que convocado pelos seus pensamentos, Alyosha juntou-se a ele na amurada. Trazia dois floretes e deu-lhe um. O rapaz russo parecia da mesma idade de Tommy, mas a aparência era ilusória. Alyosha era bem mais velho, décadas mais velho. Provando a sua inumanidade, Alyosha usava calças de flanela cinzenta e uma camisa branca perfeitamente engomada, aberta no colarinho, expondo o pescoço pálido ao vento gélido que varria aquele recanto vazio do convés gelado. Uma pessoa real morreria congelada naqueles trajes.

Tommy aceitou o florete, sabendo que, se tocasse a mão nua de Alyosha, a encontraria tão gélida quanto a amurada coberta de gelo do navio.

Alyosha era uma criatura imperecível chamada strigoi.

Imortal, tal como Tommy, mas muito diferente dele.

Pouco depois do rapto de Tommy, Alyosha pressionara-lhe a mão contra o seu peito sem calor, revelando a inexistência de batimento cardíaco. Mostrara a Tommy as suas presas, a forma como os seus caninos podiam recolher ou sair para fora das gengivas, segundo a sua vontade. Mas a maior diferença entre eles era que Alyosha se alimentava de sangue humano.

Tommy era muito diferente.

Continuava a comer comida normal, continuava a ter batimento cardíaco, continuava a ter os mesmos dentes.

Então, o que sou eu?

O seu próprio captor – o mestre de Alyosha – não parecia saber. Ou pelo menos, nunca partilhara esse conhecimento.

Alyosha tocou-lhe na cabeça com o punho da espada para lhe chamar a atenção.

– Tens de estar atento ao que te digo. Temos de praticar.

Tommy seguiu-o até à zona de treino improvisada no convés do navio e assumiu posição.

– Não! – censurou o seu adversário. – Alarga mais! E mantém o florete erguido para te protegeres.

Aparentemente, Alyosha aborrecia-se no imenso navio e ensinava-lhe as maneiras de um nobre russo. Para além das lições de esgrima, ensinava-lhe uma série de termos sobre cavalos, selaria e formação cavaleira.

Tommy entendia a obsessão do outro. Fora-lhe dito o verdadeiro nome de Alyosha: Alexei Nikolaevich Romanov. Na biblioteca, encontrara um texto sobre a história russa e descobrira mais sobre aquele «rapaz». Cem anos antes, fora o filho do czar Nicolau II, um príncipe real do Império Russo. Em criança, Alyosha sofria de hemofilia e, segundo o livro, apenas uma pessoa o conseguia aliviar das dolorosas crises de hemorragia interna, o mesmo homem que mais tarde se tornaria seu mestre, transformando o príncipe num monstro.

Visualizou o mestre de Alyosha, com a sua espessa barba e tez escura, refundido num outro ponto daquele barco, como uma aranha negra na sua teia. No início de 1900, era conhecido como o Monge Louco da Rússia, mas o seu verdadeiro nome era Grigori Yefimovich Rasputine. Os textos históricos detalhavam a forma como o monge travara amizade com os Romanov, tornando-se um inestimável conselheiro do czar. Mas outros textos insinuavam a peculiaridade sexual de Rasputine e as intrigas políticas, que acabaram por conduzir a uma tentativa de assassínio por parte de um grupo de nobres.

O monge fora envenenado, atingido a tiro na cabeça, espancado com uma clava e lançado a um rio gelado – para apenas sair a cuspir água, ainda com vida. Os livros diziam que ele acabara por se afogar nesse mesmo rio, mas Tommy conhecia a verdade.

Não era assim tão fácil matar um monstro.

Como o rapaz príncipe, Rasputine era um strigoi.

Ligeiro como uma cobra, Alyosha lançou-se pelo tapete de esgrima improvisado, simulando à direita, depois deslocando-se à esquerda, quase rápido demais para ser percebido. A ponta do seu florete aterrou no centro do peito de Tommy, a extremidade forçando a parka e atingindo a pele. Aquelas não eram espadas de treino embotadas. Tommy sabia que Alyosha lhe podia ter espetado o coração, se quisesse.

Não que o tivesse matado.

Tê-lo-ia magoado, provavelmente deixado de cama e fraco por um ou dois dias, mas teria sarado, amaldiçoado como fora em Massada com uma vida imortal.

Alyosha sorriu e deu um passo atrás, brandindo o seu florete com um movimento triunfante. Tinha uma estatura próxima da de Tommy, com braços e pernas esguios. Mas era bastante mais forte e rápido.

A maldição de Tommy não lhe oferecia vantagens como a força e a velocidade.

Contudo, fez o melhor por se esquivar aos ataques seguintes. Dançavam para trás e para diante no tapete de esgrima. Tommy rapidamente se sentiu extenuado, consumido pelo frio.

Quando pararam para tomar fôlego, um sonoro ruído fraturante chamou a atenção de Tommy para lá da amurada de estibordo. O convés inclinou-se sob os seus pés. A proa do navio ergueu-se ligeiramente, depois desceu violentamente sobre as densas placas de gelo. Os poderosos motores faziam avançar o barco, prosseguindo na sua lenta passagem pelo mar Ártico.

Observou os grandes lençóis de gelo a serem retalhados e a rasparem ao longo do casco e perguntou-se o que aconteceria se saltasse.

Morreria?

O medo impediu-o de experimentar. Embora pudesse não conseguir morrer, conseguia sofrer. Esperaria por uma melhor oportunidade.

Alyosha lançou-se para diante e atingiu-o na face com a espada.

A vergastada relembrou-o de que a vida era dor.

– Basta! – decidiu Alyosha. – Mantém-te alerta, amigo!

Amigo...

Tommy quis escarnecer de tal título, mas manteve-se em silêncio. Sabia que, de certa forma, o jovem príncipe se sentia só, apreciando a companhia, mesmo que forçada, de um outro jovem.

Porém, Tommy não se deixava iludir.

Alyosha não era um rapaz jovem.

Assim, retomou a posição defensiva no seu lado do tapete. Era a sua única opção por agora. Esperaria pela sua hora, aprenderia o que pudesse e manter-se-ia em forma.

Até poder escapar.