Sangue Inocente
Capítulo 49
20 de dezembro, 15h04, CET
Siwa, Egito
Rhun virou-se num círculo lento, olhando com assombro a cratera varrida pela areia, imaginando as suas fundações de misterioso vidro. Mesmo quando ajudara Erin e Jordan a desenterrar a entrada para o poço das águas curativas, sentira um ligeiro ardor emanado do vidro. Quis ignorá-lo como sendo o calor das areias, do sol escaldante, mas reconhecia aquele ardor familiar, dos séculos a segurar a sua cruz.
O vidro queimava-o da sacralidade.
Sentira o mesmo do poço... e daquela estranha mulher angelical. Quando ela o roçou para curar Tommy, a água gotejou-lhe das pontas dos dedos, salpicando na areia com tal sacralidade, que ele tivera de dar um passo atrás, receoso.
Christian sentia claramente o mesmo, contemplando-a com um misto de maravilhamento e respeito.
Rhun estremecia, sentindo todo o peso da natureza sagrada da cratera.
O seu próprio sangue, contaminado como era, ardia face à divindade daquele lugar.
– Temos de afastar a areia! – bradou Erin.
Ela já estava de joelhos, desimpedindo uma secção de teste, revelando a saliência de algo gravado em relevo no vidro. Fez-lhes sinal para que se espalhassem num círculo em volta do poço.
Todos se lançaram ao trabalho, mesmo Tommy.
Só Arella se manteve para trás, não mostrando interesse na escavação. Mas afinal, ela já conhecia os segredos ali escondidos há muitas eras. Em vez disso, os seus olhos mantinham-se fixos nos céus tingidos de cinzas, fitando a norte, quase expectante.
– É mais fácil se não lutarem contra a areia – explicou Erin. – Trabalhem com a sua tendência natural para fluir para baixo.
Ela demonstrou, impelindo a areia por entre as pernas como um cão, empurrando-a para a vertente mais baixa. Rhun e os outros seguiram-lhe o exemplo. Os grãos de areia queimavam sob as mãos deste, com um calor que provinha de mais do que o Sol lá no alto.
Rhun escavou até ao leito de vidro da cratera. Mais do esboço que Erin revelara surgiu, profundamente gravado na superfície exposta. Varreu os grãos, reconhecendo um estilo egípcio na técnica. Afastou mais areia, revelando um painel quadrado contendo uma cena única.
O resto da equipa desenterrou quadros similares, inscritos na superfície áurea. Formavam um círculo de painéis em torno do poço, narrando uma história há muito oculta.
Todos se puseram de pé, tentando compreender.
Aparentemente atraída pela perplexidade deles, Arella avançou para o painel mais próximo de Erin. Baixou-se e, suavemente, varreu a areia de uma pequena figura. O rapaz encarava-os, mas o rosto estava de perfil, típico do traçado egípcio.
– Parecem hieróglifos – murmurou Tommy.
Mas ali a história não era de faraós ou deuses egípcios. Gravado no vidro, um rapaz de cabelo encaracolado trepava por uma duna estilizada, com um plano de água a aguardá-lo do outro lado.
Mas não era um rapaz qualquer.
– É Cristo em criança? – perguntou Erin.
Arella ergueu o rosto para eles.
– Isto conta como um menino foi sozinho para o deserto à procura de uma fonte escondida. Ainda não tinha onze anos e brincava pelas areias, pelos lagos, como qualquer menino.
O sangue de Rhun agitou-se ante o pensamento de Jesus em menino, a brincar no deserto como qualquer outra criança inocente.
Arella aproximou-se do painel seguinte, arrastando-os com ela. Aí, o rapaz de cabelo encaracolado chegava à fonte de água. Uma ave descansava do lado oposto, com linhas entalhadas irradiando do seu corpo.
Erin estudou o desenho, uma ruga marcando-lhe a fronte.
– O que aconteceu?
– Você é a Mulher Sábia – disse Arella. – Diga-mo.
Erin baixou-se sobre um joelho e seguiu com o dedo os traços do painel, descobrindo mais detalhes.
– O rapaz tem uma funda na mão direita e pedras na esquerda. Devia estar a caçar... ou talvez a brincar. A representar a luta de David contra Golias.
Arella sorriu, irradiando paz.
– Exato. Mas não havia nenhum Golias neste deserto. Apenas uma pequena pomba branca com reluzentes olhos de esmeralda.
Tommy arquejou, fitando a mulher.
– Eu vi uma pomba assim, em Massada... com uma asa partida.
O sorriso dela esmoreceu para a tristeza.
– Como um outro, muito antes de ti.
– Está a falar de Judas... – Tommy baixou-se ao lado de Erin, observando a ave mais de perto. – Ele disse que vira uma, também. Quando era um rapaz. Na manhã em que conhecera Jesus.
Erin fitou Tommy, depois Arella.
– A pomba foi sempre o símbolo do Espírito Santo para a Igreja.
Rhun esforçava-se por compreender como aquela mesma ave podia ligar os três rapazes. E mais importante do que isso, porquê?
Arella simplesmente virou costas, o rosto impassível, passando ao painel seguinte, fazendo-os segui-la.
Nesse quadrado de vidro, uma pedra voou da funda do rapaz e atingiu a ave, deixando-lhe uma asa claramente partida.
– Ele atingiu a ave – disse Erin, soando chocada.
– Ele queria apenas acertar por perto, assustá-la. Mas as intenções não bastam.
– O que quer isso dizer? – perguntou Tommy.
Erin explicou.
– Só porque queremos que algo aconteça de uma determinada maneira, não significa necessariamente que assim seja.
Rhun sentiu a angústia no bater de coração de Tommy. O rapaz já aprendera bem a sua lição.
Tal como eu.
O painel seguinte contava um final mais terrível para aquela brincadeira de criança. Aí, o rapaz de cabelo encaracolado segurava a pomba nas suas mãos, o pescoço desta pendendo inerte.
– A pedra fez mais do que partir-lhe a asa – observou Erin. – Matou-a.
– Como ele desejava poder desfazer o que fizera – disse Arella.
Rhun compreendeu o sentimento, também, evocando o rosto de Elisabeta à luz do sol.
Tommy voltou-se para Arella, os olhos semicerrando-se.
– Como sabe o que Jesus fez, o que ele pensou?
– Podia dizer que era por ser velha e sábia ou por ser profetisa. Mas sei-o, porque a criança me contou. Ele veio a correr do deserto, coberto de areia e fuligem, e esta foi a Sua história.
Erin olhou a mulher com assombro.
– Então, fez mais do que conduzir a família sagrada até Siwa. Permaneceu aqui, cuidando deles.
Arella inclinou a cabeça.
Christian fez o sinal da cruz. Até a mão de Rhun se ergueu involuntariamente para a cruz pendente do seu pescoço. Aquela mulher conhecera Cristo, partilhara os Seus primeiros triunfos e mágoas. Ela era bem mais santificada do que Rhun alguma vez poderia aspirar ser.
Arella moveu o braço em torno da cratera.
– Jesus encontrava-se, então, onde nos encontramos agora.
Rhun visualizou o poço e o plano de água que teria formado outrora. Imaginou a ave e o rapaz nas suas margens. Mas o que acontecera depois?
Arella prosseguiu no círculo de painéis. O próximo revelava o rapaz a erguer os braços ao alto. Feixes, entalhados no vidro, disparavam para cima das suas mãos. E entre esses raios, a pomba voava alto, as asas estendidas.
– Ele curou-a – disse Erin.
– Não – corrigiu Arella. – Ele devolveu-lhe a vida.
– O primeiro milagre – exclamou Rhun.
– De facto. – Ela não pareceu exultante com o ato. – Mas a luz desse milagre captou o olhar obscuro de um outro, alguém que o procurava desde o momento em que o anjo aparecera a Maria e lhe anunciara a boa nova.
– O rei Herodes? – questionou Jordan.
– Não, um inimigo bem mais poderoso do que Herodes alguma vez poderia ser.
– Portanto, não um homem, presumo? – aventou Erin.
Arella conduziu-os ao painel seguinte, onde o rapaz encarava uma figura esfumada com olhos de fogo.
– Não era nenhum homem, de facto, mas um inimigo implacável, que armou uma cilada ao rapaz, não por ódio ao Cristo criança, mas pela vontade inabalável de destruir o Pai.
– Está a falar de Lúcifer – compreendeu Erin, a sua voz abafada de temor.
Rhun fitou o vidro, o anjo negro a desafiar o Cristo criança – como Satanás faria de novo, ao tentar Cristo no deserto, com o Salvador feito homem.
– O Pai da Falsidade veio até aqui, pronto para a batalha – explicou Arella. – Mas alguém surgiu em defesa do rapaz.
Ela avançou no círculo gravado, revelando um rapaz agora envolto nas asas de um anjo, tal como a sibila envolvera Tommy nessa mesma manhã.
– Um outro anjo veio em seu auxílio. – Erin voltou-se para Arella. – Foi você?
O rosto da outra suavizou-se.
– Desejava ter sido, mas não fui.
Rhun compreendeu a mágoa na sua voz. Que privilégio teria sido poder salvar Cristo.
– Quem foi, então? – insistiu Erin.
Arella acenou para o painel. Ainda estava parcialmente encoberto pela areia à deriva. Rhun ajudou Erin a afastá-la, a sacralidade queimando-lhe as palmas das mãos.
Erin removeu os últimos grãos, notando que não eram apenas asas que protegiam o rapaz, mas uma espada, empunhada pelo anjo.
Erin levantou o olhar para Arella.
– O arcanjo Miguel. O anjo que lutou contra Lúcifer durante a batalha nos céus. O único que conseguiu ferir Lúcifer, atingindo-o no flanco com uma espada.
Arella inspirou fundo.
– O arcanjo Miguel foi sempre a primeira e melhor espada do Céu, e assim foi desta vez. Ele desceu à Terra e protegeu o rapaz do seu antigo adversário.
– O que aconteceu? – perguntou Jordan.
Arella baixou a cabeça, como que relutante em contar. Rhun escutou o sussurro do vento pela areia, o bater de coração dos humanos. Sons tão eternos como a própria sibila.
Quando teve a certeza de que ela não falaria mais, passou ao painel seguinte, quente do sol. Representava uma explosão emanando do rapaz, as linhas quebrando-se a partir da sua forma esguia, eliminando tudo o resto no painel.
Rhun levantou o rosto e passou o olhar pela cratera. Tentou imaginar uma explosão com violência suficiente para fundir a areia em vidro. O que poderia sobreviver a tal? Imaginou as asas do anjo a protegerem o rapaz mortal.
Mas e o defensor de Cristo?
Rhun voltou-se para Arella.
– Como pôde o arcanjo Miguel resistir a tão assombrosa detonação?
– Não resistiu. – Ela suspirou suavemente, virando as costas ao círculo gravado. – Miguel foi feito em pedaços.
Feito em pedaços?
– Tudo o que restou dele foi a espada, deixada abandonada aqui na cratera.
Rhun abeirou-se do último painel. Mostrava simplesmente uma espada fendida, cravada de ponta para baixo na cratera. Percorreu com o olhar o círculo da história, procurando compreender.
O ato misericordioso de Cristo para salvar uma simples pomba resultara na destruição de um anjo. Como poderia o rapaz perdoar-se? Tê-lo-ia aquilo atormentado?
Rhun viu-se de joelhos diante daquele último painel, cobrindo o rosto. Ele destruíra Elisabeta, uma simples mulher, e isso ainda o martirizava ao longo dos séculos. Ele era responsável por destruir a vida dela e todas as vidas que se seguiram no seu rasto sangrento. Contudo, naquele momento, as suas mãos não escondiam a mágoa e a vergonha, mas o alívio, ao reconhecer o pequeno consolo que aquela história lhe oferecia.
Obrigado, Senhor.
O simples facto de saber que o próprio Cristo podia cometer erros, aliviou o seu fardo. Esse entendimento não perdoava os pecados de Rhun, mas tornava-os mais fáceis de carregar.
Erin falou.
– O que aconteceu à espada do arcanjo Miguel?
– O rapaz veio ter comigo depois, trazendo um fragmento dessa espada nas mãos.
Arella tocou o peito.
– Era o fragmento que usava ao pescoço – compreendeu Erin. – Aquele usado para golpear o Tommy.
Ela olhou-o, arrependida.
– Sim.
Um pedaço dessa espada angelical.
– Onde está o resto da espada? – indagou Jordan, sempre o guerreiro.
A voz serena de Arella vacilou, como se a memória se turvasse.
– O rapaz disse-me que pecara quando matara a pomba... e pecara de novo, quando lhe devolvera a vida. E que não estava preparado para a responsabilidade de tais milagres.
– Então, está a dizer que o primeiro milagre de Cristo foi um pecado? – questionou Jordan.
– Ele pensou que o era. Mas afinal, de várias formas, ele era apenas um rapaz assustado e atormentado pela culpa. Não me cabe a mim julgar a verdade.
Erin instou-a a continuar.
– O que aconteceu depois?
– Ele contou-me o resto da história. – Abarcou com o braço o círculo. – Depois, acalmei o rapaz e deitei-o na cama, e fui procurar a verdade por detrás das suas palavras. Encontrei esta cratera e a espada no seu centro fumegante. Procurando mais longe, descobri as pegadas de Lúcifer para sul, manchadas pelo derramar do seu sangue negro.
Rhun olhou para sul. Agora alertado para isso, vislumbrou um corte infecto naquela sacralidade nessa direção, esbatido mas presente.
Esse sangue derramado ainda estaria ali?
– Mas de Miguel – prosseguiu Arella –, não encontrei vestígio.
– E da espada?
– Permanece escondida – disse ela. – Até o Primeiro Anjo regressar à Terra.
– Mas não sou eu? – perguntou Tommy.
Os olhos escuros de Arella demoraram-se sobre Tommy por um longo momento, depois falou.
– Tu carregas o melhor dele dentro de ti, mas não és o Primeiro Anjo.
– Não compreendo – disse Tommy.
Erin fitou Rhun.
Nenhum deles compreendia.
Não era de admirar que o rapaz não conseguisse abençoar o livro.
Um amargo desapontamento invadiu Rhun. Todas as mortes para levar Tommy até ali tinham sido em vão. Tantos tinham sofrido, sangrado e morrido na perseguição do anjo errado. E com os portões do Inferno a continuarem a abrir-se, a condenação do mundo era agora certa.
Eles tinham falhado.
– Helicóptero – disse Christian, retesando-se ao seu lado.
Arella voltou o olhar para norte, para onde tinha estado a olhar insistentemente, como se o esperasse.
– Todos chegam, por fim. Para ver se o que foi outrora quebrado pode ser reparado.
– E se não puder? – indagou Erin. Ela observou o Sol não muito distante do horizonte. O pôr do Sol estava a menos de uma hora.
Rhun receou a resposta.
– Se não puder – Arella passou as mãos pela sua túnica branca manchada –, será o fim do domínio dos homens na Terra.