Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 45 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 43

 

20 de dezembro, 07h15, CET

Mar Mediterrâneo

Ao atravessar o salão principal, o estômago de Erin revolveu-se subitamente, como se estivesse prestes a enjoar. Ela vacilou, apoiando-se num expositor para manter o equilíbrio. Voltou-se para Jordan, enquanto este fechava a porta do escritório privado, certificando-se de que nenhuma borboleta ou abelha perdida voava para fora com eles.

O olhar dele encontrou o dela, quando toda a plataforma começou a tremer ominosamente, como se uma manada de elefantes esbravejasse pela estrutura.

– Tremor de terra! – bradou Jordan, apressando-se para ela.

Erin voltou-se, vendo Rhun e Bernard a ajudarem Christian a levantar-se. O cardeal devia ter conseguido reanimar o jovem sanguinista com vinho recentemente consagrado, pelo menos o suficiente para o pôr sobre o seu pé.

Um violento abanão fez-se sentir debaixo dela, lançando-a ao ar. Aterrou sobre um joelho, enquanto Jordan resvalava ao seu lado. Livros caíram das estantes. Faíscas rubras voaram por entre a grade de ferro fundido da lareira.

Jordan levantou-a, enquanto a plataforma oscilava cada vez mais violentamente.

O aço rangia através das paredes. Um alto e esguio armário expositor tombou, com um despedaçar de vidro. Jordan apressou-se a levá-la para junto dos outros.

– Temos de sair desta plataforma! – bradou sobre o profundo troar.

Aparentemente alheio, o olhar de Bernard permanecia fixo nas altas janelas. Erin voltou-se para ver o que lhe captava assim a atenção. A leste, o horizonte clareara com o novo dia, que se erguia numa bruma de tonalidades rosa e laranja. Mas essa beleza era maculada por uma nuvem negra que a atravessava, subindo alto e alargando para fora, como se quisesse devorar o dia.

– Uma erupção vulcânica – disse Jordan.

Erin imaginou a direção em que Iscariotes voara com Tommy. Os seus dedos amarrotaram a folha de papel na sua mão, que representava um desenho antigo. Trouxera-a para a mostrar a Rhun e Bernard.

Seria tarde demais?

Como que acentuando essa inquietação, um abalo atroador percorreu a plataforma, atirando-os ao chão. As luzes apagaram-se. Crac! O som ensurdecedor de rocha sob pressão ecoou das profundezas. Toda a estrutura se começou a inclinar lentamente.

Ela imaginou uma das pernas de betão da plataforma a despedaçar-se pela junção.

– Vamos! – bradou Jordan. – Agora!

Agarrou no braço dela. Rhun e Bernard suspenderam Christian entre si.

Fugiram do salão e ao longo da passagem central. Os abalos continuaram, lançando-os contra as paredes apaineladas a madeira. A escuridão amplificava o terror de Erin. Finalmente, alcançaram as portas exteriores e escaparam para um mundo de metal oscilante e betão a esboroar. O braço de uma grua rodou sobre as cabeças deles, solto e descontrolado.

– O hidrofólio! – disse Jordan, apontando para as escadas, enquanto tropeçavam em diante. – Temos de descer! Afastar-nos para o mais longe possível desta torre.

Christian libertou-se dos outros.

– Eu... vou fazer por isso.

Mesmo no seu estado enfraquecido, ele era veloz, desaparecendo num borrão escuro pelas escadas. Bernard seguiu nos seus calcanhares, enquanto Rhun permaneceu junto de Erin e Jordan.

O trio lançou-se pela escada numa corrida veloz, galgando degraus, por vezes saltando vários. Destroços choviam em torno deles, embatendo na água lá no fundo. Erin notou que o mar em volta se tornara estranhamente raso, sem ondas, apenas a superfície tremente como uma panela prestes a ferver. Isso, mais do que qualquer outra coisa, fê-la descer mais rápido. Lançou-se no patamar seguinte com violência, embatendo com o estômago no corrimão oposto e ressaltando para trás.

Volta atrás de volta, fugiam, enquanto a plataforma em cima continuava a sua lenta inclinação, esmagando-se sobre o pilar desse lado, comprimindo o betão com sonoros estalos de pedra.

Um outro abalo violento fê-la saltar alto, lançando-a contra o corrimão. Os seus dedos procuraram agarrar-se, antes que o corpo fosse projetado por cima – depois, os dedos férreos de Rhun agarraram-lhe o blusão de pele e puxaram-na de volta aos degraus, os pés no chão.

– Obrigada – disse ela, parando para respirar.

Depois, prosseguiram rapidamente, à medida que o mundo se despedaçava à sua volta. Um outro pilar do lado oposto explodiu com estrondo, projetando-se para cima.

Mas um novo ruído introduziu-se por entre o caos: o roncar forte de um motor.

Uma última volta ao pilar e alcançaram a doca. Várias secções da sua extensão tinham sido destruídas por destroços em queda. Saltaram sobre as fendas abertas, enquanto o hidrofólio deslizava para trás, saindo do ancoradouro. A embarcação não escapara incólume: uma parte do passadiço esmagara-se sobre o convés da popa, onde permanecia.

Subitamente, um braço envolveu-lhe a cintura e impeliu-a para diante, no troço final da doca. Uma extensão de tirante retorcida desferiu-se como uma espada e perfurou completamente a secção de doca, onde ela se encontrara.

De novo, Rhun.

Jordan saltou por cima do pedaço de aço mortífero, para se juntar a eles.

O hidrofólio recuou para junto da doca, permitindo-lhes subir a bordo, abrigando-se sob o passadiço.

– Arranque! – gritou Jordan para a cabina na frente.

Os motores rugiram, impelindo o barco para diante, atirando Erin de volta aos braços de Jordan. Ambos olharam para cima, enquanto o veículo fugia de baixo da plataforma em colapso. Gigantes estilhaços de metal choviam ao seu redor, mas finalmente escaparam à sua mortal investida e alcançaram o mar aberto.

– Não abrande! – bradou Jordan. – Dê-lhe tudo!

Erin não entendia a urgência, até olhar para trás e ver toda a plataforma a ruir na direção deles, disposta a esmagá-los. Christian atendeu ao aviso de Jordan, acelerando em frente, erguendo a embarcação sobre os estabilizadores gémeos, deslizando sobre a água.

Ela viu com horror e assombro a plataforma a embater no mar, projetando alto uma imensa vaga e lançando essa parede de água no seu encalço. Mas agora a sua velocidade era tal que lhe escaparam facilmente. A onda maciça desvaneceu-se atrás deles, afundando-se de novo no mar.

Erin permitiu-se finalmente respirar, arquejando e limpando uma lágrima do olho.

– Anda – disse Jordan. – Vamos para junto do Christian e do Bernard.

Ela anuiu, incapaz de falar.

Subiram à cabina de comando, vendo Christian ao volante e Bernard no seu ombro. Ambos olhavam em diante, fitando a linha de costa.

Uma nuvem negra enchia o mundo no horizonte, alastrando na direção deles. No seu centro, dançava uma pequena fonte de fogo. Era sem dúvida, um vulcão. Partículas de cinza começavam já a cair, acumulando-se sobre o vidro como neve suja.

Erin sabia que aquela parte da costa italiana era um forte ponto geotérmico. Evocou as ruínas de Pompeia e Herculano, à sombra do Vesúvio. Mas mesmo esse monte mortífero era um ponto minúsculo, comparado com o monstro latente nas profundezas de toda aquela região: um supervulcão designado Campi Flegrei, com uma caldeira de seis quilómetros de largo. Se esse dragão adormecido alguma vez despertasse, grande parte da Europa seria destruída.

Um fragmento de cinza deslizou pelo vidro, deixando um rasto de fuligem.

Bernard debruçou-se sobre ele.

– Tem um tom carmesim – comentou ele.

Erin juntou-se-lhe, notando que tinha razão. O rasto era distintamente vermelho escuro.

Como sangue.

Provavelmente, devia-se apenas à tonalidade da pedra da região, conhecida por ser rica em ferro e cobre vulcânico.

Contudo, Erin citou uma passagem do Apocalipse 8: «O primeiro anjo tocou a trombeta. Saraiva e fogo misturados com sangue, foram lançados sobre a terra.»

Bernard olhou-a.

– O início do fim do mundo.

Erin assentiu, citando o seguimento: «Queimou-se uma terça parte da terra, a terça parte das árvores e também toda a erva verde.»

Visualizou a cratera de Campi Flegrei. Se se inflamasse, um terço da Europa arderia.

– Podemos impedi-lo? – questionou Jordan, não disposto a desistir sem lutar.

– Talvez ainda haja tempo – admitiu Bernard. – Se conseguirmos encontrar o Primeiro Anjo, talvez ainda consigamos corrigir o erro.

– Mas ele pode estar em qualquer lugar – disse Rhun.

– Não necessariamente – contrapôs Jordan. – Se Iscariotes fez algo para o desencadear, e é um se de peso, já agora, não pode ter ido longe com o rapaz. O helicóptero atacante dirigia-se para leste. Só passaram uns dezanove minutos, desde que nos derrubaram.

– E Iscariotes precisaria de tempo para o preparar, uma vez alcançada a costa – corroborou Rhun. – Provavelmente, planeou-o para coincidir com o nascer do novo dia.

Bernard apontou a dança de lava no coração da nuvem de cinzas.

– Deve estar próximo dali, mas onde?

Erin procurou no bolso interior do blusão e tirou para fora o desenho que roubara do cofre. Alisou-o sobre a mesa cartográfica do barco.

– Vejam isto.

O desenho mostrava dois homens – um mais velho, outro mais novo – numa pose sacrificial, com um anjo a olhar sobre o ombro do homem, o seu rosto preocupado e com motivo. Um fio de sangue escorria pelo flanco do jovem, gotejando para uma fenda negra, próxima do fundo da página. Uma pata com quatro garras irrompia dessa fenda.

– O que significa? – perguntou Jordan.

Erin martelou o dedo sobre os dois homens. O mais velho dos dois tinha cabelo escuro, o outro mais claro. Fora isso, pareciam bastante idênticos, podendo até ser aparentados.

Ela apontou o mais jovem, talvez um rapaz.

– E se este for o Tommy?

Rhun inclinou-se sobre o seu ombro.

– Parece que o seu sangue está a ser vertido para o chão, para aquela fissura negra. – Os seus olhos escuros encontraram os dela. – Acha que ele está a ser sacrificado por Iscariotes?

– E o seu sangue está a ser usado para abrir uma porta. Tal como o vosso fluido sanguinista abre portas ocultas.

– E essa coisa com garras que irrompe do fundo? – Acrescentou Jordan. – Não pode ser coisa boa.

 

07h26

Bernard fitou o demónio trepando do poço e desesperou. Como podiam esperar impedir o Armagedão, se já fora iniciado? Voltou-se na direção do fumo e conflagração. Por onde começar sequer?

Disse-o em voz alta.

– Mesmo que esteja certa, Erin, isto não nos diz onde o sacrifício tem lugar.

– Diz, sim.

Ele fitou-a mais intensamente.

Ela circundou com um dedo os cinco símbolos que rodeavam o quadro sacrificial: uma lamparina a óleo, uma tocha, uma rosa, uma coroa de espinhos e uma taça.

– Cinco ícones. Eu sabia que não eram meramente decorativos. Nada neste desenho está aqui por acaso.

Ele estudou-os, sabendo que ela tinha razão, perturbado pela familiaridade desses mesmos símbolos, mas incapaz de os situar. Por outro lado, não era tão versado em História Antiga como a doutora Granger.

Ela explicou:

– Estes símbolos representam cinco famosas profetisas do passado distante. Cinco mulheres, cinco antigas sibilas.

Bernard agarrou o bordo da mesa. É claro!

– Da Capela Sistina – exclamou ele, impressionado. – Essas cinco mulheres estão aí representadas.

– Porquê? – perguntou Jordan.

Bernard estendeu a mão e pegou na mão de Erin, agradecido.

– São as cinco mulheres que preconizaram o nascimento de Cristo. Oriundas de diversos tempos e lugares, mas todas elas profetizaram a Sua vinda.

Erin tocou cada símbolo, nomeando-as em voz alta.

– A Sibila Pérsica, a Sibila Eritreia, a Sibila Délfica, a Sibila Líbia...

Parou, por último, no símbolo do topo.

– A taça representa sempre a Sibila de Cumas. Diz-se representar a natividade de Cristo. – Ela estudou a costa. – Estabeleceu a sua morada às portas de Nápoles. E segundo inúmeras narrativas antigas, desde Virgílio a Dante, diz-se que o seu trono guardava os portões do próprio Inferno.

Referindo-se à pata de garras irrompendo das profundezas, Bernard avançou.

– Creio que ele procura libertar Lúcifer, o Anjo Caído.

– É assim que ele pretende desencadear o Armagedão – concluiu Erin.

As cinzas chicoteavam o vidro como saraiva, à medida que se aproximavam mais da costa. O céu lá no alto eclipsara-se com o fumo, impedindo o dia de se mostrar. Bernard desanimava, face ao destino lúgubre que se seguiria inevitavelmente.

Jordan aclarou a garganta, com o nariz bem próximo do desenho.

– Então, se tudo é importante neste desenho, porque há um anjo a olhar sobre o ombro de Judas, não fazendo nada senão olhar tristemente?

Bernard desviou a atenção da linha de costa ardente, de volta ao desenho.

– O rosto dela – continuou Jordan. – Assemelha-se bastante ao da mulher pintada no escritório de Iscariotes. Podiam ser a mesma mulher. No retrato a óleo, Judas tinha um braço em torno dela, como se fossem marido e mulher.

Bernard examinou o desenho mais de perto, com Erin. Ele estudou o rosto, depois um estremecer de reconhecimento percorreu-lhe o corpo, gelando-o.

Como podia ser...?

Erin notou a reação.

– Conhece-a?

– Encontrei-a numa ocasião – disse debilmente, recuando ao viveiro de túneis nas profundezas de Jerusalém, à mulher resplandecendo de sublime graça na margem daquela lagoa negra. Recordou a sua ausência de pulsação e, contudo, o fogo ardente que dela emanava na fria caverna. – No tempo das Cruzadas.

Erin franziu a fronte, claramente em dúvida.

– Como... onde a conheceu?

– Em Jerusalém. – Bernard tocou a sua cruz peitoral. – Ela guardava um segredo, algo sepultado bem nas profundezas da Pedra Fundamental da antiga cidade.

– Que segredo? – perguntou Erin.

– Uma gravura em relevo. – Apontou o esboço diante deles. – Tratava-se da história da vida de Cristo contada através dos seus milagres. A história revelaria uma arma que aniquilaria todo e qualquer mal. Procurei-a a grande custo.

Os gritos dos moribundos na cidade ainda ecoavam nos seus ouvidos.

– O que aconteceu? – indagou Erin, soando distante.

– Ela achou-me indigno. E destruiu a parte mais crucial antes que eu a pudesse ver.

– Mas quem é ela? – questionou Jordan. – Se andava por aí no tempo das Cruzadas, depois de novo no tempo do Renascimento com Judas, deve ser imortal. Isso significa que é strigoi? Ou alguém como Judas ou o rapaz?

– Nenhum deles – compreendeu Bernard, em voz alta. Ele apontou as asas sobre os seus ombros. – Creio que ela é um anjo.

Ele fitou Erin e os seus olhos encheram-se de lágrimas.

E ela achou-me indigno.