Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 43 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 41

 

20 de dezembro, 06h38, CET

Mar Mediterrâneo

Jordan transpôs os poucos passos que o separavam de Rhun e empurrou-o porta fora, pondo-lhe uma mão sobre o peito. Apanhado de surpresa, o sacerdote tropeçou para trás e estatelou-se no chão, na sala contígua.

Jordan bateu-lhe a porta na cara, com um certo grau de satisfação.

– Fique aí fora! – gritou pela porta. Agarrou num guarda-chuva de um bengaleiro à mão e enfiou a ponta pelo buraco que abrira na fechadura, fechando a nuvem atacante no interior, consigo e com Erin. – Eu trato de livrar o lugar destes sacanas! Até lá, mantenha-se ao largo, padre!

Jordan virou costas, imaginando que Rhun não estaria feliz.

Azar.

Uma pétala de flor flutuou até à sua face – picando-o, penetrando-lhe o canto do lábio. Agarrou-a, esmagou-a entre os dedos e lançou-a ao chão.

Como que enfurecidas por esse ataque, mais das criaturas lançaram-se sobre ele, ferrões de prata penetrando toda a pele exposta: face, mãos, pescoço. Bateu-se contra elas, vendo Erin debaixo de ataque também. Avançou na direção dela por entre aquela nuvem, fazendo o possível por proteger os olhos. Embora as criaturas não fossem tóxicas para os humanos, ele e Erin podiam ser cegados pelas suas picadas.

Erin estava agachada ao lado da enorme mesa antiga e esmagava o ar em redor com um arquivador tirado da mesa. Ele ouviu uma litania de imprecações e viu os pontos de sangue gotejando de inúmeras picadas nos seus braços e rosto.

Ela deu uma palmada na garganta e uma borboleta caiu esborrachada no chão.

Seguindo-lhe o exemplo, ele despiu o casaco e bateu o ar com ele. Juntou-se a ela, usando o blusão como um toureiro contra um milhar de touros enraivecidos. Chicoteando com fúria, libertou algum espaço à volta dela.

Contudo, ela puxou a gola do blusão sobre a cabeça e formou uma tenda à sua volta. Inclinou-se, espalhando os papéis sob as mãos, claramente à procura de alguma pista sobre o paradeiro dos outros.

Ele espreitou sobre o ombro dela. Os papéis pareciam escritos numa centena de línguas, muitas delas antigas.

– Agarra em tudo! – sugeriu ele. – Podemos examiná-los depois!

– Não até neutralizarmos esta ameaça. Se alguma destas coisas nos escapar, irá direita a Rhun, Bernard ou Christian.

Jordan sabia que ela tinha razão. Os autómatos pareciam sintonizados para atacar strigoi. Momentos atrás, Erin não despoletara a armadilha ao entrar. Mesmo a detonação da espingarda não os despertara. Foi só quando Rhun cruzou o limiar, que ganharam vida.

– Vejamos se consigo reduzir um pouco esta carga – disse ele. – Continua a procurar.

Ele inverteu a tática. Em vez de usar o casaco para afastar a ameaça, usou toda a extensão deste como uma imensa rede. Lançou-o, retirando do ar quantidades significativas da horda esvoaçante. Atirou-os ao chão e esmagou-os com as botas.

Erin gritou-lhe, enquanto ele labutava.

– A maior parte destes papéis tem o logótipo da mesma empresa. A Argentum Corporation.

Jordan reconheceu o nome.

– Um grande consórcio! – gritou-lhe ele. – Faz todo o tipo de coisas, incluindo fabrico de armas. Parece o tipo de negócio em que alguém como Judas se envolveria.

Prosseguiu o seu ataque perseverante. Abafou, bateu e esmagou dessa forma por todo o compartimento, até o ar começar a ficar desimpedido. Depois, a caça tornou-se mais focada, apanhando criaturas isoladas no ar, com um golpe de casaco.

Rhun chamou do outro lado da porta.

– Como está a correr?

– Estou a terminar as limpezas!

Erin acenou-lhe.

– Jordan, vê isto.

Ele juntou-se a ela, limpando um rasto de sangue dos olhos. Ela apontava para uma parte da correspondência da Argentum Corporation: um envelope cinzento-prateado com um logótipo gravado no canto, representando uma antiga âncora.

– Estou sempre a encontrar estas âncoras por todo o lado – disse Erin. – E lembras-te da mensagem que Rasputine enviou a Rhun, aquela que o alertava de que o símbolo da âncora estava ligado a Judas?

– Pois, o tipo tem claramente um fetiche náutico.

– Não é náutico. É cristão. – Ela traçou a cruz que formava o centro da âncora. – É uma crux dissimulata. Os antigos cristãos usavam-na como símbolo secreto, no tempo em que eram perseguidos pela sua fé e seria demasiado perigoso representar claramente a cruz.

Jordan esmagou uma pequena abelha de bronze e prata.

– Deve ter sido por isso que escolheu o símbolo para o logótipo da sua Argentum Corporation.

– Ele ainda ama Cristo – observou Erin. – E com esta imortalidade, nunca conseguirá escapar à sua culpa. Não admira que se esforce tanto por fazê-Lo regressar.

– Mas como? – questionou Jordan.

Ela afastou os papéis.

– Não há nada aqui, além de dados financeiros da empresa e correspondência banal. Nada aponta para o seu plano. Mas deve haver algo aqui. Algures nesta divisão.

– Ele não deixaria algo assim, em plena vista. Tê-lo-ia escondido. – Jordan apontou as gavetas da secretária. – Procura num lugar fechado, escondido.

Com apenas alguns atacantes ainda no ar, Jordan inspecionou as paredes, retirando os quadros emoldurados.

– Nada nas gavetas! – gritou-lhe Erin.

Jordan chegou a um retrato emoldurado a ouro, de aspeto antigo. Um olhar mais atento ao sujeito retratado revelou-lhe ser Iscariotes, pouco diferente da atualidade, mas envergando roupas renascentistas, com o braço em torno de uma mulher de tez escura, num vestido sumptuoso. As mãos desta seguravam uma pequena máscara veneziana.

Quando o tentou retirar, descobriu que estava preso à parede.

O sorriso de Jordan igualou o de Judas no retrato.

Pressionou-o, revelando a face de um moderno cofre digital.

– Erin!

Ela olhou para cima, arregalando os olhos.

– Só pode ser isso!

– Vejamos se o consigo abrir.

– Acho que atingi-lo com a espingarda não vai ajudar desta vez.

Jordan esfregou as pontas dos dedos e soprou-lhes.

– Basta um pouco de prática de assalto a cofres.

Ela olhou-o duvidosa.

– Sempre cética, doutora Granger.

Jordan tirou a lanterna do bolso e fez incidir o feixe pelos números do teclado branco, inclinando-a para trás e para diante, iluminando-os de diferentes ângulos.

– Consigo abrir isto em seis tentativas.

– A sério? Como?

– Ciência – respondeu ele. – Assaltar este cofre vai ser uma questão de ciência.

Ela ergueu uma sobrancelha.

– Observa atentamente os números. – Ele fez incidir, de novo, a lanterna sobre o teclado digital. – Vês o pó colorido em algumas das teclas?

Ela inclinou-se para diante.

– O que é?

Ele ergueu a sua mão livre, também coberta das mesmas partículas cintilantes.

– O tipo tem um passatempo que o apaixona. Provavelmente, mexe e remexe nas suas criações com frequência. E esquece-se de lavar as mãos quando está com pressa.

– Faz sentido – concordou Erin.

– O tipo é um arrogante, confiante na sua segurança. Prime os mesmos números, vezes sem conta. Mas também claramente paranoico. Duvido que deixe a criada limpar o cofre secreto.

Jordan apontou para o número sete.

– Essa é a tecla que tem mais pó, por isso aposto que é o primeiro número.

– E os outros três?

– Se vires com atenção, notarás a presença de pó nos números nove, três e cinco.

Ela inclinou-se para observar. Ele gostava de a sentir perto e também gostava de parecer inteligente, para variar.

– Pronto. – Agora precisava de um pouco de sorte. – Se não houver números repetidos e o código for de apenas quatro dígitos, começando pelo número sete, isso deixa-me apenas seis variações possíveis.

– Astuto – reconheceu Erin.

Ele tocou a testa. – É lógica.

E, conforme esperava, sorte.

Introduziu as várias combinações, começando com 7935. Nada. À terceira tentativa, a luz no mostrador do cofre alterou-se de vermelho para verde.

Ele deu um passo atrás, dando as honras a Erin.

Ela agarrou o manípulo, rodou-o e a porta abriu-se.

Jordan espreitou sobre o ombro dela.

– Mais papéis.

Uma pilha ocupava o espaço, encimada por um tosco pisa-papéis de vidro.

Erin pegou-lhe, erguendo o pedaço de vidro à luz da lanterna. Suspensa no centro do cristal, estava uma folha acastanhada.

– Tem algo escrito – disse ela. – Em aramaico herodiano.

– Consegues traduzir?

Ela assentiu, semicerrando os olhos, virando o pedaço de vidro em vários ângulos. Finalmente, suspirou e proferiu as palavras aí inscritas: «Depois de as Suas palavras, escritas a sangue, serem retiradas da prisão de pedra, aquele que O levou deste mundo, intervirá para O trazer de volta, desencadeando uma era de fogo e sangue, lançando um pano mortuário sobre a Terra e todas as suas criaturas.»

Erin voltou o rosto para Jordan, a sua voz ressequida e sufocada pelo medo.

– Foi aqui que Judas encontrou o seu desígnio. O seu plano não foi gizado do nada. Trata-se de uma profecia.

– Porque dizes isso?

– A folha. É claramente antiga, preservada no cristal para a proteger. Dizia-se que os antigos áugures do passado registavam as suas visões em folhas.

– Então, o que quer isso dizer? Que está destinado a acontecer? Que não podemos fazer nada?

– Não, e por isso esses áugures as inscreviam em folhas. Uma evocação de que o destino não está escrito na pedra. Mas Judas, cego pela culpa, certamente, ter-se-á aferrado a essa profecia como sendo o seu desígnio supremo.

– Mas continuamos sem saber o que ele planeia – recordou-lhe Jordan.

Ela assentiu e retirou a primeira folha da pilha de papéis.

Jordan notou que a página envelhecida estava, igualmente, maculada de partículas de esmeralda, púrpura e carmesim, provando ser manuseada com frequência, talvez recentemente.

Erin retesou-se, incapaz de falar.

– O que foi? – indagou ele.

Em resposta, ela estendeu-lhe a página, revelando o que aí estava representado.