Sangue Inocente
Capítulo 21
19 de dezembro, 13h48, CET
Oceano Ártico
Bem acima do convés do quebra-gelo, Tommy agarrava os braços metálicos de uma grua escarlate, segurando-se firmemente com as suas grossas luvas. Não tinha medo da morte, sabendo que a queda na dura estrutura metálica em baixo não o mataria – mas dispensava a dor de uma coluna, pélvis ou crânio partidos.
Em vez disso, içava-se cuidadosamente mais alto.
Os seus captores deixavam-no subir quando queria.
Também eles não tinham medo que ele morresse – ou fugisse.
Esforçou-se por contornar a grua até à parte de trás. Mesmo com o vento cortante, adorava estar ali em cima. Sentia-se livre, deixando em baixo todos os seus medos e inquietações.
Com o Sol do Ártico apaticamente pousado no horizonte, recusando erguer-se completamente naquela altura do ano, Tommy contemplava a infinita extensão de mar gelado, o trilho escuro de água aberto pela proa do navio. Os únicos seres vivos ao longo de quilómetros em redor eram a tripulação do quebra-gelo. Não estava certo de Alyosha e o mestre do miúdo contarem como seres vivos.
O ranger de uma porta chamou-lhe a atenção do horizonte de volta para o convés. Uma figura escura passou por uma escotilha, tendo de se baixar para sair. Segurava as pontas da veste contra o vento feroz – não porque tivesse frio, mas simplesmente para impedir que o tecido lhe vergastasse o corpo. Era fácil detetar a barba cerrada, a expressão rígida.
Era o mestre de Alyosha.
Grigori Rasputine.
O monge russo segurava um telefone de satélite na mão.
Curioso, Tommy trepou na direção dele, tencionando espiá-lo de cima.
A bordo do navio, todos faziam um silêncio de morte quando Tommy entrava numa cabina. Olhavam-no como se fosse uma criatura alienígena – e talvez o fosse, agora. Mas dali de cima, sem ser visto, ele podia ouvir e observar a vida comum desenrolar-se lá em baixo. Era outra das razões porque gostava de trepar até ali. Reconfortava-o ver alguém fumar ou assobiar ou dizer uma piada, mesmo não entendendo russo.
Silenciosamente, foi descendo até achar um pouso suficientemente próximo para escutar, mantendo-se fora da vista de Rasputine.
O monge caminhava lá em baixo, resmungando em russo e fitando o gelo em volta. Verificava constantemente o telefone, como se esperasse uma chamada. Algo o tinha claramente agitado.
Por fim, o telefone tocou.
Rasputine levou bruscamente o aparelho ao ouvido.
– Da?
Tommy mantinha-se perfeitamente imóvel no seu pouso. Rezou para que a pessoa do outro lado da linha falasse inglês. Talvez pudesse ficar a saber alguma coisa.
Por favor...
Rasputine aclarou a garganta, depois de ouvir durante um minuto, e falou com sotaque carregado.
– Antes de negociar o rapaz – disse ele –, quero uma fotografia do Evangelho.
Tommy ficou aliviado ao ouvir inglês, mas o que queria Rasputine dizer com negociar o rapaz? Estaria alguém a tentar comprá-lo? O telefonema teria a ver com a sua libertação ou outra prisão?
Se eu pudesse ouvir o outro lado da linha.
Infelizmente, esse desejo não lhe foi concedido.
– Eu sei o que o Evangelho revelava, cardeal – rosnava Rasputine. – E não negociarei, a menos que possa verificar que o livro permanece em sua posse.
As questões explodiam como foguetes na cabeça de Tommy: Que evangelho? Que cardeal? Estaria a falar com alguém da Igreja Católica? Porquê?
Tommy recordou o olhar do padre que o confortara depois da morte dos pais, em Massada. Recordou a preocupação do homem. O padre oferecera mesmo uma oração pelos seus pais, apesar de saber que eram ambos judeus.
Sons irados irromperam do outro lado da linha, sonoros o suficiente para chegarem onde Tommy se encontrava.
Rasputine voltou a falar, mudando de inglês para o que soava como latim.
Recordou que a prece do padre também fora feita em latim.
Haveria ligação?
– Estas são as minhas condições – cuspiu Rasputine, pondo fim à chamada.
Retomou os passos, até que o telefone emitiu o som de entrada de mensagem.
Rasputine olhou o ecrã e caiu de joelhos no convés gelado. O rosto parecia extasiado ao varrer o gelo em volta, segurando o telefone entre as mãos como se fosse um livro de orações.
Tommy empoleirou-se silenciosamente na grua para fixar o ecrã em baixo. Não conseguia perceber, mas adivinhou que seria a foto do evangelho que Rasputine exigira ver.
O telefone tocou de novo.
Rasputine atendeu, de joelhos, claramente incapaz de esconder o deleite da voz.
– Da?
Seguiu-se uma longa pausa, enquanto o monge escutava.
– Bastante satisfatório – disse, tocando a sua cruz com um dedo maciço. – Mas, cardeal Bernard, podemos sempre encontrar-nos em São Petersburgo para a troca. Gostaria de lhe demonstrar um pouco da hospitalidade russa. O padre Korza ficou bastante agradado quando me visitou da última vez.
Tommy sobressaltou-se, quase caindo do pouso.
Tinha esquecido o nome do padre, mas reconhecera-o ao ouvi-lo agora.
Korza.
Antes que pudesse considerar esse novo mistério, Rasputine descobriu os dentes, expondo as suas presas afiadas.
– Terreno neutro, então – disse com riso abafado. – Que tal Estocolmo?
Rasputine ficou à escuta mais um pouco, depois despediu-se e desligou o telefone. O monge voltou a pôr-se de pé e fitou o gelo em redor, durante muito tempo.
Tommy tinha receio de se mover, pelo que observou e esperou.
O monge inclinou a cabeça e olhou em cima para Tommy, o seu sorriso mais gelado do que o gelo que rodeava o navio. Rasputine devia saber que Tommy estivera ali o tempo todo. Suspeitava mesmo que o monge tivesse propositadamente passado ao inglês, para se certificar de que Tommy compreendia a essência da conversa.
Mas porquê?
Rasputine agitou um dedo na sua direção.
– Tem cuidado aí em cima. Podes ser um anjo, mas ainda não tens as tuas asas. Terei de te arranjar um par, antes de partirmos.
O riso cruel ecoou pelo convés.
O que quereria ele dizer com aquilo?
Subitamente, Tommy sentiu que corria maior perigo do que há um momento atrás. Rezou para que alguém o salvasse, visualizando o rosto do padre Korza.
Mas o sacerdote seria bom ou mau?