Sangue Inocente
Capítulo 35
20 de dezembro, 04h14, CET
Nápoles, Itália
O cardeal Bernard caminhava a passos largos pelo aeroporto quase deserto, nos arredores de Nápoles. As lâmpadas engastadas lançavam um matiz azulado sobre os poucos viajantes da madrugada, emprestando-lhes um ar doentio. Ninguém lhe prestou atenção, enquanto passava velozmente em direção ao átrio de chegadas. Trocara o carmesim das suas vestes formais pelo azul-escuro de um moderno fato de executivo.
No entanto, não viera a Nápoles como cardeal ou homem de negócios, mas como guerreiro.
Sob a seda do seu fato, envergava uma armadura.
Suspeitando de um espião na ordem, viajara até ali em segredo, escapando da Cidade do Vaticano por um longo túnel em desuso e atravessando as ruas tardias de Roma, por onde passara despercebido. Viajara em avião comercial em vez de um jato privado, usando documentos falsos. Arrastava uma mala, contendo dois conjuntos de armadura sanguinista, especialmente preparados para aquela viagem.
Próximo da saída do aeroporto, reconheceu de imediato Erin e Jordan, escutando-lhes o revelador batimento cardíaco, antes de eles transporem as portas de vidro.
Rhun e Christian flanqueavam o par.
Jordan alcançou-o primeiro, movendo-se sobre as suas fortes pernas.
– Que bom voltar a vê-lo, cardeal.
– Por agora, sou simplesmente Bernard.
Olhou em volta, depois passou a mala a Rhun e apontou para uma casa de banho.
– Troquem de roupa. Mantenham a armadura sob as roupas civis.
Depois de partirem, apertou a mão a Jordan, notando o intenso calor da sua palma, quase febril, como se estivesse em chamas.
– Sente-se bem? – perguntou-lhe.
– Tendo em conta que acabei de voltar dos mortos, sinto-me fantástico.
Bernard notou uma ligeira hesitação na postura do homem. Ocultava claramente alguma coisa, mas Bernard deixou passar.
– Estou grato por estar bem... e igualmente grato pelo seu esforço em ajudar-nos a compreender esta ameaça única colocada pelos autómatos de Iscariotes.
Bernard ainda tinha dificuldade em aceitar que Judas Iscariotes caminhava pela Terra, que Cristo tinha amaldiçoado o Seu traidor com a eternidade. Mas a ameaça que o homem colocava não podia ser negada ou ignorada.
– Com tempo e instalações mais adequadas – disse Jordan –, poderei saber mais sobre essas criações.
– Terá de bastar. O tempo escasseia. Temos de achar o Primeiro Anjo e reuni-lo com o livro.
As palavras da profecia do Evangelho surgiram-lhe na mente, em traços flamejantes: «A trindade profetizada levará o livro ao Primeiro Anjo para que o abençoe. Só assim poderão garantir a salvação do mundo.»
Nada mais importava.
Erin parecia triste.
– Para que tal aconteça, temos de descobrir onde Iscariotes o escondeu e perceber o que ele quer do rapaz.
– E porque o canalha veio até aqui com a criança – acrescentou Jordan.
Erin assentiu.
– Deve ser importante.
Rhun e Christian regressaram, as suas roupas mais justas do que antes, escondendo a nova armadura, de um material resistente ao golpe, sugerido por Jordan como defesa contra a picada das traças.
Bernard gesticulou na direção da porta.
– Aluguei um helicóptero para nos levar às coordenadas do ponto onde Christian detetou a condessa pela última vez. Seguiremos para oeste pelo mesmo caminho, procurando pistas.
Conduzindo o caminho, Bernard embarcou-os numa carrinha-táxi, que os levou a um aeródromo próximo, onde o helicóptero os aguardava. Era um aparelho azul e laranja, com um nariz curiosamente longo e janelas em flecha, delineando uma cabina ampla.
Christian saiu da carrinha e assobiou em sinal de apreço.
– Lindo! Um AW-193.
– Sabe pilotar um helicóptero? – indagou Jordan.
– Desde que você ainda andava de calções. – Gesticulou em direção à aeronave. – Subam!
Erin subiu primeiro. Estacou bruscamente, ao avistar uma longa caixa negra presa entre os assentos.
– Preparei um caixão para a condessa Bathory – explicou Bernard. – Para o caso de a encontrarmos durante esta viagem.
– Vamos trazê-la de volta? – questionou Jordan.
– Ela pode ser a Mulher Sábia – retorquiu Bernard.
Ele não estava disposto a correr riscos.
Rhun tocou a caixa com uma mão, uma expressão dorida no rosto. Bernard ouvira os relatórios de Christian sobre como Nadia cortara a garganta da mulher, uma mulher por quem Rhun ainda sentia, claramente, profundo afeto.
Bernard tinha de se manter atento a essa ligação.
04h44
Rhun apertou o cinto ao lado de Erin, enquanto Christian tomava o lugar do piloto. O motor ganhou vida e as pás começaram a girar mais e mais depressa. Momentos mais tarde, estavam no ar, deslizando velozmente em direção às águas escuras do Mediterrâneo.
Quando se aproximavam da linha da costa, Christian gritou para trás:
– Foi daqui que partiram para o mar! Perdi-lhe o sinal a poucas milhas mais para oeste!
Rhun fitou as ondas negras lá em baixo. O luar cintilava em tons de prata nas cristas brancas.
Viajaram em silêncio por vários minutos, mas as águas permaneciam vazias, não mostrando indício dos outros. Imaginou Iscariotes a lançar Elisabeta ao mar obscuro, livrando-se dela.
Christian bradou.
– Foi aqui que o sinal se interrompeu.
Fez o aparelho descrever um círculo lento sobre a água. Todos os olhos procuraram em baixo quaisquer vestígios, qualquer prova do curso seguido pelo grupo de Iscariotes.
Jordan falou olhando em frente.
– Devíamos consultar mapas das correntes locais. Se um barco se afundou ou um helicóptero ou avioneta se despenharam aqui, teremos de seguir as correntes costeiras – mas, por agora, sugiro que continuemos pela sua trajetória original.
– Entendido. – Christian inclinou o aparelho e partiu para oeste.
Rhun continuou a sua vigília, o olhar penetrante varrendo cada onda.
Rezou por esperança.
Rezou por ela.