Sangue Inocente
Capítulo 39
20 de dezembro, 06h02, CET
Mar Mediterrâneo
Enquanto o barco deslizava em direção às luzes da plataforma petrolífera, Rhun estudava o rosto pálido de Christian. Ele era jovem, relativamente novo no clero, o que o tornava impetuoso e irreverente, mas Rhun não podia questionar a sua fé e bravura. Cerrou o punho de frustração, recusando-se a perder outro companheiro tão cedo após a morte de Nadia.
Bernard deitou algumas gotas de vinho do seu cantil de couro entre os lábios apagados de Christian, mas a maior parte escorreu-lhe pelas faces encovadas. Ainda estava demasiado fraco para engolir.
– E se lhe desse algum do meu sangue? – propôs Erin. – Como fizemos com a condessa. Isso não o ajudaria a reanimar?
– Apenas em último recurso – murmurou Bernard.
Erin pareceu pouco satisfeita com a resposta.
Rhun sussurrou-lhe.
– O sabor do sangue em alguém tão jovem corre o risco de libertar a besta no seu íntimo. Não podes correr esse perigo, sobretudo aqui, onde temos tão poucos meios para o controlar. Vejamos o que vamos encontrar na plataforma petrolífera.
– O que vamos encontrar são certamente mais inimigos – acrescentou Bernard e apontou para o recetáculo escondido e atado à coxa de Rhun. – Nós próprios devemos beber, para restaurar as nossas forças ao máximo.
Rhun sabia que Bernard estava certo, mas odiava sofrer penitência diante de outros, sabendo que frequentemente o deixava em lágrimas e confuso. Não desejava exibir tal fraqueza.
Contudo, sabia que tinha de o fazer.
Enquanto Rhun desprendia o seu frasco sagrado, Bernard ergueu o seu e bebeu sofregamente, imperturbavelmente. Bernard parecia em paz com os seus pecados. Sofria a sua penitência e permanecia sempre calmo, momentos depois.
Rhun rezou pelo mesmo naquele dia, enquanto levava o recetáculo aos lábios e o bebia até ao fim.
O cemitério ganhou forma à volta de Rhun, enquanto jazia de costas sobre a sepultura da irmã. A besta estava deitada sobre ele, os membros de ambos entrelaçados como amantes. O sangue do monstro enchia-lhe a boca.
Rhun viera à campa da irmã naquela noite para chorar a sua partida, acabando por ser atacado por aquela besta, um monstro que usava calções de bom corte e uma túnica de pele tachonada. As presas tinham penetrado a garganta de Rhun, drenando o seu sangue para a boca faminta do outro. Mas em vez de o deixar morrer, o atacante oferecera a Rhun o pulso, golpeado, vertendo o sangue negro da besta.
Ele resistira– até que o sangue frio e aveludado se tornou fogo na sua língua.
Penetrou-a a beatitude e, com ela, a fome.
Agora, bebia sofregamente daquela fonte carmesim, sabendo que era pecado, sabendo que o prazer que lhe pulsava por cada membro do corpo o condenaria para toda a eternidade. E, contudo, não conseguia parar. Ansiava por ficar preso no abraço daquele homem para sempre, afogando-se em êxtase a cada gole ardente.
Depois, o seu crânio esmagou-se contra a lápide da irmã. Viu a besta ser arrancada dele. Rhun gemeu, estendo as mãos para ele de novo, querendo mais do seu sangue.
Quatro sacerdotes afastaram o monstro do corpo agonizante de Rhun. As suas cruzes peitorais de prata cintilavam sob o luar gélido.
– Foge! – gritou a besta, tentando alertá-lo.
Mas como podia ele abandonar tal fonte de ventura e sangue?
Os seus braços continuaram estendidos, tentando alcançar o outro.
Uma lâmina argêntea reluziu pela garganta da besta. Sangue escuro brotou do golpe, manchando-lhe a bela camisa branca, conspurcando-lhe a túnica de couro.
– Não! – Rhun lutou por se levantar.
Os quatro padres lançaram o corpo do homem ao chão. Rhun ouviu-o bater nas folhas dispersas e soube, sem saber como, que o homem partira para sempre. As lágrimas subiram-lhe aos olhos, perante a perda de tal êxtase.
Os sacerdotes sentaram Rhun e forçaram-lhe os braços para trás das costas. Rhun debateu-se com a ferocidade de um lince encurralado, mas eles aprisionaram-no com uma força implacável, que não pôde igualar.
Contorceu-se, os seus dentes afiados procurando-lhes o pescoço.
O seu corpo ansiava por sangue, qualquer sangue.
Levaram-no pela noite, sem uma palavra. Mas em todo esse silêncio, Rhun ouviu mais do que alguma vez ouvira na vida. Ouviu cada folha esmagar-se sob as suas botas, o suave ruído de asas de coruja sobre a cabeça, a corrida precipitada de um rato para dentro da sua toca. A mente de Rhun esforçava-se por entendê-lo. Podia mesmo ouvir o pulsar de coração dos pequenos animais: o do rato, rápido e assustado, o da coruja, mais lento e determinado.
Contudo, quando voltava os sentidos para os sacerdotes à sua volta, não ouvia nada.
Apenas um aterrador silêncio.
Estaria tão apartado da graça de Deus que não podia ouvir pulsares santificados, apenas os dos animais sem alma na Terra?
Desesperando com o seu destino, tornou-se inerte nas mãos dos padres. Os seus lábios pronunciavam preces angustiadas. Contudo, durante todo esse tempo, só queria rasgar as gargantas desses padres e banhar o rosto no seu sangue. As preces nada fizeram para aquietar a sua sede de sangue. Os seus dentes continuavam a vibrar de anseio.
O desejo inflamava-o, mais ardente do que alguma vez o sentira, mais intenso do que o amor pela família, mesmo do que o amor por Deus.
Os sacerdotes levaram-no de volta ao mosteiro, de onde momentos antes saíra como inocente, como seminarista prestes a fazer os seus votos sagrados. Detiveram-se diante de uma parede limpa e nua, que se transformou numa porta. Durante os seus anos ali, nunca soubera da sua existência.
Soubera tão pouco de tudo.
Os sacerdotes levaram-no para baixo, onde uma figura familiar se sentava a uma mesa, segurando uma pena de escrever: o padre Bernard, o seu mentor, o seu conselheiro em todas as coisas. Parecia que as lições de Rhun ainda não tinham terminado.
– Trazemo-lo à sua presença, padre – disse o sacerdote que lhe segurava o braço direito. – Ele foi atacado no cemitério, mas não provou outro sangue.
– Deixem-no comigo.
O mesmo sacerdote recusou.
– Encontra-se num estado perigoso.
– Sei disso tanto quanto você. – Bernard ergueu-se da mesa. – Deixem-nos.
– Como queira.
O sacerdote soltou o braço de Rhun, deixando-o tombar sobre o chão de pedra, e afastou-se, arrastando os irmãos de hábito consigo. Rhun ficou aí um longo momento, respirando os odores da pedra, do bafio e de passos antigos.
Bernard permaneceu em silêncio.
Rhun escondia o rosto do seu mentor. Amava Bernard, mais do que alguma vez amara o seu próprio pai. O sacerdote ensinara-lhe sobre sabedoria, bondade e fé. Bernard era o homem que Rhun sempre aspirara vir a ser.
Mas naquele momento, tudo o que Rhun sabia era que tinha de satisfazer a sua sede ou de morrer a tentar. De um salto, encurtou o espaço que os separava, derrubando-os a ambos.
Bernard ficou debaixo dele, o seu corpo estranhamente frio.
Rhun lançou-se-lhe ao pescoço, mas a presa moveu-se com uma velocidade sobrenatural, esquivando-se do aperto de Rhun e levantando-se ao seu lado. Como podia ser tão ágil?
– Cuidado, meu filho. – A voz rica de Bernard era calma e firme. – A fé é o teu dom mais valioso.
Um silvo irrompeu nas profundezas da garganta de Rhun. A fé não significava nada, agora. Só o sangue importava.
Saltou de novo.
Bernard agarrou-o e deitou-o ao chão. Rhun debateu-se, mas o homem mais velho prendia-o contra os ladrilhos, mostrando-se bem mais forte, mais forte do que a besta que o transformara, mais forte do que os padres que o tinham carregado.
O padre Bernard era duro como a pedra.
Seria aquela força prova do poder de Deus contra o mal dentro de Rhun?
Mas o seu corpo rebelava-se contra tais pensamentos. Por toda a longa noite, Rhun continuou a debater-se com aquele padre, recusando-se a escutar, tentando sempre aceder a uma golfada do seu precioso sangue.
O velho homem não se deixava vencer.
Finalmente, o corpo de Rhun perdeu as forças– mas não da exaustão.
– Sentes a aproximação da madrugada – explicou Bernard, segurando-o, prendendo-o. – A menos que aceites o amor de Cristo, enfraquecerás sempre pela manhã, assim como morrerás se a luz pura do sol incidir sobre ti.
Um grande cansaço alastrou por dentro de Rhun, oprimindo-lhe os membros.
– Tens de me ouvir, meu filho. Podes ver o teu novo estado como uma maldição, mas é uma bênção para ti. Para o mundo.
Rhun escarneceu.
– Tornei-me uma besta ímpia. Anseio pelo mal. Não é bênção nenhuma.
– Podes tornar-te mais do que és.
A voz de Bernard encerrava pura certeza.
– Não desejo mais do que beber o seu sangue, matá-lo – alertou Rhun, enquanto a sua força refluía ainda mais. Agora, mal conseguia erguer a cabeça.
– Sei como te sentes, meu filho.
Bernard afrouxou, por fim, o aperto e Rhun deslizou para o chão.
Sobre as mãos e joelhos, como um cão, Rhun murmurava aos ladrilhos.
– Não pode saber deste desejo irreprimível que me percorre. É um padre. Este mal está fora do seu alcance.
Bernard abanou a cabeça, chamando a atenção de Rhun. O seu cabelo branco refulgia à luz da vela moribunda.
– Eu sou como tu.
Rhun fechou os olhos, descrente. Sentia-se tão cansado.
Bernard sacudiu Rhun, até ele abrir de novo os olhos. O velho sacerdote puxou o rosto de Rhun para o seu, como se o fosse beijar. Bernard abriu os lábios, convidativos, mas longas presas afiadas encararam Rhun.
Rhun fitou assombrado o seu mentor, um homem que conhecera durante anos, um homem que nunca fora um homem, mas uma besta.
– Senti a fome que sentes, meu filho. – A voz profunda de Bernard encheu Rhun de calma. – Satisfiz apetites perversos.
Rhun esforçava-se por compreender.
O padre Bernard era bom. Ele levava consolo aos doentes e moribundos. Ele levava esperança aos vivos. Sem ele, a maioria dos sacerdotes naquele mosteiro nunca teria encontrado o seu caminho para Deus.
– Há um caminho para nós – disse Bernard. – É o caminho mais difícil que um padre pode seguir, mas podemos fazer o bem, podemos servir a Igreja de formas que não são possíveis para outros. Deus não nos abandonou. Também nós podemos viver na Sua graça.
Com aquelas palavras, Rhun caiu num poço de sono profundo, deixando aquela persistente esperança domar a sua sede de sangue e oferecer-lhe salvação.
Rhun despertou da sua penitência, encontrando o cardeal debruçado sobre ele, aqueles profundos olhos castanhos irradiando o mesmo amor e preocupação.
Bernard salvara-o nessa altura.
Contudo, Rhun conhecia agora a infelicidade que se seguira a esse ato de misericórdia, recordando o olhar de Elizabeth, o seu sorriso astuto, as mortes e o sofrimento que ficaram no seu rasto.
Talvez o mundo tivesse sido mais bem servido se Bernard o tivesse deixado morrer.