Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 59 de 59

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Sangue Inocente

E então...

 

 

Bem nas profundezas das ruínas de Cumas, Leopold retomava e perdia consciência. Nos últimos poucos dias, cavalgara por ondas de escuridão e dor, subindo para voltar a cair, sempre e de novo.

A lâmina de Rhun atingira-o suficientemente fundo para o matar, mas não morrera. De cada vez que lhe parecia certo afundar-se na escuridão final, preparado para aceitar o sofrimento eterno pelo seu fracasso – despertava de novo. E forçava-se a arrastar o corpo e a alimentar-se dos cadáveres deixados na caverna e de um ocasional rato menos afortunado.

Esses animais inquietos ofereciam pouca substância, mas davam-lhe esperança.

Achara-se selado ali na sequência dos abalos, sem possibilidade de fuga. Mas por onde um rato rastejava, ele podia escavar. Só precisava de recuperar as forças.

Mas como?

Debaixo de si, ouviu as pedras ressoarem bem fundo, rangendo como dentes gigantes, como que chamando-o ao dever. Forçou as pesadas pálpebras a abrirem-se. As tochas há muito que se tinham extinguido, deixando apenas o odor do fumo. Mas mal se notava contra o fedor sulfúreo e o apodrecer dos corpos.

Procurou no bolso e tirou para fora uma pequena lanterna. Os dedos torpes de Leopold tatearam-na desajeitadamente, por agonizantes segundos, antes de a conseguir acender.

A luz ofuscou-o. Fechou as pálpebras, esperando até que o brilho deixasse de lhe ferir os olhos. Depois, abriu-as de novo.

Perscrutou o chão em torno da pedra de altar negra. A rede que amarrara um anjo ainda ali estava. As fendas que tinham sido abertas pelo sangue desse mesmo anjo tinham fechado de novo. A escuridão rodopiante também desaparecera, novamente selada.

Tudo sinais do meu fracasso.

Fraco como um pequeno gato indefeso, rolou de costas e procurou no bolso interior da sua veste o que aí escondia o seu peso. O Damnatus incumbira-o dessa segunda missão. A primeira fora agarrar a sibila e aprisioná-la ali em baixo.

Essa missão destinava-se a ser cumprida, antes do sacrifício.

A segunda responsabilidade devia ser cumprida, depois.

Não sabia se ainda importava, mas fizera um juramento e não renunciaria a ele, nem mesmo agora. Do bolso, retirou uma pedra verde turva, um pouco maior que um baralho de cartas. Era uma posse valiosa do Damnatus, descoberta no deserto egípcio, negociada por muitas mãos, escondida e revelada vezes sem conta, até acabar nas mãos do Traidor de Cristo.

E agora nas minhas.

Ergueu a pedra à luz. Observou a escuridão no interior agitar-se e afastar-se da luz. Quando desviou o feixe da lanterna, a mancha no interior cresceu, vibrando com uma força terrível.

Era algo das trevas.

Tal como eu.

Ele conhecia os rumores sobre aquela pedra, que se dizia conter uma única gota do sangue de Lúcifer. Não sabia se era verdade. Apenas sabia o que lhe fora ordenado fazer com ela.

Mas terei forças para o cumprir?

Nos últimos dias, suportara a escuridão e a dor, alimentara-se para se sustentar, tornando-se gradualmente mais forte, ansiando pelo poder de músculo e osso, para cumprir a última missão que lhe fora exigida pelo Damnatus. A necessidade de tal ato nunca lhe fora revelada, mas sabia que se não o tentasse agora, debilitar-se-ia inescapável e lentamente até morrer de fome na escuridão.

Voltou a pedra para estudar o estranho esboço do outro lado, tenuemente gravado no cristal.

 

Tinha a forma de uma taça – ou talvez de um cálice. Mas não era nenhuma taça, como aquela de onde Leopold tantas vezes bebera o sangue de Cristo. Ele sabia que a taça ali representada era bem mais antiga que o próprio Cristo e que aquela pedra era um ínfimo fragmento desse mistério maior, a chave para a sua verdade.

Ergueu a pedra ao alto e baixou o braço com força, esmagando o cristal contra o chão de rocha. Conseguiu lascá-la um pouco, mas não o suficiente.

Por favor, Senhor, dai-me força.

Leopold repetiu a ação uma e outra vez, chorando de frustração. Não podia falhar de novo. Ergueu o braço e esmagou-a no chão. Desta vez, sentiu o cristal quebrar dentro da sua mão, separando-se em metades grosseiras.

Obrigado...

Virou a cabeça o suficiente para ver. Virou a mão. O cristal quebrara pelo centro. O líquido negro derramou-se do vidro esmeralda e encontrou a sua mão.

Gritou quando este lhe tocou.

Não de dor, mas de perfeito e puro êxtase.

Naquele glorioso momento, soube que os rumores eram verdadeiros.

Observou a gota do sangue de Lúcifer penetrar-lhe na carne, reclamando-o, consumindo-o totalmente com a sua treva, deixando para trás apenas um propósito.

E um novo nome.

Levantou-se, agora animado por uma força terrível, a sua pálida pele tornada negra como ébano. Ergueu o rosto e bradou o seu novo nome ao mundo, despedaçando as pedras em volta só com a voz.

Eu sou Legião, o destruidor de mundos.

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James Rollins e Rebecca Cantrell

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