Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 21 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 19

 

19 de dezembro, 13h36, CET

Sul de Roma, Itália

Enterrado fundo no gigantesco fardo de feno, Leopold procurou uma posição mais confortável. A palha penetrava a roupa e macerava-lhe as leves queimaduras. Contudo, não ousava abandonar aquele abrigo.

Quando o comboio explodira, ele saltara para longe, cavalgando a onda de detonação por uma larga extensão de campos cobertos de restolho. Por mera intervenção divina, estava do lado oposto da caldeira, quando esta rebentara. O reservatório metálico sofreu o embate da explosão, salvando-o de ser incinerado na hora.

Em vez disso, fora cuspido para fora da carruagem. Revoluteara pelo ar, queimado e ferido, e resvalara pela lama fria dos campos invernosos. Atordoado e ensurdecido, rastejara para um fardo de feno para se esconder, pensar, planear.

Não sabia, então, se seria o único sobrevivente.

Enquanto esperava, estancara o sangue que brotava das suas muitas feridas. Por fim, quando o retinir nos seus ouvidos se desvaneceu, ouviu o som ritmado de um helicóptero a aterrar, abafado pela palha que o rodeava.

Não sabia se a aeronave tinha sido convocada pelo cardeal ou se assinalava a chegada de equipas de resgate. Fosse como fosse, manteve-se escondido. Embora não tivesse sido ele a detonar a bomba, sabia que era culpado pelo ataque. Assim que enviara uma mensagem ao Damnatus, a informá-lo de que estavam todos a bordo, para além de partilhar a teoria relativa à identidade do Primeiro Anjo, o comboio explodira – apanhando Leopold totalmente de surpresa.

Talvez devesse tê-lo esperado.

Quando o Damnatus detetava a presa que queria, entrava a matar.

Nunca hesitava.

Depois de o helicóptero levantar voo e se afastar, ouviu o cardeal Bernard a chamar o seu nome, a dor palpável na sua voz. Leopold queria correr para ele, mitigar o seu sofrimento, pedir o seu perdão e reunir-se verdadeiramente aos sanguinistas.

Mas, evidentemente, não o fez.

Embora brutal, o objetivo do Damnatus era justo e puro.

Na hora seguinte, mais helicópteros chegaram, seguidos de veículos de emergência com sirenes, gritos de homens e o retumbar de passos. Encolheu-se mais no feno. A agitação encobriria quaisquer sons que produzisse na sua penitência.

Finalmente, pôde beber o vinho sagrado e sarar.

Com alguma dificuldade, libertou o seu cantil de couro e levou-o aos lábios. Servindo-se dos dentes, desenroscou a tampa, cuspiu-a fora, e bebeu sofregamente, deixando que o fogo o levasse para longe.

Nas profundezas da cidade de Dresden, Leopold ajoelhava-se numa cripta húmida, iluminada por uma solitária vela. Desde que soara a sirene de ataque aéreo, ninguém ousava acender uma luz, com receio de atrair a ira dos bombardeiros britânicos sobre si.

Enquanto escutava, uma bomba explodiu ao longe, o estrondo sacudindo pedras soltas do teto. A igreja que ficava por cima tinha sido atingida semanas antes. Apenas aquela cripta fora poupada, a sua entrada escavada a partir de dentro pelos sanguinistas que aí viviam.

Leopold estava ajoelhado entre dois outros homens. Tal como ele, eram ambos strigoi, preparando-se para tomar os votos finais de sanguinistas, naquela escura e violenta noite. Diante dele, estava um sacerdote sanguinista, envergando belas vestes e segurando um cálice de ouro nas mãos alvas e puras.

Um dos strigoi ao seu lado estremeceu. Teria receio de que a sua fé não fosse forte o suficiente, que o seu primeiro gole do sangue de Cristo fosse o último?

Chegada a sua vez, Leopold inclinou a cabeça e enumerou os seus pecados. Tinha muitos. Na sua vida mortal, fora um médico alemão. No início da guerra, ignorara os nazis, resistira-lhes. Mas o regime acabou por recrutá-lo e enviá-lo para os campos de batalha, para tratar de jovens soldados dilacerados por armas e bombas ou assolados pela doença, pela fome e pelo frio.

Numa noite invernosa, uma cruel matilha de strigoi atacou a sua pequena unidade nos Alpes Bávaros. Os enregelados soldados lutaram com fuzis e baionetas, mas a batalha não durara mais de uns poucos minutos. Na primeira investida das bestas, Leopold ficara ferido, com a coluna fraturada, incapaz de se mover ou lutar. Apenas podia assistir ao massacre, sabendo que a sua vez se seguiria.

Então, um strigoi do tamanho de uma criança arrastara-o pelas botas para uma floresta deserta e fria. Morrera aí, o seu sangue abrindo buracos na neve branca conspurcada. Durante todo esse tempo, a criança cantara com uma voz límpida e aguda uma música popular alemã. Deveria ter sido o fim da vida miserável de Leopold, mas o rapaz decidira transformá-lo num monstro.

Debateu-se contra o sangue que lhe era vertido na boca – até que a repugnância se tornou ânsia e beatitude. Enquanto Leopold bebia, a criança continuou a cantar.

No final, o tempo de guerra era um paraíso para os strigoi.

Para sua grande vergonha, Leopold entregara-se ao banquete.

Então, um dia, encontrou um homem que não podia morder. Os seus instintos diziam-lhe que uma gota do sangue desse homem o mataria. O estranho intrigava-o. Como médico, queria compreender os segredos daquele outro. Assim, procurou-o, noite após noite, vigiando-o durante semanas antes de ousar dirigir-lhe a palavra. Quando, finalmente, confrontou o estranho, o homem escutou as palavras de Leopold e entendeu a repugnância por aquilo em que se tornara.

Por sua vez, o estranho confessara-lhe o verdadeiro nome, um nome tão amaldiçoado por Cristo, que Leopold ousava ainda apenas pensar nele como o Damnatus. Nessa altura, ele ofereceu a Leopold um caminho para a salvação, uma forma de servir Cristo em segredo.

Fora isso que o levara àquela cripta sob Dresden.

Ajoelhado, enumerando os seus pecados, ao lado dos outros.

Leopold recebera instruções para procurar os sanguinistas e imiscuir-se no meio deles, mas continuando a ser os olhos e ouvidos do Damnatus na ordem.

Jurara obediência na altura– como devia jurar de novo naquela noite.

Mais uma bomba caiu à superfície, sacudindo fragmentos do teto da cripta. O penitente à sua esquerda gemeu. Leopold permaneceu em silêncio. Não receava a morte. Ele fora chamado a um propósito maior. Cumpriria um destino estendido por milénios.

O penitente forçou-se a recuperar o controlo, fez o sinal da cruz e terminou a sua litania de pecados. Por fim, as suas palavras estancaram. Confessara os seus pecados a Deus. Agora, poderia ser purificado.

– Arrependes-te dos teus pecados por verdadeiro amor a Deus e não por receio da condenação? – entoou o sacerdote sanguinista ao companheiro de Leopold.

– Sim, arrependo-me – respondeu o homem.

– Então, levanta-te e enfrenta o julgamento.

O rosto do sacerdote mantinha-se invisível debaixo do capuz.

O penitente ergueu-se, trémulo, e abriu a boca. O sacerdote ergueu o cálice dourado e verteu-lhe o pálido vinho na língua.

De imediato, o homem começou a gritar, o fumo erguendo-se da sua boca. Ou a criatura não se arrependera por completo ou mentira totalmente. Qualquer que fosse a razão, a sua alma fora julgada maculada de pecado, pelo que o corpo não era digno de aceitar a sacralidade do sangue de Cristo.

Era o risco que todos corriam ao aderirem à ordem.

A criatura sucumbiu sobre o chão de pedra e contorceu-se, os seus guinchos ecoando pelas paredes nuas. Leopold baixou-se para o tocar, para o acalmar, mas, antes que a mão o alcançasse, o seu corpo desfez-se em cinzas.

Leopold disse uma prece pelo strigoi que quisera mudar de rumo, ainda que o seu coração fosse impuro. Ajoelhou-se, então, e juntou de novo as mãos.

Terminou a sua própria longa confissão e esperou pelo vinho. Se o seu percurso fosse considerado digno, não arderia em cinzas diante daquele sagrado sanguinista. Se ele e aquele que servia estivessem errados, uma simples gota de vinho revelá-lo-ia.

Abriu a boca, deixando que Cristo fosse vertido no seu corpo.

E viveu.

Leopold regressou ao seu corpo trémulo, comprimido pelo aguçado feno. Nunca considerara a sua conversão de strigoi em sanguinista como pecado, como algo que exigisse penitência.

Porque lhe enviara Deus aquela visão?

Porquê agora?

Por um angustiante momento, receou que fosse porque Deus sabia que a sua conversão fora feita sob falsos pretextos, que Leopold estava destinado a trair a ordem, como o Damnatus traíra Cristo.

Deixou-se ficar ali por muito tempo, ponderando tudo aquilo, depois engoliu os seus medos.

Não.

Tivera aquela visão, precisamente porque a sua missão era verdadeira.

Deus poupara-lhe a vida, então, para servir o Damnatus e poupava-a de novo, agora. Depois de o Sol se pôr e as equipas de emergência partirem naquela noite, deixaria o fardo de feno a coberto da escuridão e continuaria a sua missão, a todo o custo.

Porque Deus assim lho dissera.