Sangue Inocente
Capítulo 50
20 de dezembro, 15h28, CET
Siwa, Egito
Se eu tivesse os ouvidos deles...
Jordan inclinou a cabeça, tentando discernir quaisquer sinais de aproximação de um helicóptero, mas tudo o que ouvia era o sibilar do vento sobre a areia. Esforçou os olhos, mas apenas descobriu um horizonte dourado indistinto, dunas de areia espalhadas em todas as direções e uns poucos de planaltos ao longe. Em cima, o céu tornara-se cinzento-escuro, o Sol, um lânguido brilho por entre a névoa, posicionado baixo naquela altura do inverno.
Jordan avaliou a capacidade de resistência da equipa a um ataque – para o caso de ser uma força de assalto que voasse na sua direção.
Quem estou a iludir?, pensou ele. É claro que é uma força de assalto.
A equipa não tinha, claramente, onde se abrigar ali em espaço aberto e os dois sanguinistas eram a sua melhor defesa – e ofensiva, aliás.
Mas quantos viriam?
Se fosse Iscariotes, o tipo dispunha de recursos infindáveis: humanos, strigoi e mesmo os monstruosos blasphemare.
Voltou-se para Christian.
– Que tal voar para um lugar mais fácil de defender?
– O helicóptero está quase sem combustível, mas, mesmo que não estivesse, não é suficientemente potente para escapar ao aparelho que se aproxima.
Jordan recordou os infernais mísseis disparados contra eles.
– Entendo – disse com um suspiro.
Tirou a arma automática do ombro. Restavam-lhe poucas munições. Erin verificou a sua pistola e encolheu os ombros. A situação era a mesma.
Jordan esboçou o que esperou ser um sorriso tranquilizador.
Pela expressão no rosto dela, falhara.
Depois, ouviu um distante zunir de hélices. Os seus olhos captaram um ponto escuro no brilho refletido das areias. Um pequeno helicóptero comercial voava veloz na direção deles, numa rota baixa e acelerada. Conteria no máximo cinco ou seis inimigos. E, seguramente, não dispunha de mísseis.
Isso era, pelo menos, uma pequena bênção.
O piloto parecia esforçar o aparelho além dos limites. Fumo branco no seu rasto. Jordan ajustou a posição e ergueu a arma, apontando ao cockpit. Se conseguisse eliminar o piloto, talvez o helicóptero se despenhasse, resolvendo todos os problemas.
À medida que o helicóptero se aproximava, Jordan vislumbrou do lado direito da dianteira arredondada o ponto onde o piloto deveria estar sentado. Pôs o dedo no gatilho.
– Espere! – Christian empurrou-lhe o cano da arma para baixo.
Jordan recuou um passo.
– Porquê?
– É o Bernard – respondeu Rhun. – À frente, ao lado do piloto.
Pronto, também quero ter os olhos deles.
Jordan nem reconheceria a própria mãe àquela distância.
– Isso são boas ou más notícias? – perguntou.
– Não é provável que disparem sobre nós, se é o que quer saber – respondeu Christian. – Mas também não ficará muito satisfeito connosco.
– Portanto, eram sobretudo boas notícias.
O helicóptero apontou diretamente a eles e fez uma aterragem brusca na borda da cratera, oscilante, fumo jorrando da traseira do motor, enquanto se imobilizava com um solavanco.
Bernard saltou para fora, acompanhado por um piloto corpulento, uma verdadeira besta envergando um uniforme de voo. Este último arrancou o capacete, revelando uma inesperada cabeleira ruiva. Da cabina atrás deles, saíram duas mulheres. A primeira tinha o longo cabelo grisalho apanhado numa trança perfeita, envergando uma armadura sanguinista. A segunda usava jeans e uma camisa prateada, coberta por um longo manto. Este ondeava como asas enquanto ela se distanciava dos outros. Jordan notou o brilho das correntes que lhe prendiam os pulsos.
Bathory.
Avançou rapidamente, descendo veloz a vertente, escorregando de rabo, mostrando pouca preocupação com a indignidade da aproximação. O seu rosto era uma máscara de inquietação, os olhos fixos num membro do grupo.
– Elizabeth! – Tommy correu ao seu encontro e abraçou-a com força.
Ela tolerou-o por um momento – depois, puxou-lhe o queixo rispidamente para cima, examinando-lhe o pescoço.
– Pareces bem – disse ela, mas a reserva traía os seus verdadeiros sentimentos.
Jordan inclinou-se para Erin.
– Não entendo o que o rapaz vê nela.
Bernard alcançou-os, observando Tommy, também.
– Conseguiram curá-los a ambos – disse ele, com brusquidão, fitando Arella. – Muito bem.
Os outros dois sanguinistas flanqueavam-no, reforçando-o, ambos inexpressivos.
Bernard apontou o corpulento homem. Era ainda mais imponente ao perto, um autêntico tanque, com um peito maciço e grossos braços, cobertos por emaranhados rolos de cabelo ruivo.
– Este é o Agmundr.
O recém-chegado socou o peito com um punho carnudo e esboçou um sorriso para Christian. Ergueu orgulhosamente o seu outro braço na direção da fumegante aeronave.
Christian suspirou e abanou a cabeça.
– Parece que deste cabo de mais um helicóptero. Pensei que te tivesse ensinado melhor, Agmundr. Não é nenhum barco viquingue de guerra. É uma delicada peça de maquinaria.
– Deixou-me irritado. – A voz de Agmundr troou com um sotaque nórdico e cavado. – Demasiado lento.
– Tudo te deixa irritado – censurou Christian, mas agarraram os braços um do outro num aperto caloroso, valendo a Christian uma palmada nas costas que quase o deixou de joelhos.
Jordan gostou daquele Agmundr.
Bernard indicou a outra sanguinista.
– Esta é Wingu.
A mulher era negra e mais alta do que Jordan. De perto, ele viu que a sua trança grisalha estava decorada com penas e presa com um colorido cordão de contas. O rosto era grave, coberto de marcas tribais, com pequenos pontos a cruzar-lhe as faces.
Fez-lhes um simples aceno de cabeça, mas os seus olhos observavam tudo.
– Temos pouco tempo para amabilidades – disse Bernard, sondando os céus atrás de si. – Temos de levar o rapaz ao livro. Se ele foi curado aqui, talvez o possa abençoar aqui.
– Este é um lugar sagrado – afirmou Erin. – Possivelmente mais sagrado do que a Basílica de São Pedro.
Bernard fitou a cratera, de olhar carregado.
– Foi aqui que Cristo realizou o seu primeiro milagre – explicou Erin. – Quando era criança.
Wingu falou, num sussurro profundo.
– Sinto grande sacralidade, aqui.
Bernard assentiu lentamente, sentindo algo também, mas endireitou-se e avançou para Tommy.
– Vejamos, então, se o livro pode ser abençoado neste lugar.
Bathory deixou que Tommy se lhes juntasse, mas ela parecia relutante. Não que pudesse fazer alguma coisa contra isso. Embora pudesse andar debaixo daquele sol encoberto de cinza, estava visivelmente esgotada de forças pelo Sol lá no alto ou talvez fosse a sacralidade debaixo dos seus pés. Fosse como fosse, ela deveria saber que não podia resistir aos sanguinistas ali reunidos, num chão sagrado que os fortalecia.
Bathory estudou as imagens, enquanto atravessava o círculo de inscrições. O seu interesse chamou, finalmente, a atenção de Bernard para o mesmo. Olhou de novo o círculo, depois aproximou-se, andando em volta, passando de painel a painel, como se lesse em velocidade.
Voltou-se para Arella.
– Esta é a história que destruiu em Jerusalém.
Caminhou rapidamente para o último painel, dobrando um joelho para tocar a espada aí representada. A voz cheia de angústia.
– Porque escondeu isto de mim?
– O mundo não estava preparado – explicou ela, simplesmente.
– Quem pensa que é para decidir se o mundo está preparado ou não? – Bernard levantou-se, avançando para Arella com uma mão no punho da sua espada.
Jordan agarrou na arma.
Rhun bloqueou Bernard.
– Esqueça, velho amigo. Deixemos o passado no passado. Agora, temos de enfrentar o presente e o futuro.
– Se tivéssemos possuído tal arma... – Bernard abanou a cabeça, perturbado como Jordan nunca o vira. – Imagine o sofrimento que podíamos ter poupado ao mundo.
– E tudo o que teriam destruído – disse Arella. – Eu percorri a mesquita depois de terem deixado Jerusalém. Vi o que as vossas forças fizeram em nome de Deus. Não estavam preparados. O mundo não estava preparado.
Rhun tocou a sua cruz peitoral.
– Não temos tempo para isto – relembrou-os. – O Sol pôr-se-á dentro de uma hora.
As suas palavras pareceram penetrar, por fim, a fúria e angústia de Bernard.
– Tem razão. – Levou a mão à armadura e tirou de novo para fora o Evangelho de Sangue, estendendo-o. – Por favor, meu filho. Antes que seja tarde demais. Tens de abençoar este livro.
Parecendo preocupado, Tommy pegou-lhe. O livro parecia imenso nas suas pequenas mãos.
– Isto não resultou da última vez. Além de que não sou o Primeiro Anjo.
Bernard olhou para eles, confuso. O cardeal parecia estar a sofrer um longo dia de surpresas, a maioria delas más. Jordan sabia o que isso era.
– O que quer ele dizer?
Erin ignorou-o.
– Tenta de novo – incitou-o. – Mal não fará.
– Está bem – aquiesceu Tommy, duvidoso.
Abriu o livro e ergueu a mão sobre as páginas.
– Eu, Thomas Bolar, abençoo este livro.
Todos se inclinaram para a frente, como que esperando um milagre.
De novo, nada.
Nenhuma luz dourada, nenhumas palavras novas.
Parecia que aquele lugar explodido esgotara todo o seu potencial milagroso.
16h04
– Como o Tommy referiu – avançou Erin, percebendo a sensação de derrota entre os sanguinistas –, ele não é o Primeiro Anjo.
– Então, quem é? – indagou Bernard.
Erin sabia que lhe falhava alguma coisa, mas parecia que se debatia com um puzzle no escuro, movendo peças às cegas.
– A Arella diz que o Tommy carrega o melhor do Primeiro Anjo dentro de si. Por isso, penso que ele continua a ser uma peça essencial.
Rhun endireitou-se ligeiramente, ao ouvi-lo. Ela imaginou que ele estivesse a pensar em todas as vidas perdidas para levar Tommy até ali.
Não podem ter morrido em vão.
Contudo, não o abordou. Era desígnio dos sanguinistas entregarem-se ao rememorar do pecado e da redenção. Ela tinha um problema real, que tinha de ser resolvido, e não se podia permitir distrações.
– Se o Primeiro Anjo está dentro do Tommy – disse Jordan –, como o podemos fazer sair?
– Talvez tenha de ser cortado para fora – disse Bernard.
Erin olhou-o com ar reprovador.
– Guardaremos essa hipótese para último recurso. – Ela fitou Tommy. – Talvez um exorcismo pudesse libertar o anjo.
Tommy engoliu em seco, não mais feliz com a sugestão dela do que com a de Bernard.
Os ombros de Rhun retesaram-se.
– Não se exorcizam anjos, Erin. Exorcizam-se demónios.
– Talvez sim. Mas talvez não.
Estavam todos em novo território, ali.
Erin olhou para Arella.
– E não nos pode ajudar?
– Têm todas as respostas de que precisam.
Erin franziu a fronte, começando a compreender a frustração dos antigos com os seus oráculos. Por vezes, podiam ser totalmente obtusos. Mas Erin sabia que a sibila lhe estava a dizer a verdade. Algures no interior de Erin estava a resposta. Como a Mulher Sábia, cabia-lhe percebê-lo a partir daí. E tinha de confiar que o silêncio de Arella servia um propósito e que a sibila não se remetia ao recato simplesmente para os frustrar.
Isso significaria algo, também?
– Talvez devamos mesmo levar Tommy até Roma – propôs Jordan –, agora que ele está melhor.
– Não – afirmou Erin. – O que quer que tenha de acontecer, será neste lugar.
Voltou-se num círculo lento, sabendo que a resposta estava algures naquela cratera de areia dourada. Os seus olhos foram dos painéis às pontas irregulares de vidro, que se assemelhavam a salpicos de água congelados ao longo do rebordo da cratera.
– Tens a certeza de que deve acontecer aqui? – insistiu Jordan.
Claramente, ele procurava uma desculpa para escapar daquele deserto e levá-la para um lugar seguro. Ela apreciou o sentimento, mas com os portões do Inferno a abrirem-se inexoravelmente, nenhum lugar da Terra seria seguro por muito mais tempo.
O apoio veio do lugar mais improvável.
Agmundr grunhiu.
– A mulher tem razão. Devemos ficar aqui.
– Porquê? – Erin voltou-se para ele. – O que sabe?
Agmundr apontou para norte.
– Não é nada de místico. Aquele helicóptero Chinook que achei que nos seguia... – Olhou para Bernard. – Parece que não o despistámos, afinal.
Erin olhou o helicóptero fumegante. Parecia um cavalo deixado de rastos.
Agmundr inclinou a cabeça.
– Pelo ruído dos motores, chegará aqui em breve.
Rhun e os outros procuraram claramente ouvir, mas a sua expressão vazia dizia-lhe que o viquingue devia ter um ouvido mais apurado.
– Tem a certeza? – perguntou Bernard.
Agmundr ergueu uma espessa sobrancelha, visivelmente incrédulo por o cardeal poder duvidar dele.
Jordan sorriu e Erin pôs-lhe a mão no braço.
– Nada como um pouco mais de pressão – disse ele.
– Eu funciono melhor sob pressão.
É claro, talvez não tanta pressão.
16h08
Rhun invejava Erin e Jordan, apreciando a forma como encontravam conforto um no outro, como um simples toque conseguia acalmar um coração agitado.
Olhou para Elisabeta, que colocara um braço protetor em torno de Tommy, depois de Wingu lhe tirar as correntes. Na batalha em aproximação, necessitariam de todos os recursos. Rhun pressentia que Elisabeta faria tudo para salvaguardar o rapaz.
O olhar dela encontrou o seu. Por uma vez, não leu nele animosidade, apenas preocupação pelo rapaz sob o seu braço. Quão diferentes poderiam ter sido os seus destinos, se a tivesse conhecido como simples homem e não como um strigoi conspurcado. Por outro lado, talvez tivesse sido melhor se não a tivesse conhecido sequer.
– Quantos soldados pode transportar um Chinook? – perguntou Christian, trazendo Rhun de volta ao momento presente.
– É um veículo de transporte de tropas – respondeu Jordan. – Uns cinquenta. Mais, se bem acondicionados.
Cinquenta?
Rhun perscrutou o céu escuro. Por fim, vislumbrou o inseto verde-azeitona contra o fundo cinzento do céu. Era, de facto, uma grande nave com hélices à frente e atrás, e uma longa cabina no meio. O seu motor pulsava forte e ameaçador.
Rhun considerou o seu pequeno grupo. Os sanguinistas ali presentes eram todos guerreiros experientes, mas poucos em número.
Jordan seguiu a aeronave com a sua arma, mas não disparou.
– Blindado – murmurou o homem, à medida que o aparelho se aproximava. – Claro.
O impressionante helicóptero circundou a cratera à distância, apreciando-os, avaliando a situação. Depois, pousou lentamente no solo, a uns cem metros para lá da borda da cratera.
Projetou alto uma nuvem gigante de areia, obscurecendo a sua forma. Mas Rhun vislumbrou uma rampa a baixar da traseira do helicóptero. Sombras saíram apressadamente por ela. Contou duas vintenas. Portanto, menos de cinquenta. Mas pareciam fortes, aptos e ferozes, alguns com armadura de couro, outros com uniformes de diferentes exércitos e uns poucos simplesmente de jeans e t-shirt. Não eram, claramente, uma força armada disciplinada, mas não precisavam de o ser.
Procurou ouvir-lhes o pulsar do coração, mas não encontrou nenhum.
Todos strigoi.
Rhun colocou-se na dianteira, escudando Erin e Jordan atrás de si. Ele conduzira ambos àquele momento – no interior da montanha de Massada, quando lhes revelara a sua natureza. Ele colocara-os naquele caminho sangrento e não podia fazer menos do que dar a sua vida para os proteger agora. Mas receava que não fosse o suficiente.
Por outro lado, desta vez não estava sozinho.
Christian postou-se de um dos lados, Bernard do outro e, a flanqueá-los a todos, estavam Agmundr e Wingu. Elisabeta mantinha-se na retaguarda com Tommy, retraída face à ameaça, desnudando as presas afiadas.
A um sinal silencioso, todo o bando de strigoi começou a galopar pela areia, a uma velocidade que nenhum humano poderia igualar, precipitando-se debaixo daquele terrível céu ensombrado.
O coração de Erin acelerou, mas manteve a posição. Jordan mantinha-se calmo ao lado dela, a sua bravura evidente em cada batida forte do coração.
Rhun desembainhou a espada e esperou.
Escolheu o seu primeiro alvo: o maior dos guerreiros, uma figura alta no centro. Christian seguiu-lhe o olhar, assentiu e escolheu um outro para si. Rhun viu os outros escolherem os seus alvos.
Com disciplina e treino, os sanguinistas conseguiram quebrar a primeira onda de atacantes. Além disso, o seu grupo tinha a vantagem de combater em terreno sagrado.
Talvez isso enfraquecesse os adversários o suficiente.
Talvez.
Depois, uma outra escotilha abriu-se no flanco do helicóptero e bestas escuras irromperam das sombras para a lúgubre luz.
A frágil esperança de Rhun desvaneceu-se.
Blasphemare.
Avistou chacais pardacentos de longos focinhos e orelhas imensas, uivando enquanto corriam, os seus guinchos perfurando o dia. Atrás deles, surgiu um bando de leões negros, fluindo com uma elegância sinuosa, como petróleo na areia.
Cada um deles transmutado numa encarnação assustadora e monstruosa da sua identidade natural, nascida de sangue negro e crueldade.
Sondou-lhes o batimento cardíaco, descobrindo-o regular e profundo, atestando a sua força e idade. Mesmo sem os strigoi, Rhun duvidava que as suas forças pudessem fazer frente a tais criaturas por muito tempo – se é que por algum.
Rhun engoliu em seco e murmurou uma breve prece.
Estavam condenados.
Como fora prenunciado no dia em que fora convertido, morreria a lutar.
Mas Erin merecia um destino melhor.
16h31
Tinha de haver blasphemare, também.
Jordan resmungou. Agarrou a sua arma automática mais firmemente, ciente de que era pouco melhor de que uma espingarda de ar comprimido contra aquelas bestas.
A condessa arrastou Tommy para trás de si.
– Não pintes o Diabo na parede – disse-lhe ela.
O que queria isso dizer?
Tommy ficou igualmente confuso, expressando-o em voz alta.
– Hã?
O rapaz olhou o bando de bestas a arrastar a cauda na direção deles. Parecia, seguramente, que o Diabo andava à sua volta. E não era nenhuma pintura, mas uma horda uivante e salivante, em toda a sua glória cinemática.
– Significa... tem esperança – explicou ela.
Era estranho ouvir a condessa falar de esperança, quando o próprio Jordan não conseguia convocar mais do que um fragmento dela. Contudo, era amável da sua parte tentar confortar o rapaz.
A horda strigoi chegou primeiro à borda da cratera e, em vez de transbordarem pela crista, separaram-se e dispersaram para os lados, rodeando a cova e cercando-os por completo. Ou talvez sentissem também a sacralidade daquele vale de areia e vidro.
A condessa emitiu um silvo baixo na garganta, puxando Tommy mais para trás de si. Os sanguinistas moveram-se para se ajustarem à manobra dos strigoi, formando um círculo protetor.
Arella falou ao ouvido de Jordan, sobressaltando-o, ao aproximar-se dele tão silenciosamente.
– A condessa fala com sabedoria – sussurrou Arella. – Tudo ainda pode ser conquistado.
Antes que Jordan lhe pudesse perguntar o que queria dizer, Arella arrancou Tommy de trás de Bathory, impeliu-o para a boca aberta do poço – e empurrou-o lá para dentro. Ele gritou, quando caiu desajeitadamente na água.
Em menos de nada, Bathory estava sobre ela, afastando-a para o lado. Mas um salpico do poço caiu sobre as suas botas. Ela gritou e saltou para trás, como se fosse lava fundida.
Arella voltou à borda do poço, enquanto Tommy chapinhava lá em baixo.
– Cuidado – alertou ela. – Só aqueles imbuídos por anjos podem tocar estas águas. Todos os outros serão destruídos. Mesmo os humanos.
Com essas duras palavras, mergulhou na água, agarrando o braço de Tommy e arrastando-o para baixo.
A condessa recuou, consternada.
Não admirava que o poço tivesse estado tão firmemente selado e abandonado à areia e aos séculos.
– Pelo menos, o rapaz estará a salvo de perigo imediato – confortou-a Rhun.
Pois, mas e nós?
Jordan alargou o ângulo de disparo. Fitou a horda reunida em torno deles. Strigoi silvavam e empunhavam longas lâminas curvas. Blasphemare juntavam-se a eles, pela altura das suas ancas e ombros. Ao menos, os canalhas não tinham trazido armas de tiro – depois lembrou-se porque não carregavam tais armas.
Preferiam devorar as suas vítimas com vida.