Sangue Inocente
Capítulo 37
20 de dezembro, 05h22, CET
Mar Mediterrâneo
Tommy estremeceu com a brisa que soprava pela superfície aberta da plataforma petrolífera, o vento afugentando os últimos resquícios de sono.
Fitava um helicóptero cinzento-metalizado estacionado do outro lado da estrutura elevada. Tinha janelas com vidros fumados e uma imensidão de antenas de radar a brotar-lhe do nariz. Pelas linhas polidas e características invulgares, parecia personalizado e dispendioso. Um piloto postava-se ao lado do aparelho, envergando um uniforme de voo preto, incluindo capacete e luvas.
Nem uma réstia de pele à vista, sugerindo que era como Elizabeth e Alexei.
Strigoi.
Elizabeth encontrava-se ao seu lado. Embora ainda faltassem duas horas para o nascer do Sol, estava igualmente coberta dos pés à cabeça. Vestia botas altas, calças pretas, uma túnica de manga comprida e luvas, a par de um véu que lhe tapava o rosto. Este tinha uma abertura para os olhos, mas segurava na mão um par de óculos de sol, a postos para a chegada do amanhecer.
Iscariotes gesticulou na direção da aeronave estacionada.
– Todos a bordo.
Sem escolha, Tommy encolheu-se por baixo das hélices, que começavam a girar, e subiu para o helicóptero. O medo insinuou-se por ele. Para onde o levavam? Evocava as palavras de Iscariotes sobre um destino e, de alguma forma, sabia que não lhe ia agradar.
Enquanto se prendia, notou que Elizabeth se exasperava com os cintos de ombro e cintura.
– Precisa de ajuda? – ofereceu ele.
– É mais complicado do que colocar arreios numa parelha de cavalos – desabafou ela, mas conseguiu desenvencilhar-se e prendeu-se em segurança ao lado dele.
Iscariotes falou ao piloto, depois subiu para a cabina, levando consigo os dois corpulentos guarda-costas. Quando fechou a porta, toda a cabina ficou mergulhada na escuridão. Nenhuma luz entrava pelas janelas e Tommy não conseguia ver nada para fora. Sentiu-se aliviado quando as luzes artificiais foram ligadas.
Elizabeth retirou lentamente o véu e os óculos de sol.
Iscariotes passou a cada um deles um conjunto de pesados auscultadores sem fios.
Tommy colocou os seus e Elizabeth seguiu-lhe o exemplo, claramente observando cada gesto dele.
O ruído do motor aumentou de volume e levantaram do heliporto com um sacão. Com as janelas escurecidas, Tommy serviu-se do estômago para avaliar o quanto subiam, quando estabilizavam e quando voltaram a descer para terra.
Tommy inclinou-se para diante e espreitou. O para-brisas estava igualmente tingido de um negro compacto. Como sabia o piloto para onde iam?
Iscariotes viu para onde ele olhava. A sua voz chegou pelos auscultadores.
– Há uma câmara digital montada no nariz do helicóptero. Vou mostrar-te.
Estendendo-se para lá de Tommy, premiu um interruptor junto do apoio de braço. Um monitor desceu diante de Tommy. Ganhou vida, exibindo uma extensão de ondas iluminadas pelo luar e um horizonte aclarado adiante.
– Tens um pequeno joystick junto à tua mão direita – acrescentou Iscariotes. – Podes mover a câmara com ele.
Testando-o, Tommy rodou o joystick num círculo e as imagens no monitor rodaram 360 graus. Viu ondas perseguindo ondas. O horizonte era água e céu. Para trás do helicóptero, as luzes tremulantes da plataforma petrolífera tornavam-se cada vez mais pequenas. Quando rodou de novo a câmara para diante, avistou uma série de ténues luzes correndo baixo, sobre a água, na direção deles.
Um outro helicóptero.
Iscariotes endireitou-se no lugar, depois inclinou-se para o piloto, na frente.
– Quem é?
– Não sei – respondeu o piloto. – Percorri-o com o dispositivo de visão noturna. Não tem marcas distintivas no casco, mas parece um aparelho fretado. Podem ser turistas.
Iscariotes escarneceu.
– Antes do nascer do dia? Leva-nos mais perto.
A aeronave mergulhou e partiu em direção ao outro aparelho, em rota de interceção.
Iscariotes afastou a mão de Tommy do joystick e comandou-o. Premiu um interruptor e a imagem tornou-se mais clara, em gradações de cinzento-prateado.
Visão noturna.
Subitamente, a imagem foi ampliada, centrando-se no para-brisas da outra aeronave.
Tommy conseguiu perceber as feições do piloto, recordando-o do labirinto de gelo.
O choque do reconhecimento depressa se tornou esperança. Era um dos sacerdotes, um dos que ajudara a libertá-lo do gelo.
Encontraram-me!
Não sabia como, mas pouco importava.
Talvez me possam salvar... nos possam salvar.
Olhou de relance para Elizabeth, que também fitava o ecrã. Exibia um meio sorriso, como se não o pudesse evitar.
– Os sanguinistas descobriram-nos.
A raiva inflamou a voz de Iscariotes e enrubesceu-lhe as faces.
– Abate-os!
No canto do ecrã, surgiu um ícone amarelo de quatro mísseis.
Por baixo, três simples palavras:
Fogo do Inferno.
Não podia ser bom.
Tommy sentiu um ressoar sob o assento. Imaginou uma escotilha a abrir, o suporte de míssil a baixar, tornando-se visível.
No ecrã, um dos ícones amarelos de míssil ficou vermelho.
Oh não...
05h35
Com o rosto colado à janela, Erin observou o helicóptero a mergulhar na direção deles. Já tinham reparado no aparelho a levantar voo, como um pequeno grão de poeira, do sistema galáctico de uma plataforma petrolífera, ao largo do oceano. Parecia dirigir-se à costa, distanciando-se deles – depois virara subitamente na sua direção, claramente aproximando-se para ver melhor.
Jordan presumira que fosse a segurança da plataforma, que vinha investigar a aproximação de uma aeronave desconhecida. Eram tempos de desconfiança.
Então, inesperadamente, mergulhou direito a eles.
Fumo irrompeu, de súbito, da base da fuselagem, a par de um clarão de fogo.
– Míssil! – gritou Christian da frente.
Erin foi projetada para trás, quando Christian forçou o helicóptero a uma subida abrupta. Para lá do ruído dos motores, um guincho perfurante rasgou a noite. O aparelho rolou para a direita, enquanto uma sibilante espiral de fumo se ergueu do patim de aterragem esquerdo.
Um segundo depois, uma explosão eclodiu no mar trás deles, a onda de choque fazendo oscilar a aeronave. Uma torrente de fumo e água disparou contra o céu.
Christian lançou, de imediato, o helicóptero num mergulho vertiginoso, tentando superar o outro aparelho, mas a aeronave de aluguer era uma pesada e gorda abelha, comparada com a ágil vespa assassina no seu encalço.
O oceano negro aproximava-se a grande velocidade.
Erin susteve a respiração. Jordan agarrava-se firmemente a ela.
A escassos centímetros da crista das ondas mais altas, o aparelho nivelou finalmente, deslizando rápido mas baixo sobre a água. Ela rodou o pescoço, vendo o outro helicóptero atrás deles. Este inclinou-se sobre o nariz, baixando lateralmente em direção ao mar, depois endireitou-se e disparou no seu encalço, aproximando-se rapidamente.
Nunca lhe conseguiriam escapar.
– Vou tentar chegar à plataforma! – gritou Christian. – Usar a estrutura como escudo.
Jordan retorquiu:
– Vi mais três mísseis preparados quando passou por nós.
Mais três oportunidades de os aniquilar.
Christian debatia-se com o comando, como se este tivesse vida própria. O helicóptero ziguezagueava sobre a água, rumo à plataforma petrolífera. Um novo rasto de fumo guinchou, passando à direita e explodindo no mar, projetando uma onda de fumo e água sobre o aparelho.
Mais duas oportunidades...
A plataforma avultava-se adiante, um arranha-céus iluminado erguendo-se do mar.
Erin permitiu-se um instante de esperança.
Então, a natureza empurrou-os para baixo.
Uma onda imensa atingiu os patins. A máquina oscilou e balançou como um equilibrista do arame prestes a perder o pé. Por um angustiante momento, ela pensou que iam cair ao mar. Depois o helicóptero estabilizou, deixando as ondas.
Suspirou.
– Segurem-se! – bradou Christian.
Sentiu a garganta estreitar-se, sabendo que tinham perdido demasiada velocidade. Nunca poderiam escapar ao próximo míssil. Erin encontrou os olhos de Jordan – enquanto Christian os fazia mergulhar de novo mais baixo, desta vez parecendo arrastar os patins na água propositadamente.
Erin foi esmagada contra os cintos, quando o impulso para a frente foi bruscamente travado. A aeronave inclinou-se sobre o nariz.
O míssil passou por baixo da cauda levantada e explodiu por baixo deles.
O fogo irrompeu de ambos os lados do helicóptero, as chamas cobrindo as janelas. O mundo rodopiou numa estonteante torrente de fumo, fogo e água. Depois, o aparelho imobilizou-se de lado, na água. Fumo negro insinuava-se pela cabina obscurecida.
O helicóptero resistiu por um último fôlego.
Depois, afundou-se no mar.
05h37
Judas estudou os destroços arrasados, a mancha negra que alastrava na água escura. O piloto fez pairar o helicóptero, varrendo lentamente a área, procurando sobreviventes.
– Senhor? – questionou o piloto.
Judas pesou as probabilidades de alguém ter sobrevivido à última explosão de míssil. Parecia ter atingido em cheio a cauda do aparelho. Nada poderia ter sobrevivido a um ataque tão direto; nem mesmo os obstinados corpos dos sanguinistas conseguiriam sarar, depois de feitos em tiras pelo metal dilacerado.
Além de que – verificou o Rolex Yacht Master de platina no seu pulso –, nada daquilo importava.
Mesmo que houvesse sobreviventes, já não o poderiam deter. O amanhecer estava a menos de duas horas. Mesmo que os sanguinistas conseguissem sobreviver, não o poderiam alcançar.
Ainda assim...
– Contacta o pessoal que ficou na plataforma – ordenou. – Eles que vasculhem e vigiem estas águas.
– Entendido, senhor.
– Depois, prossegue para a costa.
Judas fitou o rapaz, que parecia pálido após o ataque.
Ninguém te pode salvar agora.