Sangue Inocente
Capítulo 51
20 de dezembro, 16h33, CET
Siwa, Egito
Um movimento chamou a atenção de Erin para a borda da cratera, onde um gigante vestido de couro acastanhado avançava a passos largos, penetrando na cova. Aquele strigoi tinha pele negra, cabeça rapada e a pele cravejada de aço, arrastando atrás de si um longo sabre. Dobrou-se para agarrar um punhado de areia e descartá-la repugnado, provavelmente sentindo a sacralidade do solo. Cuspiu para onde largara os grãos, escarnecendo e olhando-os lá em baixo.
Olhando-a.
Um arrepio percorreu-a.
Ele deu mais um passo, depois outro, para o interior da cratera.
Não vinha só.
Um par de leões blasphemare avançava silenciosamente de cada lado, mantendo-se junto dele, os seus olhos perscrutando, as caudas vergastando grãos. A sua juba era negra em vez de alourada, eriçada pelo vento quente do deserto. Os seus olhos cintilaram na direção de Erin com um tenebroso carmesim, no dia encoberto de cinzas. Rosnaram, exibindo presas mais adequadas a dentes-de-sabre. Garras negras enterravam-se fundo, arrojando areia para trás, numa pose de pura ameaça felina.
O gigante balançou a espada num descontraído oito no ar, a longa lâmina uma extensão dos seus braços musculados.
Subitamente, Erin desejou não ter insistido em levar o seu grupo até Siwa.
Contudo, afastou tais pensamentos e apertou com mais força a arma. Qualquer que fosse o resultado dos minutos seguintes, ela sabia que fora certo ir até ali. A sua culpa não residia em trazer todos até ali, mas em não conseguir resolver o mistério daquelas areias a tempo, o enigma escondido por trás dos olhos calmos de Arella.
À sua volta, os sanguinistas tinham desembainhado as espadas. Bernard empunhava uma antiga lâmina curva, que cintilava como água, feita de aço de Damasco, guarnecida a prata, provavelmente muito abençoada. Christian brandia também uma lâmina curva, mas esta era moderna, uma kukri do Nepal. Agmundr retirou uma longa espada da bainha presa às suas costas. Wingu erguia duas lâminas curtas, uma em cada mão, agitando-as com elegância e força.
Rhun segurava simplesmente a sua karambit na mão, o seu gume em gancho tão letal como a garra de qualquer blasphemare.
O strigoi gigante deu um último passo em diante, arrastando os leões junto às ancas – depois, estacou de novo.
De trás dele, um familiar vulto de cabelo argênteo surgiu à vista. Iscariotes trocara o seu habitual fato cinzento pela armadura de couro, de um branco imaculado, perfeitamente ajustada ao seu corpo musculoso.
Jordan voltou a arma para ele.
Iscariotes notou o movimento e uma sombra de sorriso irónico desenhou-se no seu semblante. O homem recuperara visivelmente desde a última vez que Jordan disparara sobre ele com aquela mesma arma.
Iscariotes ergueu um braço e soltou uma traça de asas esmeralda no ar.
Os sanguinistas moveram-se com cautela, o olhar fixo naquele esvoaçar. Quantas daquelas criaturas venenosas teria trazido consigo? Com o suficiente delas, poderia derrubar todo o grupo de sanguinistas sem mover o seu exército.
Mas a traça voou apenas alguns metros para o interior da cratera, antes de descer em espiral até ao chão, despedaçando uma asa em escamas iridescentes quando se despenhou. Fosse da contaminação do ar pelas cinzas, fosse do pó soprado da areia, as suas delicadas engrenagens não resistiam, aparentemente, àquele terreno duro.
Ou talvez fosse da sacralidade do lugar.
Independentemente da causa, pelo menos uma ameaça fora neutralizada.
Não que isso pudesse alterar o resultado final.
A voz de Iscariotes propagou-se facilmente pela cratera abaixo. O seu olhar percorreu-os, notando quem faltava.
– Parece que perderam os vossos dois anjos.
Erin forçou-se a manter o olhar fixo no inimigo e não o deixar desviar-se para o poço, por onde Arella desaparecera com Tommy. Esperava que o rapaz conseguisse escapar, que aquela fonte conduzisse a alguma saída secreta, algum lago distante. A imortalidade de Tommy deveria mantê-lo vivo, mesmo mergulhado debaixo de água.
– Podemos ter perdido os nossos anjos – retorquiu Jordan. – Mas vejo que encontrou os seus demónios.
Iscariotes riu-se e gesticulou em direção aos sanguinistas.
– Tem os seus próprios demónios, Homem Guerreiro.
– Amigos – corrigiu Jordan. – Não demónios.
Iscariotes carregou o olhar, claramente esgotada a paciência.
– Onde o têm escondido? – indagou, não deixando dúvidas de que falava de Tommy.
Iscariotes devia saber que, enquanto Tommy estivesse livre, o seu plano para soltar o Inferno sobre a Terra permanecia ameaçado.
O silêncio prolongou-se por vários instantes.
Os olhos de Judas pousaram sobre Erin e mantiveram-se nela. Ergueu um braço e apontou para ela.
– Que ninguém lhe toque – anunciou em voz alta. – É minha. Ela dar-me-á a resposta.
Uma onda de rosnidos e silvos derramou-se ao longo de toda a crista da cratera.
– Matem os outros!
16h34
Bem fundo na garganta do poço, Tommy corria a toda a velocidade, descendo cada vez mais. O choque inicial depois de a estranha mulher o empurrar ali para dentro e o arrastar para baixo de água desvanecera-se. Agora, procurava simplesmente segui-la. Apesar do súbito mergulho, confiava estranhamente nela.
Não sabia se ela era realmente um anjo, mas salvara-lhe a vida, por isso, por agora, dar-lhe-ia o benefício da dúvida.
Dos lados, as paredes do poço pareciam de vidro de areia, ainda toscas, mas demasiado suaves para serem rocha. Imaginou a explosão impressa à superfície, de uma batalha entre Lúcifer e o arcanjo Miguel. Essa mesma deflagração devia ter penetrado fundo debaixo da terra, selando aquele lago onde Cristo estivera e fundindo em vidro tudo à sua volta.
Queria duvidar dessa história, também, exceto por duas coisas.
Primeira, a água tornava-se mais quente quanto mais fundo mergulhava.
Segunda, abaixo dele, iluminando o seu caminho, avultava um brilho dourado, contornando as pernas esguias da mulher.
Seguiu atrás dela, até os seus pulmões estarem prestes a rebentar e os ouvidos a pungir da pressão.
Desceu mais e mais.
Por fim, chegou ao fundo, desesperado por ar.
Ela apontou para uma caverna lateral, que se abria a uns metros de distância. Com os pulmões a arder, ele encolheu-se pela estreita passagem empurrando as paredes macias e impelindo-se do fundo. A fonte da luz advinha daí, atraindo-o como uma chama a uma traça.
Mas não era uma chama que ele procurava.
Era ar.
Ele mergulhara com o seu pai ao largo da costa de Catalina, nas cavernas marinhas que pontilhavam a ilha, recordando-se de se encolher por entre a rocha para encontrar uma caverna batida pela água, no fundo, e uma bolsa de ar, em cima.
Rezava por encontrar o mesmo ali, alguma caverna secreta onde pudesse permanecer com aquela mulher, até a batalha estar terminada e ser seguro.
Seguro...
Há quanto tempo não se sentia seguro?
Os pulmões gritavam-lhe, enquanto percorria atabalhoadamente a última distância, rastejando pela entrada para a caverna. A visão começou a estreitar-se, cada vez mais diminuta, centelhas dançando. Sabia que não tinha ar suficiente sequer para regressar à superfície. Agora, estava comprometido. O pai dissera-lhe, um dia, que o mais importante na vida era encontrar o caminho certo e comprometer-se em segui-lo.
De alguma forma, pai, não creio que fosse isto que querias dizer.
O pânico emprestou-lhe força extra aos braços e pernas. Penetrou na pequena caverna, delineada por vidro dourado e juncada de areia no fundo. Sabendo que devia haver ar em cima – senão, porquê arrastá-lo até ali? –, empurrou o fundo com força.
Lançou-se para cima – e a cabeça embateu contra o teto.
Apalpou o topo, procurando a mais pequena bolsa, o mais ínfimo fôlego de ar.
Não havia nenhum.
16h35
Strigoi e blasphemare inundaram as vertentes da cratera como uma onda imunda.
Jordan agarrou firmemente a sua arma, tentando ignorar o gigante negro que se lançava na direção deles, na dianteira, flanqueado pelo par de leões de juba escura.
Erin apontou a uma das feras.
Jordan escolheu um alvo diferente, ciente de que a sua arma pouco faria contra o que transbordava da crista da cratera. Tinha de confiar que os sanguinistas dariam conta dessa primeira vaga.
Em vez disso, ele apontou ao lado, para perto da borda da concavidade arenosa. Esperou que o obscuro exército chegasse aí – depois disparou.
A intensa rajada perfurou o tanque de combustível do helicóptero inimigo.
A explosão esventrou o aparelho numa deflagração ígnea, lançando as hélices a causar estragos por entre os strigoi e esmagando-se na parede distante da cratera. A súbita detonação e danos resultantes dispersaram a carga inicial, fazendo blasphemare trotarem para longe, silvando e uivando aos destroços fumegantes. Vários strigoi debatiam-se na areia com membros amputados. Outros estavam nitidamente mortos.
Rhun olhou-o, aprovador.
Jordan aproveitou o momento de aturdimento para voltar a arma para Iscariotes, que permanecia na borda da cratera. Firmou-se e apontou à massa central do tipo, não arriscando num tiro à cabeça àquela distância, sobretudo limitado de munições como estava. Não podia desperdiçar um único disparo.
Apertou o gatilho, tencionando derrubar de novo o homem, embora por um breve período. Temporariamente sem líder, talvez o exército pudesse ser derrotado.
Mas quando disparou, o imenso vulto de um chacal guinou para a frente de Iscariotes, recebendo os tiros no seu dorso, salvando o canalha. Sangue negro fluiu do flanco da fera, que não parecia incomodada, movendo-se de lado para lado, protegendo o seu mestre.
Iscariotes recuou pela borda distante, abrigando-se melhor.
Cobarde.
Mais próximo, o gigante negro recuperou rapidamente, lançando-se de novo em diante para encurtar a distância, convocando aqueles para mais perto de si. Rosnou, exibindo longas presas.
Agmundr aceitou o desafio, colocando-se na frente dele.
Gigante contra gigante.
Mas não houve lugar a contestação.
Animado pela sacralidade, Agmundr brandiu a sua longa espada, tão rápido que sibilou no ar. Arrancou de um só golpe a cabeça do strigoi dos ombros, o esgar ameaçador ainda preso ao crânio ao voar para longe.
Jordan metralhou a horda que atacava à esquerda.
Wingu e Christian saltaram para a direita.
Rhun e Bernard guardavam a retaguarda.
Elizabeth mantinha-se perto da borda do poço, não atacando nem defendendo, simplesmente vigiando o retorno de Tommy sabia-se lá de onde.
Erin disparava por trás do ombro de Jordan, atingindo um leão no olho, fazendo-o rolar para os pés de Agmundr, onde um rodopiar da sua enorme lâmina apanhou a besta na garganta.
Jordan sentiu pena da criatura amaldiçoada. Ela não pedira para ser transformada no que era. Mas a piedade não lhe trazia misericórdia.
Continuou a disparar.
Agmundr enfrentou o segundo leão, dançando diante dele, ambos os adversários procurando uma fraqueza – depois, um imenso chacal lançou-se contra o viquingue, afundando poderosos dentes na sua coxa.
Jordan atingiu a fera no ombro, mas esta nem vacilou.
Rugindo, Agmundr caiu à areia e rolou de costas. O chacal largou a perna grossa e lançou-se à garganta. Jordan disparou na cara da besta – descobrindo a arma vazia.
Que se lixe...
Precipitou-se para a frente com a arma erguida, pronto para a usar como uma moca. Antes que a pudesse baixar, ameaçadoras maxilas dardejaram por baixo da espada de Agmundr. Dentes amarelados enterraram-se fundo na garganta do viquingue.
Agmundr esquivou-se uma vez ao ataque – depois, ficou inerte, enquanto o chacal puxava para cima, rasgando toda a garganta do homem.
Sangue frio jorrou sobre o braço de Jordan.
Caiu para trás.
O chacal voltou-se para ele, sangue e pele escorrendo-lhe do focinho sombrio para a areia dourada. Os seus maciços quadris retesaram-se – depois saltou direito a ele.
Todo o seu mundo se transformou em presas amarelecidas e um uivo aterrador.
16h36
Rhun correu a toda a velocidade em defesa de Jordan. Por um canto do olho, vira Agmundr cair e o soldado saltar em sua ajuda – para enfrentar as mesmas mandíbulas que tinham tomado a vida do poderoso viquingue.
Rhun lançou-se contra o flanco do imenso chacal. As mandíbulas deste fecharam-se a menos de três centímetros da cara de Jordan. A fera resvalou na areia, rodando para o enfrentar, as garras enterrando-se na areia e raspando o vidro por baixo.
Rhun empunhou a karambit à sua frente e rezou por força para proteger os outros. O próprio ar estava impregnado de sangue, enquanto Christian, Bernard e Wingu continuavam a sua dança entre a obscura horda. A bruma carmesim apelava ao seu próprio sangue, instando-o a beber sofregamente dessa fonte.
Rhun refreou os seus instintos.
Diante dele, os olhos avermelhados e raivosos do chacal fitaram os seus. Pelo cinzento eriçou-se no cachaço arqueado. Um rosnar revelou os dentes amarelos numa mandíbula poderosa.
Quando a besta saltou, Rhun manteve-se firme na areia e ergueu o braço, impelindo a karambit fundo, entre os dentes afiados e a boca da criatura. Com toda a força que pôde convocar, arremessou a lâmina pelo céu da boca até ao cérebro – depois puxou a mão para fora.
A fera sucumbiu, o sangue negro espumando-lhe da boca e maculando a areia. As patas dianteiras esgravatavam as maxilas, gemendo de dor.
A piedade cresceu dentro de Rhun face a uma das criaturas de Deus transformada numa monstruosidade tão sofrida. Finalmente, o brilho carmesim esmoreceu para um castanho cego, enquanto a fera era libertada da sua maldição.
Rhun não tinha tempo para se regozijar com a sua libertação.
Uma força bruta lançou-o à areia, vinda de trás, fazendo-o cair de cara sobre o sangue escuro do chacal. Garras rasparam-lhe as costas, rasgando-lhe a armadura e a pele, uma longa unha em gancho atingindo-lhe as costelas.
Rhun urrou, enquanto um leão rugia triunfante sobre ele.