Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 10 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 8

 

 

18 de dezembro, 19h45, PST

São Francisco, Califórnia

Ao menos o restaurante estava vazio.

Erin soltou um suspiro de alívio, enquanto se sentava com Jordan e Christian num pequeno barracão maltratado, no distrito de Haight-Ashbury. Tinham deixado Nate no seu apartamento do campus, em Stanford, e depois partiram rapidamente para o anonimato de São Francisco, tomando um caminho labiríntico até ao pequeno restaurante.

Ela pegou no menu – não que tivesse fome, apenas para ter algo com que ocupar as mãos. O peso da sua Glock encontrava-se de novo no coldre do tornozelo. E carregava o Colt de Jordan no bolso interior do casaco de inverno. O peso combinado de ambos ajudava-a a centrar-se.

Estudou o decrépito lugar, com os seus quadros a preto-e-branco de crânios e flores. As únicas alusões ao Natal eram caducas estrelas-de-natal de plástico, a adornar cada mesa.

Jordan pegou-lhe na mão direita com a sua mão esquerda. Mesmo àquela luz crua e pouco lisonjeira, ele era atraente. Uma mancha de pó estendia-se por uma das suas faces. Ela pegou no guardanapo e limpou-a, demorando-se.

Os olhos dele tornaram-se mais intensos e lançou-lhe um sorriso insinuante.

Do outro lado, Christian aclarou a garganta.

Jordan endireitou-se, mas continuou a segurar-lhe a mão.

– Que bela escolha – disse, esticando o pescoço para olhar em volta para os arco-íris tingidos à mão, que decoravam a parede do fundo. – Foi fã dos Grateful Dead numa vida passada ou simplesmente estagnou nos anos 60?

Escondendo um sorriso atrás do menu, Erin percebeu que a ementa era toda vegetariana.

O Jordan vai adorar isto.

– O lugar é bastante mais agradável agora do que era nos anos 60 – retorquiu Christian, revelando um vislumbre do seu próprio passado, de uma vida anterior naquela cidade. – Nessa altura, mal se conseguia respirar aqui com o fumo da erva e o cheiro de patchouli. Mas uma coisa que não mudou foi o desprezo do estabelecimento pela autoridade. Aposto a minha vida em como não há câmaras de vigilância neste edifício ou aparelhos eletrónicos de fiscalização. Quanto menos olhares indiscretos, melhor.

Erin entendia o nível de paranoia do sanguinista, especialmente depois do ataque.

– Está assim tão certo de que há um infiltrado na sua ordem? – indagou Jordan.

– Alguém sabia que Erin estaria sozinha naquele rancho. Por agora, é melhor não darmos nas vistas. Pelo menos, até chegarmos a Roma.

– Parece-me bem – disse Erin. – O que queria dizer com aquilo de eu ser a única que pode encontrar Rhun?

Durante a viagem até ao restaurante, Christian recusara-se a falar. Mesmo agora, olhou em volta e inclinou-se para diante.

– Soube pelo sargento Stone que o Rhun se alimentou de si durante a batalha nas catacumbas de S. Pedro. É verdade?

Ela largou a mão de Jordan, estudando o guardanapo no seu colo, para que ele não pudesse ver a sua expressão ao pensar na intimidade que partilhara com Rhun. Vieram-lhe à mente aqueles dentes afiados a enterrar-se na sua carne, vacilando entre a dor e a beatitude, enquanto os seus lábios lhe queimavam a pele e a língua lhe penetrava as feridas para beber mais profundamente.

– Sim – murmurou ela. – Mas teve de o fazer. Não havia outra forma de apanhar o lobo sanguinário e Bathory Darabont. Sem as nossas ações, o Evangelho de Sangue teria sido perdido.

Jordan pôs-lhe um braço em volta do ombro, mas ela sacudiu-o. O seu olhar revelou surpresa. Ela não o queria magoar, mas não queria que ninguém lhe tocasse naquele momento.

– Não estou aqui para julgar Rhun – disse Christian. – Foi uma situação extraordinária. Não tem de mo explicar. Estou mais interessado no que lhe aconteceu depois disso.

– Como assim?

– Tem tido visões? Sensações que não consegue explicar?

Ela fechou os olhos. O alívio inundou-a. Então, podia haver uma explicação para as suas perdas de consciência.

Afinal, não estou a ficar louca.

Christian deve ter notado a sua reação.

– Tem tido visões. Graças a Deus!

– Alguém me quer explicar o que se passa? – Pediu Jordan.

Em retrospetiva, ela devia ter-lhe contado dos ataques. Mas não quisera pensar neles, muito menos partilhá-los.

Christian explicou-o a ambos.

– Quando um strigoi se alimenta de alguém e a vítima sobrevive, o que é uma ocorrência rara, o sangue cria uma ligação entre eles. A ligação perdura até o strigoi se alimentar de novo e a apagar com uma torrente de novo sangue.

Jordan parecia repugnado.

Um jovem empregado aproximou-se nesse instante, o seu cabelo em rastas louras, com um bloco na mão e um lápis atrás da orelha. Foi despachado, feito o pedido de uma rodada de café forte.

Erin esperou até que o rapaz estivesse fora do alcance da voz e depois insistiu.

– Mas o que tenho experimentado não faz sentido. É escuro. Completamente escuro. Vivo uma intensa sensação claustrofóbica, como se estivesse encurralada. Como se estivesse presa num sarcófago ou num caixão.

– Como em Massada? – perguntou Jordan.

Ela pegou-lhe de novo na mão, apreciando o seu calor, desculpando-se em parte pelo tratamento rude de há instantes.

– Foi o que pensei. Achei que eram ataques de pânico. Menosprezei os episódios como flashbacks desse momento em que ficámos presos na antiga cripta. Mas certos detalhes dessas visões pareceram-me estranhos. A caixa era fria, mas parecia estar deitada sobre ácido. Ensopava-me a roupa e queimava-me a pele. E o que era ainda mais estranho era que tudo cheirava a vinho.

– Vinho? – repetiu Christian, endireitando-se.

Ela assentiu.

– Se esteve em sintonia com Rhun durante essas visões, um banho de vinho consagrado queimá-la-ia.

Christian fitou-a com os seus sagazes olhos verdes.

– Faz alguma ideia de onde fica essa caixa? Conseguiu ouvir alguma coisa?

Ela abanou lentamente a cabeça, tentando pensar em mais detalhes, mas sem conseguir.

– Lamento.

Tudo o que recordava era aquela dor, compreendendo que o que sentira seria uma fração ínfima do que Rhun experimentava. Há quanto tempo estaria ali encurralado? Christian dissera que ele tinha desaparecido pouco depois da batalha. Tinha sido há dois meses. Não o podia abandonar àquele destino.

Um outro entendimento gelou-a.

– Christian, a cada uma dessas visões sinto-me mais fraca, mais inerte. Na última, mal conseguia levantar os braços.

A expressão de Christian confirmou o seu pior receio.

Provavelmente, aquilo significava que Rhun estava a morrer.

Christian estendeu a mão e tocou-lhe o braço, procurando tranquilizá-la.

– O melhor plano é chegar a Roma. O cardeal Bernard tem mais conhecimento sobre esse tipo de ligação do que eu. Era mais comum nos primórdios da Igreja.

Estava previsto partirem num voo fretado dali a duas horas.

– E se encontrarmos Rhun – perguntou Erin –, o que acontece depois?

Receava ser posta de lado, de novo, sumariamente dispensada, como antes.

– Partimos em busca do Primeiro Anjo – respondeu Christian.

O Primeiro Anjo.

Ela conhecia demasiado bem a profecia em relação a essa figura mítica. Visualizou as palavras inscritas na primeira página do Evangelho de Sangue, palavras escritas pelo próprio Cristo, a previsão de uma guerra próxima – e a forma de a evitar.

Prenuncia-se uma grande Guerra dos Céus. Para que as forças do bem prevaleçam, deve ser forjada uma Arma a partir deste Evangelho escrito com o meu sangue. A trindade profética deverá levar o livro ao Primeiro Anjo e obter a sua bênção. Só assim poderão assegurar a salvação do mundo.

– O tempo da espera já passou – insistiu Christian. – Sobretudo depois de alguém ter agido contra si, Erin. Claramente, já conhecem o seu valor.

– Valor? – Não conseguiu evitar o tom escarninho e amargo.

– A profecia diz que a trindade deve levar o livro ao Primeiro Anjo. O Cavaleiro de Cristo, o Homem Guerreiro e a Mulher Sábia. Você e o Jordan são os dois últimos. Rhun, o primeiro.

– Pensei que tivesse ficado claro que eu não sou a Mulher Sábia. – Manteve a voz firme e forçou a frase seguinte. – Estou bastante certa de que a matei.

Jordan apertou-lhe a mão. Ela matara Bathory Darabont nos túneis sob Roma. Não apenas acabara com a vida da mulher, mas a família Bathory era há muito tida como a verdadeira linhagem de onde emergiria a Mulher Sábia. A bala de Erin pusera fim a essa linha, matando o último descendente vivo.

– Darabont está efetivamente morta e com ela essa linhagem amaldiçoada.

Christian suspirou, recostando-se com um encolher de ombros.

– Você parece ser o melhor que temos, doutora Erin Granger. Para quê duvidar?

O café chegou finalmente, permitindo-lhes ordenar os pensamentos.

Quando o empregado se afastou, Jordan sorveu um golo, estremeceu face à temperatura escaldante e anuiu para Christian.

– Concordo com ele. Vamos lá procurar esse anjo.

Como se pudesse ser assim tão fácil.

Ninguém fazia a mínima ideia de quem era o Primeiro Anjo.