Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 4 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 2

 

 

18 de dezembro, 11h12, EST

Arlington, Virgínia

O sargento Jordan Stone sentia-se uma fraude ao marchar no seu uniforme de gala. Hoje, enterraria o último membro da sua antiga unidade – um jovem cabo de nome Sanderson. À semelhança dos outros companheiros da unidade, o corpo de Sanderson nunca fora encontrado.

Depois de alguns meses de buscas por entre as toneladas de entulho que outrora formaram a montanha de Massada, os militares tinham desistido. O caixão vazio de Sanderson comprimia-se dolorosamente contra a perna de Jordan, enquanto marchava em cadência com os restantes portadores do caixão.

Um nevão de dezembro cobrira de branco os terrenos do Cemitério Nacional de Arlington, escondendo a erva parda e amontoando-se nos troncos de árvores sem folhas. A neve acumulava-se sobre o contorno arqueado das placas fúnebres de mármore, mais placas do que conseguia contar. Cada campa estava numerada, a maioria tinha nome e todos aqueles soldados tinham sido sepultados no descanso eterno com honra e dignidade.

Um deles era a sua mulher, Karen, morta em combate há um ano. Não houvera restos mortais suficientes para enterrar, apenas as placas de identificação militares. O seu caixão estava tão vazio quanto o de Sanderson. Em certos dias, Jordan não conseguia acreditar que ela tinha partido, que não voltaria a trazer-lhe flores e a receber um demorado beijo em agradecimento. Em vez disso, as únicas flores que lhe traria acabariam na sua campa. Depositara aí rosas vermelhas, antes de se dirigir para o funeral de Sanderson.

Recordou o rosto sardento de Sanderson. O seu jovem companheiro de unidade fora um homem sempre pronto a agradar e cumpridor do dever, que dera o seu melhor. Em troca, tivera uma morte solitária no topo de uma montanha em Israel. Jordan estreitou o aperto sobre a pega fria do caixão, desejando que a missão tivesse terminado de outra forma.

Mais alguns passos para lá das árvores nuas e ele e os companheiros carregaram o caixão para o interior de uma capela gélida. Sentia-se mais reconfortado dentro daquelas simples paredes brancas do que se sentira nas sumptuosas igrejas da Europa. Sanderson também se teria sentido mais aconchegado ali.

A mãe e a irmã de Sanderson esperavam-nos no interior. Envergavam vestidos pretos quase idênticos e finos sapatos formais, apesar da neve e do frio. Ambas tinham a tez clara de Sanderson, com as faces cobertas de sardas mesmo no inverno. Os narizes e os olhos estavam avermelhados.

Sentiam a falta dele.

Desejou que não tivessem de a sentir.

Ao lado delas, o seu superior, o capitão Stanley, mantinha-se em sentido. O capitão estivera do lado esquerdo de Jordan em todos os funerais, os seus lábios comprimidos numa estreita linha enquanto os caixões eram descidos à terra. Bons soldados, todos eles.

Era um comandante que seguia escrupulosamente as regras e tratara o depoimento de Jordan com toda a retidão. Por seu lado, Jordan fizera o seu melhor por se manter fiel à mentira elaborada pelo Vaticano: a montanha desabara num terramoto e todos tinham morrido. Ele e Erin tinham ficado num recesso que não ruíra, tendo sido salvos três dias mais tarde por uma equipa de resgate do Vaticano.

Bastante simples.

Mas não era verdade. Infelizmente, mentia mal e o seu superior suspeitava que ele não tinha revelado tudo o que acontecera em Massada ou após o salvamento.

Jordan fora já dispensado do ativo e colocado sob acompanhamento psiquiátrico. Alguém o vigiava permanentemente, à espera que se fosse abaixo. O que ele mais queria era voltar ao ativo e fazer o seu trabalho. Enquanto membro do Centro Forense Expedicionário Conjunto no Afeganistão, tratara e investigara cenários de crime militares. Era bom no que fazia e queria voltar a fazê-lo.

Tudo para se manter ocupado, em atividade.

Em vez disso, postava-se de novo em sentido ao lado de mais um caixão, o frio do chão de mármore a infiltrar-se pelos dedos dos pés. A irmã de Sanderson tremia ao seu lado. Desejou poder oferecer-lhe o casaco da sua farda.

Ouvia o tom sombrio da voz do capelão militar, mais do que as suas palavras. O sacerdote dispunha de apenas vinte minutos para celebrar a cerimónia. Arlington tinha muitos funerais por dia e seguia um horário rigoroso.

Rapidamente, viu-se no exterior da capela em direção ao cemitério. Fizera aquela marcha tantas vezes que os pés encontraram o caminho da campa sem ter de pensar muito. O caixão de Sanderson aguardava num monte de terra castanha limpa de neve, ao lado de uma cova coberta pela bandeira.

Um vento frio soprava sobre a neve, encaracolando os flocos em enleios, como cirros, o tipo de nuvens altas tão comum no deserto onde Sanderson morrera. Jordan esperou pelo resto da cerimónia, ouviu a salva de três tiros, o corneteiro a entoar o «Toque do Silêncio» e observou o capelão a entregar a bandeira dobrada à mãe de Sanderson.

Jordan vivera a mesma cena por cada um dos companheiros perdidos.

Não se tornava mais fácil.

No final, Jordan apertou a mão da mãe de Sanderson. Sentiu-a fria e frágil, e receou quebrá-la.

– Sinto muito pela sua perda. O cabo Sanderson era um bom soldado e um excelente homem.

– Ele gostava de si – disse ela, dirigindo-lhe um sorriso triste. – Achava-o inteligente e corajoso.

Jordan forçou o rosto rígido a corresponder ao sorriso.

– É bom ouvir isso, minha senhora. Ele também era inteligente e corajoso.

Ela pestanejou para afastar as lágrimas e virou costas. Ele preparou-se para a seguir, embora incerto do que lhe iria dizer, mas antes que pudesse fazê-lo, o capelão cravou-lhe a mão no ombro.

– Penso que temos assuntos a discutir, Sargento.

Voltando-se, Jordan examinou o jovem capelão. Envergava o uniforme de gala, tal como Jordan, só que com cruzes pregadas nas lapelas do casaco. Olhando-o agora mais de perto, Jordan apercebeu-se da sua pele lívida demais, mesmo para o inverno, do cabelo escuro um pouco longo demais, da postura pouco militar. Ao olhá-lo de volta, os olhos verdes do capelão não pestanejaram.

Jordan sentiu os pelos do pescoço eriçarem-se.

O gelo da mão do capelão infiltrava-se através da luva. Não era como uma mão que tivesse estado demasiado tempo exposta, num dia frio, mas como uma mão que não tinha calor há anos.

Jordan já conhecera muitos do género. O que tinha diante de si era um predador morto-vivo, uma criatura vampírica denominada strigoi. Mas, para estar ali à luz do dia, devia ser um sanguinista – um strigoi que fizera um voto de deixar de beber sangue humano para servir a Igreja Católica e alimentar-se unicamente do sangue de Cristo, ou mais exatamente do vinho consagrado pelo sacramento da Eucaristia no sangue de Cristo.

Tal voto tornava aquela criatura menos perigosa.

Mas não muito menos.

– Não tenho assim tanta certeza de que tenhamos mais assuntos a discutir – disse Jordan.

Afastou-se do capelão e colocou-se em posição, pronto para lutar se necessário fosse. Já vira sanguinistas a lutar. Sem dúvida que aquele capelão franzino podia acabar com ele, mas isso não significava que Jordan se deixasse vencer facilmente.

O capitão Stanley interpôs-se entre eles e clareou a garganta.

– Foi esclarecido até ao topo da hierarquia, sargento Stone.

– O quê, capitão?

– Ele explicar-lhe-á tudo – respondeu o capitão, gesticulando na direção do capelão. – Acompanhe-o.

– E se eu recusar? – Jordan susteve a respiração, esperando uma resposta favorável.

– É uma ordem, sargento. – Olhou Jordan diretamente nos olhos. – Está totalmente fora do meu controlo.

Jordan reprimiu um gemido.

– Lamento, capitão.

O capitão Stanley recurvou um canto minúsculo da boca, equivalente à gargalhada sonora de um homem mais alegre.

– Disso tenho a certeza, sargento.

Jordan fez-lhe continência, perguntando-se se seria a última vez, e seguiu o capelão até uma limusina preta estacionada na berma. Os sanguinistas pareciam ter invadido novamente a sua vida, dispostos a espezinhar o que restava da sua carreira com os seus pés imortais.

O capelão segurou-lhe a porta aberta e Jordan entrou. O interior cheirava a couro, brandy e charutos caros. Não o que se esperaria do carro de um sacerdote.

Jordan deslizou para o outro extremo do banco. O separador de vidro estava subido e tudo o que conseguia ver do motorista era a parte de trás de um pescoço grosso, o cabelo louro curto e o boné do uniforme.

O capelão puxou para cima as pernas das calças, para conservar o vinco, antes de entrar. Com uma mão, fechou a porta com estrondo, aprisionando Jordan consigo no interior.

– Por favor, ligue o aquecimento para o nosso convidado – disse o capelão ao motorista. Depois, desabotoou o casaco da farda de gala e recostou-se.

– O meu capitão disse que me explicaria tudo. – Jordan cruzou os braços. – Força.

– Isso é praticamente impossível.

O jovem capelão serviu um brandy. Levou o copo ao nariz e inspirou. Com um suspiro, baixou o copo e ofereceu-o a Jordan.

– Uma bela colheita.

– Beba-o, então.

O capelão girou o brandy no copo, seguindo com os olhos o líquido acastanhado.

– Sabe que não posso fazê-lo, por muito que queira.

– E essa explicação? – insistiu.

O capelão ergueu a mão e o carro pôs-se em movimento.

– Lamento toda esta história de capa e espada. Ou melhor de hábito e cruz, talvez seja o termo mais adequado.

Sorriu melancolicamente, enquanto aspirava de novo o brandy.

Jordan franziu a testa ao ver os maneirismos do seu interlocutor. Parecia decididamente menos carrancudo e formal do que os outros sanguinistas que conhecera.

O capelão tirou a luva branca e estendeu a mão.

– O meu nome é Christian.

Jordan ignorou o convite.

Apercebendo-se disso, o capelão afastou a mão e passou os dedos pela farta cabeleira.

– Sim, compreendo a ironia. Um sanguinista com um nome que significa cristão. Foi como a minha mãe o planeou.

O homem bufou.

Jordan não estava muito certo do que pensar daquele sanguinista.

– Quase nos cruzámos na Abadia de Ettal – disse o capelão. – Mas, na Alemanha, Rhun escolheu a Nadia e o Emmanuel para formar o resto do trio.

Jordan visualizou as feições sombrias de Nadia e a atitude ainda mais sombria de Emmanuel.

Christian abanou a cabeça.

– Nada de surpreendente, suponho.

– Como assim?

O outro ergueu uma sobrancelha.

– Parece que não me cubro suficientemente de cinzas e burel para o padre Rhun Korza.

Jordan reprimiu um sorriso.

– Posso perceber como isso o incomodaria.

Christian pousou o brandy numa bandeja junto à porta e inclinou-se para diante, com os olhos verdes sérios.

– Na verdade, o padre Korza é a razão de eu estar aqui.

– Ele enviou-o?

De alguma forma, Jordan não o conseguia imaginar. Duvidava que Rhun quisesse ter mais o que fosse a tratar com ele. Não se tinham separado no melhor dos termos.

– Não exatamente. – Christian pousou os cotovelos magros nos joelhos. – O cardeal Bernard está a tentar manter a discrição, mas Rhun desapareceu sem uma palavra.

Era de esperar... Ele não era propriamente do tipo comunicativo.

– Ele contactou-o desde que deixou Roma, em outubro? – indagou Christian.

– Porque haveria de me contactar?

O outro inclinou a cabeça para o lado.

– Porque não haveria?

– Eu odeio-o. – Jordan não viu razão para mentir. – E ele sabe-o.

– O Rhun é uma pessoa difícil de se gostar – admitiu Christian. – Mas o que fez ele para o fazer odiá-lo?

– Para além de quase matar a Erin?

As sobrancelhas de Christian franziram-se de preocupação.

– Pensei que ele tinha salvado a vida dela... e a sua.

Jordan cerrou os maxilares. Recordou Erin caída no chão, com a pele lívida, o cabelo ensopado de sangue.

– O Rhun mordeu-a – explicou Jordan com aspereza. – Sugou-a e deixou-a a morrer nos túneis debaixo de Roma. Se eu e o irmão Leopold não a tivéssemos encontrado quando encontrámos, ela estaria morta.

– O padre Korza alimentou-se da Erin? – Christian vacilou para trás, a surpresa marcada no seu rosto. Observou Jordan por vários segundos sem falar, claramente desorientado com a revelação daquele pecado.

– Tem a certeza? Talvez...

– Ambos o admitiram. Erin e Rhun. – Jordan cruzou os braços. – Não sou eu quem mente.

Christian ergueu as mãos num gesto conciliador.

– Peço desculpa. Não estava a duvidar de si. Só que é... invulgar.

– Não para o Rhun. – Pousou as mãos nos joelhos. – O seu eleito já cometeu erros antes.

– Uma única vez. E o caso de Elizabeth Bathory foi há séculos.

Christian pegou no copo de brandy e estudou-o.

– Está a dizer que o irmão Leopold sabia de tudo isto?

– Sabia pois.

Aparentemente, Leopold devia ter encoberto Rhun. Jordan sentiu desilusão, mas não surpresa. Os sanguinistas protegiam-se uns aos outros.

– Ele alimentou-se dela... – Christian fitava o copo como se pudesse encontrar aí a resposta. – Isso significa que Rhun está impregnado do sangue dela.

Jordan estremeceu, perturbado com a ideia.

– Isso muda tudo. Temos de ir ter com ela. Já. – Christian inclinou-se para diante e bateu no separador para chamar a atenção do motorista. – Para o aeroporto! Agora!

Obedecendo prontamente, o motorista acelerou, a parte de baixo do carro raspou no chão ao transpor uma elevação, e dirigiu-se para fora do cemitério.

Christian olhou de relance para Jordan.

– Seguiremos caminhos distintos no aeroporto. Consegue ir para casa pelos seus meios, certo?

– Consigo – concordou. – Mas, se a Erin está envolvida nisto, eu vou consigo.

Christian inspirou e expirou longamente. Tirou o telemóvel do bolso e marcou alguns números.

– Estou certo de que, da última vez, o cardeal Bernard lhe fez todo o discurso sobre os perigos para a sua vida e alma de se envolver nos nossos assuntos.

– Fez, de facto.

– Então, poupemos tempo e finjamos que lho fiz de novo. – Christian levou o telefone ao ouvido. – Preciso imediatamente de um avião para a Califórnia.

– Quer dizer que não se opõe a que vá consigo?

– Ama a Erin e quer protegê-la. Quem sou eu para o impedir?

Para um tipo morto, Christian revelava-se bastante aceitável.

Contudo, à medida que a limusina acelerava pela cidade varrida pela neve, a ansiedade de Jordan adensava-se a cada quilómetro vencido.

Erin estava em perigo.

De novo.

E provavelmente por causa das ações de Rhun Korza.

Talvez fosse melhor que o canalha continuasse desaparecido.