Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 33 de 59

Páginas do PDF

Sangue Inocente

Capítulo 31

 

19 de dezembro, 23h03, CET

Estocolmo, Suécia

Erin seguia por uma rua bem iluminada, para longe da proteção e do calor da catedral. A neve caía agora mais intensamente, estreitando o mundo em redor. Os flocos em breve lhe cobriram o cabelo e os ombros. Alguns centímetros acumulavam-se sob os pés.

Poucos carros passavam pela rua àquela hora tardia, os pneus ressoando sobre as pedras da calçada, os faróis abrindo buracos por entre a neve cadente.

Mantinha um firme aperto sobre Jordan – para evitar escorregar no pavimento gelado e para se certificar de que não sonhava. Enquanto avançavam, ela observava o bafo quente que exalava dos lábios dele, tornado branco no ar frio.

Há menos de uma hora, ele estivera morto – sem respiração, sem pulsação.

Observou Jordan pelo canto do olho.

A sua mente lógica lutava para entender aquele milagre, colocá-lo num contexto científico, compreender as suas regras. Mas, por agora, agarrava-se simplesmente a ele com firmeza, grata por estar quente e vivo.

Rhun seguia do seu outro lado. Parecia derrubado, mais enfraquecido do que a recente perda de sangue podia explicar. Ela conseguia adivinhar porquê. Bathory causara-lhe muito dano – e não apenas ao corpo. Claramente, ele ainda a amava e a condessa parecia determinada a usar esses sentimentos para o ferir.

Por fim, Christian estacou diante de uma frente de loja profusamente iluminada.

– Onde estamos? – perguntou Jordan.

– Num cibercafé. – Christian abriu a porta, fazendo tocar uma campainha presa à ombreira. – Foi o mais próximo que consegui encontrar a esta hora da noite.

Feliz por escapar à neve, Erin apressou-se a entrar no edifício aquecido. Lá dentro, parecia mais uma loja de conveniência do que um cibercafé – prateleiras de comida estendiam-se à esquerda e um armário frigorífico cobria uma das paredes. Mas ao fundo, duas cadeiras desdobráveis de metal aguardavam diante de monitores de computador e teclados, dispostos numa comprida mesa de jogo.

Christian falou com a mulher entediada atrás do balcão. Vestia-se de preto, com um piercing prateado na língua, que cintilava enquanto ela falava. Christian comprou um telemóvel, fazendo perguntas concisas em sueco. Quando terminou, passou-lhe uma nota de cem euros e dirigiu-se ao fundo da loja.

Ao balcão, Jordan pediu quatro salsichas do espeto rotativo, onde pareciam rodar desde o início do milénio. Erin adicionou duas coca-colas, pacotes de batatas fritas e um punhado de chocolates ao pedido.

Podia não ter oportunidade de comer de novo por muito tempo.

Jordan transportou o jantar num tabuleiro até ao posto dos computadores. Christian já estava sentado diante de um monitor, os seus dedos voando velozmente sobre as teclas.

Rhun pairava-lhe sobre o ombro.

– O que está a fazer? – perguntou Jordan, devorando uma salsicha.

– A verificar o plano de contingência que tracei com o cardeal Bernard.

– Que plano de contingência? – Pressionou Erin, esquecendo por um momento o chocolate desembrulhado.

– O cardeal queria manter a nossa querida condessa sob rédea curta – explicou Christian. – Caso ela cortasse as amarras e tentasse escapar, idealizei uma forma de lhe seguirmos o rasto.

Jordan apertou o ombro do jovem sanguinista com uma mão gordurosa, sorrindo.

– Colocou-lhe um localizador, não foi?

Christian sorriu.

– No interior do manto.

Erin retribuiu o sorriso. Se conseguissem seguir Bathory, havia uma boa possibilidade de localizarem o rapaz.

Rhun encarou o sanguinista mais jovem.

– Porque não fui informado disso?

– Terá de o esclarecer com Bernard. – Bernard baixou mais a cabeça, parecendo envergonhado com o subterfúgio.

Rhun suspirou pesadamente, irradiando raiva. Erin leu o entendimento nos olhos dele. O cardeal não confiara que Rhun não escaparia com a condessa. Depois de Rhun ter escondido Bathory durante séculos, Bernard não podia ser censurado por tal precaução.

– Pode demorar alguns minutos a apanhar o sinal e a fixá-lo – avisou Christian. – Por isso, ponham-se confortáveis.

Foi exatamente o que Erin fez, deslizando o braço em torno a cintura de Jordan e descansando a cabeça no calor do seu peito, ouvindo o pulsar do coração, apreciando cada sólida batida.

Após dez minutos a dedilhar no teclado e de lamúrias sussurradas sobre velocidades de ligação, Christian deu um murro na mesa – não de raiva, mas de satisfação.

– Apanhei-o! – declarou. – Apanhei o sinal dela no aeroporto.

Rhun deu meia-volta agitando a sua veste negra, arrastando consigo Christian, que rapidamente desligou o computador. Os dois sanguinistas apressaram-se, sem se darem ao trabalho de esconder a sua velocidade sobrenatural da empregada do balcão.

Alheada, a rapariga tinha o nariz afundado num livro de capa mole e cantos dobrados, com os auriculares do iPod firmemente enfiados nos ouvidos.

Jordan correu atrás deles, resmungando.

– Às vezes, só gostava que estes tipos precisassem de comer e dormir.

Ela agarrou-lhe de novo a mão e correram em direção à porta, acenando em despedida à rapariga atrás do balcão. Erin foi igualmente ignorada pelo desprezo da juventude.

Reprimiu um sorriso, sentindo subitamente a falta dos seus alunos.

 

23h18

Elizabeth acomodou-se num assento junto à janela do avião. O espaço era bastante similar àquele em que viajara anteriormente para ir até ali: luxuosos assentos de pele, com pequenas mesas acopladas. Só que, desta vez, não estava prisioneira num caixão. Ao tocar o lenço em volta do pescoço, a raiva inflamou-se dentro dela.

Olhou para fora da janela redonda. As luzes do aeroporto cintilavam, cada qual envolta num halo tremeluzente de neve. Encaixou o estranho cinto no sítio, cruzando o colo. Nunca usara tal restrição, mas Iscariotes e o rapaz tinham posto os deles, pelo que presumiu que também devia fazê-lo.

Olhou para a criança sentada ao seu lado, tentando entender o que a tornava tão especial. Ele era o Primeiro Anjo, um outro imortal, mas exteriormente parecia apenas um rapaz comum. Ouvia mesmo o seu coração a bater ao ritmo do medo e da dor. Depois de lhe ligarem as feridas piores, os seus novos captores deram-lhe um conjunto de roupas cinzentas para vestir, macias e soltas para não agredir a sua pele em carne viva.

Sweats, como lhes chamaram.

Voltou a atenção para o mistério sentado diante de si.

Judas Iscariotes.

Ele despira o casaco exterior e vestia um moderno fato de caxemira, de bom corte. Na mesinha entre eles estava pousada uma caixa de vidro, contendo a sua coleção de traças, à parte das três que esvoaçavam pela cabina. Ela sabia que aquelas permaneciam à solta como evocação do preço por qualquer desobediência, como se não o andasse a pagar há séculos.

O avião acelerou pelo terreno às escuras e coberto de neve. Ela apertou as mãos sobre o colo, deixando que o manto caísse sobre elas, para que Iscariotes não notasse o seu nervosismo. Procurou não imaginar aquele engenho metálico a lançar-se no ar e arrojar-se por centenas de milhas sobre mar e terra.

A natureza nunca previra tal coisa.

A seu lado, o rapaz reclinou o assento, claramente indiferente ao aeroplano e ao seu funcionamento. Diversos pontos de carmesim manchavam a sua roupa cinzenta, vertendo das centenas de fendas na sua pele queimada do gelo. O odor do seu sangue enchia a cabina, mas estranhamente não a tentava.

Seria o sangue dos anjos diferente do de todos os outros?

Ele afastou o cabelo castanho dos olhos. Era mais velho do que ela julgara a princípio, talvez tivesse catorze anos. A angústia no seu rosto lembrou-lhe o filho, Paul, quando sofria. A tristeza avultou dentro dela face à memória, sabendo que o filho estava agora morto, como todos os seus filhos. Perguntava-se o que teria sido feito do filho.

Teria tido vida longa? Teria sido feliz? Teria casado e tido filhos?

Desejava conhecer esses simples factos. A amargura subiu-lhe à garganta. Rhun roubara-lhe tudo isso, com um simples ato irrefletido. Ela perdera as filhas, o filho, todos aqueles que amara.

O rapaz mexeu-se no seu lugar com um leve gemido. Tal como ela, também ele perdera tudo. Rhun contara-lhe como os pais tinham morrido diante dele, envenenados por um terrível gás.

Tocou-lhe suavemente no ombro.

– Sentes muita dor?

Olhos incrédulos encontraram os dela.

Claro que sentia dor.

Um golpe sobre a sobrancelha coagulara e secara. Ele já sarava. Ela tocou a garganta, ainda latejante da ferida infligida por Nadia. Também ela estava a sarar, mas necessitaria de mais sangue.

Como que lendo os seus pensamentos, Iscariotes fitou-a rapidamente.

– As bebidas serão servidas dentro de momentos, minha cara.

Para lá da cabina, os motores tornaram-se mais ruidosos e o avião lançou-se suavemente no ar. Ela susteve a respiração, como se ajudasse o aeroplano a pairar. A nave subiu mais alto. O estômago afundou-se e depois estabilizou. A sensação recordava-a de saltar vedações montada na sua querida égua.

Finalmente, a trajetória estabilizou num suave deslizar, como um falcão no ar.

Ela retomou a respiração, devagar.

Iscariotes levantou a mão e o corpulento homem louro que os acompanhava desde o labirinto surgiu pesadamente na parte de trás do avião.

– Por favor, Henrik, traz bebidas para os nossos convidados. Talvez algo quente, depois de todo o gelo e frio.

O homem inclinou a cabeça e desapareceu.

A atenção dela regressou à janela, atraída pelas luzes que se tornavam cada vez mais pequenas lá em baixo. Voavam mais alto do que qualquer ave. A exaltação inundou-a.

Henrik regressou minutos depois.

– Chocolate quente – disse ele, inclinando-se para pousar uma caneca fumegante nas mãos do rapaz.

Depois ergueu uma pequena taça na direção dela. A arrebatadora fragrância do sangue quente flutuou até si. Notou o adesivo branco na curva do robusto braço do bruto, manchado de uma gota de sangue. Parecia haver pouco que os servos não fizessem pelo seu senhor. A opinião que tinha de Iscariotes engrandeceu.

Aceitou a taça e esvaziou o seu conteúdo cálido de um só gole. O calor e a beatitude estenderam-se do ventre aos braços, às pernas, às pontas dos dedos. A dor persistente no pescoço desvaneceu-se. Ela vibrava agora de força e deleite.

Como podiam os sanguinistas recusar tal prazer?

Rejuvenescida, voltou a atenção para o jovem companheiro. Recordou a conversa a bordo do comboio.

– O teu nome é Thomas Bolar.

– Tommy – corrigiu ele, brandamente, propondo algo mais íntimo.

Ela propôs-lhe o mesmo.

– Então, podes tratar-me por Elizabeth.

O olhar dele focou-se mais intensamente nela. Por seu lado, ela estudou-o. Podia tornar-se um aliado valioso. A Igreja queria-o e se ele fosse verdadeiramente o Primeiro Anjo, podia ter poderes que ela ainda não conseguia abarcar.

– Devias beber – disse ela, apontando a caneca nas mãos dele. – Vai aquecer-te.

Ainda fixando-a, ele levantou a caneca e sorveu delicadamente, estremecendo um pouco com a temperatura.

– Muito bem – disse ela, voltando-se para Henrik. – Traz-me toalhas limpas e água quente.

O louro mostrou-se surpreendido com o tom. Olhou para o seu senhor.

– Traz-lhe o que ela quer – ordenou Iscariotes.

Ela saboreou a pequena vitória e, momentos mais tarde, Henrik regressou com um recipiente e uma pilha de toalhas brancas. Ela embebeu a primeira toalha e estendeu-a a Tommy.

– Limpa o rosto e as mãos. Com cuidado.

Tommy pareceu prestes a recusar, mas ela manteve o braço estendido, até que, com um suspiro cansado, ele pegou na toalha. Pousando a caneca, cingiu o calor da toalha nas mãos e pressionou-a contra o rosto. Em breve, passava uma segunda toalha pelos braços acima, enfiando-a por dentro da camisola e deslizando-a sobre o peito. A expressão suavizou-se pelo simples prazer do calor húmido.

O seu olhar, também suavizado agora, encontrou de novo o dela.

– Obrigado.

Ela assentiu subtilmente com a cabeça e voltou a atenção para o homem de cabelo grisalho à sua frente. Quando o vira pela última vez, quatrocentos anos antes, ele envergava uma túnica de seda de tom pardo de nobre. Pareciam-lhe apenas meses, depois de perder séculos encurralada na armadilha de Rhun. Nessa altura, um anel de rubi adornava-lhe um dos dedos, anel que ele dera à filha mais nova de Elizabeth, Anna, em sinal do seu compromisso em proteger a família Bathory.

Mas porquê?

Perguntou-o agora.

– Porque me foi ver, quando eu estava presa no castelo de Čachtice?

Ele estudou-a por um longo momento, antes de responder.

– O seu destino interessou-me.

– Por causa da profecia?

– Muitos falavam das suas capacidades curativas, mente astuta e olhar penetrante. Ouvi murmúrios do interesse da Igreja em si, na sua família. Assim, decidi ver por mim mesmo se os rumores da sua sabedoria eram verdadeiros.

Então, ele fora farejar o rasto da profecia, como um cão de caça na pista de uma presa.

– E o que concluiu? – perguntou ela.

– Concluí que o interesse da Igreja podia ter validade. E decidi zelar pelas mulheres da sua linhagem.

– As minhas filhas. Anna e Katalin.

Ele anuiu.

– E muitas depois delas.

Um desejo intenso e doloroso invadiu-a, o de colmatar as lacunas do seu passado, conhecer o destino da sua família.

– O que foi feito delas? De Anna e Katalin?

– Anna não teve descendência. Mas a sua filha mais velha, Katalin, teve duas filhas e um filho.

Ela desviou o rosto, desejando ter podido vê-los, o gérmen e sangue da nobre casa de Bathory. Teriam possuído a beleza simples e encanto suave de Katalin? Nunca o saberia, pois também eles estavam há muito mortos.

Tudo por causa de Rhun.

– E o meu filho, Paul?

– Casou. A esposa deu-lhe três filhos e uma filha.

O alívio percorreu-a, sabendo agora que todos eles tinham vivido, tido vidas depois dela. Receava perguntar quanto tempo tinham vivido, como se tinham desenrolado as suas vidas. Por agora, contentou-se em saber que a sua linhagem não fora cortada.

Tommy largou a toalha na bacia ao lado do seu lugar e recostou-se na cadeira, cruzando os braços, parecendo mais tranquilo.

– Devias terminar a tua bebida – censurou ela, apontando a caneca. – Ajudar-te-á a recuperar forças.

– Que me interessam as forças? – murmurou ele. – Sou um simples prisioneiro.

Ela ergueu a caneca e estendeu-lha.

– Tal como eu. E os prisioneiros têm de preservar as suas forças a todo o custo.

Ele aceitou a caneca das suas mãos, os olhos castanhos curiosos. Talvez não tivesse percebido que ela era tão prisioneira quanto ele.

Iscariotes mexeu-se no seu assento.

– Não são prisioneiros. São meus convidados.

Tal como tinham dito todos os outros captores.

Tommy não parecia mais aliviado do que ela. Rodava a caneca, hipnotizado pelo seu conteúdo. Fora claramente um menino muito amado, era óbvio. Depois, fora arrebatado, ferido e abalado na confiança.

Por fim, Tommy ergueu o olhar, preparado para encarar aquele outro.

– Para onde nos leva?

– Para o vosso destino – respondeu Iscariotes, juntando os dedos em pirâmide e fixando o rapaz por cima deles. – São afortunados por estarem presentes num momento tão crucial.

– Não me sinto afortunado.

– Por vezes, não conseguimos entender o destino até estarmos perante ele.

Tommy limitou-se a suspirar audivelmente e a olhar pela janela, lá para fora. Passado muito tempo, Elizabeth notou-o a fixá-la, estudando as suas mãos, o seu rosto, tentando não o mostrar.

– O que é? – perguntou, finalmente.

Ele contraiu o semblante.

– Que idade tem?

Ela sorriu perante a descortês pergunta, compreendendo a sua curiosidade, apreciando o seu descaramento.

– Nasci em 1560.

Ele inspirou ruidosamente e ergueu as sobrancelhas de espanto.

– Mas dormi durante grande parte desses séculos. Não compreendo este mundo moderno como devia.

– Como a história da Bela Adormecida – observou ele.

– Não conheço essa história – retorquiu ela, merecendo um novo erguer de sobrancelhas. – Conta-ma. Depois, talvez me possas contar mais sobre esta era, mostrar-me como aprender a viver nela.

Ele assentiu, parecendo feliz pela distração – e talvez ela precisasse do desanuviamento, também. Ele respirou fundo e começou. Enquanto ela ouvia atentamente a sua narração de fadas e encantamentos, a sua mão quente deslizou sobre o braço da cadeira e aninhou-se na dela.

Ela sentiu os dedos quentes fechados sobre os seus. Para lá do seu poder e destino desconhecido, viu que ele era também um rapazinho jovem e solitário, privado de pai, privado de mãe.

Tal como Paul, após o seu julgamento.

Os seus dedos apertaram mais intensamente os dele, um sentimento raro a crescer dentro de si.

Proteção.

 

23h32

No banco traseiro do Audi cinzento-metalizado roubado, Jordan agarrava-se à pega lateral, enquanto Rhun acelerava por Estocolmo em direção ao aeroporto. Procurava ignorar os sinais vermelhos por que passavam. Tempos desesperados exigiam medidas desesperadas, o que não queria dizer que se quisesse enfaixar num semáforo.

Esperava que o dono do carro tivesse um bom seguro.

Agora na autoestrada, Rhun saltava de faixa em faixa, como se as linhas separadoras fossem mera sugestão. Christian seguia no lugar da frente, alheado do perigo, estudando o seu novo telefone, usando a rede móvel para seguir o rasto da condessa. Um instante atrás, referira que ela já tinha descolado, dirigindo-se para sul de Estocolmo sobrevoando o mar Báltico.

Rhun recusava-se a deixar-lhe mais avanço. Acelerava ao lado de um semirreboque, a lateral do automóvel a escassos milímetros do degrau de estribo do camião.

Erin aferrava-se ao braço de Jordan.

– É mais fácil se fechares os olhos – disse ele.

– Quando a minha morte chegar, quero vê-la.

– Eu já morri uma vez hoje. Não o recomendo, de olhos fechados ou abertos.

– Lembras-te de alguma coisa, quando estavas...?

As palavras morreram-lhe na garganta.

– Quando estava morto? – Ele encolheu os ombros. – Lembro-me de sentir o coice no peito e de cair no chão. Depois, tudo ficou escuro. A última coisa que vi foram os teus olhos. Parecias aflita, já agora.

– Estava. Ainda estou. – Ela pegou na mão dele com as suas. – O que recordas, depois disso?

– Nada. Nenhuma luz clara, nenhum coro celestial. Lembro-me vagamente de reviver o dia em que fui atingido pelo relâmpago. As linhas da minha tatuagem ardiam. – Coçou o ombro. – Ainda me incomodam um pouco.

– Assinalando a tua outra morte – disse ela, estudando-lhe o rosto, como que procurando um sentido naquele pormenor.

– Parece que o Céu não me queria nessa altura, nem agora. Fosse como fosse, a seguir fitava de novo os teus olhos.

– Como te sentes agora?

– Como se tivesse acordado na manhã de Natal, cheio de energia e pronto para seguir em frente.

– Ver-te aqui ao meu lado é como uma manhã de Natal para mim.

Ele apertou-lhe a mão enquanto Rhun carregava bruscamente nos travões, projetando Jordan contra o cinto de segurança.

– Chegámos – anunciou Rhun.

Jordan viu que estavam de volta ao aeroporto, estacionados junto ao jato.

Saíram rapidamente, apressando-se a continuar a perseguição.

Rhun e Christian conduziram Erin ao avião.

Enquanto Jordan os seguia, sentia a culpa de ter mentido a Erin instantes antes – ou, pelo menos, de não lhe contar toda a verdade.

Esfregou o ombro. Todo o seu lado esquerdo ardia com um fogo que recusava abrandar, seguindo as linhas fractais da sua flor relâmpago. Ele não sabia o significado desse ardor – apenas a sua origem.

Há algo dentro de mim.