Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 48 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 46

 

20 de dezembro, 08h09, CET

Cumas, Itália

Com uma mão sobre a garganta e lágrimas nos olhos, Erin viu o corpo de Leopold afundar-se no chão. Recordou um homem mais brando, o enrugar estudioso do seu olhar, o seu rebuscado humor autodepreciativo. Recordou acordar nos túneis sob Roma, certa de estar morta, descobrindo-o a segurar-lhe a mão e a usar os seus conhecimentos médicos para a reanimar.

O homem salvara-lhe a vida.

Contudo, os seus segredos tinham causado a morte a tantos.

Subitamente, o chão sacudiu-se violentamente, como se um punho tivesse sido desferido por debaixo dos pés. A nuvem negra em torno do altar contorceu-se e revoluteou, retalhando e vergastando. O ranger da rocha e o estrondear da pedra a cair ecoou dos túneis em redor.

– Hora de partir, pessoal! – bradou Jordan.

Erin ajudou Elizabeth com Tommy, enquanto corriam para a ponte. Rhun abria caminho, enquanto Bernard e Jordan seguiam atrás, com Arella suspensa entre eles. O chão continuava a tremer. Adiante, uma fenda abriu-se sobre o arco de pedra transpondo o rio, que se erguia cada vez mais alto das margens de pedra.

– Depressa! – gritou Erin.

Apressaram-se. Elizabeth distanciou-se rapidamente dela, mesmo sobrecarregada com o rapaz. Voou pela ponte, ultrapassando mesmo Rhun, que agora seguia nos seus calcanhares. Reuniram-se ao punhado de sanguinistas que guardavam os túneis de regresso à superfície, onde se encontrariam com Christian.

Erin correu, deparando-se com a parede fumegante do calor sulfúreo, abrasador depois do gelo da caverna. Receava a rocha escorregadia, mas não abrandou – sobretudo quando um pedaço de ponte se desmoronou, mergulhando na ebulição em baixo. Mais fendas se abriam sob os seus pés.

Subitamente, um grande abalo derrubou-a. Na ponta dos seus dedos, a extensão adiante caiu. Ela mediu o fosso impossível, enquanto um redemoinhar de vapor e água explodia do fundo.

Então, surgiu Rhun, voando pelo espaço como um corvo escuro. Aterrou junto a ela, pô-la de pé, depois nos seus braços e saltou sobre o fosso, de um ímpeto. Estatelou-se com ela no lado distante, amortecendo o impacto com o ombro e rolando-a para segurança.

Jordan...

Bernard saltou para junto deles, com a sibila nos seus braços. Jordan surgiu a voar ao seu lado. Ambos os homens aterraram de pé – embora Jordan tivesse de dar vários passos curtos para se equilibrar.

Atrás deles, todo o vão se despedaçou e esboroou no rio.

O calor e o vapor crestavam a pele de Erin e queimavam-lhe os pulmões.

– Continuem! – ordenou Bernard.

Como um todo, recuaram rapidamente pelo labirinto. Os receios latentes impeliam-na mais e mais para cima. Sentia o contínuo estremecer debaixo dos pés. Imaginou a escuridão a agitar-se nas profundezas. Porque não cessava?

Seria tarde demais?

Estariam os portões do Inferno ainda abertos?

 

08h15

Rhun corria ao lado de Elisabeta, enquanto esta carregava nos braços Tommy, o profetizado Primeiro Anjo. Lembrou-se de a ouvir gritar quando entrara na caverna fria.

Salva o rapaz!

Ele sabia, pela angústia na sua voz, que não fora a profecia a despoletar a necessidade de proteger o rapaz. Ela apertava Tommy contra o peito, a sua boca crispada numa linha de preocupação. O pulsar do rapaz persistia inconstante, fraco mas determinado, sintonizado com a expressão de Elisabeta. Rhun vigiava cada passo seu, pronto a segurá-la se fraquejasse. O sangue vertia de um milhar de golpes, mas ela parecia retirar forças de um poço bem mais fundo do que o de um strigoi.

Era o de uma mãe decidida a salvar o filho a todo o custo.

Erin e Jordan seguiam-nos e, no fim, o cardeal, que carregava a mulher de tez escura. Recordou a luz dourada que irradiara dela, evocando a convicção de Bernard de que ela era um anjo. No entanto, conhecia claramente Iscariotes e tinha alguma relação com ele. Mas porque procuraria um anjo o Traidor de Cristo?

Porque o procuraria quem quer que fosse?

Rhun fitou o sangue que lhe manchava a manga.

O sangue de Leopold.

Havia tanto por conhecer.

Finalmente, alcançaram o final do túnel e escaparam pelo ninho de pedras até à praia. O céu permanecia negro, escondendo o Sol. Olhou para Elisabeta. Por agora, mantinha-se a salvo do dia ocultado. Mas por fim caiu de joelhos com o rapaz, na areia. O sol levantado ainda pesava, claramente, sobre ela, debilitando mesmo a sua imensa força.

Rhun perscrutou o céu. O fumo alastrara pelo horizonte. O que quer que Iscariotes tivesse posto em ação, tirar o Primeiro Anjo do templo não o travara.

Parecendo igualmente preocupado, Bernard reuniu-se a eles e baixou a mulher sobre a areia. Ela não abriu os olhos, mas um braço moveu-se debilmente, roçando a face, como que para afastar teias de aranha.

Ela ainda vivia.

Elisabeta pousou delicadamente o rapaz junto dela, deitando-lhe a cabeça na areia e examinando-lhe o ferimento na garganta. Continuava a derramar sangue, embora talvez ligeiramente menos. Mas seria porque sarava ou porque simplesmente se esgotava de vida?

Elisabeta segurou-lhe a mão. Rhun não duvidava de que ela mataria quem quer que tentasse fazer mal ao rapaz. Recordou o feroz instinto protetor dela em relação aos filhos, mesmo quando assassinava os filhos dos outros. As suas lealdades eram inexplicáveis para ele.

O vento agitou-lhe a capa e um feixe de luz do dia filtrada incidiu-lhe sobre a face. Rhun correu para ela, mas a sua pele não ardia. Evidentemente, havia suficientes cinzas impuras a cobrir o ar para permitir aos strigoi caminhar sob aquele temível céu.

Ele imaginou a nuvem de cinza a rodear o mundo, despertando horrores há muito adormecidos em criptas, sepulturas e outros lugares desprovidos de Sol.

Elisabeta sentiu também a mudança, erguendo o rosto ao céu pardacento. Mesmo toldado de cinza, era o primeiro céu diurno que ela contemplava a olho nu há séculos. Examinou-o por um longo momento, antes de voltar a sua atenção para o rapaz ferido na areia.

Bernard avançou para o outro lado de Tommy. Despiu o casaco do fato e desapertou a camisa branca manchada de sangue, revelando a armadura oculta. Abriu o fecho de um compartimento estanque sobre o coração e tirou para fora um simples livro encadernado a couro.

Rhun arquejou face ao objeto.

Era o Evangelho de Sangue.

08h21

Ao vislumbrar o Evangelho nas mãos de Bernard, Erin ajoelhou-se junto à cabeça do rapaz. Conseguia sentir os séculos de profecia a pesarem-lhe sobre a pálida fronte. A cinza pousava-lhe no cabelo, ainda suave da idade. Mais partículas aterraram nas suas faces e lábios. Ela estendeu a mão e limpou-as, deixando-lhe um borrão ferruginoso na pele.

Ele não se moveu sob o seu toque, a respiração superficial e demasiado lenta.

Christian juntou-se a ela.

– O que se passa com ele? – perguntou Erin. – Em Estocolmo recuperou muito mais depressa. Porque não está a sarar agora?

– Não sei – sussurrou Bathory, brandamente, fitando-a, a dor irradiando do seu olhar, surpreendendo Erin com a sua intensidade. – Mas ouvi Iscariotes dizer que a lâmina usada era capaz de matar anjos. Mesmo agora, ouço o seu jovem coração a desvanecer-se. Deve ser algo contido nessa lâmina.

A condessa afastou o cabelo da testa do rapaz.

Bernard baixou-se sobre um joelho.

– Deixem-me colocar o Evangelho nas mãos do Tommy – disse ele. – Talvez a sua graça o salve.

Bathory escarneceu.

– Deposita a sua esperança noutro livro sagrado, padre? O outro serviu-nos assim tão bem?

Contudo, a condessa não opôs resistência, enquanto Bernard puxava as mãos do rapaz para o seu peito. Mesmo ela sabia que alguma esperança era melhor do que nenhuma.

Bernard depositou reverencialmente o livro nas mãos do rapaz. Quando o couro tocou a pele, a capa irradiou um brilho áureo por um breve instante depois apagou-se.

As pálpebras de Tommy entreabriram-se.

– Mãe...?

A condessa debruçou-se sobre ele, uma lágrima resvalando sobre a face do rapaz.

– É Elizabeth, meu corajoso menino – disse ela. – Estamos livres.

– Abre o livro, meu filho – instou Bernard. – E salva o mundo.

A profecia ecoou por Erin.

A trindade profética deverá levar o livro ao Primeiro Anjo e obter a sua bênção...

Ela olhou de Rhun, para Jordan, para Bathory.

Tommy esforçou-se por se sentar, para cumprir também o seu papel.

Bathory ajudou-o a endireitar-se, deixando as suas costas magras apoiarem-se contra si, tratando-o com toda a gentileza.

Tommy colocou o livro no colo e abriu-o na primeira página. Ele debruçou-se debilmente, procurando ler as palavras antigas em grego que aí se revelavam.

– O que diz? – perguntou com voz rouca.

Erin recitou-lhe as palavras.

Prenuncia-se uma grande Guerra dos Céus. Para que as forças do bem prevaleçam, deve ser forjada uma Arma a partir deste Evangelho escrito com o meu sangue. A trindade profética deverá levar o livro ao Primeiro Anjo e obter a sua bênção. Só assim poderão assegurar a salvação do mundo.

Enquanto observavam, aguardando, a cinza caía sobre as páginas abertas.

Nada mais aconteceu.

Tommy olhou o céu agitado lá em cima, depois o mar plúmbeo e tumultuoso adiante.

– O que mais devo fazer? – indagou, soando perdido e desesperançado.

– Tu és o Primeiro Anjo – disse Rhun, docemente. – Deves abençoar este livro.

Tommy pestanejou, expulsando a cinza dos longos cílios e olhando-o, duvidoso. Voltou-se para a pessoa em quem, claramente, mais confiava.

Bathory.

A condessa clareou a garganta de sangue, revelando a ferida ainda presente. A inquietação inundava-lhe a voz, ansiando por qualquer esperança.

– Pode ser como dizem.

– Eu não sou um anjo – desdenhou Tommy. – Não existem anjos.

Bathory sorriu-lhe, mostrando as pontas dos seus dentes afiados.

– Se há monstros no mundo, porque não anjos?

Tommy suspirou, revirando ligeiramente os olhos – não de desdém, mas da crescente fraqueza. Estava, visivelmente, a esmorecer de novo.

Bathory encostou uma mão à sua face.

– Acredites ou não, que mal faz acederes aos seus desejos e abençoares o maldito livro?

Bernard apertou-lhe o ombro.

– Tenta, por favor.

Tommy abanou a cabeça, em cedência, e ergueu uma mão sobre as páginas abertas do Evangelho. A mão tremia-lhe, mesmo desse pequeno esforço.

– Eu abençoo... este livro.

De novo, aguardaram, enquanto a cinza caía e o chão continuava a vacilar.

Não ocorreu qualquer milagre. Nenhuma luz dourada. Nenhumas novas palavras.

Um mal-estar cresceu em Erin.

Falhara-lhes alguma coisa – mas o quê?

Jordan franziu a testa.

– Talvez tenha de dizer alguma oração especial.

Christian vigiava a paisagem arruinada.

– Ou talvez seja este maldito lugar.

Bernard retesou-se e agarrou o braço de Christian em agradecimento.

– É claro! O Evangelho de Sangue só poderia ser transfigurado sobre os ossos sagrados de Pedro, na Basílica. Temos de levar o rapaz para Roma. Só aí o livro poderá ser abençoado!

Tommy abateu-se subitamente de encontro à condessa, a sua breve energia apagando-se como uma vela gasta. Uma gota de sangue rolou-lhe da ferida ainda por sarar.

– Ele nunca chegará a Roma – disse Bathory. – Mal lhe consigo ouvir o batimento cardíaco.

Rhun olhou para Erin, confirmando-o.

Um ténue suspiro atraiu a atenção de Erin para lá do seu ombro, para onde Arella jazia na areia. A mulher rolara de lado, mas agora caiu novamente de costas, embora não antes de fitar Erin, com os olhos cheios da mesma tristeza representada no desenho, a mesma mágoa com que olhara para Iscariotes.

Erin compreendeu a mensagem, aquela a que Judas não prestara atenção.

Estão errados.

Como se a sibila soubesse que tinha sido compreendida, os olhos fecharam-se-lhe por fim e o corpo perdeu as forças.

Perturbada, Erin moveu-se para o seu lado e pegou-lhe na mão, sentindo-a quente. Notou que areia húmida lhe cobria as pontas dos dedos. Um olhar para o lado – para onde Arella estivera inclinada – revelou um símbolo desenhado na areia.

 

Era uma tocha – desenhada apressadamente e encoberta pela cinza, mostrava um feixe de juncos atado e em chamas.

Atrás dela, Bernard dizia:

– Podemos ligar o rapaz aqui e aplicar-lhe pressão sobre a ferida durante a viagem. Ele irá... deverá sobreviver à viagem até Roma.

Christian apontou um segundo helicóptero parado na praia. Devia ter sido trazido pelos reforços do cardeal.

– Vou buscar o estojo de primeiros socorros. O aparelho deve ter combustível suficiente para chegar à Cidade do Vaticano. Não é mais de uma hora de voo. Uma vez no ar, alertarei o pessoal médico para estar a postos.

Bathory escarneceu.

– O rapaz não tem um ferimento natural. Não pode ser curado com a vossa medicina moderna.

Por uma vez, Erin viu-se a concordar com a condessa. Mesmo sem as capacidades curativas de Tommy, a ferida já devia ter começado a coagular.

Considerou novamente o símbolo.

Estão todos errados.

Enquanto Christian corria a buscar o estojo de primeiros socorros, Bernard experimentava deitar vinho consagrado na ferida, murmurando preces em latim. Limpou-a com a sua manga.

O sangue avolumou-se, fluindo agora mais intensamente.

Erin notou um vago brilho dourado, apenas evidente devido à obscuridade. Talvez assinalasse a sua peculiar essência angelical, o milagre que sustentava a sua vida, o mesmo milagre que, possivelmente, salvara Jordan em Estocolmo.

– Não sabe o que está a fazer – disse Bathory, arrancando as mãos de Bernard do rapaz. Apontou Arella. – Ela carregava a lâmina que o feriu. Ela deve saber mais sobre isso. Despertem-na.

Erin tentou, abanando o ombro da mulher, mas não obteve resposta.

– Temos de tirar o rapaz destas areias malditas e levá-lo para Roma – exigiu Bernard, quando Christian regressou. – Aí poderemos salvá-lo.

Erin recordou o aviso anterior de Arella.

Nem vocês, nem os sacerdotes podem salvar o rapaz. Só eu o posso fazer.

Erin voltou-se para Bernard e expressou em voz alta aquilo em que começara a acreditar.

– Estão todos errados.

Como que ouvindo a sua própria mensagem pronunciada, Arella moveu-se. O seu braço tombou debilmente na direção de Tommy, da sua garganta ensanguentada. Com o toque, uma gota de sangue parou de se derramar da ferida. Susteve-se aí. Depois, os dedos deslizaram e a gota inflou e derramou-se pela sua pele sem cor.

– Ela pode curá-lo – insistiu Erin.

Bathory anuiu.

– Foi uma arma de anjos que o feriu. Só um anjo poderá curá-lo.

– Como? – Questionou Bernard.

Erin fitou o símbolo, sabendo que era importante. A mulher não o teria traçado sem intenção. A sibila nunca traçava nada que não fosse importante. Recordou o esboço encontrado no cofre de Iscariotes.

– Uma tocha!

Erin chamou os outros a si e apontou a areia.

– Era um dos cinco símbolos inscritos no desenho, representando as cinco sibilas.

– E o que quer dizer? – indagou Bernard, enquanto Christian regressava.

– Ela está a tentar mostrar-nos para onde ir, como curá-lo. A tocha em chamas é o símbolo da Sibila Líbia, uma das profetisas que preconizaram a vinda de Cristo. Segundo a mitologia local, essas águas têm, supostamente, propriedades curativas milagrosas. Alguns acreditam que Cristo permaneceu aí, com Maria e José, depois de fugir ao massacre de Herodes.

– Conheço essas histórias – disse Bernard. – Mas a Sibila Líbia estabeleceu morada em Siwa, um oásis nos desertos do atual Egito. Do outro lado do Mediterrâneo. O rapaz nunca conseguirá sobreviver a tão longa viagem.

Erin reconheceu essa verdade e permaneceu em silêncio.

Tomando-o como aquiescência, Bernard endireitou-se.

– Levaremos ambos para Roma.

Gesticulou para Christian.

– Carregue o rapaz. Eu levo a mulher.

Bathory interpôs-se entre Christian e Tommy.

– Não fará tal coisa.

Bernard olhou-a em fúria.

– Se o rapaz não pode ser curado aqui, se não consegue chegar a Siwa, o quê então? – insistiu ele. – Pelo menos se o levarmos até Roma, à Basílica de São Pedro, talvez possa viver o suficiente para abençoar o livro e revelar os segredos contidos nele.

– Então não lhe importa verdadeiramente se o rapaz sobrevive? – contrapôs Jordan. – Desde que cumpra a sua função.

A expressão irada de Bernard respondeu-lhe.

Erin juntou-se a Bathory.

– A vida desta criança é mais importante do que quaisquer segredos.

Bernard confrontou-os, agitando um braço na direção do manto fúnebre que alastrava no céu.

– As cinzas continuam a cair. Aquilo que foi corrompido, ainda não foi sanado. Vimos os portões do Inferno escancararem-se debaixo do rapaz. O processo foi travado, mas é inevitável. Aquilo que foi aberto, tem de ser encerrado. Temos até ao pôr do Sol para o impedir.

– Porquê o pôr do Sol? – perguntou Erin.

Bernard olhou para os céus.

– Li as narrativas sobre este lugar. Se os portões do Inferno forem abertos durante o dia, devem ser fechados até à última luz do dia ou não mais poderão ser encerrados. E isso é mais importante do que qualquer vida, incluindo a do rapaz. A menos que atuemos agora, serão incontáveis as vítimas inocentes.

– Mas é esse ato que me parece duvidoso – disse ela.

Jordan manteve-se do seu lado.

– Estou com a Erin nisto.

A condessa manteve-se firme.

– Tal como eu.

Rhun olhou-os, incerto, hesitando entre eles e Bernard, que tinha o peso de uma dezena de sanguinistas atrás de si.

– O que propõe, então, Erin?

– Esqueçamos o Evangelho, a profecia, a salvação do mundo. Centremos todas as nossas forças em salvar este rapaz, uma criança que sofreu imensamente. Devemos-lhe isso. Ele foi martirizado com a imortalidade pelo simples ato de tentar salvar uma pomba ferida. Para mim, ele é essa pomba. Não vou deixá-lo morrer.

A mão fria de Bathory encontrou a sua. Os dedos quentes de Jordan cingiram-lhe a outra.

– Diz-se que as águas curativas de Siwa são tão poderosas, que a própria sibila as usava para se regenerar, para se manter imortal. – Erin baixou o olhar para a mulher, perguntando-se como um anjo podia parecer tão apagado e frágil. – Ainda podemos levá-los até lá, antes do pôr do Sol. Curá-los a ambos.

– O rapaz morrerá seguramente, antes chegar ao destino – argumentou Bernard. – Roma fica apenas...

Rhun cortou-lhe a palavra.

– Como planeia curar o rapaz em Roma?

– Temos médicos. Temos sacerdotes. Mas mesmo que não os houvesse, o mais importante seria abençoar o livro na Basílica de São Pedro.

Rhun franziu a fronte de desagrado.

– O que o torna tão certo de que o livro revelará os seus segredos em Roma?

– Porque tem de ser assim. – O cardeal tocou a sua cruz peitoral. – Ou tudo estará verdadeiramente perdido.

O olhar de Rhun oscilou entre Erin e Bathory.

– Bernard, está a dar demasiada importância a chegar à basílica.

– Foi onde o Evangelho de Sangue foi aberto e restituído ao mundo.

– Mas o livro foi levado até aí com base nas palavras de Erin e Bathory Darabont. Contudo, aqui estamos nós, com Erin de novo e outra mulher da família Bathory, ambas dizendo para levar o rapaz até Siwa. Embora não saibamos com certeza quem é a Mulher Sábia, neste caso pouco importa. Ambas instam a que se leve o rapaz para o Egito.

– Não somos só nós – acrescentou Erin, apontando Arella. – Uma outra mulher fá-lo também. Um anjo que, nas suas próprias palavras, o achou indigno no passado.

Bernard deu um passo atrás face às suas palavras, mas estas pareceram atiçar ainda mais a sua fúria.

– Roma está a apenas uma hora de distância – insistiu. – Vamos para a Basílica de São Pedro e prestaremos ao rapaz os cuidados de que necessita. Se eu estiver errado, pode ser aí preparado para a longa viagem até Siwa.

– Nessa altura, poderá ser tarde demais – argumentou Erin, gesticulando para o Sol toldado.

Christian desviou-se, fitando esses mesmos céus.

– O que quer que decidam, vou aquecer o helicóptero. Depois, dizem-me para onde ir.

– O Christian tem razão – disse Jordan, à medida que as cinzas caíam cada vez mais intensamente à sua volta. – Este ar conspurcado pode tomar a decisão por nós. Se a cinza se adensar mais, não vamos a lado nenhum.

Reconhecendo essa verdade, todos seguiram Christian. Rhun carregava Arella, enquanto Bathory mantinha a posse do rapaz. Momentos mais tarde, o motor do helicóptero expetorava roucamente na praia, sufocado pela cinza, antes de roncar de volta à vida. Erin protegeu os olhos da areia e cinzas agitadas pelas hélices.

Tornou-se impossível falar.

Uma vez junto ao helicóptero, todos subiram a bordo. Bathory passou Tommy a Erin, enquanto Bernard ajudava Rhun a instalar Arella sobre uma fila de assentos. Christian mal lhes deu tempo de se sentarem, antes de injetar os esforçados motores. Levantou voo da praia e dirigiu-se para as águas plúmbeas, fugindo ao turbilhão de fogo e fumo.

– Para onde? – bradou Christian da frente.

– Roma! – gritou Bernard, fitando o outro lado da cabina, desafiando-os a contestar.

Bathory fitou Erin com um brilho maligno no olhar. Ela retraiu-se, temendo o pior. Mas não era ela o alvo da condessa. Movendo-se num borrão veloz, Bathory virou-se sobre o vizinho, lançou um braço à volta da sua cintura e abriu de rompante a porta ao lado dele. Nenhum deles tinha posto o cinto ainda e ambos, Bathory e Bernard, tombaram de cabeça porta fora, agarrados um ao outro.

Erin debruçou-se presa pelo cinto, enquanto Christian virava o helicóptero, a porta batendo e abrindo ao vento. Ela viu os dois mergulharem na água em baixo e depois voltarem à superfície, ainda a lutar.

Jordan estendeu o braço e agarrou a porta, trancando-a.

– Isso resolve a questão – avançou ele, sorrindo, visivelmente apreciando o arrojado gesto de Bathory para pôr fim ao impasse.

Os três entreolharam-se.

Christian fitou-os, uma pergunta bailando-lhe nos olhos verdes.

Erin inclinou-se para diante e tocou o ombro do jovem sanguinista.

– Siwa – disse firmemente.

Christian fitou Rhun e Jordan, obtendo acenos de confirmação. Virou-se para a frente e encolheu os ombros.

– Quem sou eu para contestar a trindade da profecia?