Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 46 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 44

 

20 de dezembro, 07h38, CET

Ao largo de Itália

Rhun estava de pé à porta da ponte de comando, enquanto o hidrofólio se lançava em direção à costa. Seguindo o conselho de Erin, tinham traçado uma rota para noroeste da cidade de Nápoles, em direção a uma baía escura do mar Tirreno, na sombra do cone vulcânico onde a Sibila de Cumas estabelecera a sua morada.

Ondas negras agitavam-se contra o casco e a cinza golpeava a face descoberta de Rhun. Não cheirava a sangue, apenas a ferro e a escória e a enxofre. Quando a limpou da fronte, o pó de pedra cobriu-lhe as pontas dos dedos.

Os abalos tinham cessado, mas a erupção continuava, lançando fumo e cinzas no mundo, projetando jatos de lava ardente na escuridão, para lá da crista do cone. Erin dissera-lhes que aquela caldeira ficava no centro de um supervulcão mais vasto, designado Campi Flegrei. Ela alertou-os de que, se aquele pequeno fósforo ardente despertasse o monstruoso poço de magma por baixo de si, grande parte da Europa estaria condenada.

Quanto tempo ainda teriam?

Ele ergueu os olhos ao céu, procurando resposta – e não encontrou nenhuma. A aurora estava a despontar, mas sob a mortalha do vulcão, permanecia uma noite sem lua. As luzes da embarcação abriam um túnel por entre a neve escura.

No interior da cabina, Erin e Jordan cobriam o nariz e a boca com pedaços de tecido rasgado, como ladrões naquela noite sem fim, protegendo-se das cinzas cadentes.

Jordan exclamou, apontando o braço.

– Aquilo ali à esquerda é um helicóptero aterrado na praia?

Rhun viu que ele estava certo, ligeiramente irritado por o soldado o ter notado primeiro. Com a sua visão mais apurada, Rhun examinou-lhe a forma singular, as marcas distintivas, ambas identificando-o como a aeronave que os atacara.

– É o helicóptero de Iscariotes! – Confirmou aos outros.

Christian virou o hidrofólio nessa direção, varrendo as suas luzes pelo vulto do aparelho.

Em retorno, foram disparados tiros contra eles, atingindo uma das luzes, trepidando pela proa. Jordan e Erin agacharam-se. Christian injetou os motores, como se tencionasse abalroar o helicóptero ao alcançar a praia.

– Segurem-se! – gritou Christian.

Em vez disso, Rhun libertou-se da porta, deslocando-se para a proa. Ouviu a areia e pedra serem esmagadas sob os estabilizadores – e o barco parou, subitamente, com um sacão. Lançado para diante, Rhun saltou alto, aproveitando o impulso para voar para lá da amurada da proa e sobre a faixa restante de água. Aterrou suavemente na areia macia, perto do helicóptero. Detetou uma variação nas sombras e caiu sobre ela. O atirador vestia um blusão de piloto, em couro, e exibia as presas de um strigoi.

Rhun desferiu a sua karambit pela garganta da besta, fazendo penetrar o aço abençoado até ao osso. O piloto caiu de joelhos, depois de cara. Um lago espalhou-se pelo areal, enquanto o sangue negro procurava expulsar pelo fogo a santidade do corpo amaldiçoado, levando a vida com ele.

Rhun procedeu a uma inspeção rápida da praia coberta de cinza – depois, fez sinal aos outros para desembarcarem.

Enquanto caminhavam na sua direção, Rhun olhou do corpo morto para o céu escuro. Com o dia tornado noite, todo o tipo de criaturas podia circular livremente.

Jordan pegou em algo a reluzir por entre a cinza escura.

– Uma das traças de Iscariotes. – Passou o feixe da lanterna por outros fragmentos de brilho, que cintilavam à luz, como uma dispersão de esmeraldas sobre lama. – A traça na minha mão parece intacta. Aposto que as engrenagens e o mecanismo não resistiram a toda esta cinza.

– Mesmo assim, tenham cuidado onde põem os pés – alertou Erin. – Provavelmente, ainda contêm sangue venenoso.

Era um conselho válido.

Christian perscrutava o terreno, parecendo especialmente desconfiado.

Rhun juntou-se a ele.

– Como se sente?

Após um nervoso lamber dos lábios, ele respondeu:

– Melhor. Um pouco de vinho, um pouco de ar fresco... – Gesticulou ironicamente no sentido da neve escura. – Quem não se sentiria forte como um touro?

Rhun lançou-lhe um olhar avaliador.

Christian endireitou-se, ficando sério.

– Sinto-me... razoavelmente.

Rhun não podia, em absoluto, criticar a sua condução do veículo. Ele levara-os de volta à costa em menos de vinte minutos.

Para lá de Christian, Bernard investigava a praia, provavelmente procurando menos as provas da presença de Iscariotes, do que os reforços que solicitara durante o trajeto. A equipa não podia esperar muita ajuda imediata, apenas a de sanguinistas mais próximos de Nápoles. Roma era demasiado distante para conseguirem chegar ali a tempo.

Erin chamou, com a voz abafada pela máscara. Ela e Jordan tinham-se deslocado para mais junto dos penhascos.

– Pegadas! Aqui, na areia!

Rhun juntou-se a eles, levando consigo Christian e Bernard.

Ela apontou, enquanto Jordan varria com a lanterna. Mesmo polvilhadas de cinza, as marcas recentes eram claras, firmemente impressas na areia macia. Olhou para cima, as faces escorrendo de suor. O próprio ar queimava.

– Parece que se dirigiram àquele ninho de pedras.

Rhun assentiu e assumiu a liderança. Forçou o caminho por entre as rochas, até chegar à boca de um estreito túnel aberto na face do penhasco. Apesar da cinza que corrompia o ar e lhe secava as narinas, sentiu o hálito do enxofre que fluía desse túnel.

Jordan fez incidir a sua lanterna no interior, revelando uma longa garganta de rocha negra, matizada de veios ocres de enxofre.

– Isto deve conduzir às profundezas do monte vulcânico – disse Erin. – Provavelmente, levando às ruínas de Cumas e ao trono da sibila para nordeste.

E mais fundo ainda, aos portões do Inferno.

Bernard tocou no ombro de Christian.

– Fique aqui, com Erin e Jordan. Aguarde a chegada dos outros que convoquei. Uma vez chegados, sigam o nosso caminho. – Roçou um dedo com a lâmina. – Deixarei um rasto de sangue para seguirem.

Erin chegou-se à frente.

– Concordo que Christian deva ficar aqui, para conduzir os outros, mas eu vou agora. Conheço a sibila e a sua história local melhor do que ninguém. Poderão precisar desse conhecimento no labirinto lá em baixo.

Jordan concordou.

– É como ela diz. E eu vou, também.

Bernard aquiesceu, demasiado prontamente. Rhun queria argumentar mais veementemente, mas também ele sabia como era inútil contrariar Erin.

Entraram, deixando Christian a guardar a retaguarda e a preparar os eventuais reforços.

Rhun conduzia o caminho, seguido de Bernard. Notou como Jordan mantinha Erin em segurança, à sua frente. Livres da chuva de cinza, ambos tinham arrancado as máscaras, respirando mais facilmente, mas os rostos cobriam-se de sal e suor.

Rhun deslizou mais para diante, não necessitando de luz. Ele farejava o ar quando chegava a um cruzamento. Por entre o fedor sulfúreo, o olfato apurado de Rhun captava outros odores: um odor doce mais antigo, uma fragrância familiar, uma colónia almiscarada. O distinto trilho conduzia-o pela escuridão com a segurança de um mapa.

As passagens torciam-se e retorciam-se. Os seus ombros roçavam as paredes laterais, mas não abrandou. Bernard mantinha-se nos seus calcanhares ou seguia ao lado, quando conseguia. Bernard também notara claramente o trilho, ao mesmo tempo que assinalava o seu próprio trajeto com gotas de sangue.

Rhun alheou-se dessa nota carmesim, tentando ao mesmo tempo não ouvir o bater assustado do coração de Erin. Contudo, apesar do medo, ela prosseguia, inabalável na sua determinação e vontade. O coração de Jordan também batia acelerado, mas Rhun sabia que era mais por receio da segurança dela, do que pela sua.

Atrás dele, os feixes das suas lanternas oscilavam em diante, iluminando o caminho aos soluços. À medida que se moviam para mais fundo, notou gavinhas de negrume serpenteando pelo teto, assemelhando-se a um retorcer fuliginoso de trepadeiras vivas. Quanto mais fundo chegavam, mais espessas se tornavam as gavinhas, parecendo brotar das profundezas.

Levou uma gavinha ao rosto e tossiu repugnado quando a inalou. Fedia a enxofre, mas também a carne apodrecida, a corrupção, à escuridão de uma cripta antiga.

Trocou um olhar preocupado com Bernard.

Depois, a atenção de Bernard disparou para diante.

Distraído, com os sentidos perturbados pelo fumo escuro, Rhun quase não o percebera. O som abafado de pés descalços, um sussurrar de tecido – e os outros estavam sobre eles, lâminas cintilando na escuridão.

Strigoi.

Uma cilada.

Rhun e Bernard receberam o súbito ataque com prata e agilidade, os seus movimentos um borrão sincronizado. Os dois tinham lutado lado a lado muitas vezes nas suas longas vidas. Derrubaram os primeiros dois facilmente – mas mais surgiram dos túneis adiante, agitando a obscuridade com a sua maldição, enchendo-a com o sibilar da sua ferocidade.

Felizmente, os túneis eram estreitos, limitando o número dos que os conseguiam alcançar de uma só vez. Em lugar disso, o bando parecia mais determinado em detê-los, cansá-los. Talvez a vitória de Iscariotes não exigisse a morte dos sanguinistas. Apenas tinha de os controlar, para ter tempo suficiente de completar a sua missão ali.

O que oferecia esperança a Rhun.

Se Iscariotes enviava aquelas bestas para os impedir, devia haver algo que merecesse ser impedido.

Talvez não fosse tarde demais.

Rhun rangeu os dentes e continuou a lutar.

O som de tiros irrompeu mais atrás. Um olhar nessa direção revelou mais strigoi que surgiam à retaguarda. Ou tinham estado à sua espera ou tinham circundado o labirinto para virem em sua perseguição. A arma automática de Jordan penetrou os primeiros corpos. Erin também empunhava uma pistola, visível atrás do ombro do soldado.

– Ajude-os – disse Bernard. – Eu contenho a linha da frente.

Mas por quanto tempo?

Rhun voltou-se e juntou a sua lâmina à batalha na retaguarda, o trio trabalhando eficazmente em conjunto. Erin travava-os, com disparos bem posicionados em joelhos e pernas. Jordan metralhava cabeças, explodindo crânios. Rhun exterminava tudo o que se aproximasse.

Estavam a aguentar-se, mas o tempo esgotava-se.

Certamente, esse era o objetivo de Iscariotes.

Então, para lá da massa dos strigoi, figuras de vestes negras surgiram, abrindo caminho pela retaguarda, as suas cruzes de prata cintilando na escuridão.

Os reforços sanguinistas.

Christian conduzia-os, com lâminas em ambas as mãos. Abriu passagem a golpe de espada pelos strigoi restantes, para se juntar aos outros. Jordan saudou-o, feliz, com uma palmada no ombro.

Mais sanguinistas abriram caminho para chegar a Bernard.

Rhun seguiu-os.

Bernard apontou o labirinto de passagens em redor.

– Espalhem-se! Desimpeçam os flancos!

De novo em movimento, Rhun redobrou os seus esforços, dilacerando strigoi e forçando o grupo em diante. Mais à frente, o túnel alargou, revelando um rio subterrâneo, uma ponte e uma caverna iluminada por tochas do outro lado.

Rhun e Bernard repeliram os restantes strigoi até à beira do rio e para as águas ferventes, onde desapareceram. Os reforços sanguinistas avolumavam-se, cobrindo a retaguarda.

Erin juntou-se a Rhun, apontando por entre o sulfúreo vapor do rio. Formas vagas moviam-se ao longe, mas era inequívoco o cenário de um sacrifício.

– Depressa!

Como um todo, a equipa correu pela escorregadia pedra da ponte em arco.

Assim que o pé de Rhun tocou o chão do outro lado, o próprio ar alterou-se, tornando-se frio como um túmulo no pico do inverno. O bafo de Erin e Jordan tornou-se branco, enquanto arquejavam da mudança. Mas bem mais arrepiante era a horrível visão que os aguardava.

No centro da câmara, uma forma lívida jazia presa por cordas sobre uma pedra negra. Uma nuvem de bruma escura envolvia-a por completo, agitando-se e revoluteando, elevando-se até ao teto arqueado e alastrando por cada túnel, serpenteando tentáculos, em busca de ar aberto.

O lugar tresandava a ruína e corrupção.

O familiar vulto acinzentado de Iscariotes desenhava-se estático contra o fundo dessa terrível força, com uma expressão triunfante no rosto.

Para lá do altar, uma mulher estava suspensa da parede, a sua pele escura resplandecente, os seus olhos visivelmente inflamados.

– É ela! – exclamou Bernard, agarrando-lhe a manga.

Rhun ignorou o cardeal, fixando uma derradeira figura naquele teatro sinistro.

À direita, Elisabeta estava caída por terra, num lago de sangue escuro, mas que não parecia ser seu. Debatia-se sob um sem-número de strigoi. Outros jaziam mortos à sua volta. Um punhado de traças retorcia-se sobre a pedra fria, com as asas cristalizadas do frio.

Os seus olhos encontraram os dele, inundados de terror – mas não pela sua própria vida.

– Salva o rapaz!

 

07h52

Jordan aproximou-se de Erin, fazendo um rápido inventário.

Nesse momento de incapacitação aturdida, uma saraivada de strigoi irrompeu dos túneis mais próximos, de ambos os lados. Bernard ocupou-se dos da esquerda; Rhun tratou dos da direita.

Jordan impeliu Erin para diante, para longe daquele embate.

Fez pontaria à outra única ameaça direta na caverna.

Com a arma automática em riste, correu para o vulto vestido de cinza. Quando Iscariotes se voltou, Jordan atalhou qualquer réplica espirituosa. Disparou três tiros rápidos contra o peito do homem, concentrados no coração.

Iscariotes caiu para trás no chão, o sangue vermelho-vivo ensopando-lhe o casaco e a camisa branca e espalhando-se pela pedra.

– Devia-te essa, canalha – disse entredentes, friccionando o próprio peito.

Contudo, manteve a arma apontada ao homem. Iscariotes era imortal, provavelmente ia sarar, mas quanto tempo levaria? O rapaz demorara algum tempo a recuperar. Esperou o mesmo neste caso, mas mantinha a guarda. Um trilho de sangue carmesim corria pela rocha negra, como que atraído pelo escuro redemoinho.

O fluido congelou antes de o alcançar.

Erin avançou nessa direção, claramente pretendendo ajudar o rapaz.

Ele travou-a com uma mão no seu ombro.

– Espera.

Ela olhou-o.

– Achas que é venenoso?

– Acho que é bem mais do que isso – disse ele. – Deixa-me ir primeiro.

À medida que se aproximava, sentiu o persistente ardor no ombro arrefecer. A cada passo, as pernas tornavam-se pesadas. Era como se aquela força que se insinuava das profundezas pudesse estancar esse fogo dentro de si – e privá-lo de toda a energia. O peito doeu-lhe, subitamente, atraindo os dedos para o ponto onde fora atingido. Olhou para baixo, esperando ver sangue.

– Jordan?

– Não consigo...

Caiu de joelhos.

 

07h53

Rhun ouviu os disparos, viu Iscariotes sucumbir, momentaneamente incapacitado. Atrás de si, Bernard lutava à boca de um túnel, mantendo os strigoi encurralados desse lado. Rhun saltou sobre aqueles que mantinham Elisabeta cativa. Ainda no ar, estendeu os braços para baixo e arrancou dois dos assaltantes de cima dela, lançando-os violentamente sobre o bando que se avizinhava.

Esmagou traças com os pés ao aterrar, as criaturas estranhamente enfraquecidas pelo frio hostil.

Depois, carregou sobre a matilha, com a lâmina a cintilar.

Strigoi tombaram, o sangue derramando-se pela rocha.

Garras dilaceravam e presas rangiam contra ele, mas continuou a lutar, repelindo o bando de volta aos túneis. Finalmente, pareceram perder a vontade e fugiram para a escuridão.

Aproveitando a acalmia, rodou. Elisabeta lutava contra os seus quatro derradeiros assaltantes, arremetendo como uma leoa encurralada, sangrando de uma centena de golpes, tal como os atacantes.

De momento, criara-se um impasse.

Ele lançou-se para diante a fim de o quebrar.