Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 57 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 54

 

20 de dezembro, 17h33, CET

Siwa, Egito

Rhun sentiu os dedos prementes de Bernard no seu ombro. O hálito do cardeal roçou-lhe o pescoço, quando ele falou. Ouviu o restolhar do tecido e o ranger da armadura de pele, quando o seu mentor mudou de postura. Mas não lhe ouviu nenhum bater de coração .

O peito de Rhun estava igualmente silencioso.

Nenhum deles era verdadeiramente humano ou mortal.

O seu sangue ainda doía da explosão, relembrando-o de outra diferença essencial entre eles e toda a humanidade.

Somos amaldiçoados.

Embora abençoados e comprometidos no serviço da Igreja, continuavam a ser criaturas corrompidas, melhor relegadas à escuridão.

Assimilou as palavras de Bernard, perguntando-se se poderiam ser verdadeiras. Poderia o seu coração bater de novo? Poderia ter a sua alma de volta? Poderia reintegrar um mundo mais simples, em que poderia ter filhos, em que poderia sentir o toque da mão de uma mulher sem receio?

Raramente se permitia alimentar tal esperança. Aceitara a sua sorte como Sanguinista. Servira sem questionar por longos, longos anos. A sua única escapatória possível dessa maldição era a morte.

Mas, então, conhecera Erin, que questionava tudo e todos. Ela dera-lhe a força de vontade, não só para contestar o seu destino, como para ter esperança em algo mais.

Mas ousarei tentar?

Elisabeta surgiu diante dele, desviando-lhe os olhos do deserto para o seu rosto suave. Esperou rancor, azedume por lhe ser oferecida tal dádiva. Em vez disso, ela fez bem pior.

Tocou-lhe a face.

– Deves aceitar essa oferta. É o que sempre quiseste. – A sua mão fria demorou-se. – Mereceste-o.

Ele olhou-a nos olhos, vendo que lhe desejava verdadeiramente o que dizia. Ele acenou levemente, sabendo o que devia fazer, o que verdadeiramente merecera.

Afastou a mão dela do seu rosto e beijou-lhe a palma, em agradecimento.

Voltou-se para Erin, para o livro refulgindo-lhe levemente nas mãos, onde sempre pertencera.

A cada qual, o seu lugar.

Ele sabia que tudo o que tinha a fazer era tocar aquele livro e anunciar o seu maior pecado, e este ser-lhe-ia retirado, permitindo o regresso da alma ao amaldiçoado.

Erin sorriu-lhe, feliz por ele.

Bernard seguia-o, visivelmente extasiado por assistir àquele milagre.

– Estou tão orgulhoso de ti, meu filho. Eu sempre soube que se algum membro da nossa ordem viesse a ver a graça ser-lhe restituída, serias tu. Ficarás livre.

Rhun abanou a cabeça.

Eu nunca ficarei livre.

Ergueu a mão sobre o livro, evocando o momento em que se contorcera de dor no brilho sagrado de um anjo restituído, em que todos os seus pecados tinham sido expostos – incluindo o maior deles, essa mácula negra para lá de qualquer perdão.

As palavras do Evangelho ecoaram por si.

... poderá desfazer o seu maior pecado...

Voltou o rosto para o céu. Os seus amigos estavam errados. Rhun conhecia o seu maior pecado, tal como o conhecia aquele que escrevia as palavras nessa página.

Colocou, então, a palma da mão sobre o livro.

– Escolho desistir do meu maior pecado – proferiu Rhun. – Para que seja desfeito e restituído aquilo que roubei.

Erin pareceu confusa com as palavras – como era suposto.

Atrás dele, ouviu Elisabeta arquejar e sucumbir de joelhos.

Erin sussurrou-lhe.

– O que fez?

Em resposta, ele fitou Elisabeta. Ela comprimia as mãos sobre a boca e o nariz, como se pudesse afastar as garras do destino. Mas fumo negro insinuava-se entre os seus dedos, expelido para fora da boca e do nariz, formando uma nuvem negra diante dos seus olhos assustados. Depois, de repente, desceu em espiral e desapareceu deste mundo.

Ela deslizou as mãos da boca para a garganta.

E gritou.

Ela gritou e gritou.

O som ecoou pelo deserto, uma e outra vez.

Rhun tomou-a nos seus braços, acalmando-a, segurando-a.

– É como tem de ser – disse ele. – Como sempre devia ter sido.

Ele viu-lhe o rosto angustiado, amedrontado, ganhar cor. E pela primeira vez, em séculos, ouviu o seu coração bater de novo.

Rhun perdeu-se nesse ritmo, querendo chorar.

Os olhos de Elisabeta fitavam-no, esgazeados.

– Não pode ser.

– Pode, meu amor.

– Não.

– Sim – sussurrou ele. – Destruir a tua alma foi o meu maior pecado. Sempre.

O rosto dela enrubesceu, não da vida recuperada, mas de raiva. Os seus olhos argênteos escureceram para nuvens tormentosas. Unhas afiadas arranharam-lhe o braço.

– Tornaste-me mortal?

– És mortal – disse Rhun, agora hesitante.

Ela afastou-o, a sua força uma ínfima fração do poder anterior.

– Não o queria!

– O... o quê?

– Não te pedi que me transformasses em besta, nem te pedi que me devolvesses a isto. – Ela estendeu os braços. – Uma frágil e chorosa humana.

– Mas estás perdoada. Tal como eu.

– Não me interessa o perdão. O teu ou o meu! – Afastou-se dele. – Jogas com a minha alma como se fosse um adorno, que pudesses pôr e tirar a teu bel-prazer. Antes e agora. Onde está a minha escolha em tudo isso? Ou não importa?

Rhun procurou palavras para lho explicar.

– A vida é a maior dádiva.

– É a maior maldição.

Virou costas e afastou-se a passos largos, em direção ao deserto vazio.

Tommy foi atrás dela.

– Espere! Não me deixe!

O grito solitário e dorido do rapaz deteve-a, mas não se voltou para encarar de novo Rhun. Tommy correu para ela e abraçou-a por trás. Ela puxou-o para a frente e estreitou-o, agitando os ombros enquanto chorava com o queixo sobre a cabeça dele.

Bernard tocou no ombro de Rhun.

– Como pôde desperdiçar tal dádiva nela?

– Não foi desperdiçada .

A raiva inundava-o. Como podia Bernard ser tão néscio? Não entendia que os maiores pecados são aqueles que nós próprios cometemos e não os que são cometidos contra nós?

A condessa mantinha as costas voltadas para ele.

Ela acabaria por compreender e perdoá-lo.

Tinha de ser.

 

17h48

Erin fechou o livro e afastou-se dos outros. Jordan preparou-se para a seguir, mas ela pediu-lhe privacidade. Fitou no alto as estrelas e a Lua emergente, enquanto caminhava pela cratera, o único lugar onde não havia corpos e longe do caos de emoções deixado para trás.

Precisava de um momento de paz.

Alcançou o poço aberto.

A sacralidade ali presente, provavelmente advinda da espada preservada no fundo, mantivera a luta à margem do lugar. Olhou para trás, para a carnificina, de bestas e strigoi.

O seu grupo pagara um preço terrível, mas tinham sobrevivido.

Só que não todos.

Os seus olhos recaíram sobre o pobre Agmundr, evocando o seu imenso sorriso.

Obrigada por nos protegeres.

Recordou Nadia na neve e mesmo Leopold no chão da caverna. Tinham encontrado o fim longe da sua terra natal e longe daqueles que os tinham amado.

Tal como Amy.

Ajoelhou-se na borda da fonte e espreitou a água límpida. As estrelas refletiam-se aí, uma pincelada de Via Láctea refulgindo da água, recordando-a, simultaneamente, da pequenez e grandiosidade da vida. As estrelas lá no alto eram eternas. Escutou o silvar das areias pelas dunas em volta, sussurrando como milénios antes.

Aquele lugar fora por muito tempo um lugar sagrado e de paz.

Erin contemplou os painéis que contavam a história do primeiro milagre de Cristo e do que se seguira. Era um relembrar de que qualquer um podia cometer um erro, dar um passo em falso. Tal como Cristo, ela desconhecera as consequências fatais das suas ações em Massada, ignorara como os eventos trariam morte e repercussões futuras.

Olhou Bernard e um pensamento pouco caridoso atravessou-lhe a mente. Tanto derramamento de sangue teria sido poupado se o cardeal não tivesse ocultado tantos segredos. Se tivesse conhecido a importância da informação fatal que partilhara com Amy, Erin poderia ter sido mais cautelosa. Em vez disso, os segredos que os sanguinistas lhe tinham ocultado custaram a vida a Amy e a outros.

Centrou-se no livro que tinha nas mãos. Aceitando o manto de Mulher Sábia, não mais permitiria que as verdades lhe fossem ocultadas. As autoridades do Vaticano teriam de lhe abrir as suas bibliotecas e revelar todos os seus segredos, ou ela não cooperaria mais com eles.

O livro estava agora ligado a ela e usá-lo-ia para derrubar todas as portas.

Devia isso a Amy.

Procurou no bolso e tirou para fora a esfera de âmbar. Segurou-a à luz do luar, revelando a delicada pena no interior. O âmbar aprisionara-a, tão seguramente como as suas memórias guardavam Amy: para sempre preservada, nunca libertada para flutuar para longe.

Embora nunca fosse esquecer a sua aluna, talvez pudesse libertar-se de algo.

Inclinou a palma da mão para a frente, até o âmbar lhe deslizar para as pontas dos dedos. Depois, tombou para lá deles e caiu na fonte de água. Ela inclinou-se e observou a esfera a quebrar o reflexo de estrelas e a desaparecer naquela eternidade.

Agora, parte de Amy ficaria para sempre ali, no Egito, descansando num dos lugares mais sagrados da Terra, perto de segredos antigos que podiam nunca vir a ser descobertos.

Erin olhou para dentro do poço, fazendo uma promessa.

Nunca mais.

Não seria derramado mais sangue inocente para preservar os segredos dos sanguinistas. Estava na altura de a verdade se revelar.

Agarrou firmemente o livro e levantou-se.

Preparada para mudar o mundo.