Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 28 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 26

 

19 de dezembro, 20h59, CET

Estocolmo, Suécia

Erin seguiu o pompom branco e oscilante de Olga, contornando o palco do coro em direção a uma estreita ruela. O labirinto de gelo do festival fora criado numa praça vizinha, ainda escondido pelos edifícios de apartamentos de ambos os lados.

É claro que Rasputine escolheria um tal labirinto para o seu teste – um lugar frio e desconcertante. E àquela hora tardia, com o mercado encerrado, o monge russo apenas teria de colocar guardas nas várias entradas do labirinto para assegurar a privacidade no interior. Mas o que os esperava no coração do labirinto? Recordou o gigantesco urso blasphemare, que Rasputine mantivera enjaulado sob a sua igreja em São Petersburgo. Que monstros os esperariam ali?

Enquanto se encaminhava para a entrada da ruela, Erin era flanqueada por Christian e Jordan. Um breve olhar para a sua esquerda revelou Alexei a conduzir Rhun, Bathory e Nadia. Surgiram do lado oposto do palco e dirigiram-se para uma rua distinta. Provavelmente, levaria a uma outra entrada para o obscuro labirinto de gelo, um outro ponto de partida.

Rhun olhou na sua direção, chegado à boca da sua viela.

Ela ergueu um braço, desejando-lhe sorte.

Depois, as duas equipas desapareceram nas estreitas ruas, cada qual pronta a enfrentar o desafio adiante, a superar a outra pelo prémio no centro do labirinto: o Primeiro Anjo.

Quando o grupo de Erin penetrou na estreita viela, o olhar de Jordan percorreu as linhas direitas dos telhados de ambos os lados. Vigiava as portas maciças, preparado para qualquer ataque repentino. Das janelas geladas, a luz derramava-se sobre as pedras da calçada cobertas de neve. Sombras indistintas moviam-se pelos quentes interiores, os ocupantes alheados do perigo para lá das suas paredes de pedra e portas de madeira, cegos aos monstros que ainda assombravam a noite.

Por um momento, Erin desejou essa simples ignorância.

Mas o desconhecimento não significava segurança.

Com as mãos nos bolsos, sentiu a recordação de Amy, o quente pedaço de âmbar que preservava uma frágil pena. A sua aluna desconhecera igualmente esse mundo secreto – e este matara-a mesmo assim.

Depois de mais uns passos, a rua terminou numa outra praça. Erin parou abruptamente, detida pela pura beleza do que se estendia diante de si. Aquele labirinto não parecia ser uma simples reprodução de um dédalo de sebes. Adiante, erguia-se um verdadeiro palácio de gelo, ocupando toda a praça, elevando-se a trinta metros de altura, composto de pináculos e torreões, tudo feito de gelo. Centenas de esculturas encimavam as fachadas, cravadas de geada e recobertas de neve.

Não parecendo impressionada pela beleza, Olga conduziu-os por um arco gótico no muro mais próximo, uma das muitas entradas para o labirinto oculto no interior. Chegando mais perto, Erin admirou a perícia dos artesãos que o tinham esculpido, a forma astuta como tinham cortado os blocos de gelo, ligando-os com água gelada, como pedreiros de outros tempos.

Iluminado pelos candeeiros de rua amarelentos atrás dela, o portão de entrada tinha um brilho cítrico.

Olga deteve-se à entrada.

– Deixo-vos na vossa missão. O anjo espera-vos no centro do palácio.

A rapariga cruzou os braços, afastou as pernas e ficou imóvel como as estátuas no cimo das fachadas. Até mesmo o olhar ficou vazio. Um arrepio percorreu a espinha de Erin, recordada de que aquela menina era uma strigoi. A criança matava, provavelmente, há meio século ou mais.

– Eu vou primeiro – disse Christian, transpondo o arco, a sua veste negra contrastando com a luz dourada.

– Não.

Erin deteve-o com um toque na manga.

– É o meu teste. Eu devo ir em primeiro. Tratando-se de Rasputine, é melhor seguir todas as regras. Como Mulher Sábia, devo ser eu a encontrar o caminho seguro para o centro do labirinto.

Jordan e Christian trocaram olhares inquietos. Ela sabia que eles a queriam proteger. Mas não podiam protegê-la daquilo.

Erin ligou a lanterna, passou adiante de Christian e penetrou na passagem.

Imponentes paredes branco-azuladas erguiam-se de ambos os lados, com cerca de três metros e meio de altura, e sessenta centímetros de espessura talvez, abertas ao escuro céu lá no alto. A passagem entre os blocos era tão estreita que ela conseguia tocar ambos os lados com as pontas dos dedos de braços esticados. As suas botas esmagavam a neve tornada cinzenta pelos incontáveis visitantes.

Apontou a lanterna em volta. A cada passo, os construtores tinham inserido janelas de gelo transparente, proporcionando vislumbres distorcidos de passagens vizinhas. Chegou a uma arcada à esquerda e espreitou por ela, esperando encontrar mais uma ramificação do labirinto, mas em vez disso descobriu um pátio ajardinado em miniatura, onde todas as flores e latadas e arbustos eram feitos de gelo.

Apesar do perigo, um sorriso assomou-lhe ao rosto.

Os suecos sabiam como pintar um cenário de inverno.

Continuando, olhou para o céu nublado. Não havia estrelas a guiar os seus passos. Caía agora uma neve suave, silenciosa e límpida. Ao chegar a uma interseção, seguiu para a esquerda, fazendo correr as pontas dos dedos enluvadas ao longo da parede esquerda, relembrando um truque de criança. A forma mais segura de atravessar todas as partes de um labirinto era manter uma mão de um dos lados e segui-la. Podia chegar a becos sem saída, mas o percurso acabaria por ir dar ao centro.

Não era o caminho mais rápido, mas era o mais seguro.

Com Jordan e Christian no seu encalço, acelerou o passo, a luva deslizando por janelas de gelo, desbravando partes de parede feitas de neve. A luz da lanterna revelou outros espaços. Descobriu uma câmara contendo uma cama de quatro colunas e duas almofadas esculpida em gelo, encimada por um candelabro de gelo eletrificado com lâmpadas verdadeiras. Agora, estava apagado, mas tentou imaginá-lo aceso, o seu brilho refletindo-se na polida superfície gelada. Numa outra câmara, viu-se a fitar um imponente elefante de gelo, com as presas voltadas para a porta, servindo de pouso a uma fileira de pássaros finamente esculpidos, alguns aquietados no sono, outros de asas estendidas prontos a voar.

Apesar das maravilhas ali encontradas, o desassossego no íntimo de Erin crescia a cada passo, os seus olhos atentos a armadilhas. Que jogo estaria Rasputine ali a jogar? O teste não podia ser tão simples como encontrar um caminho naquele labirinto.

Perscrutou mesmo algumas das inscrições gravadas no gelo por visitantes, provavelmente adolescentes a julgar pelos corações com iniciais. Não encontrou nada de ameaçador, nenhuma pista para uma intenção mais obscura do monge russo.

Contornou mais uma esquina, certa de estar agora perto do centro do labirinto – quando o viu.

Uma das janelas de gelo, a sua superfície polida com a clareza do vidro, tinha um objeto preso no interior. Ela ergueu a lanterna, incrédula. Suspensa na janela, perfeitamente preservada pelo gelo, estava uma manta de retalhos suja cor de marfim, com um quadrado em falta no canto inferior esquerdo.

Horrorizada, Erin imobilizou-se e fitou-a.

– O que foi? – perguntou Jordan, apontando também a sua lanterna.

Como podia Rasputine saber daquilo? Como descobrira?

– Erin? – insistiu Jordan. – Parece que viste uma assombração. Estás bem?

Ela descalçou a luva e pressionou a palma da mão nua contra o gelo. O calor da sua mão derreteu a superfície, relembrando-lhe a última vez que vira aquela manta.

A pequena ponta do dedo de Erin percorreu a musselina cor de marfim. Quadrados unidos de tecido de tom verde formavam um padrão na superfície. A mãe chamava-lhe o padrão encadeado irlandês.

Recordava-se de ajudar a mãe a fazê-la.

Terminado o trabalho do dia, ela e a mãe cortavam e uniam quadrados à luz da vela. A costura da mãe não era tão perfeita como noutros tempos e, para o final, estava muitas vezes demasiado cansada para o fazer. Assim, Erin assumiu a responsabilidade da tarefa, cosendo cuidadosamente cada quadrado no lugar, os seus jovens dedos ficando mais céleres a cada um.

Terminou a tempo do nascimento da irmã Emma.

Agora, com apenas dois dias de vida, Emma repousava sobre essa mesma manta. Emma vivera toda a sua vida envolta nela. Nascera fraca e febril, mas o pai proibiu que se chamasse um médico. Decretou que Emma viveria ou morreria unicamente pela vontade de Deus.

Emma morreu.

Apenas podendo assistir, Erin vira a cor apagar-se do minúsculo rosto e mãos de Emma. A sua pele ficou mais pálida do que o marfim da manta sob ela. Não tinha de ter sido assim. A injustiça de tudo aquilo feriu Erin, disse-lhe que não podia mais aceitar as palavras do pai, os silêncios da mãe.

Teria de deixar falar o seu coração e teria de partir.

Olhando por cima do ombro, para se certificar de que ninguém a via, Erin tirou uma tesoura do bolso do vestido. O metal deslizou enquanto ela cortava um quadrado do canto da sua preciosa manta. Dobrou o quadrado e escondeu-o no bolso, depois envolveu a irmã na manta pela última vez, o canto em falta cuidadosamente dobrado para dentro, para que ninguém soubesse o que fizera.

O corpo da irmã estava envolto na manta quando o pai sepultou o pequeno ser.

Através do gelo, Erin percorreu o padrão irlandês em tons de verde, escurecido pelo bolor e pela idade. As pontas dos dedos deslizavam pelo gelo. Nunca esperara voltar a ver aquela manta.

Horrorizada, percebeu o que significava a sua presença ali.

Para a obter, Rasputine devia ter saqueado a sepultura da sua irmã.

 

21h11

Elizabeth corria pelo labirinto, arrastando Rhun pelas algemas de prata. Nadia seguia atrás, a sua eterna sombra negra. Os adversários humanos nunca poderiam superar a velocidade sobrenatural do seu grupo. Elizabeth não deveria ter dificuldade em alcançar o centro muito antes da erudita loura.

Embora pouco se importasse com as ambições dos sanguinistas, sabia que tinha de vencer aquela competição. Se o cardeal Bernard decidisse que ela não era a Mulher Sábia, a sua vida seria confiscada. Os dedos vaguearam de novo até ao lenço macio que lhe cobria a ferida na garganta. Era um golpe superficial, um relembrar da fragilidade da confiança que a ordem nela depositava. Se a fé de Bernard em si vacilasse, o próximo golpe seria bem mais fundo.

Assim, estabeleceu um passo rápido, memorizando cada volta no escuro. Não precisava de luz, enquanto avançava velozmente. Mas a cada passo, a garganta recentemente sarada doía-lhe do frio. O sangue de Erin reavivara-a, mas não o suficiente, nada que se parecesse com o suficiente. Surpreendera-a que a mulher tivesse oferecido tal dádiva – e ainda mais que Erin reconhecesse a natureza gravosa do ataque dos sanguinistas à sua integridade.

A mulher era cada vez mais intrigante para ela. Elizabeth começara até a compreender o fascínio de Rhun por ela. Porém, isso não impediria Elizabeth de derrotar a humana naquela missão.

As botas de Elizabeth trotavam pela neve, as suas pernas apressando-se em diante. Ignorou as distrações pelo caminho, aquelas câmaras esculpidas para atrair o olhar e excitar a imaginação. Apenas uma câmara lhe abrandara o passo. Era um espaço que albergava um carrossel de cavalos à escala real, feito de gelo. Recordava-se de ter visto algo assim em Paris, no verão de 1605, quando tais atrações começaram a substituir as antigas justas medievais. Recordou o deleite no rosto do filho Paul ao ver os resplandecentes trajes e corcéis empinados.

Uma mágoa pela família perdida, pelos filhos há muito mortos e netos nunca conhecidos, cresceu no seu íntimo.

Mas a dor e a raiva impeliam-na para a frente.

Continuando velozmente, espreitava pelas várias janelas de gelo, cada qual habilidosamente trabalhada, mas nenhuma fornecia pistas quanto à direção a seguir. Nas encruzilhadas, farejava o cheiro do frio e da neve, tentando encontrar no vento uma pista do caminho correto.

Então, do espaço à sua frente, chegou-lhe um vago ressoar, apontando uma presença furtiva. Nenhum pulsar acompanhava o ruído.

Strigoi.

Devia estar próximo do centro do labirinto.

Concentrando-se nos sons, acelerou de novo o passo – então, algo lhe captou a atenção pelo canto do olho. Algo congelado numa das janelas de vidro, como uma mosca no âmbar. Parou para o examinar, fazendo estacar Rhun, também.

Suspenso no meio do gelo, estava um objeto retangular do tamanho das suas duas mãos juntas. Um lustroso tecido negro envolvia-o estreitamente, atado por um cordão escarlate sujo. Ela sabia o que continha.

O seu diário.

O que está aqui a fazer?

Era suficientemente difícil imaginar que o livro tivesse sobrevivido aos estragos de séculos. E ainda mais difícil conceber que alguém o tivesse arrancado do seu esconderijo e trazido até ali.

Porquê?

O tecido lustroso era um oleado. As pontas dos dedos recordaram a sua superfície viscosa e visualizou a primeira página tão claramente como se a tivesse traçado no dia anterior.

Era um desenho de uma folha de amieiro, a par de um diagrama das suas raízes e caules.

Aquelas primeiras páginas tinham contido desenhos de ervas, listando as suas propriedades, os segredos dos seus usos, os lugares onde se poderiam encontrar no terreno do seu castelo. Ela própria desenhara as plantas e flores e escrevera as instruções com a sua melhor caligrafia, à luz de velas, durante as longas horas de inverno. Mas não se detivera por aí, recordando quando os seus estudos se tornaram mais obscuros, tal como o coração que Rhun obscurecera.

Elizabeth escrevera a última nota enquanto a jovem camponesa morria diante de si, o sangue brotando de uma centena de golpes. Elizabeth julgara-a mais forte do que isso. Calculara mal a morte da rapariga e o resultado revelara-se um fracasso. Sentiu uma pontada de impaciência, mas recordou-se de que mesmo tais fracassos lhe traziam conhecimento.

Atrás dela, uma outra rapariga choramingava na sua cela. Seria a próxima vítima, mas o seu destino poderia esperar pelo dia seguinte. Como que pressentindo-o, a rapariga encarcerada aquietou-se, pondo os braços em volta dos joelhos e embalando-se.

Elizabeth escrevinhou observações à luz da lareira, registando cada pormenor – quão rapidamente a primeira rapariga morrera, quanto tempo podia esperar antes de tornar semelhante vítima num strigoi, quanto tempo levava até cada vítima sucumbir nesse estado.

Elizabeth fazia experiências continuamente, com diferentes raparigas.

Lenta e cuidadosamente, aprendia os segredos de quem era, do que era.

Tal conhecimento só a tornaria mais forte.

Elizabeth ergueu a mão para tocar o gelo. Não pensara voltar a ver o seu diário. Escondera-o no castelo quando o seu julgamento se iniciara. Continha mais de seiscentos nomes, muito mais raparigas do que as que fora acusada de matar. Guardara-o em segurança nas profundezas do castelo, debaixo de uma pedra tão maciça que nenhum mortal a poderia levantar.

Mas alguém o fizera.

Provavelmente, a mesma pessoa que o trouxera para aquele labirinto, que ali o deixara para ela encontrar.

Quem? E porquê?

– O que está a fazer? – perguntou Rhun, notando o seu interesse.

– O livro é meu – disse ela. – Quero-o de volta.

Nadia impeliu-a para a frente.

– Não temos tempo para essas distrações.

Elizabeth recuou para a janela de gelo, marcando posição. Ela queria-o de volta. O seu trabalho ainda podia ser de valor.

– Temos, sim – insistiu ela, raspando a extremidade da algema pelo gelo, removendo a camada superior. – Eu sou a Mulher Sábia e eu decido como gastamos o nosso tempo. Sou eu quem está a ser testada.

– Ela tem razão – acrescentou Rhun. – Rasputine não quereria que interferíssemos. Ela deve sair-se bem ou fracassar por si mesma.

– Então, seja breve – aquiesceu Nadia.

Rhun juntou a sua força à de Elizabeth. Juntos, rapidamente furaram o gelo cristalino, até libertarem o livro. Com ambas as mãos, Elizabeth arrancou o precioso diário da sua gélida prisão.

Quando o segurou, notou formas indistintas ao longe. Embora distorcidas pelo gelo, as formas eram claramente mulheres e homens. Mais uma vez, não ouviu pulsações.

Deviam ser os strigoi que pressentira antes.

Subitamente, compreendeu que não havia necessidade de continuar a seguir aquele detestável labirinto. Havia um caminho mais direto para a vitória. Lançando o braço livre para trás, esmagou o cotovelo na janela de gelo, despedaçando-a.

Estilhaços de gelo voaram pela neve suja do coração do labirinto.

Rhun e Nadia inclinaram-se ao seu lado, espreitando pela abertura.

Elizabeth regozijou-se no meio deles.

– Ganhámos.