Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 5 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 3

 

18 de dezembro, 18h06, CET

Cidade do Vaticano

O cardeal Bernard reorganizou os jornais sobre a sua mesa polida, como se ao organizá-los em linhas perfeitas pudesse mudar as palavras que continham. Os terríveis títulos gritavam das páginas:

Assassino em série à solta em Roma

Homicida macabro ataca mulheres jovens

Polícia chocada com a brutalidade

A luz da vela era refletida pelo globo adornado de joias ao lado da mesa de trabalho. Girou a esfera antiga lentamente, desejando estar em qualquer lugar que não ali. Olhou para os seus livros antigos, os seus pergaminhos, a sua espada na parede, que remontava ao tempo das Cruzadas – objetos que colecionara durante séculos de serviço à Igreja.

Servi por muito tempo, mas terei servido bem?

O cheiro a tinta de jornal chamou-lhe a atenção de volta para as páginas. Os detalhes perturbaram-no ainda mais. Cada uma das mulheres apresentava a garganta cortada e o corpo esvaziado de sangue. Eram todas belas e jovens, de cabelo negro e olhos azuis. Provinham de todas as esferas sociais, mas todas tinham morrido na zona mais antiga de Roma, nas horas mais obscuras entre o pôr e o nascer do Sol.

Vinte no total, de acordo com a imprensa.

Mas Bernard conseguira ocultar muito mais mortes. Desde finais de outubro, somava-se uma nova vítima a cada dia.

Não podia ignorar o momento em que acontecera.

Finais de outubro.

As mortes tinham começado logo após a batalha travada nas criptas sob a Basílica de S. Pedro, uma luta pela posse do Evangelho de Sangue. Os sanguinistas tinham ganho a batalha contra a Belial, uma força conjunta de humanos e strigoi, dirigida por um líder desconhecido que continuava a atormentar a ordem.

Pouco depois da batalha, o padre Rhun Korza tinha-se eclipsado.

Onde estaria? O que teria feito?

Bernard afastou aquele pensamento.

Olhou para a pilha de jornais. Teria um strigoi solitário escapado da batalha, percorrendo as ruas de Roma à caça dessas jovens mulheres? Eram tantas as bestas nos túneis. Uma podia ter escapado à sua rede.

Parte dele rezava para que fosse verdade.

Não ousava pensar na alternativa. Aquele medo mantinha-o na expectativa, na indecisão, enquanto mais raparigas inocentes morriam.

Uma mão bateu à porta.

– Cardeal?

Reconheceu a voz e o vagaroso batimento cardíaco que lhe pertencia.

– Entre, padre Ambrose.

O sacerdote humano abriu a porta de madeira com uma mão, a outra fechada num punho frouxo.

– Lamento incomodá-lo.

Mas o assistente não parecia lamentar. Na verdade, a sua voz tinha um tom de satisfação mal disfarçada. Embora Ambrose o amasse claramente e servisse o cardeal com zelo, persistia no homem um minúsculo traço que encontrava um prazer perverso nas desgraças alheias.

Bernard reprimiu um suspiro.

– Sim?

Ambrose entrou no gabinete. O seu corpo bojudo inclinava-se para diante como um cão a seguir o faro. Olhou em torno da sala iluminada por velas, provavelmente certificando-se de que Bernard estava sozinho. Como Ambrose prezava os seus segredos. Mas talvez fosse por isso que prezava tanto Bernard. Passados tantos séculos, as suas veias eram percorridas por tantos segredos como sangue negro.

Por fim satisfeito, o assistente inclinou a cabeça em deferência.

– Os nossos encontraram isto no local do crime mais recente.

Ambrose encaminhou-se para a mesa e estendeu o braço. Lentamente, voltou a mão e abriu os dedos.

Na palma da sua mão estava uma faca. A sua lâmina encurvada lembrava uma garra de tigre. O gancho afiado tinha uma abertura numa das extremidades, por onde um guerreiro podia enfiar o dedo, permitindo ao manejador arremeter a lâmina numa infinidade de golpes mortais. Era uma antiga arma designada karambit, cujas origens remontavam a séculos atrás. E pela pátina que lhe cobria a superfície, aquela em concreto era bem antiga – mas não era nenhuma peça de museu. Estava claramente marcada pelas batalhas e pelo uso intenso.

Bernard tirou-a da mão de Ambrose. O ardor nas pontas dos dedos confirmou o seu pior receio. A lâmina era revestida a prata, a arma de um sanguinista.

Evocou os rostos das raparigas mortas, das suas gargantas abertas de lado a lado.

Fechou os dedos sobre a prata ardente.

Em toda a ordem, apenas um sanguinista carregava tal arma, o homem que desaparecera quando os assassínios tinham começado.

Rhun Korza.