Sangue Inocente
Capítulo 38
20 de dezembro, 05h38, CET
Mar Mediterrâneo
Uma tosse violenta irrompeu por Erin.
Sentiu o sabor do sangue, o odor do fumo.
Jordan apertou-lhe a mão com força.
Vivos– mas por quanto tempo?
A água submergia as janelas a toda a volta, enquanto a aeronave continuava o seu mergulho para as frias profundezas. As luzes de emergência vermelhas cintilavam, tingindo a cabina de tons carmesim. A água penetrava no interior, cobrindo lentamente a metade inferior.
Rhun debateu-se para avançar para diante com Bernard, alcançando Christian, que jazia imóvel preso pelos cintos de segurança. Lutaram para o libertar.
Seguindo-lhes o exemplo, Erin tateou apressadamente o botão de desbloqueio do seu cinto, que felizmente abriu. Jordan fez o mesmo, depois acendeu uma lanterna. Colocou uma mão contra a janela.
Quão fundo estariam?
As águas para lá da janela eram negras como petróleo.
Jordan desviou-se, quando Rhun se lhes juntou pela água, içando os braços de Christian. Bernard segurava-lhe as pernas. O sangue cobria todo o rosto do jovem sanguinista.
Estaria sequer vivo?
Jordan apontou para a janela.
– Temos de sair daqui. Rhun, tem força suficiente para quebrar esta janela?
– Creio que sim.
– Não – cortou Erin. – Não sabemos quão fundo estamos. A pressão poderia esmagar-nos. E mesmo que saíssemos daqui, duvido que conseguíssemos chegar à superfície de um só fôlego.
Jordan olhou-a de sobrolho franzido.
– Temos de tentar. Iremos afogar-nos na mesma, se não fizermos nada.
Rhun assentiu.
– Jordan tem razão. Farei o meu melhor por vos proteger e levar-vos à superfície. Bernard poderá carregar o corpo de Christian sozinho.
Erin apertou os braços em torno do próprio corpo, fitando a água crescente, agora já pela altura da anca, convencida de que eles estavam errados. Perscrutou o espaço e gritou de novo:
– Esperem! Há outra maneira.
Jordan olhou-a.
– Não vais gostar – disse ela.
– Qual é? – indagou Jordan.
Ela apontou a longa caixa, amarrada debaixo de água, aquela que Bernard trouxera para confinar a condessa.
– Poderia servir de veículo de fuga – propôs ela.
Jordan cerrou os maxilares, visivelmente não desejoso de colocar as suas esperanças de sobrevivência num caixão. Contudo, assentiu, reconhecendo que ela tinha razão.
Rhun soltou rapidamente as correias que prendiam a gigante caixa plástica ao chão e esta subiu até à superfície, provando ser flutuante.
– Deverá proteger-nos da pressão – disse Erin. – E deverá conter ar suficiente para chegarmos à superfície.
– São muitas suposições – observou Jordan.
Mas não havia melhor opção.
Enquanto Rhun mantinha a tampa aberta, Jordan entrou primeiro e estendeu-se de costas. Ergueu os braços, como que convidando-a a deitar-se. Ela trepou para o caixão, para os braços dele. Ele abraçou-a intensamente.
Rhun fechou a tampa da caixa, selando-os na escuridão. Ela ouviu os fechos a serem repostos. Na escuridão, concentrou-se no pulsar do coração do Jordan, sentindo-o martelar contra a caixa torácica e repercutir-se por ela. O calor do corpo dele queimava através das roupas húmidas, intenso depois da imersão no frio. Ela mexeu-se, notando o seu braço esquerdo mais quente do que o direito.
Antes que pudesse refletir sobre isso, Rhun bateu no exterior da caixa, provavelmente avisando-os para se prepararem.
Jordan puxou-lhe a cabeça contra o seu peito.
– Vai ser uma viagem agitada.
Ela ouviu um estalo e o sólido embater da água contra a parede lateral do caixão, empurrando-o para o outro lado da cabina. Ela rolou e foi impelida de um lado para o outro, no interior. Era como se um cão gigante tivesse abocanhado a caixa e a abanasse como um osso. Cerrou os dentes para evitar gritar.
Os braços de Jordan puxaram-na para mais perto.
– Eu protejo-te – disse-lhe ao ouvido.
Mas quem nos protege a nós?
05h42
Rhun lutou contra a força da água e içou o caixão pela janela quebrada. Ficou preso. Uma das pegas exteriores, normalmente usadas pelos portadores do caixão, enganchou num pedaço retorcido de metal.
Olhou para o lado e viu Bernard a subir por entre as águas escuras, batendo as pernas e carregando o corpo inerte de Christian nos braços. O cardeal rebocava, igualmente, uma jangada de emergência selada e esvaziada, atada por uma corda à cintura.
Só, Rhun posicionou os pés de cada lado do caixão, escorando-se contra a parede lateral dos destroços, enquanto estes se afundavam cada vez mais.
Usando toda a força das suas pernas e costas, impeliu a caixa, dobrando o pedaço retorcido de metal e vendo a pega exterior partir. Receou que a caixa se fendesse, imaginando a água a irromper pelo interior e a afogar Erin e Jordan.
Escutou o martelar assustado dos seus corações.
Não lhes podia falhar.
Deu novo impulso, alimentado pelos fracassos anteriores, recusando repeti-los.
Por fim, o caixão libertou-se – tão repentinamente, que o largou.
Rodou para trás pela água e viu a caixa começar a flutuar para cima, lenta, demasiado lentamente. Bateu as pernas e deu aos braços e alcançou o caixão. Empurrando por baixo, impeliu a caixa para cima, em busca do ténue reluzir de uma Lua distante.
A superfície parecia a uma distância impossível, apenas visível pela sua capacidade sobrenatural. Sabia que pouco ar restava no caixão, muito dele contaminado pelo fumo da cabina encurralada.
Tinha de se apressar.
Durante todo esse tempo, escutava o pulsar dos seus corações, cada qual distinto do outro, mas soando de algum modo em sintonia. Rezou para que esse coro silencioso perdurasse até alcançar a superfície.
05h45
Jordan sentiu o veículo de fuga romper as ondas. A firme trajetória ascendente cedeu de súbito, o seu estômago revolveu-se para se adaptar ao rolar do mar para lá daquela prisão. Um momento depois, ouviu os fechos soltarem-se e a tampa abriu-se de repente.
Enquanto flutuavam, ele inspirou fundo o puro ar salgado, saboreando a pressão do corpo de Erin contra o seu. Mas um tremor percorreu-a. Ele friccionou-lhe as costas, tentando expulsar o medo. Sentira o corpo dela lutar contra o pânico o tempo todo.
Rhun agarrou uma extremidade do caixão e içou-se para espreitar.
– Estão os dois bem?
Jordan assentiu.
– Obrigado pela boleia.
Erin soltou uma breve gargalhada, embora menos de divertimento pela piada seca, do que pela euforia do alívio. Mesmo assim, fora o melhor som que ouvira em muito tempo. Ela fez força contra ele e sentou-se.
Rhun apontou para a esquerda.
– Bernard insuflou uma jangada de emergência. Vou empurrar-vos até lá.
A cabeça escura de Rhun balanceava para cima e para baixo como uma foca, à medida que os impelia em direção a uma jangada redonda, um disco amarelo brilhante a rodar sobre a água. Viu que Bernard tinha o corpo de Christian estendido sobre ela, uma mancha escura contra o fundo amarelo.
A inquietação pelo seu novo amigo gelava-o por dentro.
Já tinham morrido demasiados sanguinistas.
Perscrutou o horizonte, mas aparentemente o outro helicóptero desaparecera há muito.
Ainda assim, não estavam sozinhos.
O ruído ecoante de um motor chegou-lhes aos ouvidos. Jordan olhou para lá da jangada, uma luz isolada precipitando-se na sua direção, oscilando sobre as ondas. Uma lancha semirrígida Zodiac. Claramente, viera da gigantesca plataforma petrolífera ao longe.
O mesmo local de onde o helicóptero atacante levantara voo.
Nada bom.
– Rhun! – gritou Jordan, sabendo que o sacerdote estava demasiado fundo na água para o detetar. – Temos companhia a vir direita a nós!
Se havia dúvidas quanto a serem amigáveis, foram dissipadas com o irromper de disparos, pontilhando a água escura, apontados ao alvo maior e mais reluzente da jangada.
Bernard mergulhou subitamente para o lado e desapareceu, abandonando Christian.
Significaria aquilo que o jovem sanguinista já estava morto?
Rhun abrandara a aproximação à jangada.
– Vamos deixá-los com Bernard. Entretanto, temos de ser um alvo menos evidente.
Sem aviso, o sacerdote ergueu-se sobre o caixão, despejando-os a ambos no mar gélido. Embora Jordan entendesse a necessidade, não aprovou necessariamente o método. Expulsou uma golfada de água quando veio à superfície. Apressou-se para Erin, sabendo que não era uma forte nadadora, nem entusiasta da água em geral.
Mas ela emergiu suavemente, os olhos assustados, mas determinados.
Rhun juntou-se-lhes.
– Alcancem a jangada, mas mantenham-na entre vocês e quem quer que apareça.
O padre seguiu à frente.
Em poucas braçadas, o grupo alcançou o refúgio flutuante, sem ousar subir para ele. Jordan espreitou por cima do bordo, enquanto o Zodiac encurtava a distância, abrandando. Avistou três homens: um piloto e dois atiradores com armas automáticas.
Na água, eram alvos fáceis.
Mas os recém-chegados desconheciam que havia, igualmente, um tubarão naquelas águas.
Bernard elevou-se subitamente a estibordo, uma longa lâmina reluzindo ao luar. Rápido como um relâmpago, golpeou todo o comprimento da lancha desse lado. O Zodiac inclinou-se de través, o motor engasgando, desequilibrando os homens armados. Uma mão lançou-se da água, agarrou um tornozelo e arrebatou um homem do barco. Foi atirado ao ar, mas não antes de Bernard lhe decepar a perna pelo joelho com um golpe selvagem.
O outro atirador disparou, mas Bernard já tinha desaparecido.
Enquanto o Zodiac continuava a estrebuchar, o segundo atirador rodava num círculo atento, vigiando as águas em volta. Então, subitamente, o barco abriu-se debaixo do homem, o fundo de lona dilacerando-se por baixo dele. O seu corpo foi abruptamente puxado por essa nova abertura e desapareceu.
O último homem – o piloto – injetou o motor a fundo e deu meia-volta ao barco, claramente desejando escapar para a segurança da plataforma petrolífera. Mas Bernard elevou-se do mar, como um golfinho em acrobacia. Aterrou por trás do piloto, agarrando-lhe o cabelo e golpeando-o no pescoço, quase lhe arrancando a cabeça.
Bernard lançou o corpo à água com um só braço.
Jordan tentou conciliar a imagem do piedoso homem de hábito com a daquele carniceiro selvático.
– Nadem para o outro barco! – gritou Rhun, suficientemente alto para Bernard o ouvir. – Rápido. Eu agarro Christian e encontramo-nos lá.
O sacerdote saltou e rolou sobre a jangada.
Erin e Jordan nadaram para o Zodiac. Bernard ajudou-os a subir para a embarcação arruinada. Jordan sabia que os Zodiac eram barcos resistentes, capazes de navegar com apenas um flutuador. Quando Jordan subiu atrás de Erin, Rhun já lá estava, rebocando Christian por um braço.
Ajudou Rhun a içar o jovem sanguinista para bordo.
– E agora? – questionou Jordan, enquanto Erin e Bernard assistiam Christian.
– Consegue pilotar esta embarcação? – perguntou Rhun.
– Sem problema – respondeu Jordan.
O sacerdote apontou a plataforma petrolífera.
– Estamos demasiado longe da costa. Nunca conseguiremos chegar a terra com este pequeno motor. Temos de arranjar outro meio de transporte para alcançar a costa.
Jordan fitou a estrutura altaneira. Apesar de o poder de fogo da equipa estar sepultado no fundo do oceano, tinham de ir para aquele ninho de vespas.
Ciente disso, Jordan cruzou o espaço e assumiu o volante, enquanto Erin se debruçava sobre o corpo de Christian.
– Ainda está vivo? – perguntou ela.
– É difícil dizer – admitiu Rhun, ajoelhando-se entre ela e Bernard.
Os olhos de Christian permaneciam fechados. Um golpe profundo atravessava-lhe a fronte. Jordan sabia que era inútil verificar a respiração ou o batimento cardíaco. Os sanguinistas não tinham nenhum deles.
O cardeal colocou a sua cruz de prata sobre a testa de Christian, como se lhe fosse administrar os últimos ritos. Passado um instante, Bernard ergueu a cruz, revelando uma marca cauterizada da sua forma sobre a pele do jovem sanguinista.
– Ele vive – declarou Bernard.
Rhun explicou, com alívio palpável na voz:
– Quando morremos ao serviço da Igreja, ficamos purificados. A prata abençoada não nos queima.
Erin pegou na mão de Christian.
– Mas ele precisa de cuidados médicos – alertou Rhun, fitando Jordan, enquanto este punha o motor a trabalhar. – A sua vida ainda pode ser reclamada.
Jordan apontou para a plataforma petrolífera.
– Então, vamos fazer uma visita aos nossos vizinhos.