Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 36 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 34

 

20 de dezembro, 03h13, CET

Mar Mediterrâneo

Tommy abriu a boca de espanto quando as portas maciças do elevador se abriram para um espaço imenso.

Depois de o hidrofólio ter acostado na base de uma das gigantescas pernas da plataforma petrolífera, o grupo dirigira-se a um elevador de carga industrial. Parecia decrépito e muito usado, um artefacto dos tempos em que a plataforma extraía efetivamente petróleo do fundo do mar Mediterrâneo. A indefinível gaiola de aço transportara-os para a plataforma elevada e para o interior da superestrutura construída no topo.

Iscariotes saiu à frente, flanqueado pelos seus dois gigantes.

Tommy seguiu-o com Elizabeth.

Esperara encontrar aí o mesmo aspeto industrial e decrépito. Mesmo vista de baixo, a superestrutura no topo parecera o castelo de proa de aço de um velho veleiro. Mas quando Tommy entrou naquele espaço, foi como se penetrasse na ponte do Nautilus do capitão Nemo. O espaço era uma harmoniosa combinação de aço e madeira, vidro e cobre, masculino porém elegante.

Imediatamente diante do elevador, erguiam-se altaneiras janelas, arqueadas em ponta, como as que se viam em catedrais góticas. As laterais mais distantes eram mesmo de vitral, representando cenas de pesca, de homens arrastando redes, de pequenos barcos com velas brancas. As restantes janelas ofereciam uma vista privilegiada sobre o mar. O luar incidia sobre ondas negras coroadas de branco e ténues nuvens prateadas.

Exigiu-lhe algum esforço desviar o olhar dessa visão. Sob os pés, uma espessa carpete vermelha forrava um pavimento que mostrava madeira sólida polida nas margens. Em cima, vigas de aço tinham sido pintadas de preto, os rebites de um cobre vivo. Uma claraboia cintilava no alto, também de vitral, mostrando aves marinhas em voo: albatrozes, pelicanos, garças-reais. Porém, no centro, pairava suspensa uma pomba branca de olhos esmeralda.

Tommy tropeçou num degrau, recordando a pomba ferida que procurara salvar em Massada. Iscariotes agarrou-lhe a mão, antes que ele caísse, olhando para a mesma claraboia, os seus olhos azul-metalizados regressando a Tommy com um brilho de curiosidade.

– Tens as mãos frias – disse Iscariotes. – Mandei acender o fogo para a nossa chegada.

Tommy assentiu, mas tinha dificuldade em fazer as pernas moverem-se. O resto do espaço estava decorado com cadeiras de couro e sofás generosamente almofadados, pregados com tachas de cobre. Havia também vitrinas e mesas, contendo sextantes de bronze, velhos telescópios, um grande sino de aço. Erguida diante da janela central, estava mesmo uma impressionante roda do leme, de madeira e bronze, claramente uma autêntica relíquia. Suspensa da parede, sobre essa mesma janela, havia uma velha âncora, atacada de verdete.

O tipo deve gostar de pescar, pensou Tommy.

Lançou um olhar de soslaio a Iscariotes.

Judas, relembrou-se, apesar da impossibilidade de tal. Mas, depois de tudo o que vivera ultimamente, porque não?

Elizabeth tocou-lhe no braço.

– Estás a tremer. Vamos levar-te para o calor.

Ele deixou-se conduzir até um grupo de cadeiras diante de uma imensa lareira. Estantes de livros erguiam-se de ambos os lados, estendendo-se do chão ao teto, tão altas que era preciso trepar a uma escada móvel para lhes chegar. A sua mãe teria gostado daquela sala, um espaço quente e acolhedor, repleto de livros para ler.

– Senta-te – ordenou Elizabeth, uma vez alcançando uma volumosa cadeira estofada. Ela arrastou-a para mais perto do fogo, revelando a dimensão da sua força.

Ele afundou-se nela, fixando entre as chamas os cães de lareira em forma de golfinho a dançar sobre a cauda. Todo o espaço cheirava a lenha, relembrando-o subitamente das viagens de esqui que fizera com os pais, antes de ficar doente.

Sobre a prateleira da fornalha, estava um tríptico de três mapas. Inclinou-se para mais perto, esfregando as mãos sobre as chamas crepitantes. O mapa do meio exibia o mundo moderno, mas traçado ao estilo antigo com uma escrita angulosa. O mapa da esquerda aparentava ser antigo, com extensas partes do mundo em falta. A carta da direita estava datada de 1502. Mostrava o extremo da América do Norte, pintado de verde, e uma parte mínima da América do Sul.

Elizabeth observou esse mapa mais de perto, agora com uma voz mais branda.

– Essa era a aparência do mundo quando eu tinha a idade que tens hoje.

O comentário apanhou Tommy de surpresa, recordando-lhe subitamente que ela tinha mais de quatrocentos anos de idade.

Tommy apontou o mapa do centro.

– Atualmente, esta é a aparência do mundo. Até já o traçámos visto do espaço.

– Do espaço? – inquiriu ela, olhando para trás, como que para ver se ele estava a brincar.

– Temos satélites gigantes. Máquinas. A orbitar lá em cima, algures entre aqui e a Lua.

Os olhos argênteos de Elizabeth turvaram-se.

– O homem foi assim tão longe?

– Até à Lua e de volta à Terra – disse Iscariotes, juntando-se-lhes. – A humanidade enviou aparelhos que circulam pela superfície de Marte e viajam para lá do nosso sistema solar.

Elizabeth deixou-se cair para trás, pousando uma mão nas costas da cadeira de Tommy para se apoiar.

– Tenho muito que aprender – confessou, parecendo avassalada.

Tommy estendeu o braço e tocou-lhe na mão gelada.

– Eu ajudo.

Os dedos dela curvaram-se e agarraram os dele – de início, demasiado forte, ameaçando quebrar os ossos, mas depois afrouxando, a força controlada.

– Gostaria que o fizesses.

Iscariotes suspirou, parecendo prestes a revirar os olhos.

– Antes que uma parte que seja disso possa acontecer, o Thomas tem de descansar, comer e recuperar as suas próprias forças.

A mão de Elizabeth voltou a apertar-se ligeiramente sobre a dele.

– E depois?

– Depois, ao amanhecer, o Thomas enfrentará o seu destino. Como todos nós, um dia.

Um arrepio percorreu a espinha de Tommy; um arrepio que o fogo não conseguia aquecer.

Que destino?

Um dos homens de Iscariotes chegou com um tabuleiro. Tommy agitou-se perante a visão e o aroma de um hambúrguer com batatas fritas e batido de chocolate.

– Achei que gostarias dessa ementa – disse Iscariotes, enquanto o tabuleiro era pousado ao lado de Tommy, numa mesinha de apoio. – Deves comer bem. O dia de amanhã será longo.

Tommy tocou no tabuleiro, recordando o conselho anterior de Elizabeth.

Alimentar-se para ficar forte.

Ele sabia que precisaria de todas as suas forças para escapar.

03h32

Elizabeth instalou-se numa cadeira em frente à do rapaz, junto à lareira, enquanto este comia. Mantinha as mãos estendidas para o agradável calor. As chamas reais aqueciam-na como nenhum dispositivo moderno conseguia. Fechou os olhos e deixou que o corpo absorvesse o fogo, imaginando o sol num dia quente de verão.

Agora quente e alimentada, devia sentir-se satisfeita – mas não sentia.

Não estou segura aqui – nem o rapaz.

Surpreendia-a o quanto esse último facto a perturbava. Iscariotes tinha planos para ambos e começava a suspeitar que ele não a trataria com mais brandura do que os sanguinistas.

Rodou o tornozelo lesado. Sarara o suficiente para não a retardar, se tivesse de fugir. Mas e o rapaz? Observou Tommy. Mostrava modos constrangedores, devorando tudo o que tinha no prato. O odor a carne grelhada e ao óleo da fritura repugnava-a, mas não o mostrou. Ela sabia que grande parte do apetite do rapaz era instigada pelo mesmo objetivo que o seu, manter-se forte e pronto para escapar.

Mas surgirá a oportunidade para o fazer?

Iscariotes vigiava-os como um falcão faminto, mesmo enquanto tomava a sua própria refeição: um bife mal passado e vegetais em manteiga. Usava faca e garfo de prata, os utensílios brasonados com uma âncora.

Por fim, Tommy suspirou de grande satisfação e reclinou-se na cadeira.

Ela estudou-lhe o rosto jovem. A cor regressara-lhe de novo às faces. Era estranho, mesmo para ela, a rapidez com que ele sarava. A comida dera-lhe claramente forças.

– Não consigo comer mais – declarou ele, abafando um arroto com o punho. Tornou-se, em vez disso, num longo bocejo.

– Devias descansar – disse Iscariotes. – Temos de estar de novo a pé antes do amanhecer.

Os olhos cansados de Tommy encontraram os dela. Não sabia, claramente, como responder.

Ela acenou impercetivelmente com a cabeça.

Não era o momento de confrontar o novo captor.

– Está bem – disse ele, levantando-se e esticando as costas.

Iscariotes gesticulou para Henrik.

– Leva o rapaz para o quarto de hóspedes e dá-lhe roupas lavadas.

Tommy examinou as suas calças e camisola, manchadas de sangue seco. Precisava claramente de roupa lavada.

Resignado, Tommy seguiu Henrik, não sem antes lançar um olhar preocupado a Elizabeth. Um olhar que feriu o coração silencioso dela.

Quando o rapaz partiu, Iscariotes moveu-se no sofá para mais perto da cadeira dela.

– Um pouco de sono irá fazer-lhe bem. – Ele enfrentou-a com os seus olhos azul-prateados. – Mas você tem muitas perguntas a fazer-me. Perguntas que é melhor colocar e responder sem o rapaz presente.

Ela cruzou as mãos no colo e decidiu começar pelo passado, antes de abordar o presente ou o futuro.

– Gostaria de saber mais sobre o destino da minha família.

Ele assentiu e, no decurso de longos e dolorosos minutos, contou-lhe sobre os filhos e os filhos deles, os casamentos, nascimentos e mortes. Era uma narrativa sobretudo trágica, de uma família caída em desgraça, uma vasta trama urdida com os fios dos pecados dela.

Este é o meu legado.

Manteve a expressão estoica e enterrou as palavras dele bem no seu íntimo. As Bathory não revelavam a sua dor. Dissera-o inúmeras vezes aos filhos, mesmo quando os quisera segurar nos braços e limpar-lhes as lágrimas. Mas não aprendera o consolo com a sua mãe e não o ensinara aos seus filhos. Essa força pesara-lhe, mas também a salvara.

Terminada a narrativa dos descendentes, ele perguntou:

– Mas não está curiosa sobre o mundo moderno?

– Sim – reconheceu ela –, mas estou ainda mais curiosa sobre o meu papel neste novo mundo.

– E suspeito que queira conhecer o papel do rapaz, também.

Ela encolheu os ombros, não admitindo nada. Permitiu-se um vestígio de sarcasmo na voz.

– Que tipo de monstro seria eu, se não me importasse com um rapaz tão corajoso?

– Que tipo de monstro, sem dúvida. – Uma insinuação de sorriso atravessou-lhe os lábios.

Ela percebeu a sua expressão satisfeita, deixando-o acreditar que ela era esse tipo de monstro, que pouco se importava com aquele rapaz. Pois era, de facto, tal monstro – ela matara muitos, pouco mais velhos do que Thomas. Mas por ele sentia uma estranha proximidade, e os que lhe eram próximos eram sagrados.

Iscariotes fixou-a com um olhar mais duro.

– O seu papel, minha cara condessa Bathory, é antes e acima de mais mantê-lo calmo e obediente.

Devo, então, servir de ama.

Mantendo a irritação afastada da voz, ela perguntou:

– O que planeia fazer com ele que exija tais serviços balsâmicos?

– Antes da madrugada, seguiremos para a costa, para as ruínas de Cumas. Aí, ele encontrará o seu destino, um destino de que poderá querer fugir. E embora a fuga seja impossível, se resistir, tornar-se-á mais difícil para ele.

Elizabeth voltou-se para as chamas.

As ruínas de Cumas.

Um fio de memória insinuou-se por ela, do tempo em que lera os antigos escritos de Virgílio e a história da Europa, como era preceito de toda a mulher nobre. Uma famosa profetisa vivera, outrora, em Cumas, uma sibila que previra o nascimento de Cristo. No tempo de Elizabeth, o lugar caíra em ruínas, as muralhas da cidade há muito destruídas.

Mas algo mais a incomodava, uma outra história de Cumas. O medo insinuou-se nos seus ossos, porém escondeu-o do rosto.

– Qual é o destino do rapaz em Cumas? – indagou ela.

E qual o meu?

– Ele é o Primeiro Anjo – recordou-lhe Judas. – E você, a Mulher Sábia. Juntos, forjaremos o destino de que Cristo me incumbiu, de O trazer de volta ao Seu mundo, de trazer o Seu Juízo sobre todos nós.

Ela evocou a confissão anterior de Iscariotes de tão grandioso propósito.

– Pretende iniciar o Armagedão. Mas como?

Ele apenas sorriu, recusando-se a responder.

Porém, ela recordou o último pormenor relativo a Cumas. Segundo as lendas romanas, o trono da sibila ocultava a entrada para o mundo dos mortos.

A porta de entrada para o Inferno.