Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 29 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 27

 

19 de dezembro, 21h21, CET

Estocolmo, Suécia

Erin desviou os olhos da manta congelada. Não podia permitir que os seus sentimentos pessoais a distraíssem do objetivo. Tinha de deixar esse pedaço do seu passado para trás e prosseguir. Adivinhava o seu propósito ali: Rasputine queria desorientá-la, atrasá-la.

Não lhe daria essa satisfação.

– Erin? – A voz branda de Jordan sussurrava-lhe ao ouvido.

– Eu estou bem. – As palavras soaram estranhas, claramente fingidas. – Vamos continuar.

– Tens a certeza? – As mãos quentes dele seguraram-lhe os ombros. Jordan conhecia-a suficientemente bem para ver além das suas palavras corajosas.

– Tenho a certeza.

Dessa vez, soou mais confiante. Não podia deixar que Rasputine percebesse como a tinha afetado. Se ele pressentisse nela fraqueza, usá-la-ia para abrir uma ferida ainda mais profunda. Assim, calou a dor e continuou a andar.

Devemos estar agora próximo do centro.

Apressou-se em diante, de novo fazendo correr as pontas dos dedos pela parede esquerda, movendo-se cada vez mais perto do coração do labirinto. Em mais duas curvas da passagem, entrou numa espaçosa câmara circular, as paredes feitas de neve acumulada, de novo aberta ao céu lá no alto, o topo das paredes guarnecido de ameias.

Tinham alcançado o torreão central do palácio de gelo.

No meio do espaço, erguia-se uma escultura de gelo à escala real de um anjo. Encimava um plinto, igualmente esculpido em gelo. A perícia era extraordinária. Parecia que o anjo acabara de aterrar, usando as maciças asas para descer sobre aquele pouso gelado. O luar tremulava pelas suas asas de diamante, cada pena perfeitamente definida. O próprio corpo estava vitrificado pelo frio num branco imaculado, o rosto coberto de neve voltado para os céus lá no alto.

Apesar da beleza da visão, Erin sentiu desilusão.

Reunido em baixo da escultura estava o grupo de Rhun, com a condessa a arvorar um sorriso presunçoso.

Perdi.

O juiz da competição estava ao lado da vencedora.

Rasputine ergueu um braço em saudação na direção dela.

– Bem-vinda, doutora Granger! Já era tempo de se juntar a nós!

O monge estava o mesmo de sempre, com uma simples veste preta que lhe chegava abaixo dos joelhos. Do pescoço, pendia-lhe uma proeminente cruz ortodoxa de ouro, em lugar da prata dos sanguinistas. O cabelo pela altura dos ombros parecia untuoso sob a luz fraca, mas os seus olhos azul-claros destacavam-se, dançando de diversão.

Ela enfrentou o seu olhar, desafiante, enquanto se aproximava.

Ele bateu as mãos pálidas e nuas, o som demasiado vivo para aquele espaço quieto.

– Infelizmente, parece ter chegado em segundo, minha cara Erin. Mas esteve perto, admito.

Bathory lançou-lhe um frio sorriso triunfante, provando mais uma vez ser a verdadeira Mulher Sábia.

Rasputine prosseguiu, voltando-se para Jordan.

– Como era aquela expressão astuta, sargento Jordan? A proximidade só importa com granadas de mão?

– Ou com ferraduras de cavalo – acrescentou Jordan. – Qual é o caso aqui?

Rasputine riu-se, um riso profundo.

Rhun carregou o olhar.

– Não viemos aqui para nos divertirmos com jogos, Grigori. Prometeu-nos o Primeiro Anjo. Conforme o acordo de Bernard, a sua casa em São Petersburgo, a Igreja do Salvador do Sangue Derramado, será reconsagrada pelo próprio papa. Sua Santidade conceder-lhe-á igualmente o perdão total e revogará a sua excomunhão. Se quiser, poderá fazer de novo os votos de sanguinista e...

– Porque havia de o querer? – exclamou Rasputine, interrompendo-o. – Uma eternidade de pio sofrimento.

Bathory inclinou a cabeça.

– De facto.

Erin manteve-se atrás, ignorando Rhun e Rasputine à medida que a discussão se tornava mais acesa. A exímia escultura captava a sua atenção. Agora, mais próxima, via a expressão de angústia naquele rosto pálido, como se a criatura alada tivesse sido lançada dos céus para aterrar naquele plinto, banida para aquele mundo terreno.

Era horrível e maravilhosa ao mesmo tempo.

Rhun continuou.

– Poderá regressar a São Petersburgo sabendo que a sua alma foi perdoada pela Igreja. Mas, primeiro, tem de nos entregar o rapaz, Grigori.

– Eu trouxe-vos o que prometi – asseverou Rasputine, gesticulando na direção da estátua. – Um belo anjo.

– Não pedimos tal escárnio da santidade – rosnou Rhun, dando um passo ameaçador para Rasputine, fazendo agitar o punhado de strigoi que se reunia junto aos limites da câmara.

– Está, então, a dizer que recusa a minha oferta? – indagou Rasputine. – Declina a minha generosa dádiva, quebrando o acordo?

Algo no olhar do monge se obscureceu, indicando um perigo, uma armadilha.

Cego a isso, demasiado enfurecido para o notar, Rhun começou a dizer a Rasputine onde podia meter o seu anjo gelado.

Erin interrompeu-o.

– Ficamos com ele! – bradou, antes que Rhun pudesse dizer o contrário.

Rasputine voltou-se para ela, o seu rosto endurecendo-se de raiva.

Erin abeirou-se da estátua, começando a perceber o grau de crueldade do monge. Descalçou as luvas e tocou no pé do anjo. O gelo derreteu sob as pontas quentes dos seus dedos. Ela correu a mão pela perna da estátua, retirando mais da camada à superfície para revelar o límpido gelo por baixo.

Ergueu a lanterna, apontando o feixe de luz para o coração da escultura translúcida. Praguejou e disparou um olhar irado a Rasputine.

– O que foi? – perguntou Jordan.

Ela desviou-se para lhe mostrar, para mostrar a todos.

Pelo espaço que ela limpara, uma perna humana nua brilhava entre o gelo.

A perna de um rapaz.

Um rapaz que não podia morrer.

Mesmo congelado.

Com um peso no estômago, ela voltou-se bruscamente para encarar Rasputine.

– Congelou-o num pedaço de gelo e esculpiu uma estátua em volta.

Rasputine encolheu os ombros, como se fosse a coisa mais natural a fazer.

– É um anjo, por isso tinha de lhe dar asas.

 

21h24

Jordan apontou a estátua e agarrou Christian pelo braço.

– Ajude-me! Temos de libertar o rapaz!

A criança devia estar em agonia.

Congelado até à morte, mas incapaz de morrer.

Juntos, arremeteram os ombros contra a secção média da estátua. Esta tombou para trás do plinto e esmagou-se na neve. Uma racha abriu-se ao longo do torso. Erin juntou-se a eles, ajoelhando-se. Esforçaram-se por limpar o gelo da forma encarcerada, cada um de seu lado, arrancando e quebrando pedaços de gelo.

Jordan retirou um pedaço do peito do rapaz, trazendo atrás uma parte de pele.

Rezou para que o rapaz estivesse mergulhado numa dormência glacial, tentando não o imaginar a ser largado em água gelada, aí selado e afogado à medida que o gelo se solidificava em redor. Apenas conseguia imaginar o sofrimento.

Erin limpava delicadamente em torno do rosto, expondo as faces, as pálpebras, quebrando o gelo no cabelo. Os lábios e ponta do nariz tinham rachado, perdendo sangue e voltando a congelar.

Rasputine observava, de braços cruzados.

– É claro que isto apresenta um problema – disse ele. – A condessa alcançou o centro do labirinto primeiro, mas Erin encontrou o anjo. Então, quem é a vencedora?

Jordan olhou-o, ameaçador, como se isso interessasse agora. Observava Erin, concentrada em libertar o rosto do rapaz, pressionando as suas mãos contra as faces e queixo e sobre as pálpebras fechadas. Parecia um processo inútil. Poderia levar horas a descongelar o rapaz, mesmo com um fogo próximo.

Mas Erin olhou-o, com expressão espantada.

– A pele está gelada, mas uma vez aquecida, a carne por baixo torna-se mole e flexível.

Intrigado, Rasputine aproximou-se.

– Parece que a graça que concede a Thomas a imortalidade resiste mesmo ao toque do gelo.

Porém, pelo esgar imobilizado no rosto do rapaz, tal graça não o impedia claramente de sofrer.

Jordan puxou de um pequeno estojo médico do bolso. Tirara-o da casa de banho em Castel Gandolfo. Abriu-o e tirou para fora uma seringa.

– Isto é morfina. Ajudará com a dor. Queres que lha injete? Se a parte central do corpo não tiver congelado e o coração ainda bater, mesmo debilmente, poderá oferecer-lhe alívio, especialmente quando acordar.

Erin assentiu.

– Injeta.

Jordan colocou uma mão sobre o peito nu do rapaz, sobre o coração. Esperou que a palma aquecesse a pele por baixo. Enquanto esperava, sentiu um fraco pulsar.

Levantou o olhar.

– Também o ouvi! – confirmou Rhun. – Ele está a mexer-se.

– Desculpa, amigo – murmurou Jordan.

Ergueu a seringa e inseriu a agulha na marca da palma derretida no peito, apontando ao coração. Uma vez inserida, puxou o êmbolo para trás, obtendo um satisfatório fluxo de sangue frio na seringa, indicando uma boa colocação. Satisfeito, empurrou o êmbolo para diante.

Erin penteou-lhe o cabelo gelado e sussurrou-lhe uma litania ao ouvido frio, aquecendo-o com o hálito.

– Perdoa-nos... perdoa-nos...

Esperaram todo um minuto, mas nada pareceu acontecer.

Depois de lhe friccionar as coxas, a barriga das pernas e os joelhos, Jordan ativou-lhe a circulação das pernas, dobrando-as com grande cuidado. Christian fez o mesmo com os braços.

De repente, Erin saltou bruscamente para trás, quando o seu magro peito se elevou, uma e outra vez.

Jordan fitou-o, enquanto as pálpebras do rapaz se abriam. Apesar da escuridão, as pupilas do rapaz mantiveram-se fixas e contraídas, sob o efeito da morfina. Os lábios abriram-se e um grito sufocado escapou, meio choro, meio dor.

Erin aninhou-o no seu colo. Jordan despiu o blusão de pele e envolveu nele o corpo e membros de Thomas, enquanto um violento estremecer lhe agitava o vulto descorado.

Rhun agigantou-se sobre Rasputine.

– O rapaz agora é nosso. Ganhou o seu perdão e o nosso assunto aqui fica concluído.

– Não – respondeu Rasputine. – Receio que não.

Mais strigoi penetraram pelas várias arcadas em volta da câmara, juntando-se aos poucos que já aí estavam e superando rapidamente o grupo. Muitos carregavam armas automáticas.

Os sanguinistas juntaram-se para enfrentar a ameaça.

– Vai quebrar a sua palavra? – perguntou Rhun.

– Quase o levei a quebrá-la quando esteve a ponto de recusar a minha oferta – contrapôs Rasputine com um sorriso. – Mas parece que Erin percebeu o estratagema. O que só torna a sua decisão mais difícil, Rhun.

– Que decisão?

– Eu disse a Bernard que entregaria o rapaz à Mulher Sábia. – Moveu o braço para abarcar Erin e Bathory. – Então, qual delas é? Tem de escolher.

– Porquê?

– A profecia apenas admite uma Mulher Sábia – disse Rasputine. – A falsa deve morrer.

Jordan levantou-se, movendo-se para o lado de Erin.

Rasputine sorriu perante o movimento.

– Claramente, o Homem Guerreiro escolhe a mulher amada, guiado pelo coração e não pela cabeça. Mas, meu caro Rhun, você é o Cavaleiro de Cristo. Assim, tem de escolher. Quem é a verdadeira Mulher Sábia? Qual das mulheres deverá viver? Qual deverá morrer?

– Não vou tomar parte no seu mal, Grigori – afirmou Rhun. – Não vou escolher.

– Isso envolve igualmente uma escolha – disse Rasputine. – E ainda mais interessante.

O monge bateu as mãos uma vez.

Os seus strigoi ergueram as armas.

Rasputine enfrentou Rhun.

– Escolha ou mato ambas.

 

21h44

Rhun olhou para Elisabeta e Erin, reconhecendo a cruel armadilha urdida por Rasputine. O monge era uma aranha que tecia palavras para iludir e torturar. Sabia, agora, que Rasputine viera ali tanto para o atormentar a ele, como pela absolvição prometida por Bernard. O russo entregaria o rapaz, mas não antes de fazer Rhun sofrer.

Como posso escolher?

Mas com o destino do mundo em jogo, como poderia não o fazer?

Ele viu como as linhas de batalha tinham sido traçadas na neve: strigoi de um lado, sanguinistas do outro. Estes últimos em inferioridade numérica, apanhados sem armas. Mesmo alcançando a vitória, ambas as mulheres seriam provavelmente mortas ou o rapaz seria rapidamente levado pelas forças de Rasputine durante a luta.

No silêncio que se estendeu, um estranho intruso insinuou-se no espaço, esvoaçando por entre os flocos de neve flutuantes, atravessando-se no meio dos dois pequenos exércitos. As suas asas verde-esmeralda captavam cada partícula de luz e refletiam-na. Era uma enorme traça, muito bizarra naquela paisagem glacial. O ouvido apurado de Rhun captou o ténue zunido vindo do interior, acompanhado pelo suave bater das asas iridescentes.

Ninguém se movia, cativados como estavam pela sua beleza.

Esvoaçava mais perto dos sanguinistas, como que escolhendo um lado na batalha que se avizinhava. Pousou no blusão de Nadia, no ombro, exibindo as extremidades das asas em cauda de andorinha, as escamas esmeralda cobertas de um toque de prata.

Antes que alguém pudesse reagir, exprimir-se quanto à estranheza, mais criaturas daquelas irromperam no espaço, uma vindas das passagens a toda a volta, outras descendo do alto com os flocos de neve.

Em breve, toda a câmara se agitava desses minúsculos fragmentos de brilho, dançando pelo ar, pousando aqui e ali, batendo as asas.

O zunido que Rhun notara antes tornou-se mais evidente.

Rhun estudou a traça pousada em Nadia, notou a matiz metalizada em torno do corpo.

Apesar das asas verdadeiras, aqueles invasores não eram criaturas vivas, mas construções artificiais, criadas por mão desconhecida.

Mas de quem?

Como que em resposta à questão, um homem alto penetrou no torreão de gelo pela mesma entrada usada por Erin. Rhun ouvia agora o bater do seu coração, não o tendo detetado antes no meio de toda aquela estranheza. Era um humano.

O homem usava um lenço verde-claro e um casaco de caxemira cinzento, que lhe chegava aos joelhos. Os tons realçavam o cabelo grisalho e os olhos de um azul-metalizado.

Rhun notou que Bathory estremeceu ao ver o homem, retesando-se ligeiramente, como se o conhecesse. Mas como poderia? Ele era claramente humano, daquele tempo. Teria encontrado o estranho durante os meses em que deambulara livre pelas ruas de Roma? Tê-lo-ia chamado para a libertar? Se assim fora, o estranho dificilmente podia esperar vencer contra os strigoi de Rasputine e os sanguinistas.

No entanto, não parecia minimamente nervoso.

Rasputine reagiu, também, à chegada do homem com uma expressão ainda mais incomodada do que Bathory. O monge afastou-se para a parede mais recuada, a sua habitual expressão sinistramente divertida transformada em horror.

Rhun gelou.

Nada naquele mundo alguma vez perturbava Rasputine.

Sabendo-o, Rhun lançou um olhar circunspecto ao estranho. Moveu-se para se colocar ao lado de Erin e do rapaz, pronto para os proteger dessa nova ameaça.

O homem falou, em inglês com um leve sotaque britânico, formal e estudado.

– Vim pelo anjo – proferiu com uma calma mortal.

Os outros sanguinistas postaram-se de cada lado de Rhun.

Jordan ajudou Erin a levantar-se, claramente preparando-se para fugir ou lutar. O rapaz estava sentado na neve aos seus pés, aturdido da debilitação e da morfina, envolto no blusão de pele de Jordan. Rhun sabia que Erin não deixaria o rapaz.

Por sua vez, os strigoi agruparam as suas pequenas formas diante de Rasputine, formando um escudo entre ele e o homem misterioso, as suas armas apontadas ao estranho.

O homem permaneceu imperturbado, de olhos postos em Rasputine.

– Grigori, por vezes, é demasiado astuto para seu próprio bem. – O homem gesticulou em direção ao rapaz. – Encontrou um outro imortal como eu há meses e só me alertou há horas...

Rhun esforçava-se por compreender.

Um outro imortal como eu...

Fitou o homem. Como era possível?

O estranho queixou-se tristemente.

– Pensei que tínhamos um acordo no que toca a tais assuntos, tovarishch.

A boca de Rasputine abriu-se, mas não saiu nenhuma palavra.

Uma outra coisa rara para o monge de língua afiada.

Christian e Nadia trocaram um rápido olhar com Rhun, confirmando a mútua confusão. Nenhum deles sabia nada daquele homem, daquele presumível imortal.

Bathory limitava-se a observar, com uma pequena linha calculista entre as sobrancelhas. Sabia algo, mas mantinha-se em silêncio, claramente disposta a ver como o caso se desenrolaria antes de reagir.

Os olhos do homem encontraram os dela e um sorriso cordial suavizou-lhe o semblante gelado.

– Ah, condessa Elizabeth Bathory de Ecsed – pronunciou formalmente. – Continua tão bela como quando a vi pela primeira vez.

– Reconheço que também se mantém inalterado – retorquiu ela. – Contudo, ouço o bater do seu coração e não consigo compreender como tal é possível, uma vez que nos conhecemos há muito tempo.

Ele entrelaçou as mãos atrás das costas, transpirando descontração. Respondeu-lhe, mas as palavras dirigiam-se a todos.

– À semelhança de si, sou imortal. Ao contrário de si, não sou strigoi. A minha imortalidade foi uma dádiva de Cristo em sinal do meu serviço à Sua pessoa.

Atrás dele, Erin arquejou.

Rhun também não conseguiu evitar o choque no seu rosto.

Porque concederia Jesus a imortalidade àquele homem?

Nadia falou, fazendo uma nova pergunta.

– Que serviço foi esse que prestou? – insistiu ela. – O que fez para que Nosso Senhor o abençoasse com a eternidade?

– Abençoasse? – escarneceu ele. – Sabe melhor do que ninguém que a imortalidade não é uma bênção. É uma maldição.

Rhun não podia argumentar contra aquilo.

– Então, porque foi amaldiçoado?

Um sorriso desenhou-se-lhe nos lábios.

– São duas perguntas ocultas numa só. Primeiro, pergunta o que fiz para ser amaldiçoado. Segundo, porque me foi dado tal castigo?

Rhun queria as respostas a ambas.

Como que lendo a sua mente, o sorriso dele alargou-se.

– A resposta à primeira é fácil. A segunda foi uma questão que me atormentou durante milénios. Tive de cruzar muitos séculos por esta Terra antes que a verdade do meu desígnio se tornasse evidente.

– Então, responda à primeira – instou Rhun. – O que fez para ser amaldiçoado?

Ele enfrentou o olhar de Rhun, imperturbável.

– Traí Cristo com um beijo no Jardim do Getsémani. Certamente conhece a história bíblica, padre.

Nadia arquejou, enquanto Rhun vacilava de horror.

Não podia ser.

Nesse silêncio atónito, Erin avançou, como que encarando a verdade da impossível existência daquele homem.

– E porque lhe foi imposta essa punição, essa eternidade?

O Traidor de Cristo voltou-se para Erin.

– Pelas minhas palavras, expulsei Cristo deste mundo. Pelos meus atos, irei trazê-lo de volta. É esse o desígnio da minha maldição. Abrir os portões do Inferno e preparar o mundo para o Seu regresso, para a Segunda Vinda de Cristo.

Para seu horror, Rhun compreendeu.

Ele tenciona desencadear o Armagedão.