Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 38 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 36

 

20 de dezembro, 05h06, CET

Mar Mediterrâneo

Judas estava no seu quarto, de novo vestido após um breve sono de uma hora.

Sentia-se refrescado, pleno de esperança.

Enquanto apertava a gravata, mantinha as costas voltadas para a imponente cama de quatro colunas. Para o ajudar a vestir-se, usava o reflexo no relógio gigante que cobria uma das paredes. A face superior de cristal estendia-se por quase dois metros e meio. Com as suas próprias mãos, construíra-o e reconstruíra-o em vinte moradas diferentes. O mostrador do relógio era igualmente de vidro, revelando as engrenagens e encaixes internos, todos de bronze, cobre e aço. Ele gostava de observar os mecanismos a marcar a interminável passagem da sua vida.

Agora, com uma mão precisa, parou o relógio. Já não precisava dele. A sua vida terminaria em breve. Depois de anos a rogar por aquele momento, em breve descansaria.

Uma pancada na porta perturbou os seus pensamentos.

– Entre! – bradou.

Voltou-se para ver Henrik a empurrar o Primeiro Anjo para dentro do quarto. Com o nascer do dia a poucas horas, ordenara que lhe trouxessem o rapaz.

Tommy esfregava os olhos, claramente ainda aturdido de sono.

– O que quer de mim?

– Apenas conversar.

O rapaz deixava transparecer que preferiria dormir mais.

Judas arrastou-o para a sua pequena secretária. Possuía um escritório mais amplo para tratar de negócios, noutra parte da plataforma, mas, por vezes, preferia a intimidade tranquila do seu próprio quarto.

– Nós os dois, Tommy, somos únicos neste mundo.

– O que quer dizer?

Judas pegou numa faca afiada para papel e golpeou o centro da palma da própria mão.

O sangue jorrou intensamente, mas ele limitou-se a usar um lenço para o limpar. A pequena ferida fechou rapidamente, sarando quase de imediato.

– Sou imortal, mas não como a tua condessa. Eu sou como tu.

Como prova, ele pegou na mão do rapaz com firmeza e colocou a palma da mão dele contra o seu peito.

– Sentes o meu coração?

Tommy assentiu, claramente intimidado, mas intrigado.

– Tal como tu, nasci como um rapazinho vulgar. Foi uma maldição que me concedeu a imortalidade, mas gostava de saber o que fizeste tu para merecer igual infortúnio.

Judas ouvira um relato geral da história do rapaz, mas queria ouvir os detalhes da própria fonte.

Tommy mordeu o lábio inferior, visivelmente hesitante, mas o rapaz ansiava por compreender o que lhe acontecera.

– Aconteceu em Israel – começou ele e, lentamente, contou a história da visita a Massada com os pais, do tremor de terra e do gás venenoso.

Nada nesse relato explicava a sua súbita imortalidade.

– Fala-me mais sobre o que aconteceu, antes do tremor de terra – pressionou Judas.

Uma expressão de culpa cobriu-lhe o semblante.

– Eu... fui a um lugar onde não devia ir. Sabia que não devia. Mas havia uma pomba branca no chão e achei que estivesse ferida. Quis levá-la dali para fora e pedir ajuda.

O coração de Judas martelava contra as costelas.

– Uma pomba branca com a asa partida?

– Como sabe? – Os olhos de Tommy semicerraram-se.

Judas afundou-se de encontro à mesa, as suas palavras carregadas de memória.

– Há dois mil anos, vi uma pomba assim. Quando era rapaz.

Não atribuíra importância ao encontro, mal pensando nisso, exceto que ocorrera na manhã em que conhecera Cristo, quando era apenas um rapaz de catorze anos, quando se tornaram rapidamente amigos.

Eu tinha a mesma idade que o Tommy, apercebeu-se repentinamente.

Evocava, agora, aquela manhã, com todo o pormenor: como as ruas ainda estavam sombrias, com o sol ainda não tinha nascido, como os despejos fediam nos drenos, como as estrelas ainda brilhavam.

– E a pomba que viu – disse o rapaz –, também tinha uma asa partida?

– Tinha. – Judas visualizou o branco fantasmagórico das suas penas na noite, a única coisa que se movia na rua escura. – Ela arrastava a asa pelas pedras lamacentas. Apanhei-a.

Sentiu-lhe a plumagem agora, roçando-lhe as mãos. A ave ficara quieta, a cabeça contra o polegar de Judas, fitando-o com um único olho esverdeado.

– Tentou ajudá-la? – perguntou Tommy.

– Apertei-lhe o pescoço.

O rapaz recuou meio passo, arregalando os olhos.

– Assim, sem mais nem menos?

– Havia ratos e cães. Ela teria sido despedaçada. Salvei-a dessa desgraça. Foi um ato de misericórdia.

Contudo, recordou-se de como depois se sentira perturbado. Correra para o templo para procurar consolo junto do pai, que era um fariseu. Fora aí que vira Cristo pela primeira vez, um rapaz da mesma idade, que impressionava o seu pai e muitos outros com as Suas palavras. Depois disso, os dois tornaram-se amigos, raramente se separando.

Até ao fim.

Agora, tenho de o corrigir.

O rapaz, a pomba, era tudo sinais de que o seu rumo era o correto.

Judas encaminhou o rapaz de volta à porta, de volta ao cuidado de Henrik.

– Prepara-o para a nossa partida.

Quando Tommy saiu, Judas regressou à secretária. Pegou num pedaço de cristal, que lhe cabia perfeitamente na palma da mão. Era a sua posse mais valiosa. Retirara-o do cofre do seu escritório e voltaria a guardá-lo antes de partir. Mas precisava do seu encorajamento naquela manhã em germe, precisando de sentir a sua solidez e peso nas próprias mãos.

O cristal continha uma frágil folha castanha suspensa no interior, protegida dos séculos pelo vidro. Ergueu-o à altura dos olhos e leu as palavras gravadas na superfície, outrora verde, com uma aguçada faca de pedra.

Segurou o objeto entre as mãos, pensando na mulher que escrevera aquelas palavras, evocando a sua luminosa pele escura, os seus olhos cintilando com um brilho tranquilo. Tal como ele, ela entendia verdades que mais ninguém podia entender. Tal como ele, ela vivera muitas vidas, vira muitos amigos morrerem. Sozinha na Terra, ela era sua igual.

Arella.

Mas aquela simples folha pusera fim ao melhor século da sua longa vida – aquele que partilhara com ela. Fora em Creta, onde a casa deles dava para o oceano. Ela odiava estar longe do mar. Ele mudara-se com ela de Veneza para Alexandria, para Constantinopla, para outras cidades que davam para as ondas. Teria vivido em qualquer lugar para a ver feliz. Naquela década em particular, ela quisera simplicidade e quietude.

Então, ele escolhera Creta.

Olhou pela janela do quarto, agora, fitando as ondas escuras. Desde esses dias, também ele nunca estivera longe do mar. Mas nesses tempos, ele contemplara-a mais intensamente do que as águas em perpétua mudança. Naquela noite, ela estava diante de uma janela, com as portadas abertas sobre a noite.

Judas abriu agora a sua própria janela e inspirou o ar salgado, recordando os sons e aromas dessa noite de há muito.

Da sua cama, ele contemplou a silhueta dela a mover-se contra o céu estrelado.

O cheiro do oceano inundou o quarto, a par do suave desenrolar das ondas na areia. Ali perto, uma coruja chamou a companheira e foi correspondida. Uma semana antes, ele vira o par sobre uma oliveira, cada ave pouco maior do que dois punhos juntos.

– Ouves as nossas corujas? – perguntou ela, voltando-se para ele.

A luz da Lua refletia-se do seu cabelo cor de ébano, um anel caprichoso caindo-lhe sobre o rosto. Ela ergueu a mão para o afastar, um gesto que ele vira milhares de vezes. Mas a mão deteve-se, o corpo retesando-se de uma forma igualmente familiar.

Judas abafou uma imprecação e levantou-se rapidamente.

Quando se abeirou dela, viu os seus belos olhos vazios.

Também isso era familiar.

Agora, as profecias derramar-se-iam por ela. De cada vez, ele odiava aquilo, pois nesse estado, ela ficava para lá do seu alcance, para lá do alcance de si mesma, varrida pelas ondas do tempo, essa força de maré a que era impossível resistir.

Como sempre, ele seguia as instruções dela. Retirava folhas frescas de um cesto de junco no canto e pressionava-as contra o seu cálido braço esquerdo. Todos os dias, ela apanhava folhas para esse fim, embora as profecias apenas ocorressem uma ou duas vezes por ano.

Ele dobrava-lhe os dedos da mão direita em torno da antiga faca de pedra.

Depois, deixava-a sozinha.

Mantinha uma silenciosa vigília à porta do quarto. Por vezes, as visões duravam meros minutos, outras vezes, horas. Demorasse o que tempo que demorasse, ela não devia ser interrompida.

Felizmente, nessa noite, ela foi poupada.

Após um único minuto, ela voltou a si e pediu-lhe que entrasse.

Quando ele entrou no quarto, ela estava deitada na cama, enrolada numa bola. Ele tomou-a nos seus braços e acariciou-lhe o longo e espesso cabelo. Ela voltou o rosto contra o peito dele e chorou. Ele embalou-a de um lado para o outro e esperou que a tormenta passasse. Sabia que não devia perguntar-lhe sobre a origem da sua mágoa. Era uma maldição que ela tinha de suportar sozinha.

Geralmente, as folhas em que ela escrevia as suas profecias jaziam espalhadas pelo chão e ele reunia-as, enquanto ela dormia, e queimava-as no fogo.

Era como ela desejava, como ela lhe pedira. Nenhum bem alguma vez adviera do seu dom, dissera-lhe ela. As profecias eram meras visões, não encerrando certezas, mas o seu conhecimento levara muitos homens a forçarem a sua concretização, frequentemente sob o aspeto mais maligno.

Porém, em segredo, ele lia cada folha antes de a queimar, registando muitas das suas palavras, e mesmo imagens por ela desenhadas, num diário de couro grosso que usava para as contas da casa. Ela nunca lia aquele livro, nunca se preocupando com detalhes financeiros.

Confiava nele.

Naquela noite, quando a respiração dela se aquietou no sono, ele desenleou-se do seu abraço e levantou-se para apanhar a única folha, que jazia à beira do fogo.

Uma única profecia, nessa noite.

Sentiu a folha macia sob as pontas dos seus dedos. O aroma a árvores verdejantes flutuou até ele. As frases inscritas chamavam-no. Segurando a folha junto às chamas da lareira, ele leu as palavras que lhe percorriam a superfície em linhas incertas.

Depois de as Suas palavras, escritas com sangue, serem retiradas da prisão de pedra, aquele que O levou deste mundo intervirá para O trazer de volta, desencadeando uma era de fogo e sangue, lançando um pano mortuário sobre a Terra e todas as suas criaturas.

Incrédulo, delineou cada palavra com um dedo trémulo. Leu-as uma e outra vez, desejando que o seu sentido não fosse tão claro. Já sabia que Cristo escrevera um Evangelho com o Seu próprio sangue e o aprisionara na pedra. Judas registara outras profecias relativas a esse livro, que ela inscrevera em folhas no século findo, mas não lhes atribuíra importância. Nunca pensara que as profecias dela lhe poderiam dizer respeito, até àquela linha que dizia : «Aquele que O levou deste mundo.»

Não podia ser outro que não aquele que traíra Cristo.

Todos os outros envolvidos na morte de Jesus, há muito que se tinham tornado pó, mas Judas perdurara. Fora poupado para um propósito.

Para aquele propósito.

Tão poucas palavras, mas cada uma delas confirmava os seus piores receios sobre a maldição. Uma vez desenterrado o Evangelho perdido, Judas tinha de trazer Cristo de volta. Para tal, era o seu dever dar início ao fim dos tempos– uma era de fogo e sangue.

Um restolhar de folhas chamou a sua atenção. Ela estava sentada, tão bela à luz do fogo como a qualquer luz.

Os olhos dela viram o que os seus dedos seguravam.

– Leste isso?

Ele desviou o rosto, mas sentiu o olhar dela a queimá-lo.

– Leste-as todas? – questionou ela.

Não lhe podia mentir, voltando-se para ela.

– Eu queria preservá-las, para o caso de mudares de ideias, para que o teu dom não se perdesse para o mundo.

– Dom? Não é nenhum dom. E cabia-me a mim decidir o que fazer com ele. Acreditei que tu, mais do que qualquer homem no mundo, o compreenderias.

– Pensei que te prestava um favor.

– Como? Quando? Durante cem anos, traíste-me.

Um fio de lágrimas cintilou à luz do fogo. Ela passou as costas da mão por uma das faces macias. Ele fora contra os seus mais profundos desejos, uma e outra vez. Ele leu nos seus olhos que não haveria perdão para os seus atos.

– Fi-lo por ti – murmurou ele.

– Por mim? – A voz dela endureceu. – Não pela tua própria curiosidade?

Ele não tinha resposta a essa questão, em vez disso colocou-lhe uma outra. Ergueu a folha.

– Quanto tempo? Quanto tempo até que esta profecia se cumpra?

– Não passa de uma profecia. – O seu rosto era uma ardósia em branco, onde ele não conseguia ler nada. – Uma possível visão do futuro. Não implica certeza, nem necessidade.

– Será assim – insistiu ele.

Ele reconhecera a sua verdade no instante em que lera as palavras.

Ele traíra Jesus.

Agora, tinha de trair o mundo dos homens.

– Não podes sabê-lo. – Ela cruzou o espaço para se colocar diante dele. – Não podes fazer essa coisa obscura baseado nas minhas palavras. Nada neste mundo está definido. Como todos os homens, foste imbuído de livre vontade por Deus.

– A minha vontade não importa. Tenho de encontrar o Evangelho de Cristo. Tenho de pôr esses acontecimentos em movimento.

– Uma profecia não pode ser forçada. – A voz dela ergueu-se, de raiva. – Mesmo com toda a tua arrogância, deves sabê-lo.

Ele ergueu de novo a folha, igualando a sua raiva.

– Eu vejo isto. Eu sei isto. Temos de fazer o que fomos destinados a fazer. Eu sou um traidor. Tu és uma profetisa. Não desafiaste Deus ao não partilhares a tua profecia sobre a traição de Lúcifer? Não caíste em desgraça por causa disso? E agora, queres desafiá-Lo de novo!

Ferida, ela fitou-o. Ele sabia que tinha posto a nu e em voz alta o maior receio dela e desejou poder recuar no que dissera.

As lágrimas avolumavam-se-lhe nos olhos brilhantes, mas ela afastou-as com um pestanejar. Virou costas, puxou o capuz do manto para esconder o rosto e correu porta fora para a noite estrelada.

Ele esperou que ela voltasse, que a sua raiva se dissipasse, que lhe pudesse pedir perdão. Mas quando o sol da manhã se ergueu, ela não voltou e ele soube que nunca mais voltaria.

Judas inspirou profundamente o ar da noite, recordando tudo.

Depois de Arella o deixar, ele viajou pela Europa, onde passou muitos anos em busca de rumores sussurrados do Evangelho perdido de Cristo. Tomou conhecimento de uma outra profecia relacionada com o livro, uma que falava de uma trindade sagrada.

Então, procurou-a também.

Numa noite de outono, seguindo um rumor entre os sanguinistas, procurou a condessa Elizabeth Bathory – a mulher sábia casada com um poderoso guerreiro e ligada a um cavaleiro de Cristo.

À semelhança da Igreja, achou que poderiam ser a trindade profetizada – até o padre Korza transformar a condessa em strigoi e esta ser supostamente assassinada.

Contudo, continuava convicto do poder da família Bathory. A cada geração, escolhia uma mulher dessa linhagem para preparar e proteger, envenenando o seu sangue contra os strigoi, para garantir que nunca seria convertida, como a sua antepassada.

A maioria dessas mulheres tinha-o servido bem, até a linhagem ser interrompida com Bathory Darabont. Mas, por essa altura, o Evangelho perdido de Cristo tinha sido trazido de volta ao mundo, anunciando o que Judas devia fazer em seguida.

Ergueu o pedaço de vidro e leu as palavras.

Aquele que O levou deste mundo, intervirá para O trazer de volta, desencadeando uma era de fogo e sangue, lançando um pano mortuário sobre a Terra e todas as suas criaturas.

Por fim, essa hora chegara.