Sangue Inocente
Terceira Parte
Faz descer o granizo aos punhados,
E perante o Seu frio, quem pode resistir?
– SALMOS 147: 17
CAPÍTULO 25
19 de dezembro, 20h04, CET
Estocolmo, Suécia
O mundo ficara incrustado em gelo.
Encolhida contra o frio implacável da noite invernosa sueca, Erin estremecia no seu casaco, enquanto percorria a passos largos uma rua do centro de Estocolmo. A pele reforçada do blusão podia protegê-la de mordidas e golpes, mas pouco fazia contra o vento gélido que penetrava por cada abertura da roupa. Cada fôlego era como se inalasse gelo. Mesmo debaixo dos pés, a frieza das pedras enregeladas parecia infiltrar-se pelas solas das botas.
Só tomara conhecimento do destino com o avião fretado já no ar, precipitando-se para norte de Roma. O voo até à Suécia durara três horas, deixando-os naquela terra de neve e gelo. Dirigiam-se agora para um encontro na cidade com Grigori Rasputine, para negociar a libertação de Tommy Bolar, o presumível Primeiro Anjo da profecia.
Ela estava surpreendida por Rasputine ter concordado em reunir-se em Estocolmo e não em São Petersburgo. Bernard devia ter sido bastante insistente, afastando o monge russo o máximo possível do seu território natal, para um suposto terreno neutro.
Contudo, para Erin, não parecia suficientemente longe.
Christian seguia à frente. Naquele contínuo jogo de subterfúgios, o jovem sanguinista fora o único informado do local de encontro na cidade, conduzindo o grupo rapidamente pelo centro de Estocolmo. Edifícios austeros ladeavam o caminho. As singelas fachadas escandinavas eram um alívio, depois das ornamentadas estruturas italianizadas de Roma. Uma luz quente derramava-se pela noite da maioria das janelas, refletida na neve recente acumulada de ambos os lados da rua.
O hálito de Erin formava nuvens brancas no ar, tal como o de Jordan.
Se os sanguinistas respiravam, não havia sinal.
Reparou em Jordan subitamente a farejar o ar, como um cão sentindo um cheiro. Depois sentiu-o, também: pão de gengibre e mel, castanhas assadas e o aroma quente de amêndoas glaceadas.
No fundo da rua, avultava uma praça resplandecente de luzes.
Um mercado de Natal.
Christian conduzia-os em direção àquele porto de calor e animação. Ela e Jordan mantinham-se nos seus calcanhares, seguidos por Rhun e Bathory, os dois de novo discretamente algemados um ao outro.
Nadia seguia no fim, a sua atenção focada nas costas eretas da condessa.
A cada passo e olhar, Rhun irradiava uma raiva fria. Durante todo o voo, ele fervilhara de ira pelo ataque de Nadia a Bathory. Erin conseguia compreender a lógica e necessidade do confinamento da mulher. Ninguém confiava na condessa, receando que pudesse dizer algo a um agente fronteiriço ou que atacasse alguém ou mesmo que criasse tumulto a bordo do aeroplano, o que a julgar pelos ecos da luta anterior à partida de Roma se provara uma preocupação justificada.
Mesmo assim, à semelhança de Rhun, Erin sentia-se contrariada quanto ao ato de cortar a garganta da mulher.
Bathory quase fora morta para conveniência deles. Erin doara do seu próprio sangue para restabelecer a saúde da condessa, depois de o avião aterrar, mas sabia que não desfizera o dano. Ela via-o nos olhos da condessa. Nadia dilacerara mais do que a garganta da mulher, dilacerara toda a confiança que ela pudesse depositar neles.
Para Erin, fora igualmente difícil relembrar os extremos a que os sanguinistas estavam dispostos a ir para alcançar os seus objetivos. Ela sabia que a proteção do Primeiro Anjo era fundamental para impedir uma guerra santa, mas não estava assim tão certa de os fins justificarem os meios. Especialmente naquele caso. Podia ter havido uma forma menos brutal de conter Bathory, um outro meio de conseguir a sua rancorosa cooperação, mas os sanguinistas não pareciam procurá-lo.
Porém, o ato não podia ser desfeito.
Tinham de seguir em frente.
Ao penetrar no calor e vivacidade do mercado de Natal, o seu estado de espírito gélido derreteu, bem como parte do frio no corpo, enquanto passava por braseiros vivos apinhados de castanhas assadas e amêndoas.
Mais à esquerda, um pinheiro imenso iluminado de esferas de ouro estendia os ramos verdes polvilhados de neve no céu noturno. Na escuridão, mais adiante, leves flocos de neve dançavam até ao chão. À direita, um rotundo e alegre Pai Natal acenava de uma tenda que vendia guloseimas natalícias, afagando com uma das mãos a longa barba branca.
Jordan parecia pouco notar de tudo isso. Os seus olhos avaliavam claramente a praça, examinando os altos edifícios e as pessoas que deambulavam em redor com os seus quentes casacos de inverno. Vigiava cada frente de loja, como se abrigasse um atirador furtivo.
Ela sabia que ele tinha razão para estar vigilante. Recordada de que Rasputine estava algures à espreita por ali, a magia simples do mercado de Natal depressa se desvaneceu. Por exigência do monge russo, o grupo tinha deixado as armas no avião. Mas podiam confiar que Rasputine faria o mesmo? Estranhamente, era tido como um homem de palavra – embora pudesse distorcer essa palavra da forma mais inesperada, pelo que havia que prestar grande atenção a cada sílaba pronunciada.
Ao passar ao lado de uma tenda que vendia brinquedos de madeira, Erin chocou com uma menina que usava um gorro de lã azul encimado por um pompom branco. Nas suas pequenas mãos, a criança estivera a examinar uma marioneta de um elfo montando uma rena. O brinquedo caiu ao chão, emaranhando os fios. O proprietário da loja não ficou satisfeito.
Para evitar uma cena, Erin passou-lhe uma nota de dez euros, propondo-se pagar. A transação foi concluída rapidamente no frio. A criança ofereceu-lhe um sorriso tímido, agarrou no prémio e correu para longe.
Enquanto isso, Jordan parou junto a uma tenda que vendia salsichas fumegantes. Outras fiadas enrolavam-se em cavilhas junto ao teto. Se houvesse dúvida quanto à carne de que eram feitas as salsichas, seria dissipada pela cabeça de rena empalhada suspensa por detrás do proprietário de faces coradas.
Erin reuniu-se aos outros, pronta a desculpar-se pelo atraso.
Mas Christian detivera-se e olhava em volta.
– As minhas instruções terminam aqui – disse ele. – Foi-me dito para vir direto do aeroporto ao mercado de Natal.
Todos olharam em volta, estudando o perímetro do festival.
A condessa tocou a ferida sarada no pescoço.
– Uma missão de vida ou morte e, contudo, sabem tão pouco?
Erin concordou com ela, farta de tantos segredos. Sentiu o peso da pedra de âmbar no seu bolso. Transferira a lembrança de Amy das roupas velhas para as novas, carregando esse fardo consigo, recordando-a de que os segredos podiam matar.
Observou tudo na praça, circunspecta. Uma mulher empurrava um carrinho de bebé, a frente tapada por uma manta de xadrez. Ao lado dela, um miúdo de quatro anos e bochechas peganhentas segurava um chupa-chupa na sua luva felpuda. Atrás deles, um bando de raparigas soltava risinhos junto a uma tenda que vendia corações de pão de gengibre, enquanto dois rapazes se concentravam nas inscrições escritas a glacé branco nos corações.
Um coro de vozes ergueu-se em cântico, ecoando pelo mercado, vindo de um grupo de crianças a entoar «Noite Feliz» em sueco. As notas melancólicas dessa canção favorita de Natal ecoavam o seu estado de espírito.
Ela esticou o pescoço, procurando sinal de Rasputine. Podia estar em todo ou em nenhum lado. Não punha de parte a hipótese de o monge louco não aparecer, deixando-os ali à espera ao frio.
Jordan friccionava os braços, claramente desagradado com o facto de estarem ali parados em espaço aberto ou, talvez, meramente com frio.
– Devíamos circular pelo mercado – sugeriu ele. – Se Rasputine nos quiser encontrar, encontrar-nos-á. É claramente ele quem controla o jogo e temos de esperar que faça a primeira jogada.
Christian assentiu e iniciou de novo a marcha.
Jordan deslizou a sua mão enluvada para a dela. Embora parecesse caminhar despreocupadamente atrás do jovem sanguinista, ela sentia a tensão no seu aperto e reconhecia pela postura de ombros que ele estava tudo menos descontraído.
Juntos, passaram por outras tendas que vendiam louça de barro, roupa de lã e doces sem conta. As cores vivas e cintilantes das luzes douradas refulgiam em redor, mas tornou-se aparente que o mercado começava a encerrar. Mais pessoas se dirigiam para as ruas circundantes do que entravam na praça.
Continuava a não haver sinal de Rasputine ou de qualquer dos seus seguidores strigoi.
Parando junto de uma tenda que vendia camisolas tricotadas com lã da região, Erin considerou comprar uma se tivessem de esperar muito mais. Atrás dela, o coro de crianças começou de novo, as suas sonoras vozes inocentes enchendo o ar.
Olhou o palco, no fundo da estreita rua do mercado.
Escutou, enquanto iniciavam uma interpretação de «O Pequeno Tambor». Era novamente em sueco, mas a melodia era inconfundível, contando a história de uma criança pobre que oferecia ao Cristo nascido a única prenda que lhe podia dar: um solo de tambor.
Ela sorriu, recordando como ficara extasiada em miúda, ao ser-lhe permitido assistir a uma versão animada da história, uma rara concessão na rígida comunidade religiosa em que fora criada.
O seu olhar foi atraído pelos cantores, notando que eram todos rapazes, como o sujeito da canção de Natal. Então, retesou-se subitamente, fitando aqueles rostos inocentes.
– É ali que estará Rasputine – disse ela.
Ela conhecia a inclinação do monge por crianças. O seu interesse não era sexual, embora fosse predatório à sua maneira. Recordou todas aquelas crianças de Leninegrado que o monge encontrara a passar fome ou à beira da morte durante o cerco da Segunda Guerra Mundial. Ele tornara-as strigoi para impedir que morressem.
Rasputine fora em tempos um sanguinista, mas tinha sido excomungado e banido por tais crimes. Em retribuição, ele criara uma versão pervertida da ordem em São Petersburgo, tornando-se o seu Papa de facto , misturando sangue humano e vinho consagrado para sustentar o seu rebanho, na maioria crianças.
– Ele estará com aquelas crianças – insistiu ela. – Perto daquele coro.
Bathory ergueu uma sobrancelha, cética, mas Rhun assentiu. Ele conhecia Rasputine melhor do que qualquer um deles. O olhar de Rhun encontrou o dela, reconhecendo o seu discernimento da psique do monge.
Jordan apertou-lhe de novo a mão.
– Vamos ver o espetáculo.
20h38
Jordan mantinha-se firmemente ao lado de Erin, enquanto o grupo serpenteava por entre a multidão dispersa em direção ao palco. O estômago doía-lhe do cheiro das castanhas assadas e vinho quente com canela. Há muito que ele e Erin não comiam. Os sanguinistas esqueciam, muitas vezes, que os seus companheiros humanos tinham de comer.
Uma vez terminado aquilo, planeava encontrar a maior e mais quente tigela de sopa de Estocolmo. Ou talvez duas. Uma para comer e outra para mergulhar dentro os pés dormentes.
Olhou em volta para as pessoas que percorriam o mercado, carregando canecas fumegantes, embrulhos bem apertados ou pacotes untuosos de castanhas. O que lhes aconteceria se Rasputine atacasse com o seu bando de strigoi? Tentou imaginar os danos colaterais. Não seria bom.
Na verdade, todo aquele esquema cheirava a esturro. Não tinham armas. Ou aliados fiáveis. Observou a condessa, que caminhava a passos largos com o capuz puxado para trás, alheia ao frio, as costas direitas numa postura altiva e superior.
Se as coisas se complicassem, ele não sabia que lado ela escolheria. Depois corrigiu-se. Sabia.
Escolheria o seu próprio lado.
Durante o voo até ali, tivera uma conversa rápida com Christian, entrincheirando-se com ele no cockpit do avião. Jordan exigira a Christian uma promessa: se as coisas dessem para o torto, Christian levaria Erin para longe o mais rápido possível. Jordan não ia arriscar a vida dela mais do que o necessário. Não a ia perder.
Olhou de relance o rosto determinado de Erin. Ficaria furiosa se soubesse desses planos. Mas preferia tê-la furiosa – a não a ter.
Ao aproximar-se do palco, Jordan passou por uma tabuleta com a forma de um braço esticado. O dedo indicador de madeira apontava para uma secção do mercado atrás do coro.
As palavras na tabuleta estavam escritas em sueco e em inglês, indicando a presença de um labirinto de gelo. Os suecos pareciam tirar definitivamente proveito do clima.
Jordan passou a tabuleta e aproximou-se do palco com o coro. Duas filas de jovens rapazes vestiam vestes brancas, com as mãos enfiadas nas mangas e os narizes vermelhos do frio. Enquanto cantavam, estudou-lhes os rostos sérios, pálidos do tempo invernoso. Os seus olhos detiveram-se no último rapaz da fila da frente, com um livrete de músicas agarrado nas delicadas mãos, obscurecendo-lhe parcialmente o rosto.
O miúdo destacava-se dos demais. Parecia ter treze ou catorze anos, um ano ou dois mais velho do que os outros. Mas não fora isso que causara estranheza a Jordan.
Jordan tocou o braço de Christian.
– Aquele último – sussurrou ele. – Não está a usar luvas.
O rapaz cantava com os outros, em harmonia, claramente experiente a cantar num coro – mas talvez não naquele. O vizinho mais próximo estava afastado dele, como se não o conhecesse.
Jordan imaginou o reduto de Rasputine em São Petersburgo – a Igreja do Salvador do Sangue Derramado –, onde ele conduzia as suas próprias missas e tinha o seu próprio coro.
Jordan estudou as feições parcialmente ocultas do cantor. O cabelo castanho-escuro emoldurava um rosto tão branco, quanto a imaculada veste. Não havia qualquer tonalidade nas faces.
O rapaz notou a sua atenção e, por fim, baixou o livro de música. Foi quando Jordan o reconheceu. Era o rapaz do vídeo: Alexei Romanov.
Jordan reprimiu o impulso de agarrar em Erin e fugir dali. Examinou as outras crianças do coro com um olhar mais atento. Pareciam com frio, cansadas e humanas. E ninguém na multidão em redor se parecia destacar.
Esperaria para ver o que se seguia antes de reagir.
Uma miúda aproximou-se do grupo, usando um gorro de lã azul com um pompom branco. Brincava com uma marioneta. Era a criança a quem Erin comprara o brinquedo antes. Jordan notou que também não usava luvas.
Christian seguiu-lhe o olhar até aos dedos nus. Pareceu escutar por um instante, com a cabeça ligeiramente inclinada, depois assentiu.
Não havia batimento cardíaco.
Então, ela era mais uma das crianças strigoi de Rasputine, o seu rosto inocente escondendo uma criatura duplamente mais velha que Jordan e duplamente mais mortífera.
Nadia e Rhun retesaram-se de cada lado, preparados para a luta. A condessa simplesmente levou uma mão graciosa ao lenço que lhe cobria o pescoço ferido; a outra permanecia algemada a Rhun. Avaliou a praça calmamente, como que procurando vantagens, mais do que inimigos.
Quando o canto terminou, o maestro fez um discurso em sueco, em jeito de conclusão, assinalando o fim do festival por essa noite. Mais pessoas se dispersaram para as ruas em redor. Uma jovem mãe levou do palco um rapaz de veste branca, envolveu-o num casaco de inverno e passou-lhe um termo com uma bebida fumegante.
Criança feliz.
Outros pais reclamaram as outras crianças, até restar apenas o rapaz de Rasputine. Com um ligeiro inclinar de cabeça na sua direção, saltou da plataforma e caminhou para eles com todo o orgulho da nobreza russa.
Christian confrontou o rapaz quando os alcançou.
– Onde está o teu mestre?
A criança sorriu, lançando um arrepio pela espinha de Jordan.
– Tenho duas mensagens, mas primeiro têm de responder a uma pergunta. Sua Santidade tem estado a observar-vos desde que chegaram. Diz que vieram com duas Mulheres de Sabedoria. Aquela que ele conheceu na Rússia e uma outra da verdadeira linhagem de Bathory.
Enervou Jordan perceber o quanto Rasputine já sabia sobre eles.
Mas talvez fosse esse o objetivo do monge.
– E porque o preocupa isso? – contrapôs Rhun.
Alexei levou as mãos aos lábios.
– Ele diz que se impõe um teste.
Jordan não gostou daquilo.
– Conforme a palavra dada ao vosso cardeal, Sua Santidade apenas passará o Primeiro Anjo à verdadeira Mulher Sábia. Foi esse o acordo.
Rhun pareceu pronto a ripostar, mas Erin deteve-o.
– Que tipo de teste? – indagou ela.
– Nada de muito perigoso – asseverou Alexei. – Levarei dois de vocês com uma Mulher Sábia e a Olga – indicou a rapariga do gorro azul – levará outros dois com a outra Mulher Sábia.
– O que acontece depois? – perguntou Jordan.
– A primeira mulher a descobrir o Primeiro Anjo, vence.
A condessa aproximou-se, avaliando o desafio que se preparava, talvez procurando uma forma de os trair.
– O que acontece àquela que perder?
Alexei encolheu os ombros.
– Não sei.
– Não vou pôr a Erin em risco – disse Jordan. – Encontrem outra forma.
A rapariga, Olga, falou. A sua voz era infantil e sibilante, mas as palavras eram demasiado sofisticadas e formais para alguém daquela aparentemente tenra idade.
– Sua Santidade disse-nos para vos relembrar de que ele tem a posse do Primeiro Anjo. Se não acederem às suas exigências, nunca o verão.
Jordan carregou o olhar. Rasputine tinha-os à sua mercê e sabia disso.
– Para onde vamos? – indagou Jordan, agarrando firmemente em Erin, recusando ser separado dela, escolhendo irrevogavelmente a equipa em que iria jogar. – Onde começamos essa busca?
Alexei apontou simplesmente a tabuleta por que Jordan passara antes.
Aquela em forma de braço estendido.
Iam para o labirinto de gelo.