Sangue Inocente
Capítulo 24
19 de dezembro, 17h39, CET
Castel Gandolfo, Itália
Com o sol posto há mais de uma hora, Leopold assombrava os limites da residência de verão do papa. O próprio terreno envolvente era mais extenso do que toda a Cidade do Vaticano, oferecendo uma imensidade de lugares onde se esquivar, esconder e vigiar. De momento, encontrava-se no cimo de uma das gigantescas azinheiras que cobriam a propriedade, usando os ramos e grosso tronco para se manter escondido na penumbra. A árvore erguia-se a poucos metros do edifício principal.
Mais cedo, quando o sol se punha, ele rastejara para fora do fardo de feno. A coberto da escuridão, fora fácil esgueirar-se até à barricada policial em torno dos destroços do comboio. Os seus ouvidos detetavam facilmente os batimentos cardíacos dos investigadores da equipa de resgate, permitindo-lhe evitá-los e fugir sem ser visto. Do fardo de feno, ouvira o cardeal referir que ia para Castel Gandolfo, onde poderia chorar e rezar pelas almas daqueles que tinham perdido a vida naquele dia.
Assim, Leopold seguira-o, depois de o Sol se pôr, movendo-se com a celeridade apenas possível a um sanguinista, cruzando os vários quilómetros até ao pequeno lugarejo encimado pelo castelo papal.
Na última meia hora, observara a residência à distância, circundando-a lenta e totalmente. Não se atrevia a chegar mais perto, receando que os sanguinistas no interior sentissem a sua presença.
Mas com os ouvidos apurados, ele escutava muito do que se passava lá dentro, pedaços de conversas, os mexericos entre o pessoal. Pouco a pouco, foi-se inteirando do que sabiam sobre os trágicos acontecimentos. Parecia que só o cardeal Bernard tinha escapado com vida. A polícia encontrara os corpos dos maquinistas do comboio. Leopold recordava-se de ouvir um helicóptero chegar e partir, antes de as equipas de resgate entrarem em cena. O cardeal devia ter recolhido os seus mortos. Bernard não deixaria os corpos de sanguinistas caírem nas mãos da Polícia italiana. Leopold ouviu mesmo uma criada referir um corpo, brevemente vislumbrado por ela, antes de Bernard o levar para fora de vista para as entranhas do castelo.
Leopold mudou de posição no seu ramo e rezou pelas almas assassinadas. Ele sabia que as mortes eram necessárias, para servir um propósito maior, mas chorava por Erin e Jordan, e pelos colegas sanguinistas – Rhun, Nadia e Christian. Mesmo o irascível padre Ambrose não merecera tal destino.
Agora, escutava os sons de uma missa fúnebre, a rica e inconfundível entoação italiana do cardeal, mesmo àquela distância. Os lábios de Leopold moveram-se em oração para o acompanhar, assistindo ele próprio à missa do seu alto pouso na árvore. Todo o tempo, procurara as vozes de Erin e Jordan, caso o pessoal estivesse enganado. Tentara captar o seu batimento cardíaco, por entre a tapeçaria de sons dos servidores humanos do papa.
Nada.
Apenas ouvia as preces do cardeal.
Quando a missa fúnebre chegou ao fim, desceu da árvore e saiu dos terrenos, dirigindo-se à localidade próxima. Procurou e encontrou uma cabina telefónica discreta, ao lado de uma estação de serviço. Marcou um número que memorizara.
A ligação foi atendida de imediato.
– Sobreviveste? – exclamou o Damnatus, parecendo mais contrariado do que aliviado. – Mais alguém?
Claro que essa seria a maior preocupação do Damnatus. Era evidente que receava que se Leopold tinha sobrevivido, outros poderiam ter sobrevivido também, como a trindade profética. Leopold não esperava um pedido de desculpas por ter sido apanhado na mesma armadilha – embora julgasse merecê-lo. Mas ambos sabiam que o caminho seguido era o justo. Independentemente dos seus sentimentos, Leopold tinha de agir em consonância com o Damnatus, ainda que o homem quase o tivesse matado para atingir o objetivo.
Ciente disso, Leopold explicou tudo o que soubera.
– Pelo que consegui determinar, apenas o cardeal sobreviveu. Uma criada viu um corpo a ser trazido dos destroços para aqui. Pode haver mais.
– Volta ao castelo e averigua o que puderes sobre esse corpo – ordenou o Damnatus. – Confirma que os outros estão mortos. Traz-me provas.
Leopold devia ter pensado nisso, mas entrar na residência colocava-o em grande risco de ser descoberto. Contudo, fez ao Damnatus a promessa.
– Assim farei.
Minutos mais tarde, Leopold viu-se no portão secreto que conduzia à ala subterrânea do castelo reservada aos sanguinistas. Rezou para que ninguém estivesse de guarda à porta. Uma vez aí, golpeou a tenra carne da palma da sua mão e verteu algumas preciosas gotas de sangue na antiga taça de pedra. Sussurrou as preces necessárias, depois esgueirou-se pela entrada, quando esta se abriu.
Estacou no limiar e aguçou os sentidos: escutando batimentos de coração, cheirando a presença de outros, perscrutando cada recanto escuro.
Uma vez convicto de estar sozinho, Leopold abriu caminho até à capela sanguinista. Quaisquer corpos recuperados da explosão teriam sido trazidos para ali. Recordou-se do funeral que escutara.
Receando que outros da sua ordem ainda circulassem por ali, tirou para fora a curta lâmina e apertou-a com força. Matara muitos homens e strigoi na sua longa vida, mas nunca matara outro sanguinista. Preparou-se para essa possibilidade.
Continuou silenciosamente pelo túnel final, inalando os familiares odores subterrâneos da terra húmida, excrementos de rato e um vestígio de incenso da missa recente. Quando se aproximava da entrada da capela, abrandou os passos.
Preces apagadas fluíram até ele, fazendo-o estacar.
Reconheceu a voz do solitário enlutado.
O cardeal Bernard.
Leopold moveu-se até à porta fechada e espreitou pelo minúsculo óculo. Para lá de uma fila de bancos corridos, um pano branco de altar cobria uma mesa de pedra, iluminada por velas de cera de abelha em ambos os extremos. Um cálice dourado erguia-se no centro, cheio de vinho até à borda.
A luz tremulante das chamas refletia-se das janelas de vitral engastadas nas paredes de pedra de ambos os lados – e de um caixão de ébano deposto frente ao altar.
Reparou na singela cruz de prata afixa ao topo.
Era um caixão de sanguinista.
Sabia que o corpo no interior seria em breve embarcado para Roma e sepultado no santuário sob a Basílica de São Pedro, o único lugar na Terra suficientemente seguro para guardar esses segredos.
Mas alguém não estava ainda pronto para se despedir.
Bernard ajoelhava-se diante do caixão, a sua cabeça branca inclinada, murmurando orações. Parecia diminuído, despido do seu alto estatuto de cardeal para uma mágoa profunda e pessoal.
Ali confrontado com a prova física dos seus atos, a dor penetrou Leopold. Um guerreiro da Igreja jazia morto e era como se fosse por obra direta das suas mãos. Embora tal morte ao serviço da Igreja trouxesse a paz final a um sanguinista, Leopold não encontrava consolo em tal pensamento.
As vestes escarlates de Bernard engelharam-se quando este se inclinou para diante e pousou uma mão no pano lateral do caixão.
– Adeus, meu filho.
Leopold imaginou os companheiros sanguinistas a bordo do comboio. Pelas palavras finais de despedida do cardeal, devia ser Rhun ou Christian naquele caixão.
Bernard ergueu-se e deixou a capela, os ombros curvados pela dor.
Leopold recuou para um compartimento contíguo, atulhado de pipas de vinho. Esperou até que o som dos passos do cardeal se desvanecesse claramente ao longe, para voltar à capela vazia e entrar.
Moveu-se em direção ao caixão, as pernas pesando-lhe da mágoa e da culpa. Sabia que o Damnatus desejaria que fosse Rhun naquele caixão, o profetizado Cavaleiro de Cristo. O destino dos outros não era certo, mas Leopold suspeitava que não tivessem sobrado restos suficientes para serem trazidos até ali.
Alcançando a urna, fez deslizar a mão pela sua superfície suave e fria, murmurando uma prece de expiação. Depois de terminada, susteve a respiração e olhou para o interior, retesando-se.
Estava vazio.
Em choque, Leopold perscrutou a capela, procurando uma armadilha, sem encontrar nenhuma.
Voltando de novo a atenção para a urna, viu que não estava inteiramente vazia.
Um simples rosário repousava disposto com grande cuidado no fundo, as contas claramente gastas, a pequena cruz de prata romba das décadas de fricção de um polegar em oração. Imaginou Bernard a apanhar o rosário da lama fria dos campos invernosos, tudo o que restara do sanguinista que outrora o usara.
Leopold não precisou de lhe tocar para saber a quem pertencia.
Era-lhe tão familiar quanto a sua própria mão.
Era o seu próprio rosário, perdido quando saltara do comboio.
Fechou os olhos.
Como caí fundo, Senhor...
Recordou Bernard tão prostrado de pesar, tão ferido de dor.
Por mim... um traidor.
Fechou a tampa do caixão e cambaleou para fora da capela, para fora do castelo.
Só então chorou.