Sangue Inocente
Capítulo 4
18 de dezembro, 16h32, PST
Condado de Santa Clara, Califórnia
Montada no seu cavalo favorito, Erin galopava por prados pintados de um castanho dourado pelo inverno seco da Califórnia. Respondendo à mais pequena variação do seu peso, o negro corcel alongou o passo.
É isso mesmo, Blackjack .
Mantinha o animal alojado nuns estábulos às portas de Palo Alto. Montava-o sempre que tinha oportunidade, sabendo que ele precisava do exercício, mas sobretudo pelo puro prazer de voar pelos campos em cima do musculado corcel. Blackjack não era montado há dias e transbordava de energia.
Olhou para trás por cima do ombro. Nate seguia não muito atrás dela, montado numa égua cinzenta chamada Gunsmoke. Criado no Texas, ele próprio era um cavaleiro experiente e estava claramente a pôr a montada à prova.
Ela deixou simplesmente Blackjack gastar todo o vigor, procurando concentrar-se no vento que lhe batia no rosto, no arrebatador cheiro do cavalo, na ligação natural entre ela e a montada. Adorava montar desde muito pequena. Ajudava-a a pensar. Hoje, questionava-se sobre as visões, tentando perceber o que fazer com elas. Sabia que não eram simples efeito do stresse pós-traumático. Significavam algo mais.
À sua frente, o sol tocava o topo dos montes.
– Temos de voltar daqui a nada! – gritou-lhe Nate. – O Sol põe-se daqui a meia hora!
Ela percebeu um toque de ansiedade na sua voz. Em Roma, Nate ficara preso na escuridão durante dias e fora torturado nas sombras. A noite encerrava, provavelmente, um certo terror para ele.
Reconhecendo-o agora, percebeu que não devia ter concordado em deixá-lo vir. Mas ao início da tarde, não conseguindo contactar o cardeal Bernard por telefone, saíra do gabinete para libertar alguma ansiedade. Nate perguntara-lhe onde ia e insensatamente permitira-lhe acompanhá-la.
Nesses últimos meses, tinha dificuldade em dizer-lhe que não. Depois dos trágicos acontecimentos em Israel e Roma, ele continuava a ter dificuldades, ainda mais do que ela, embora raramente falasse sobre isso. Ela tentava dar-lhe apoio, ajudá-lo a suportar as memórias que lhe tinham sido impostas. Era o mínimo que podia fazer.
No passado, a sua relação fora descontraída – desde que fingisse não perceber a atração que ele tinha por ela. Mas quando ela se apaixonara por Jordan, Nate recuara para um profissionalismo distante. Seria por sentimentos feridos, raiva ou por outro motivo?
Infelizmente, depois dessa noite, talvez não importasse mais.
Suspirou. Talvez tivesse sido bom que Nate a acompanhasse na cavalgada. O momento oferecia-lhe a oportunidade perfeita para lhe falar em privado.
Abrandou Blackjack imprimindo uma ligeira tensão às rédeas. Nate colocou-se ao seu lado com Gunsmoke. Ele sorriu-lhe, despedaçando-lhe um pouco o coração. Mas tinha de lhe dizer. Era melhor dizer-lho agora, antes das férias de Natal, para lhe dar tempo de se habituar à ideia.
Ela inspirou fundo.
– Nate, preciso de te dizer uma coisa.
Nate puxou para cima o Stetson de palha e olhou-a de esguelha. Os cavalos seguiam a passo, lado a lado, pelo trilho amplo.
– O que é?
– Falei com o reitor esta manhã. Sugeri-lhe nomes de outros professores com quem poderias querer trabalhar.
As sobrancelhas dele franziram-se de preocupação.
– Fiz alguma coisa de errado? Tem sido difícil, desde que voltámos, mas...
– O teu trabalho sempre foi excelente. Não tem a ver contigo.
– Diria que sim, tendo em conta o meu envolvimento e tudo o mais.
Ela mantinha o olhar focado num ponto entre as orelhas negras e macias do cavalo.
– Depois do que aconteceu em Israel... não estou muito certa de que seja a melhor escolha para ti.
Ele agarrou na brida de Blackjack e refreou os dois cavalos até os fazer parar.
– De que está a falar?
Erin encarou-o. Parecia preocupado e zangado.
– Ouve, Nate. A universidade não está contente comigo por ter perdido dois alunos.
– Não foi culpa sua.
Ela falou por cima dele.
– O reitor acha que é melhor eu fazer uma pausa sabática para pôr a cabeça em ordem.
– Então, eu espero. – Nate cruzou as mãos sobre o apoio da sela. – Não há problema.
– Não estás a perceber.
Ela remexia nas rédeas, desejando arrebatá-las e fugir a galope daquela conversa, mas deixou que a dura verdade a segurasse no lugar.
– Nate, acho que é o primeiro passo da universidade no sentido de me dispensar.
Ele ficou boquiaberto.
Ela falou rapidamente, deitando tudo para fora.
– Não podes querer a tua tese associada a um professor prestes a ser excluído. Tu és um cientista brilhante, Nate, e estou certa de que vais encontrar um orientador mais adequado... alguém que te possa abrir portas que eu já não posso abrir.
– Mas...
– Agradeço a tua lealdade – disse ela –, mas não é merecida.
Ele explodiu, revoltado.
– É pois!
– Nate, o facto de ficares não me vai ajudar. O que tiver de acontecer com a minha carreira, acontecerá.
– Mas eu escolhi-a como minha orientadora porque é a melhor do ramo. – A raiva brotava dele, fazendo-o vacilar na sela. – A melhor. E isso não mudou.
– Quem sabe? Pode ser esquecido com o tempo.
Na verdade, Erin não achava que assim fosse, nem tinha a certeza de querer que assim fosse. No início da sua carreira, a vida académica oferecera-lhe a segurança da racionalidade depois de uma rígida educação religiosa, mas já não parecia suficiente. Recordou a dificuldade em lecionar no semestre passado. Não podia continuar a ensinar mentiras.
E não podia ser menos verdadeira com Nate agora.
– Mesmo que o incidente seja esquecido – disse ela –, terás perdido oportunidades valiosas até lá. Não vou permitir que isso aconteça.
Nate pareceu prestes a argumentar, a protestar. Talvez sentindo a sua perturbação, a égua sacudiu a cabeça e dançou levemente sobre as patas dianteiras.
– Não tornes isto mais difícil do que já é – terminou ela.
Nate esfregou o lábio superior, incapaz de a fitar. Finalmente, abanou a cabeça, virou Gunsmoke e afastou-se a galope, sem dizer palavra, na direção do estábulo.
Blackjack relinchou atrás deles, mas ela segurou firmemente o cavalo, sabendo que Nate precisaria de algum tempo a sós. Deu-lhes alguma distância, antes de deixar Blackjack percorrer a passo o caminho de volta.
Os últimos raios do dia mergulharam por fim atrás dos montes, mas restava luz suficiente para impedir Blackjack de cair numa toca de toupeira. Desconfortável, mudou de posição na sela. Sentiu o amuleto da sorte de Amy no bolso da frente das calças. Tinha-se esquecido de que o pusera aí, ainda incerta do que fazer com ele. Pensara devolvê-lo aos pais de Amy, mas retirariam daí algum bem? O pedaço de âmbar seria sempre uma evocação de que a filha escolhera uma profissão que acabara por a matar, o seu sangue derramado em areias longínquas.
Erin não podia fazer-lhes tal coisa – nem queria guardar o talismã, esse pesado testemunho do seu papel na morte de Amy.
Ainda sem saber o que fazer com isso, voltou a pensar em Nate. Em Roma, ela salvara a vida de Nate e agora faria o que pudesse para lhe salvar a carreira, por muito revoltado que ele ficasse. Esperava que Nate estivesse mais resignado quando chegasse ao estábulo. Fosse como fosse, enviar-lhe-ia um e-mail mais tarde, nessa noite, com a lista de nomes. Eram arqueólogos de renome e a sua recomendação teria peso junto deles.
Nate ficaria bem.
E quanto mais se distanciasse dela, melhor seria para ele.
Resignada e decidida, afagou o pescoço de Blackjack.
– Vamos lá arranjar-te aveia e dar-te uma boa escovadela. O que me dizes?
As orelhas de Blackjack agitaram-se para trás. O cavalo retesou-se subitamente debaixo dela.
Sem pensar, apertou os joelhos.
Blackjack resfolegou e dançou para o lado, revirando os olhos.
Algo o assustara.
Erin abarcou o prado aberto num movimento rápido. À sua direita, estendia-se uma fileira sombria de carvalhos de folha persistente, nuvens de visco prateado pendentes dos ramos. Tudo poderia esconder-se ali.
Ouviu um estalido, vindo da linha de árvores, o quebrar de um galho a rasgar a noite silenciosa.
Sacou a arma do coldre do tornozelo e desbloqueou o travão de segurança, procurando um alvo por entre os carvalhos. Mas estava demasiado escuro para ver o que quer que fosse. Com o coração a ressoar-lhe nos ouvidos, lançou um rápido olhar aos estábulos distantes.
Nate já lá estaria, provavelmente.
Blackjack empinou-se de súbito, quase a arremessando para fora da sela. Ela debruçou-se sobre o seu pescoço quando o animal disparou em direção aos estábulos. Não o tentou abrandar ou travar.
O medo estreitava-lhe a visão, ao mesmo tempo que se esforçava por olhar atentamente em todas as direções. Sentiu o sabor do sangue na língua ao morder o lábio.
Depois, o odor a vinho inundou-lhe as narinas.
Não, não, não...
Lutou para não se perder, sentindo um novo ataque a aproximar-se. O pânico fê-la apertar mais as rédeas de Blackjack. Se perdesse o controlo agora, cairia por terra.
Então, sobreveio um terror maior.
Um ronco cavernoso ressoou no meio da noite, estendendo-se dos montes na sua direção. O grito gutural não provinha de uma garganta comum, mas de algo horrendo...
... e próximo.