Sangue Inocente
Capítulo 17
19 de dezembro, 13h04, CET
Castel Gandolfo, Itália
Erin apertou o braço de Jordan, enquanto o helicóptero acelerava em direção a uma encantadora aldeia de pedra, aninhada entre pinhais e olivais, à beira de um grande lago. As suas águas azul-cobalto lembraram-lhe o lago Tahoe, despertando uma vontade de estar de volta à Califórnia – protegida de toda aquela mortandade e caos.
Não que as complicações não me encontrassem aí, também.
Recordou Blackjack e evocou os guinchos do blasphemare.
Sabia que toda a paz duradoura lhe escaparia até tudo aquilo ter acabado.
Mas alguma vez acabaria verdadeiramente?
O piloto apontou à borda da exuberante cratera vulcânica que encimava o lago e a praça da aldeia. A dominar o cume pedregoso como uma coroa, erguia-se um imponente castelo de telhados de telha vermelha, com duas cúpulas plúmbeas e impressionantes varandins. O terreno envolvente era igualmente impressionante, dividido em jardins privados bem cuidados, pequenos lagos contemplativos e fontes gotejantes. As avenidas eram ladeadas por pinheiros ou semeadas de gigantescas azinheiras. Erin vislumbrou mesmo as ruínas da villa de um imperador romano.
Não teve dificuldade em reconhecer a residência de verão do papa.
Castel Gandolfo.
À medida que a aeronave descia em direção a um heliporto vizinho, Erin interrogou-se quanto ao destino. Teria a residência sido sempre o objetivo ou seria simplesmente um refúgio próximo e conveniente após a explosão?
Em última análise, pouco lhe importava. Precisavam de descansar e de um lugar onde recuperar.
Qualquer porto, naquela tormenta...
Olhou para os companheiros de viagem, reconhecendo aquela verdade. Jordan parecia abalado debaixo de uma máscara de fuligem e fumo. O semblante duro de Nadia era ensombrado pela tristeza. Christian ainda tinha vestígios de sangue nas rugas do rosto, fazendo-o parecer bem mais velho, ou talvez fosse apenas exaustão.
À sua frente, Rhun não desviara os olhos do fardo que tinha nos braços, parecendo prostrado e inquieto. Amparava a cabeça encoberta de Bathory contra o seu ombro, com uma mão. A condessa jazia completamente imóvel no seu colo.
Assim que os esquis tocaram o solo, os sanguinistas apressaram-se a afastar Erin e Jordan do heliporto. O corpo de Ambrose permaneceu a bordo, embora todos os sanguinistas o tenham tocado ao desembarcar, até mesmo Rhun. Segundo Christian, o piloto e copiloto cuidariam do corpo do padre.
Erin e Jordan seguiram os outros por um caminho de gravilha que atravessava um roseiral, as plantas há muito sem flor. Alguns minutos depois, chegaram a uma porta em forma de espada, engastada no muro de estuque do jardim. Christian abriu-a e conduziu-os por uma passagem com um luminoso pavimento de mosaico. Salões e salas abriam-se para cada um dos lados, decorados com tapeçarias medievais e mobília debruada a ouro.
Numa interseção, Nadia fez sinal a Rhun para que seguisse para a esquerda com o seu fardo. Christian dirigiu Erin e Jordan para a direita.
– Vou levá-los a aposentos onde se poderão lavar – disse ele.
– Não vou perder a Erin de vista – avisou Jordan.
Ela apertou-lhe a mão com mais força. Também não o ia perder de vista.
– Já calculava – declarou Christian. – E não vou perder nenhum dos dois de vista até estarem a salvo no quarto. O plano é esperar pelo regresso do cardeal. Recuperaremos forças e reagruparemos, para depois decidirmos o que fazer.
Com a questão esclarecida, Jordan seguiu Christian. As janelas altas de um dos lados daquele corredor abriam-se sobre o lago. Velas brancas deslizavam sobre as águas azuis e gaivotas pairavam a grande altura. Era uma vista serena, quase surreal, depois de toda aquela devastação e morte.
Jordan estava claramente menos fascinado, a sua mente noutro lugar.
– O que acha que aconteceu a Leopold?
Christian tocou na cruz.
– Ele estava mais próximo da origem da explosão. O corpo pode nunca vir a ser encontrado. Mas o cardeal continuará a procurar até a equipa de emergência e a Polícia chegarem. Se o corpo de Leopold for encontrado, o cardeal reclamá-lo-á para o trazer para aqui.
Chegando a uma porta de carvalho, Christian destrancou-a e fê-los entrar, seguindo-os. Rapidamente, cruzou o espaço e fechou as portadas sobre as janelas que davam para o lago. Acendeu alguns candeeiros de ferro forjado. O quarto tinha uma cama de casal com edredão branco, uma lareira de mármore e uma zona de estar diante das janelas.
Christian desapareceu por uma porta secundária. Erin seguiu-o, com Jordan no seu encalço. Descobriu uma casa de banho simples de paredes brancas, com sanita e lavatório. O duche ficava num canto, revestido do mesmo mármore que cobria o chão. Duas toalhas grossas repousavam numa mesinha baixa de madeira, encimadas por uma muda de roupas lavadas.
Parecia que ia vestir umas calças de caqui e uma camisa de algodão branca. Jordan vestiria jeans e uma camisa castanha.
Pendurados atrás da porta da casa de banho, um par de blusões de pele familiares. Na missão anterior, ela e Jordan tinham usado aqueles mesmos casacos, feitos de pele de lobo – à prova de golpes e suficientemente fortes para resistirem aos dentes de strigoi. Ela passou a mão pelo couro pardo gasto, relembrando as batalhas do passado.
Christian abriu o armário dos medicamentos e tirou para fora um estojo de primeiros socorros.
– Isto deve ter o que precisam.
Virou-se e encaminhou-se para a porta. Levantou uma sólida trave encostada à parede junto à porta e passou-a a Jordan.
– É reforçada com estrutura de aço.
Jordan sopesou a barra.
– Assim parece.
– Quando eu estiver do lado de fora, use-a para trancar a porta.
Christian apontou uma arca aos pés da cama.
– Também têm armas aí. Não deverão ser necessárias, mas é melhor não serem apanhados desprevenidos.
Jordan assentiu, olhando para a arca.
– Não deixem ninguém entrar, além de mim – avisou Christian.
– Nem mesmo o cardeal ou Rhun? – indagou Erin.
– Ninguém – repetiu Christian. – Alguém sabia que estávamos naquele comboio. O meu melhor conselho é não confiarem em mais ninguém.
Transpôs a porta e fechou-a atrás de si. Jordan ergueu a pesada barra e fixou-a no lugar.
– Palavras pouco animadoras, as de Christian – comentou ela. – Não foram propriamente tranquilizadoras.
Jordan foi até à arca e abriu-a. Tirou para fora uma arma automática e examinou-a.
– Uma Beretta AR 70. Pelo menos, isto é tranquilizador. Dispara até seiscentos e cinquenta tiros por minuto. – Verificou a provisão de munições na arca e sorriu ao encontrar outra arma, um Colt 1911. – Não é o meu, mas parece que alguém se deu ao trabalho de investigar.
Passou-lho.
Ela verificou o tambor. As balas eram de prata – adequadas contra humanos, essenciais contra strigoi. A prata reagia com o sangue destes, ajudando a equilibrar as probabilidades. Os strigoi eram difíceis de matar – mais resistentes do que os humanos, capazes de controlar a perda de sangue e possuidores de capacidades curativas sobrenaturais. Mas não eram invulneráveis.
A seguir, Jordan olhou para a casa de banho.
– Deixo-te atacar primeiro o chuveiro, enquanto eu trato de acender a lareira.
Era um excelente plano, o melhor que ouvira naquele dia.
Mas antes disso aproximou-se dele, aspirando o seu odor almiscarado, sentindo a fuligem por baixo. Beijou-o, feliz por estar viva, por estar com ele.
Quando se afastou, os olhos de Jordan estavam semicerrados de preocupação.
– Estás bem?
Como poderia estar?, pensou ela.
Não era um soldado. Não conseguia marchar por campos cobertos de cadáveres e seguir adiante. Jordan treinara-se para isso, os sanguinistas também, mas ela não estava certa de querer alguma vez ser tão forte, mesmo que pudesse. Pensou no olhar longínquo que Jordan por vezes tinha. Era algo que lhe custava a ele e apostava que custava aos sanguinistas, também.
Ele sussurrou, ainda abraçado a ela.
– Não estou a falar de hoje. Sinto que me escondes alguma coisa desde que nos reunimos na Califórnia.
Ela fugiu do abraço.
– Todos têm os seus segredos.
– Então, conta-me o teu.
O pânico agitou-se no seu peito.
Não aqui. Não agora.
Para esconder a sua reação, ela virou costas e encaminhou-se para a casa de banho.
– Já tive a minha conta de segredos, por hoje – disse, com pouca convicção. – Neste momento, tudo o que quero é um banho quente e um fogo acolhedor.
– Não me oponho.
Mas apesar das palavras, parecia desiludido.
Ela entrou na casa de banho e fechou a porta. Despiu de bom grado a roupa, ansiosa por se livrar do odor da fuligem e do fumo, e substituí-lo pela fragrância do sabonete de alfazema e do champô de citrinos. Ficou muito tempo sob a água quente, deixando que levasse para longe aquele dia, deixando-lhe a pele esfolada e sensível.
Secou-se com a toalha e vestiu um roupão macio. Descalça, voltou ao quarto. As luzes tinham sido apagadas e a única iluminação vinha da lareira crepitante.
Jordan endireitou-se, depois de golpear e rolar um tronco para melhor posição nas chamas. Tinha despido o casaco do uniforme e a camisa rasgada. A sua pele refulgia à luz do fogo, pisada e marcada de golpes e arranhões. No lado esquerdo do peito, a sua tatuagem quase parecia incandescente. O desenho envolvia-lhe o ombro e estendia filamentos pela metade superior do braço e parte do peito e costas. Pareciam as raízes de uma árvore, centradas numa única marca escura no peito.
Ela conhecia a história da marca. Jordan fora atingido por um relâmpago, quando andava no liceu. Morrera por um curto período de tempo, antes de ser ressuscitado. A descarga de energia deixara a sua marca fractal na pele, rebentando capilares, criando aquilo a que se chamava uma figura de Lichtenberg ou flor relâmpago. Antes que se dissipasse, ele tatuara o padrão como memória do seu encontro com a morte, tornando a quase tragédia em algo belo.
Ela aproximou-se, como que atraída por aquela energia residual.
Ele encarou-a, sorrindo.
– Espero que não tenhas gasto toda a...
Ela pôs-lhe um dedo sobre os lábios, silenciando-o. Não era de palavras que precisava naquele momento. Soltou o cinto e sacudiu o roupão. Este deslizou para o chão, roçando-lhe o peito e amontoando-se em volta dos tornozelos.
Com uma mão, ele afastou-lhe o cabelo do pescoço. Ela arqueou o pescoço, num convite. Ele aceitou-o, percorrendo-o com lentos beijos até à clavícula. Ela gemeu e ele recuou, os olhos carregados de paixão e uma pergunta não expressa.
Em resposta, ela puxou-o pela cintura das calças para a cama.
Uma vez aí, ele largou o resto da roupa, arrancando-a e atirando-a para longe.
Nu, excitado, ele ergueu-a nos seus braços. As pernas dela enroscaram-se nas suas coxas musculadas, enquanto ele a baixava para a cama. Debruçou-se sobre ela, imenso como o mundo, eclipsando tudo, deixando apenas os dois, aquele momento.
Ela puxou-o para baixo num beijo ansioso, provando-o, os dentes dela encontrando o seu lábio inferior, a língua dele a tocar na dela. As suas mãos quentes percorreram-lhe a pele, os seios, deixando um rasto eletrizante à sua passagem – depois deslizaram pelo fundo das costas para a puxar mais para cima.
Ela arqueou-se por baixo dele, desejando-o, sabendo que sempre o desejaria.
Os lábios dele deslizaram-lhe para a garganta, roçando as cicatrizes do pescoço.
Ela gemeu, puxando-lhe o rosto com força contra si, como que implorando que lhe enterrasse os dentes, que voltasse a abri-la. Um nome veio-lhe aos lábios, mas ela reprimiu-o antes que escapasse para o mundo.
Lembrou-se de Jordan a pedir que lhe contasse o seu segredo.
Mas os segredos mais profundos são aqueles que não sabemos que o são.
Os lábios dele moveram-se abaixo da orelha, o seu hálito acalentando-lhe a base do pescoço. As palavras seguintes brotaram dele doridas, cheias da sua verdade, sentidas por ela nos ossos do próprio crânio.
– Amo-te.
Ela sentiu as lágrimas a subirem-lhe aos olhos. Atraiu a boca dele para a sua e sussurrou-lhe enquanto os lábios se tocavam.
– E eu amo-te a ti.
Também era a sua verdade – embora talvez não fosse toda a verdade.