Sangue Inocente
Segunda Parte
«Porque eles derramaram o sangue dos santos e dos profetas, também lhes deste sangue a beber; disso são merecedores.»
– APOCALIPSE 16: 6
CAPÍTULO 12
19 de dezembro, 10h11, CET
Roma, Itália
Erin partilhava o banco de trás do Fiat vermelho com Jordan. Christian ia sentado à frente com o motorista. O sanguinista tinha a cabeça fora da janela aberta e falava com um guarda suíço de uniforme azul-escuro e boné. O jovem carregava uma espingarda automática ao ombro, guardando o Portão de Santa Ana, uma das entradas da Cidade do Vaticano.
Por norma, os guardas ali não andavam abertamente armados.
Então, porquê a segurança reforçada?
O guarda anuiu, deu um passo atrás e fez sinal para o carro avançar.
Christian sussurrou para o motorista e entraram na Cidade Santa, passando pela arcada de ferro de um verde acinzentado. Uma vez em movimento, Christian voltou a aproximar o telemóvel do ouvido, onde estivera colado desde que o voo fretado aterrara no pequeno aeroporto de Ciampino, em Roma. O motorista aguardava-os num Fiat descaracterizado e em minutos fê-los chegar aos portões da Cidade do Vaticano.
Jordan segurava a mão de Erin no banco de trás, olhando para o exterior, enquanto o carro passava pelo banco do Vaticano e pela estação dos correios, contornando por trás a grande Basílica de São Pedro.
Ela estudou os edifícios antigos, imaginando os segredos escondidos para lá das resplandecentes paredes de estuque. Enquanto arqueóloga, desvendava a verdade camada a camada, mas a descoberta da existência de strigoi e sanguinistas ensinara-lhe que a história tinha camadas ainda mais profundas do que alguma vez pensara.
Mas uma pergunta ocupava um lugar de destaque na sua mente.
Jordan expressou-a.
– Onde nos leva Christian?
Ela estava igualmente curiosa. Pensara que se dirigiriam diretamente aos aposentos papais para se encontrarem com o cardeal Bernard no seu gabinete, mas em vez disso o veículo seguiu para mais longe, para os terrenos por trás da basílica.
Erin inclinou-se para diante, interrompendo Christian ao telefone. Estava demasiado cansada para mostrar cortesia e irritada por todos os subterfúgios seguidos para chegar ali.
– Para onde vamos? – perguntou, tocando no ombro do sanguinista.
– Estamos quase lá.
– Lá, onde? – insistiu ela.
Christian apontou o telefone em diante.
Erin baixou-se mais para estudar a aproximação a um edifício de mármore branco italiano com telhado de telha vermelha. Uma série de carris por detrás do edifício revelaram a função da estrutura.
Era a Stazione Vaticano, a única estação ferroviária na linha que servia o Vaticano. Fora construída durante o papado de Pio XI, no início da década de 1930. Atualmente, era sobretudo usada para o transporte de mercadorias, embora os últimos papas tivessem realizado algumas viagens cerimoniais a partir dali, a bordo de um comboio papal especial.
Erin viu esse mesmo comboio atualmente parado naquelas linhas.
Três carruagens verde-escuras alinhavam-se atrás de uma antiga máquina preta que soprava fumo. Noutra altura, teria ficado entusiasmada com a visão, mas naquele instante tinha uma preocupação mais premente: o destino de Rhun. Durante a viagem até ali, não tivera mais visões e receava o que isso significaria em relação a Rhun.
O Fiat foi direito à plataforma e estacou. Christian saltou para fora do carro, arrastando Jordan e Erin consigo. Com o telefone de volta ao ouvido, Christian conduziu-os à plataforma. O sanguinista trocara o uniforme militar esfarrapado por uma camisa de padre e calças pretas. O traje assentava-lhe melhor.
Ao chegar ao comboio, baixou o telefone e apontou para a carruagem do meio com um sorriso travesso.
– Todos a bordo!
Erin olhou para trás, para a cúpula da basílica.
– Não compreendo. Vamos já partir? E Rhun?
O esguio sanguinista encolheu os ombros.
– Neste momento, sei tanto quanto vocês. O cardeal pediu-me para os trazer até aqui e embarcá-los. Está previsto partir assim que embarcarmos.
Jordan pousou-lhe a mão quente no fundo das costas. Ela apoiou-se nela, grata pelo toque do que era familiar, compreensível.
– Que mais esperavas de Bernard? – disse ele. – Se procurares necessidade de saber no dicionário, encontrarás o seu rosto sorridente. O tipo adora os seus segredos.
E os segredos matavam pessoas.
Erin tateou a pequena esfera de âmbar no bolso das suas calças, recordando o sorriso hesitante de Amy sob o sol do deserto.
– Por agora – prosseguiu Jordan –, mais vale fazermos o que o cardeal nos pede. Podemos sempre vir embora, se não gostarmos do que ele tem para nos dizer.
Ela assentiu. Jordan conseguia sempre apontar o caminho mais prático. Beijou-o na face, a barba parecendo-lhe áspera junto aos lábios, terminando com um beijo suave na boca.
Christian aproximou-se da porta e abriu-a.
– Para evitar atenções indesejadas, o Vaticano divulgou a história de que o comboio vai ser transferido para um estaleiro de manutenção fora de Roma. Mas quanto mais depressa partirmos, mais feliz ficarei.
Sem outra escolha, Erin subiu os degraus de metal, seguida por Jordan. Entrou numa sumptuosa carruagem-restaurante. As cortinas de veludo dourado estavam apanhadas ao lado de cada janela e o compartimento resplandecia à luz da manhã – desde o teto amarelo leitoso até à rica carpintaria de carvalho. O ar cheirava ao limão do polimento e a madeira antiga.
Jordan assobiou.
– Parece que o papa sabe viajar. A única coisa que poderia melhorar o cenário, seria uma cafeteira a fumegar numa dessas mesas.
– Concordo plenamente – disse Erin.
– Sentem-se – disse Christian, passando por eles e apontando para a mesa preparada. – Vou tratar da concretização dos vossos desejos.
Enquanto se dirigia para a carruagem da frente, Erin descobriu um lugar banhado de sol e sentou-se, apreciando o calor depois da corrida pela cidade fria. Percorreu com um dedo a toalha de mesa de linho branco. Estavam postos quatro lugares, com baixela de prata e fina porcelana decorada com o selo papal.
Jordan alisou o uniforme azul, tentando parecer apresentável, enquanto tomava lugar ao lado dela. Contudo, ela percebeu a dureza na sua expressão ao olhar para fora da janela, constantemente à espreita do perigo, embora tentasse não o mostrar.
Por fim, aquietou-se.
– Espero que a comida aqui seja melhor do que naquele lugar hippie onde o Christian nos levou em São Francisco. Comida vegetariana? A sério? Eu sou do tipo de bife com batatas fritas. E, no meu caso particular, mais inclinado para o lado carnívoro da equação.
– Estamos em Itália. Algo me diz que poderás ter sorte com a comida.
– Terá com certeza! – bradou uma nova voz atrás deles, da porta de ligação à carruagem da frente.
Sobressaltado, Jordan esteve a ponto de irromper do lugar e desferir um golpe para trás, mas até ele reconheceu o ligeiro sotaque alemão naquelas poucas palavras.
– Irmão Leopold! – exclamou Erin, encantada por ver o monge, para além da bandeja que este trazia com um serviço de café.
Não voltara a ver o monge alemão desde o dia em que ele lhe salvara a vida. Parecia igual – com os seus óculos de armação metálica, o singelo hábito castanho e o sorriso de garoto.
– Nada temam. O pequeno-almoço será servido dentro de instantes. – Leopold ergueu a bandeja. – Mas, antes de mais, Christian referiu que estavam ambos desesperados por uma dose de cafeína depois da vossa longa viagem.
– Se define dose como uma cafeteira cheia de café, está bem certo. – Jordan sorriu. – É bom voltar a vê-lo, Leopold.
– Igualmente.
O monge apressou-se para junto deles e encheu as chávenas de porcelana com uma mistura fumegante de café torrado escuro. O comboio pusera-se lentamente em movimento, o ruído dos motores a intensificar-se.
Christian reapareceu e sentou-se no lugar em frente a Erin, fixando intencionalmente a chávena fumegante que ela segurava nas mãos.
Familiarizada com a sua rotina, ela passou-lhe a chávena de porcelana branca. Ele levou-a ao nariz, fechou os olhos e inspirou profundamente a espiral de fumo. Uma expressão de contentamento atravessou-lhe o rosto.
– Obrigado – disse ele, devolvendo-lhe a chávena.
Como jovem sanguinista que era, não estava assim tão distanciado dos simples prazeres humanos, como o café. Ela apreciava isso.
– Novidades? – perguntou-lhe Jordan. – Como o local para onde vamos?
– Foi-me dito que uma vez fora de Roma, saberemos mais. Entretanto, o melhor é saborear a calma.
– Como a que antecede a tormenta? – inquiriu Erin.
Christian riu-se.
– Muito provavelmente.
Jordan pareceu suficientemente satisfeito com a resposta. Durante a viagem até ali, ele e Christian tinham-se tornado rapidamente amigos; inusitado, tendo em conta a antipatia e desconfiança de Jordan pelos sanguinistas, depois de Rhun a ter mordido.
À medida que a fila de carruagens saía lentamente da estação, o comboio dirigiu-se para um par de portas de aço, que bloqueavam a via a umas centenas de metros adiante, cravadas nos maciços muros que circundavam a Cidade Santa. O portão ostentava rebites e pregos, parecendo destinado a guardar um castelo medieval.
Um silvo de comboio soou e as portas abriram-se pesadamente, deslizando de encontro ao muro de tijolo. O portão marcava a fronteira entre a Cidade do Vaticano e Roma.
Passando pela arcada sob uma cobertura de fumo, o comboio ganhou velocidade e entrou em Roma. Atravessou a cidade como qualquer comboio comum – só que aquele era composto por apenas três carruagens: a locomotiva à frente, o vagão-restaurante a meio e um terceiro compartimento atrás. Do exterior, a última carruagem parecia igual às restantes, mas as cortinas tinham sido corridas e uma sólida porta de metal separava esta carruagem da sua.
Enquanto a olhava, agora, tentava ignorar o medo crescente que lhe apertava o estômago.
O que estaria ali?
– Ah – exclamou o irmão Leopold, chamando a sua atenção. – Conforme prometido... o pequeno-almoço.
Da locomotiva, emergiu uma nova figura tão familiar quanto Leopold, embora não tão bem-vinda.
O padre Ambrose – assistente do cardeal Bernard – entrou vindo da locomotiva, com um tabuleiro de omeletas, brioches, manteiga e compota. A cara redonda do sacerdote parecia mais corada do que o habitual, humedecida pelo suor ou talvez pelo vapor da cozinha. Não parecia feliz com o seu papel de empregado de mesa.
– Bom dia, padre Ambrose – exclamou Erin. – Que bom voltar a vê-lo.
Fez os possíveis por parecer sincera.
Ambrose nem se deu ao trabalho.
– Doutora Granger, sargento Stone – disse com indiferença, inclinando a cabeça ligeiramente para cada um deles.
O sacerdote deixou a comida e regressou à locomotiva.
Claramente, não estava interessado em conversar.
Ela perguntou-se se a sua presença indicaria que o cardeal Bernard já estava a bordo. Olhou de novo para a porta de aço que conduzia à carruagem seguinte.
Ao seu lado, Jordan atirava-se à omeleta, como se não fosse voltar a ver comida nos próximos dias – o que, considerando as experiências passadas com sanguinistas, podia ser verdade.
Seguindo-lhe o exemplo, ela espalhou compota numa metade de brioche.
Christian observava tudo, transpirando inveja.
Quando os pratos ficaram vazios, o comboio tinha serpenteado para fora de Roma e parecia dirigir-se para sul.
A mão de Jordan encontrou de novo a sua por baixo da mesa. Ela fez correr as pontas dos dedos pela palma da mão dele, apreciando o sorriso que isso provocou. Por muito que a ideia de uma relação a assustasse, por ele estava pronta a correr o risco.
Mas uma certa estranheza permanecia entre eles. Por muito que se esforçasse por o impedir, o seu pensamento voltava frequentemente ao momento em que Rhun a mordera. Nenhum homem mortal alguma vez a fizera sentir assim. Mas o ato nada significara, uma mera necessidade. Perguntava-se se essa felicidade profunda seria um artifício dos strigoi para desarmar as suas vítimas, torná-las fracas e impotentes.
Os seus dedos viram-se a tocar instintivamente as marcas no pescoço.
Queria perguntar a alguém. Mas a quem? A Jordan não, certamente. Ponderara perguntar a Christian, indagar como tinha sido para ele quando fora mordido pela primeira vez. No restaurante em São Francisco, ele parecera pressentir aqueles pensamentos, mas ela recusava-se discutir uma experiência tão erótica com qualquer homem, sobretudo um padre.
Porém, nem toda a hesitação era embaraço.
Ela sabia que parte de si não queria conhecer a verdade.
E se o sentimento de ligação que experimentara não fosse simplesmente um mecanismo para aquietar a presa? E se fosse outra coisa?
10h47
Rhun acordou com uma sensação de terror e pânico. Os braços lançaram-se para cima e para os lados, esperando sentir as paredes de pedra a enclausurá-lo.
As memórias voltaram.
Estava livre.
Enquanto escutava o estalo das rodas de aço sobre os carris, recordou-se da batalha nos limites da Cidade Santa. Sofrera ferimentos menores, mas, pior que tudo, a luta esgotara-lhe os últimos resquícios de força, devolvendo-o a um estado enfraquecido. O cardeal Bernard insistira para que descansasse, enquanto esperavam pela chegada de Erin e Jordan.
Mesmo agora, conseguia ouvir o bater surdo de corações humanos, a cadência do seu pulsar tão familiar aos seus ouvidos apurados como qualquer melodia. Correu as mãos pelo corpo. Vestia roupa seca, livre do odor a vinho apodrecido. Levantou-se devagar, testando cada vértebra enquanto o fazia.
– Cuidado, meu filho – disse Bernard da escuridão da carruagem. – Ainda não estás totalmente recuperado.
À medida que a visão de Rhun se ajustava e focava, reconheceu a carruagem-cama do comboio papal, equipada com uma cama de casal sobre a qual descansara. Havia também uma pequena secretária e um par de cadeirões de seda a ladear um sofá.
Detetou uma figura familiar atrás de Bernard, à sua cabeceira. Ela envergava uma armadura de couro justa e um cinto de corrente em prata. O cabelo preto estava puxado para trás numa trança, revelando as linhas severas do seu rosto tisnado.
– Nadia? – Crocitou ele.
Quando chegara ela?
– Bem-vindo de volta ao mundo dos vivos – disse Nadia com um sorriso malicioso. – Ou o mais próximo dos vivos que um sanguinista pode chegar.
Rhun tocou a fronte.
– Há quanto...?
Foi interrompido pela última figura que havia naquele espaço. Alongava-se no sofá, com uma perna estendida para cima, provida de uma tala. Recordou o seu coxear pela rua de pedra, ao fugir em direção à Cidade Santa.
– Helló, az én szeretett – disse Elisabeta, falando húngaro, cada sílaba tão familiar como se a tivesse ouvido no dia anterior e não há centenas de anos.
Olá, meu querido.
Não havia calor nas suas palavras, apenas desdém.
Elisabeta mudou para o italiano, embora o dialeto fosse também antigo.
– Espero que não tenhas achado a tua breve estadia na minha prisão demasiado opressiva. Mas enfim, acabaste com a minha vida, destruíste a minha alma e depois roubaste-me quatrocentos anos.
Os seus olhos argênteos fitavam-no na escuridão.
– Como tal, duvido que tenhas sido punido o suficiente.
Cada palavra dilacerava-o com a sua verdade. Ele fizera-lhe tudo aquilo, a uma mulher que em tempos amara – que ainda amava, ainda que talvez apenas a memória do seu antigo ser. Procurou a cruz peitoral, descobriu uma nova pendente do seu pescoço e rogou por perdão por esses pecados.
– Cristo tem sido de algum conforto nestas últimas centenas de anos? – inquiriu ela. – Não pareces mais feliz do que no meu castelo, há séculos.
– É meu dever servi-Lo, como sempre foi.
Um dos cantos da boca dela torceu-se num meio sorriso.
– Dás-me a resposta politicamente correta, padre Korza. Contudo, não prometemos em tempos dizer a verdade um ao outro? Não me deves ao menos isso?
Devia-lhe muito mais.
Nadia fitou Elisabeta com uma irritação não disfarçada.
– Não esqueça que ela o deixou naquele caixão para sofrer e morrer. Nem todas as mulheres que ela matou nas ruas de Roma.
– É essa a sua natureza, agora – retorquiu ele.
Eu tornei-a assim.
Ele pervertera-a. Todos os crimes dela pesavam na sua consciência – no passado e no presente.
– Podemos controlar a nossa natureza – contrapôs Nadia, tocando a delicada cruz de prata ao seu pescoço. – Eu controlo a minha todos os dias. Você também. Ela é perfeitamente capaz de fazer o mesmo, mas escolhe não o fazer.
– Eu nunca mudarei – prometeu Elisabeta. – Devias ter-me matado no castelo.
– Foi o que me ordenaram – disse-lhe Rhun. – Foi a misericórdia que me levou a esconder-te.
– Confio pouco na tua misericórdia.
Ela agitou-se no assento, erguendo as mãos juntas para afastar uma madeixa de cabelo da testa, antes de voltar a pousá-las sobre o colo. Ele viu que ela estava algemada.
– Basta. – Bernard gesticulou para Nadia.
Aproximou-se mais do sofá e pôs Elisabeta de pé sem grande delicadeza. Nadia manteve-a firmemente agarrada. Não subestimaria Elisabeta como ele fizera, quando a retirara do vinho.
A condessa simplesmente sorriu, mostrando as algemas a Rhun.
– Acorrentada como um animal – disse ela. – Foi ao que me levou o teu amor.
10h55
Leopold começou numa ponta da carruagem-restaurante, avançando até ao outro extremo. Fez o que lhe ordenaram, correndo cada par de cortinas, juntando cuidadosamente os panos até não passar qualquer fração de luz.
A carruagem escureceu, a única iluminação vinda das lâmpadas elétricas no teto. Deteve-se à porta da carruagem seguinte.
Os dois corações humanos batiam mais forte. Sentiu a ansiedade que deles se desprendia como vapor. Uma pontada de piedade tremulou por ele.
– O que está a fazer? – perguntou Erin, mas ela não era ingénua. Pela forma como olhava da porta de aço para as cortinas corridas, já devia pressentir que algo de perigoso estava prestes a ser trazido para ali.
– Está perfeitamente a salvo – garantiu-lhe Leopold.
– Para o Diabo com isso! – praguejou Jordan.
O soldado estendeu a mão para a cortina ao lado de Erin e voltou a abri-la de um sacão. A luz do sol derramou-se no interior, banhando-a.
Leopold fitou Erin no meio daquele lago de luz solar, tentando decidir se devia voltar atrás e correr a cortina. Mas pela expressão de Jordan, decidiu não o fazer. Em vez disso, bateu repetidamente na espessa porta de aço, alertando quem estava no interior de que tudo estava pronto.
Christian levantou-se, como que preparando-se para o confronto, posicionando-se entre Erin e a porta, meio nas sombras, meio na luz.
A porta abriu-se e o cardeal Bernard entrou primeiro na carruagem, usando as suas vestes escarlates. Olhou ora para Erin ora para Jordan.
– Antes de mais, permitam que me desculpe por medidas tão clandestinas, mas depois de tudo o que aconteceu – aqui e na Califórnia – achei mais prudente ser cauteloso.
Nenhum dos dois humanos pareceu muito satisfeito com a explicação, visivelmente desconfiados, mas permaneceram educadamente em silêncio.
Aquele quadro de estranheza foi interrompido quando a porta da locomotiva, no outro extremo da carruagem, se abriu e o padre Ambrose surgiu. Limpou as mãos a um pano da louça e entrou sem ser convidado. Devia ter ouvido a voz de Bernard e vindo oferecer assistência ao cardeal – e espiar a discussão.
Bernard cruzou a carruagem em passos largos. O cardeal pegou na mão de Erin com ambas as mãos, depois na de Jordan.
– Parecem ambos bem.
– O senhor também.
Erin tentou sorrir, mas Leopold podia ler a inquietação no rosto dela.
– Há notícias do paradeiro de Rhun?
A esperança era visível. Ela importava-se genuinamente com ele.
Leopold endureceu o coração contra a culpa que crescia dentro de si. Gostava daqueles dois humanos, admirava a sua vivacidade e inteligência, mas lembrou-se pela milésima vez de que a sua traição servia um propósito maior. Esse conhecimento não tornava os seus atos desleais mais fáceis.
– Explicarei tudo na altura devida – prometeu Bernard. O seu olhar voltou-se para o assistente. – É tudo, padre Ambrose.
Com um suspiro de irritação, o assistente retirou-se de volta à locomotiva, mas Leopold não tinha dúvidas de que o anguloso padre manteria um ouvido colado à porta, atento a cada palavra dita. Não estava disposto a ser deixado no escuro.
Mas eu também não.
Recordou a promessa ao Damnatus, sentiu de novo o toque da terrível traça no seu ombro, o agitar das asas contra o seu pescoço.
Não lhe posso falhar.