Sangue Inocente
Capítulo 15
19 de dezembro, 12h22, CET
Sul de Roma, Itália
Enquanto a composição oscilante de vagões atravessava a luz do meio-dia, Elizabeth forçava a corrente que prendia as suas grilhetas à parede da última carruagem.
A abominável mulher sanguinista, Nadia, arrastara-a de volta à escuridão e prendera-a naquela carruagem. A corrente estava fixa a um gancho à altura da cintura, os elos tão curtos que era obrigada a permanecer de pé, enquanto o compartimento oscilava à sua volta.
A alguns passos de distância, Nadia observava-a, tão paciente como uma raposa a vigiar uma toca de coelho.
Elizabeth torceu os braços, tentando encontrar uma posição mais confortável. As grilhetas de prata queimavam como um anel de fogo em volta dos pulsos, mas sentia-se mais à vontade ali do que na carruagem-restaurante, onde a única cortina aberta deixava entrar um raio de sol. Não mostrara o quanto lhe ferira a vista, sempre que olhava para a mulher e o soldado, recusando-se a revelar fraqueza perante os dois humanos.
À medida que o comboio avançava, afastou mais os pés para evitar ser derrubada pela oscilação. Adaptar-se-ia. O mundo moderno tinha muitos objetos poderosos e dominá-los-ia. Não permitiria que o receio de tudo isso a vencesse.
Com as mãos pressionadas contra a parede, saboreou a sensação do aço aquecido pelo sol nas suas palmas. Imaginou o astro a brilhar forte e claro lá fora, cruzando um céu azul com nuvens brancas recortadas. Não vira tais cenários durante séculos, mal se recordando de como eram. Os strigoi não podiam tolerar o sol, ao contrário dos sanguinistas. Sentia a falta do dia, com o seu calor e a sua vida, e das coisas a crescer. Lembrava-se dos seus jardins, das flores viçosas, das ervas curativas que em tempos cultivara.
Mas estaria disposta a abdicar da sua liberdade como strigoi para poder contemplar de novo o céu, convertendo-se à vida piedosa de sanguinista?
Nunca.
Esfregou as mãos aquecidas uma na outra e pressionou-as contra as suas faces geladas. Mesmo que tentasse converter-se, suspeitava que Deus sabia que o seu coração era negro e que o vinho abençoado a mataria.
Concordara ajudar os sanguinistas, mas a promessa fora feita sob ameaça de morte. Não tinha intenção de manter a palavra, se se apresentasse uma melhor oportunidade de sobrevivência. Um voto feito sob pena de morte não era vinculativo.
Não lhes devia nada.
Nadia fitou-a como se tivesse escutado os seus pensamentos. Uma vez livre, Elizabeth faria a mulher esguia pagar pela sua insolência. Mas por agora sentia que Nadia era um captor difícil de iludir. A mulher sentia claramente aversão por ela e parecia dedicada a Rhun – embora mais como uma companheira de armas, não como uma mulher dedicada a um homem.
O mesmo não podia dizer da mulher humana.
A doutora Erin Granger.
Elizabeth detetara rapidamente as reveladoras marcas rosadas no pescoço da outra. Um strigoi alimentara-se dela recentemente e permitira-lhe viver. Um caso bastante raro e, seguramente, nenhum strigoi comum teria deixado marcas tão cuidadosas. Aquelas punções revelavam controlo e zelo. Pela forma estranha como a mulher e Rhun se comportavam e não falavam, suspeitava que Rhun tivesse voltado a pecar, que tivesse voltado a beber sangue.
Mas desta vez não matara a mulher nem a transformara num monstro.
Elizabeth recordou como o coração de Erin disparara quando Rhun entrou pela primeira vez na carruagem. Ela reconhecera a angústia que se desprendeu da voz da mulher quando viu as suas feridas e disse o seu nome. Aquela humana parecia ligada a Rhun de um modo mais profundo do que a união de sangue devia permitir.
O ciúme inflamou-se, intenso e rancoroso.
O Rhun pertence apenas a mim.
Elizabeth pagara muito caro por esse amor e recusava-se a partilhá-lo.
Evocou aquela noite no passado, Rhun nos seus braços, o amor inconfessado um pelo outro por fim expresso no calor dos lábios, na pressão da carne, nas suaves palavras de amor. Ela sabia que o que estava a acontecer era proibido a um padre, mas nada sabia de como essas leis continham a besta que verdadeiramente se escondia no íntimo de Rhun. Uma vez infringidas as leis, o rosto mostrou finalmente as presas, a mais negra luxúria, e arrancou-a à sua vida anterior para a escuridão eterna.
E agora, parecia que Rhun soltara a mesma besta sobre outra mulher, outra com quem claramente se importava.
Nessa atração, Elizabeth viu também possibilidade. Quando se apresentasse a oportunidade, usaria os sentimentos que nutriam um pelo outro contra eles próprios, para os destruir a ambos.
Mas por agora, tinha de se contentar em esperar. Tinha de seguir o grupo de Bernard, embora confiasse pouco no cardeal. Não agora e não, certamente, na sua vida mortal. Nessa altura, ela tinha procurado avisar Rhun contra Bernard, pressentindo as profundezas de segredos escondidos no seu peito hipócrita e sem coração.
Na carruagem contígua, os seus ouvidos apurados escutaram o seu nome a ser referido.
– Não podemos correr o risco de a perder – disse o cardeal Bernard. – Temos de saber sempre onde está.
O jovem monge de nome Christian respondeu.
– Não se preocupe. Já tomei medidas nesse sentido. Irei mantê-la sob rédea curta.
Um outro falou com o sotaque cerrado dos alemães, identificando-o como o irmão Leopold.
– Vou buscar mais café.
Passos ligeiros deixaram a mesa, dirigindo-se à carruagem da frente, onde comida estava a ser preparada e onde ela conseguiu detetar vagamente um outro pulsar de coração, outro servo daquela horda.
Aqueles à mesa permaneceram sentados em silêncio, aparentemente com pouco para dizer, cada qual provavelmente refletindo na jornada que tinham pela frente.
Decidiu fazer o mesmo, voltando-se para Nadia.
– Fale-me desse russo ligado à família real Romanov... esse Rasputine. Porque não tem a Igreja apreço por ele?
Talvez pudesse torná-lo seu aliado.
Nadia permaneceu silenciosa como uma pedra, mas a sua expressão traía o quanto adorava guardar segredos.
– O vosso cardeal quer que eu faça parte desta demanda – relembrou-lhe Elizabeth, pressionando. – Como tal, devo saber tudo.
– Então, o cardeal que lho diga. – Nadia cruzou os braços.
Percebendo que não iria conseguir tréguas, Elizabeth voltou a atenção para a escuta, mas perdeu o interesse quando o chocalhar do comboio se tornou mais sonoro ao subir um longo monte, encobrindo quase todos os sons.
Minutos mais tarde, a porta de aço da sua prisão abriu-se, trazendo os aromas penetrantes da comida, o clarão da luz do sol e o pulsar mais nítido dos corações humanos.
O cardeal Bernard entrou com o jovem sanguinista, Christian. Eram seguidos por um outro sacerdote, este humano, provavelmente o criado do cardeal. Ela reconheceu o vagaroso pulsar da primeira carruagem, onde a comida era preparada. Ela própria estava a ficar com fome – e aquele tinha um ventre roliço, faces redondas, um leitão à espera da matança.
– Chegaremos em breve – Bernard informou Nadia. – Uma vez deixado o comboio, a condessa Bathory ficará a seu cargo e de Christian.
– A prisioneira, não é o que quer dizer? – corrigiu Elizabeth. – Apesar de me ter incluído na demanda, confia assim tão pouco em mim?
– A confiança ganha-se – interpôs Christian. – E neste momento goza de um notório défice de confiança.
Ela estendeu as mãos atadas.
– Não podem pelo menos soltar-me, para me mover livremente nesta prisão? Com o sol lá fora, não posso escapar. Não vejo que mal...
Uma explosão silenciou as suas palavras. Como que atingida pela mão de Deus, a carruagem ergueu-se por inteiro debaixo dos pés, cavalgando sobre um estrondo ameaçador, acompanhado das chamas do Inferno.