Sangue Inocente
Capítulo 32
19 de dezembro, 23h50, CET
Espaço aéreo sobre o mar Báltico
Assim que o jato alcançou a altitude de cruzeiro, Rhun desapertou o cinto. Precisava de se mexer, de libertar a sua frustração. Anteriormente, mal conseguira conter a ansiedade enquanto Christian executava a interminável verificação pré-voo e Jordan examinava o avião com um sensor para detetar possíveis explosivos ocultos. Eram ambas precauções sensatas, mas Rhun sentia-se nervoso com atrasos adicionais, sentindo Elisabeta a fugir para mais longe a cada minuto que passava.
Visualizou o semblante presunçoso do homem que matara Nadia. Elisabeta estava agora debaixo da sua alçada, de um homem que a podia matar com um simples gesto.
Porque a levara ele?
Porque fora ela com ele?
Rhun compreendia, pelo menos, a resposta a essa última pergunta. Olhou para o caixão vazio na retaguarda do avião, onde Elisabeta fora aprisionada na viagem até ali.
Falhei em protegê-la.
Mas quem era verdadeiramente aquele homem?
Durante a corrida até ao aeroporto, Grigori enviara uma mensagem para o telemóvel de Rhun. Era uma simples imagem de uma âncora antiga.
Por baixo, estavam as palavras: «Este é o símbolo dele. Tem cuidado.»
Necessitando de se mexer, Rhun caminhou até ao cockpit e espreitou para dentro do compartimento iluminado pelos instrumentos.
– Pode entrar – disse Christian, gesticulando para o lugar do copiloto.
Rhun permaneceu no limiar. Não gostava de estar perto dos comandos, com receio de embater inadvertidamente algures e causar estragos.
– Ainda estou a seguir o avião da condessa – disse Christian. – Continua a seguir para sul, nos limites do corredor aéreo convencional. Agora, é apenas uma questão de lhes seguir no encalço e de tentar encurtar a distância. Mas será que o devíamos fazer?
– O que quer dizer?
– Acredita verdadeiramente que o homem que perseguimos é o Traidor de Cristo? – indagou Christian. – E não um louco iludido?
– Elisabeta reconheceu-o do seu tempo, atestando-o como imortal. E tem batimento cardíaco. Por isso, não pode ser um strigoi, mas antes outra coisa.
– Tal como o rapaz.
Rhun considerou o facto, pressentindo que devia haver uma ligação entre eles.
Mas qual?
– Seja ou não, verdadeiramente, Judas Iscariotes do Evangelho – disse Rhun –, foi-lhe dada a imortalidade, mantendo a humanidade. Tal milagre exigiria aparentemente a mão de Deus ou, possivelmente, um ato de Cristo como o homem o alega.
– Se estiver certo, então deve ter-lhe sido concedido esse milagre com um propósito.
– O de desencadear o Apocalipse?
– Talvez. – Christian fitou Rhun, tateando a sua cruz. – Se estiver certo, estaremos a interferir com a vontade de Deus ao tentar impedi-lo, ao persegui-lo, ao tentar resgatar esse rapaz?
Tornou-se audível um movimento atrás deles. Erin desapertou o cinto e caminhou na direção deles, arrastando Jordan com ela. Ambos tinham trocado para roupas lavadas e secas, antes de levantarem voo. O aroma a alfazema flutuou com ela, empurrando Rhun mais para dentro do cockpit, para manter maior distância.
Ela encostou-se à ombreira da porta.
– Acreditam que seria vontade de Deus torturar uma criança inocente?
– Lembra-te – falou Jordan –, que se trata de Judas. O seu papel é o de mau da fita, certo?
– Depende de como se interpretam os Evangelhos – disse Erin, voltando-se para ele, mas dirigindo as suas palavras a todos. – Nos textos canónicos da Bíblia, Cristo sabia que Judas O ia trair, mas nada fez para o impedir. Cristo precisava de alguém que o entregasse aos Romanos, para que Ele pudesse morrer na cruz pelos pecados do homem. Com efeito, num texto gnóstico – o Evangelho de Judas –, afirma-se que Cristo lhe pediu que O traísse, dizendo a Judas: «Quanto a ti, superarás todos os outros. Pois sacrificarás o homem que me encarna.» Por isso, na melhor das aceções, o caráter de Judas é indistinto.
Jordan franziu as sobrancelhas, claramente não aceitando o juízo.
– Indistinto? Eu vi-o dizimar Nadia e as crianças de Rasputine. Ele alvejou-me no peito. Não o aceito como força do bem.
– É possível – disse Christian. – Mas talvez Deus precise, por vezes, de uma força do mal para agir. A traição de Judas serviu um desígnio maior. Tal como Erin disse, Cristo tinha de morrer para nos perdoar os pecados. Talvez o mesmo aconteça agora. Uma ação do mal para servir um propósito maior.
Erin cruzou os braços.
– Então, ficamos quietos, permitindo que o mal aconteça na possibilidade improvável de um desfecho positivo. Ou seja, os fins justificam os meios.
– Mas quais são os fins? – indagou Jordan, indo direto ao cerne do problema com o seu habitual espírito prático. – Ainda não fazemos ideia do que o canalha quer do rapaz.
– Ele continua a ser o profetizado Primeiro Anjo – recordou Rhun. – O rapaz deverá servir um destino. Talvez Judas tencione pervertê-lo, da mesma forma que tentou acabar com a trindade matando Jordan.
Jordan massajou o peito, parecendo desconcertado com o pensamento.
Erin franziu a testa.
– Mas o que é o Tommy? Claramente, não pode morrer. Então, será verdadeiramente um anjo?
Rhun lançou-lhe um olhar duvidoso.
– Eu ouvi-lhe o bater do coração. Soava natural e humano, nada de outro mundo. Na melhor das hipóteses, poderá ter sangue angelical, alguma bênção lançada sobre ele no topo daquela montanha, em Massada.
– Mas porquê ele? – insistiu Erin. – Porquê Tommy Bolar?
Rhun abanou a cabeça, incerto.
– Na montanha, eu procurei consolá-lo, indagar o que sabia dos trágicos acontecimentos que tinham matado tantos, mas que contudo o pouparam. Ele mencionou ter encontrado uma pomba com a asa partida, ter tentado salvá-la, mesmo antes de o chão se abrir e a terra começar a tremer.
– Um único ato de misericórdia? – murmurou Erin. – Seria o suficiente para lhe garantir tal bênção?
Christian olhou para trás quando atingiram uma zona de turbulência.
– A pomba é, muitas vezes, o símbolo do Espírito Santo. Talvez o mensageiro procurasse alguém merecedor de tal bênção. Apresentando-lhe um pequeno teste.
Rhun anuiu.
– Ele era um rapaz comum quando chegou à montanha, mas talvez ao realizar aquele ato misericordioso no lugar e na hora certos, tivesse sido infundido de sangue angelical.
– Não me interessa o que está no sangue dele – disse Jordan. – Se estiver certo, ele continua a ser essencialmente um rapaz.
– Ele é mais do que um rapaz – contrapôs Rhun.
– Mas é também um rapaz – insistiu Erin. – E não devemos esquecer isso.
Rhun não podia negar as palavras dela, mas nada daquilo resolvia a preocupação fundamental levantada por Christian. Rhun encarou todos os outros.
– Então, corremos o risco de contrariar a vontade de Deus ao salvar Tommy das mãos de Iscariotes?
– Sem a menor dúvida. – Jordan ergueu o queixo, pronto a lutar pelo rapaz. – O meu antigo comandante incutiu em todos os soldados uma citação: «Tudo o que basta para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam.»
Erin mostrou a mesma determinação.
– Jordan tem razão. Trata-se de vontade própria. Tommy Bolar escolheu salvar aquela pomba e foi abençoado por esse ato de bondade. Temos de permitir que o rapaz escolha o seu próprio futuro, não que seja privado dele por Iscariotes.
Rhun não esperara menos de nenhum deles e retirou força das suas palavras.
– Cristo caminhou de livre vontade para a cruz – concordou. – Daremos a este rapaz, Tommy, a mesma liberdade para decidir o seu destino.
23h58
Quando o aeroplano atingiu uma violenta zona de turbulência, Christian enviou-os de volta aos seus lugares. Os solavancos e oscilações ecoavam o próprio mal-estar de Erin, aumentando a sua inquietação. Ao apertar o cinto, ela sabia que devia tentar dormir, mas sabia, também, que qualquer esforço nesse sentido seria inútil.
Jordan parecia menos perturbado, bocejando com um estalar dos maxilares, o seu treino de soldado prestando-lhe serviço. Ele parecia conseguir dormir nas mais duras circunstâncias.
Enquanto ele se reclinava no assento, contorcendo a sua larga estrutura numa posição melhor, Erin fitava pela janela a extensão de negrume sobre o mar da meia-noite. A sua mente girava em torno do mistério que era Tommy Bolar, em torno da dimensão da história que envolvia Judas Iscariotes. Por fim, necessitando de distração, procurou dentro do bolso do casaco e tirou para fora o objeto coberto de oleado que recuperara da neve do labirinto de gelo.
Rhun remexeu-se diante dela, o seu olhar fixando-se no que ela continha nas mãos.
– Isso pertence à condessa. Ela encontrou-o congelado na parede do labirinto. Deve tê-lo deixado cair durante a confusão.
Erin franziu a testa, recordando-se de ter encontrado a manta da irmã bebé similarmente engastada no gelo, aí colocada pelo monge russo para desorientar e causar dor. A visão daquela peça de tecido manchada afetara-a profunda e pessoalmente.
Contudo, abandonei-a.
Passou um dos polegares pelo oleado. Bathory desenterrara, claramente, o seu prémio. Seria essa a escolha certa no labirinto? Erin escolhera seguir os ditames da necessidade, em vez da emoção. Contudo, Bathory vencera, rebentando com o gelo e revelando um atalho. Teria Grigori testado o coração de ambas?
Seria por isso que falhei?
Ainda agora, percorria-a a angústia do arrependimento. Devia ter recuperado a manta, para a poder levar de volta à Califórnia e sepultá-la na campa da irmã, onde pertencia.
Considerou o objeto nas suas mãos, perguntando-se o que conteria, se tivera sobre Bathory o mesmo impacto emocional que a manta tivera sobre si. Precisando de saber, esforçou-se por soltar o nó, os dedos deslizando de cada vez que o avião balançava.
Finalmente, o cordão afrouxou um pouco. Lentamente, desfez o resto do nó e puxou para trás uma ponta do tecido. Parecia linho tratado com cera de abelha para o tornar resistente à água.
– O que quer que se encontre aqui – murmurou –, devia ser importante para Bathory.
Rhun estendeu a mão.
– Então, provavelmente é privado, devendo ser por nós respeitado.
Erin imobilizou a mão, recordando como ficara perturbada perante a ideia de Rasputine ter violado a campa da irmã para obter a manta.
Estarei a cometer uma violação semelhante?
Jordan mexeu-se ao seu lado, claramente acordado.
– Algo aí dentro poderá oferecer-nos uma pista para o interesse do canalha pela condessa. Poderá salvar-lhe a vida. Salvar a nossa vida.
Erin ergueu as sobrancelhas para Rhun.
O sacerdote baixou a mão sobre o colo, acedendo.
Enquanto o aeroplano abanava para cima e para baixo, Erin desdobrou o grosso pano com movimentos determinados. Revelou um livro, envolto em couro, corrompido pelas marcas da idade. Ela passou suavemente um dedo pela insígnia gravada a relevo na capa.
Era um símbolo heráldico de um dragão enrolado e três dentes horizontais.
– É o brasão da família Bathory – disse Rhun. – Os dentes aludem a um dragão alegadamente morto pelo guerreiro Vitus, o fundador da linhagem Bathory.
Agora ainda mais curiosa, afastou gentilmente a capa, revelando papel escurecido num tom creme acastanhado. Uma evidente escrita feminina fluía pela página, desenhada a tinta de sais de ferro. Havia, igualmente, um belo esboço de uma planta: folhas, caules e mesmo uma nota detalhada do sistema de raízes.
O coração de Erin acelerou.
Devia ser o seu diário pessoal.
– O que diz? – perguntou Jordan, sentando mais direito e aproximando-se.
– É latim. – Ela ponderou sobre a primeira frase, habituando-se à caligrafia. – Descreve um amieiro, enumerando as diversas propriedades das diferentes partes. Inclui remédios e a forma de os preparar.
– No seu tempo, Elisabeta foi uma mãe dedicada e curandeira.
Rhun falou tão baixo, que ela mal conseguiu perceber as palavras.
– No nosso tempo, ela é uma assassina – acrescentou Jordan.
Rhun endureceu.
Erin passou à página seguinte. Continha um hábil esboço de um milefólio. A condessa reproduzira os seus botões compósitos, as folhas felpudas, a raiz aprumada dotada de minúsculos enliços recurvados dos lados.
– Parece que era, igualmente, uma artista talentosa – disse Erin.
– De facto – reconheceu Rhun, transparecendo maior amargura, provavelmente relembrado de toda a virtude que destruíra quando a transformara.
Erin examinou o texto, decifrando os usos medicinais comuns do milefólio: no tratamento de feridas e para estancar a hemorragia. Uma nota em fim de página chamou-lhe a atenção. É também conhecido como «urtiga do Diabo», devido aos efeitos divinatórios e de afastamento do mal.
A última parte indicava que Bathory vivera em tempos supersticiosos. Contudo, a condessa procurara compreender as plantas, trazer-lhes ordem, conciliando a Ciência com as crenças daqueles dias. Um respeito rancoroso pela mulher cresceu dentro de si. A condessa desafiara as superstições do seu tempo na busca de modos de curar.
Erin contrastou aquela informação com as rígidas admonições do seu pai contra a medicina moderna. Em lugar disso, ele aderira à superstição, agarrando-se às suas crenças com mãos calejadas e atitude inflexível, não permitindo cedências.
Tal cegueira determinada matara a sua irmã recém-nascida.
Erin acomodou-se no seu lugar e leu, não mais notando a turbulência, enquanto aprendia sobre os antigos usos das plantas. Mas a meio, as ilustrações mudaram subitamente.
Em vez de pétalas de flores e raízes, viu-se a fitar uma representação detalhada de um coração humano. Era anatomicamente perfeito, como um dos esboços medievais de Da Vinci. Aproximou o livro. Nítidas letras por baixo do coração indicavam o nome e idade de uma mulher.
Dezassete.
Um arrepio percorreu-a, enquanto continuava a ler. A condessa transformara aquela rapariga de dezassete anos numa strigoi – depois matara-a e dissecara-lhe o corpo, tentando descobrir porque o seu próprio coração já não tinha batimento. A condessa observava que o coração strigoi era anatomicamente idêntico ao coração humano, mas já não necessitava de se contrair. Bathory anotava as suas especulações sobre as experiências por si conduzidas, na mesma escrita cuidada. Avançava a hipótese de que os strigoi possuíam um outro método de circulação.
Designava-o como a vontade do próprio sangue.
Horrorizada, Erin releu a página. O brilhantismo de Bathory era inegável. Aquelas páginas precediam as teorias europeias da circulação em pelo menos vinte anos. No seu castelo isolado, afastada de universidades e cortes, ela usara as suas macabras experiências para compreender o seu novo corpo, de formas que poucos na Europa poderiam ter imaginado.
Erin perscrutou as páginas seguintes, à medida que os métodos de Bathory se tornavam mais tenebrosos.
A condessa torturara e assassinara inocentes para satisfazer a sua insaciável curiosidade, dirigindo os seus talentos de curandeira e cientista para fins sinistros. Aquilo lembrou Erin do que os investigadores médicos nazis tinham feito aos prisioneiros dos seus campos de concentração, atos igualmente insensíveis e alheios ao sofrimento.
Erin tocou a página envelhecida. Enquanto arqueóloga, não devia fazer juízos. Muitas vezes, era-lhe exigido que encarasse de frente o mal e registasse os seus atos. A sua função era pegar em factos da História, colocá-los num contexto mais abrangente e trazer as verdades à luz, por muito horríveis que fossem.
Assim, apesar do mal-estar, continuou a ler.
Lentamente, a busca da condessa voltou-se do aspeto físico para o espiritual. Erin deparou-se com uma passagem, datada de 7 de novembro de 1605. Dizia respeito a uma conversa que Elizabeth tivera com Rhun, sobre como os strigoi não tinham alma.
Bathory queria saber se era verdade. Erin leu o que ela escrevera.
Confio que ele me diz a verdade em que acredita, mas não penso que alguma vez tenha ido além da fé para procurar entender os simples mecanismos desta condição que nos foi imposta.
Procurando provas dessa suposição, Bathory experimentou e observou. Primeiro, pesou as raparigas antes e depois da morte, para ver se a alma tinha peso. Tirou a vida a quatro raparigas para determinar que não.
Numa outra página, estava uma ilustração arquitetonicamente precisa de um caixão de vidro selado. Bathory mandara-o construir de modo a ser estanque. Encheu-o mesmo de fumo, para se certificar de que nenhum gás poderia escapar. Uma vez satisfeita, Bathory encerrou uma jovem rapariga no interior e deixou-a sufocar, tentando capturar a alma da rapariga morta dentro da caixa.
Erin imaginou a rapariga a socar as paredes do caixão, implorando pela vida, sem que a condessa mostrasse misericórdia, deixando-a morrer e registando as suas notas.
Depois, a condessa manteve a caixa selada durante vinte e quatro horas, examinando-a à luz da vela, à luz do sol. Não encontrou o mínimo vestígio de alma na caixa de vidro.
A condessa fez o mesmo com uma rapariga strigoi, ferindo-a mortalmente, antes de a selar para morrer. Erin queria passar à frente dessas experiências arrepiantes, mas o olhar foi atraído para uma passagem no final da página seguinte. Apesar do horror, esta intrigou-a.
Após a morte da criatura, uma pequena sombra escura ergueu-se do seu corpo, quase impercetível à luz da vela. Ao longo da noite, observei a sombra agitar-se dentro da caixa, procurando escapar. Mas, ao amanhecer, um raio de sol incidiu sobre ela, que se dissipou e desapareceu da minha vista, para nunca mais voltar.
Em choque, Erin leu a passagem repetidas vezes. Teria Bathory sido iludida, vendo algo que não estava lá? Senão, o que quereria aquilo dizer? Que uma força obscura animava os strigoi? Rhun saberia disso?
Erin leu a conclusão de Bathory.
Avanço a hipótese de que a alma humana seja invisível, talvez demasiado diáfana para que os meus olhos a vejam, mas as almas de criaturas como eu própria são escuras como prata manchada. Na sua tentativa de escapar, para onde procurava ir? É o que me proponho descobrir.
Erin estudou a última página, em que Bathory reproduzira uma imagem rigorosa da experiência. Mostrava uma rapariga com presas jazendo morta num caixão de vidro. A luz de uma janela incidia sobre o fundo da caixa, enquanto uma sombra escura pairava no outro extremo, como se procurasse fugir da luz.
Rhun fitava a página, também visivelmente abalado. Mas o que o perturbaria mais: a sombra ou a rapariga assassinada? Ele estendeu a mão para o livro.
– Posso ver, por favor?
– Sabia disto? O que ela fazia? O que ela descobriu?
Rhun evitou o seu olhar.
– Ela procurava descobrir que tipo de criatura era... em que tipo de besta eu a transformara.
Erin folheou as páginas seguintes, todas em branco. Claramente, Bathory fora apanhada e aprisionada pouco depois dessa última experiência. Estava prestes a passar o livro a Rhun, quando vislumbrou um desenho final, na última página, que parecia ter sido traçado com grande pressa.
Parecia uma espécie de taça, mas qual seria o seu significado?
– Posso ver? – pediu de novo Rhun.
Ela fechou o livro e passou-lho.
Lentamente, ele percorreu as páginas. Ela viu o maxilar dele a contrair-se, mais e mais.
Culpar-se-á pelas ações da condessa?
Como poderia não se culpar?
Por fim, Rhun fechou o livro, o seu rosto perdido e derrotado.
– Em tempos, ela não era maligna. Era radiosa e benevolente.
Erin perguntou-se o quanto isso seria verdade ou se o amor cegara Rhun à verdadeira natureza da condessa. Para Bathory ter executado experiências tão medonhas, devia haver alguma obscuridade atrás desse brilho, enterrada fundo, mas latente.
Jordan franziu o sobrolho.
– Não me interessa o que essa condessa foi no passado. Agora, é maligna. E é bom que nenhum de nós o esqueça.
Lançou a Rhun um olhar fulminante, depois voltou-lhes as costas, pronto para dormir.
Erin sabia que ele tinha razão. Se tivesse a oportunidade, Bathory matá-los-ia a todos – provavelmente de forma lenta, ao mesmo tempo que tomava notas.