Sangue Inocente
Prólogo
Solstício de verão, 1099
Jerusalém
Enquanto os gritos dos moribundos se erguiam em direção ao sol do deserto, os dedos esquálidos de Bernard agarraram a cruz que pendia do seu pescoço. O toque da prata abençoada queimou-lhe a palma da mão calejada pela espada, marcando a carne amaldiçoada. Ignorou o odor da pele cauterizada e apertou-a com mais força. Aceitou a dor.
Pois essa dor tinha um propósito – servir a Deus.
À sua volta, peões e cavaleiros lançavam-se sobre Jerusalém numa vaga de sangue. Nos últimos meses, os cruzados tinham aberto caminho à força por terras hostis. Nove em cada dez homens pereceram ainda antes de alcançarem a Terra Santa: derrotados pela batalha, pelo impiedoso deserto, por doenças pagãs. Aqueles que sobreviveram, choraram abertamente ao verem Jerusalém pela primeira vez. Mas todo esse sangue derramado não o fora em vão, pois agora a cidade seria de novo restituída aos cristãos, uma vitória cruel, marcada pela morte de milhares de infiéis.
Bernard sussurrou uma breve oração pelos que tinham sido chacinados.
Não tinha tempo para mais.
Abrigando-se ao lado da carroça, puxou para baixo o grosseiro capuz do hábito sobre os olhos, mergulhando o cabelo branco e rosto pálido mais fundo nas sombras. Então, segurou o freio do garanhão e afagou o pescoço quente do animal, sentindo o retumbar do seu coração nas pontas dos dedos e nos ouvidos. O terror inundava o sangue do corcel e evaporava-se dos seus flancos transpirados.
No entanto, com um puxão firme, o animal avançava ao seu lado, arrastando a carroça pelas pedras da calçada ensopadas em sangue. O estrado de madeira sustentava uma jaula de ferro, suficientemente grande para aprisionar um homem. Uma espessa cobertura de couro envolvia estreitamente a jaula, escondendo o que encerrava. Mas ele sabia. E o cavalo, também. As orelhas foram puxadas para trás numa expressão ansiosa. A desalinhada crina negra agitava-se.
Alinhados numa falange cerrada mais adiante, os obscuros confrades de Bernard – os outros cavaleiros da Ordem dos Sanguinistas – esforçavam-se por abrir caminho. Todos eles valorizavam aquela missão, mais do que a própria existência. Lutavam com uma força e determinação inigualáveis em qualquer humano. Um dos seus irmãos revoluteou no ar, com uma espada em cada mão, revelando a sua natureza inumana, tanto pela rapidez do aço, como pelo brilho dos dentes afiados. Todos tinham sido outrora bestas ímpias, como aquele encarcerado na carroça, despojados de alma e votados ao abandono – até serem resgatados por Cristo. Cada um deles celebrara um pacto obscuro de não mais saciar a sede com sangue humano, mas unicamente com o sangue consagrado de Cristo, uma mercê que lhes permitia caminhar metade na sombra, metade à luz do sol, no fio da espada entre a graça e a condenação.
Agora votados por juramento à Igreja, cada um deles servia a Deus como guerreiro e como sacerdote.
Os mesmos deveres tinham arrastado Bernard e os outros até aos portões de Jerusalém.
Por entre os gritos e a carnificina, a carroça rolava a passo firme. Bernard queria que as rodas rolassem mais céleres, à medida que o medo se apoderava de si.
Tinha de se apressar...
Porém, uma outra necessidade percorria-o com a mesma urgência. Enquanto avançava, o sangue escorria das paredes em volta e corria em rios por entre as pedras debaixo dos seus pés. A acidez do ferro enchia-lhe a cabeça, toldando o próprio ar, inflamando uma fome profunda. Lambeu os lábios secos, como que tentando provar o que lhe era proibido.
Não era o único que sofria.
Do interior da jaula obscura, a criatura uivava, sentindo o odor do sangue derramado. Os seus brados apelavam ao mesmo monstro ainda escondido no fundo de Bernard – só que este monstro não estava encarcerado pelo ferro, mas pelo juramento e pela bênção. E ainda assim, em resposta a esse grito de fome de carne crua, as pontas dos dentes de Bernard tornaram-se mais longas e aguçadas, e o seu desejo mais intenso.
Ao ouvir esses gritos, os seus irmãos lançaram-se para diante com renovado ímpeto, como se fugissem do seu passado.
O mesmo não podia dizer-se do cavalo.
Quando a criatura uivava, o garanhão paralisava nos seus arreios.
Como bem devia.
Bernard capturara o demónio enjaulado há uns dez meses, num estábulo abandonado às portas de Avinhão, em França. Aquelas criaturas malditas deram por diferentes nomes ao longo dos séculos. Embora outrora humanos, eram agora um flagelo que assolava os lugares sombrios, sobrevivendo do sangue de homens e animais.
Depois de prender o demónio na jaula, Bernard cobrira o novo cárcere com camadas de couro grosso, para que nem um grão de luz pudesse penetrar. Esse escudo protegia a besta da luz abrasadora do dia, mas a proteção tinha um preço. Bernard mantinha-o voraz, dando-lhe apenas o sangue suficiente para sobreviver, mas nunca o bastante para o saciar.
Naquele dia, tal fome serviria a Deus.
Com o objetivo dolorosamente próximo, Bernard tentou fazer o cavalo avançar de novo. Passou a mão tranquilizadora pelo focinho coberto de suor, mas o animal não parecia acalmar. Agitava-se contra um dos tirantes, depois o outro, lutando por se libertar.
À sua volta, os sanguinistas rodopiavam na habitual dança de guerra. Os gritos agudos de homens moribundos ecoavam da pedra fria. A besta dentro da jaula castigava as laterais como um tambor e urrava para se juntar à carnificina, para provar o sangue.
O cavalo gemia e sacudia a cabeça de terror.
Por esta altura, o fumo revoluteava das ruas e vielas vizinhas. O cheiro a lã e carne queimada assaltou-lhe as narinas. Os cruzados tinham começado a deitar a tocha a secções da cidade. Bernard receou que arrasassem aquela parte de Jerusalém onde tinha de chegar – a parte onde estaria escondida a arma sagrada.
Reconhecendo que o cavalo não seria de mais uso, Bernard puxou da espada. Com alguns golpes hábeis, cortou os arreios. Liberto, o animal não precisou de incitamento. Arrancando-se aos tirantes, derrubou um sanguinista e desembestou pela carnificina adentro.
Que vá com Deus, rogou.
Deslocou-se para a retaguarda da carroça, sabendo que nenhum dos irmãos podia ser dispensado da batalha. Teria de dar aqueles últimos passos sozinho.
Como Cristo com a sua pesada cruz.
Embainhou a espada e assentou o ombro contra o fundo do carro.
Empurrá-lo-ia à força de braços pelo caminho restante. Numa outra vida, quando o seu coração ainda batia, fora um homem forte e vigoroso. Agora, tinha uma força que excedia a de qualquer humano.
Com o cheiro pungente do sangue a deixar um bafo húmido no ar, inspirou, vacilante. O desejo da seiva rubra cercava-lhe a visão. Ele queria bebê-la de cada homem, mulher e criança no burgo. A intensidade do desejo deixava-o à beira do limite.
Em vez disso, cingiu a cruz ardente, deixando que a dor sagrada o serenasse.
Deu um vagaroso passo em frente, forçando as rodas do carro a descreverem uma rotação e depois outra. Cada volta cumprida deixava-o mais perto do objetivo.
Mas um medo angustiante crescia, a cada passo conquistado.
Será tarde demais?
Quando o sol mergulhava no horizonte, Bernard avistou por fim a sua meta. Estremeceu do esforço, quase esgotado apesar da sua imensa força. No final da estrada, para lá de onde os últimos defensores da cidade se batiam ferozmente, a cúpula plúmbea de uma mesquita erguia-se contra um indiferente céu azul. Manchas escuras de sangue maculavam a sua fachada nívea. Mesmo àquela distância, sentia o pulsar assustado de homens, mulheres e crianças refugiados no interior das grossas paredes do templo.
Enquanto se pressionava contra a carroça, ouvia as preces de misericórdia a um deus distante. Não obteriam nenhuma da besta no carro.
Nem dele.
As suas pequenas vidas pouco contavam à vista do prémio procurado – uma arma que prometia livrar o mundo de todo o mal.
Distraído por essa esperança, não pôde impedir a roda dianteira do carro de cair num sulco fundo da estrada, alojando-se teimosamente entre as pedras. A carroça estacou com sobressalto.
Como que percebendo a vantagem, os infiéis penetraram a falange protetora em redor do carro. Um homem esguio de cabelo negro revolto lançou-se contra Bernard, a sua lâmina curva a reluzir ao sol, disposto a proteger a mesquita e a família com a própria vida.
Bernard aceitou esse pagamento, esventrando-o com um relampejante golpe de aço.
O sangue quente salpicou as vestes sacerdotais de Bernard. Embora fosse proibido, salvo em circunstâncias e necessidade extremas, tocou o tecido manchado e levou os dedos aos lábios. Lambeu o líquido carmesim das pontas dos dedos. Só o sangue lhe poderia dar força para continuar a avançar. Mais tarde cumpriria penitência, por cem anos, se preciso fosse.
Pela língua, o fogo penetrou-o, alimentando-lhe os membros de força renovada, apurando-lhe a visão. Encostou o ombro ao carro e, com impressionante ímpeto, voltou a pô-lo em movimento.
Uma prece cruzou-lhe os lábios – implorando pela duração das suas forças, pelo perdão do pecado cometido.
Impeliu o carro para diante, enquanto os seus irmãos abriam caminho.
As portas da mesquita surgiram diante dele, os seus últimos defensores moribundos na soleira. Bernard abandonou a carroça, deu as últimas passadas até ao templo e abriu a pontapé a porta barrada, com uma força que nenhum homem comum poderia invocar.
Do interior, gritos aterrorizados ecoaram pelas paredes ornamentadas. As pulsações uniam-se no pavor – demasiadas, demasiado aceleradas para distinguir uma só. Fundiam-se num batimento único, como o rugido do mar. Olhares assustados fitavam-no de volta, da escuridão sob a cúpula.
Estacou à entrada, para que o pudessem ver iluminado em contraluz pelas chamas da cidade. Impunha-se que reconhecessem as suas vestes de sacerdote e a cruz de prata, que compreendessem que os cristãos os tinham vencido.
Mas mais do que isso, importava que entendessem que não podiam escapar.
Os seus confrades sanguinistas alcançaram-no, postando-se ombro a ombro atrás dele, à entrada da mesquita. Ninguém escaparia. O cheiro a terror preenchia o amplo espaço, do chão de ladrilhos à larga cúpula lá no alto.
De um salto, Bernard regressou à carroça. Soltou a gaiola e arrastou-a escadas acima até à porta, com o fundo de ferro a guinchar, traçando longas linhas negras nos degraus de pedra. A barreira de sanguinistas abriu-se para o receber e fechou-se de novo atrás dele.
Equilibrou a gaiola na vertical, sobre os ladrilhos de mármore polido. A espada decepou o ferrolho com um só golpe. Recuando, fez abrir a porta ferrugenta da gaiola. O rangido abafou a pulsação, a respiração.
A criatura avançou, livre pela primeira vez em muitos meses. Os longos braços tateavam o ar, como que procurando as tão familiares barras.
Bernard mal conseguia imaginar que aquela coisa fora outrora humana – a sua pele lívida como a dos mortos, o cabelo dourado tornado longo e enredado pelas costas abaixo, os membros delgados como os de uma aranha.
Aterrorizada, a multidão recuou para longe da vista da besta, comprimindo-se contra as paredes distantes, esmagando outros com o seu receio e pânico. O débil odor do sangue e do medo irradiava deles.
Bernard ergueu a espada e esperou que a criatura o encarasse. A criatura não podia escapar para as ruas. O seu trabalho era ali. Tinha de trazer o mal e a blasfémia àquele lugar sagrado. Tinha de destruir qualquer vestígio de sacralidade que ainda restasse. Só então o lugar poderia ser novamente consagrado ao Deus de Bernard.
Como se lhe lesse o pensamento, a besta ergueu o rosto enrugado para Bernard. Um par de olhos de um branco leitoso. Há muito que fora privado do sol e há muito que se tinha metamorfoseado.
Um bebé choramingou no espaço que se abria pela frente.
A besta não podia resistir à tentação.
Com um dardejar dos membros esqueléticos, voltou-se na direção oposta e precipitou-se sobre a presa.
Bernard baixou a espada, já não precisando dela para manter o monstro à distância. A promessa de sangue e de dor mantê-lo-ia confinado àquelas paredes, por enquanto.
Forçou os seus pés a avançar, seguindo no encalço da besta assassina. Ao cruzar a cúpula, bloqueou os ouvidos aos gritos e preces. Desviou a vista da carne dilacerada, dos corpos que pisava. Recusou-se a reagir à malícia do sangue que pairava no ar.
Contudo, o monstro dentro de si, alimentado há pouco com umas gotas da seiva carmesim, não podia ser totalmente ignorado. Ele ansiava por se juntar ao outro monstro, alimentar-se e entregar-se a uma necessidade simples.
Ficar saciado, verdadeiramente saciado, pela primeira vez em anos.
Bernard apressou-se, atravessando o espaço, receoso de perder o controlo, de sucumbir ao desejo, até que chegou aos degraus no lado oposto.
Aí, o silêncio deteve-o.
Atrás dele, todos os batimentos cardíacos cessaram. A quietude aprisionou-o e ele estacou, incapaz de se mover, subjugado pela culpa.
Então, um grito sobrenatural ecoou da cúpula, enquanto os sanguinistas matavam por fim a besta que cumprira a sua função.
Que Deus me perdoe...
Liberto do silêncio, precipitou-se pelos degraus e passagens tortuosas, nas profundezas da mesquita. O rumo trilhado levava-o mais fundo nas entranhas da cidade. O denso odor da carnificina perseguia-o, um espectro nas sombras.
Depois, por fim, sentiu um outro odor.
Água.
Deixou-se cair de gatas, rastejou por um túnel apertado e vislumbrou o tremular de uma chama, mais adiante. Esta incitava-o a avançar, como a uma traça. No final do túnel, abria-se uma caverna, suficientemente alta para se poder levantar.
Arrastou-se para fora do túnel e pôs-se de pé. Uma tocha feita de junco estava suspensa de uma parede, lançando uma luz trémula sobre uma lagoa de águas negras. Gerações de fuligem maculavam o teto alto.
Começou a avançar quando uma mulher se ergueu de trás de um penedo. Tranças de um negro lustroso, caídas sobre os ombros da sua simples túnica branca, e uma pele escura, de brilho suave e perfeito. Um fragmento de metal, do comprimento da palma da mão, pendia de uma fina corrente de ouro presa em torno do seu pescoço esguio. Repousava entre os seios, que se insinuavam contra o fino corpete de linho.
Há muito que era sacerdote, mas o seu corpo reagiu à beleza da mulher. Com grande esforço, obrigou o seu olhar a enfrentar o dela. Os seus olhos claros fitaram os dele.
– Quem és? – perguntou ele.
Não lhe ouvia o bater do coração, mas sabia também instintivamente que ela não era como a besta enjaulada, nem como ele próprio. Mesmo àquela distância, sentia o calor irradiado pelo corpo da mulher.
– És a Senhora do Poço?
Era o nome que descobrira escrito num antigo pedaço de papiro, juntamente com um mapa do que se encontrava nas profundezas.
Ela ignorou as perguntas.
– Não estás preparado para o que procuras – disse-lhe simplesmente. As palavras eram em latim, mas a pronúncia parecia antiga, mais do que a sua própria.
– Apenas procuro o conhecimento – contrapôs ele.
– Conhecimento? – Aquela simples palavra soou tão lúgubre quanto um cântico fúnebre. – Aqui, só encontrarás desilusão.
Porém, deve ter reconhecido a determinação dele. Afastou-se e apontou-lhe o lago com a mão morena, os seus dedos longos e graciosos. Uma fina tira de ouro rodeava-lhe o braço.
Ele passou por ela, o seu ombro quase tocando o dela. A fragrância de botões de lótus dançava no ar cálido que a envolvia.
– Deixa para trás as vestes – ordenou ela. – Tens de entrar na água nu como dela saíste.
À borda da água, ele tateou desajeitadamente o hábito, lutando contra os pensamentos impuros que lhe povoavam a mente.
Ela recusou-se a desviar o olhar.
– Trouxeste muita morte a este lugar sagrado, ministro da cruz.
– Será purificado – disse ele, procurando apaziguá-la. – E consagrado ao único Deus.
– Único? – A mágoa despertou nos seus olhos profundos. – Pareces tão certo.
– Estou.
Ela encolheu os ombros. O pequeno gesto desprendeu-lhe a fina túnica dos ombros. Caiu com um sussurro sobre o áspero chão de pedra. A luz da tocha revelou um corpo de tal perfeição, que ele esqueceu os votos e o contemplou sem pudor, os olhos demorando-se na curva dos seios plenos, no ventre, no longo contorno musculado das coxas.
Ela voltou-se e mergulhou na água escura, quase sem provocar ondulação.
Agora só, ele desapertou apressadamente o cinto, sacudiu dos pés as botas ensanguentadas e arrancou a veste. Uma vez nu, saltou atrás dela, mergulhando fundo. A água gelada lavou-lhe o sangue da pele e batizou-o na inocência.
Expulsou o ar dos pulmões, pois não necessitava dele enquanto sanguinista. Desceu rapidamente, nadando atrás dela. Nas profundezas, membros nus reluziram por um instante – depois ela desviou-se para o lado, rápida como um peixe, e desapareceu.
Ele impeliu-se para mais fundo, mas ela desaparecera. Ele tocou na cruz e rogou por orientação divina. Deveria procurá-la ou prosseguir com a sua missão?
A resposta foi simples.
Virou-se e nadou para diante, através de passagens tortuosas, seguindo o mapa na sua cabeça, aprendido de antigos fragmentos de papiro, na direção das profundezas secretas sob Jerusalém.
Deslocava-se tão célere quanto ousava, na mais absoluta escuridão, por passagens complexas. Um homem mortal teria morrido repetidas vezes. Uma mão varria a pedra, contando as passagens. Por duas vezes, chegou a becos sem saída e teve de voltar atrás. Combateu o pânico, dizendo que lera mal o mapa, prometendo a si próprio que o lugar procurado existia.
O seu desespero atingiu o ponto limite – e, então, uma figura passou rapidamente por ele, nas águas geladas, como uma corrente a percorrer-lhe a pele, retrocedendo na direção de onde ele viera. Assustado, procurou a espada, lembrando-se tarde demais que a deixara junto com o amontoado de roupas.
Tentou alcançá-la, mas sabia que ela se fora.
Voltando-se na direção de onde ela viera, impeliu-se para frente com renovado vigor. Abriu caminho por entre o medo crescente de nadar para todo o sempre no meio da escuridão sem nunca encontrar o que procurava.
Finalmente, chegou a uma vasta caverna, as suas paredes abrindo-se amplamente para cada um dos lados.
Embora cego, sabia que encontrara o lugar certo. A água era mais quente, ardendo com uma sacralidade que lhe irritava a pele. Nadando para um dos lados, ergueu as mãos trémulas e explorou a parede.
Sob as mãos, sentiu um desenho gravado na pedra.
Por fim...
As pontas dos dedos percorreram a pedra, procurando entender as imagens aí gravadas.
Imagens que os poderiam salvar.
Imagens que o poderiam levar à arma secreta.
Sob os dedos, sentiu a forma de uma cruz, percebeu uma figura crucificada – e, acima dela, a mesma figura, com o rosto erguido ao alto e os braços estendidos para o céu. Entre os corpos, uma linha ligava a alma em ascensão ao corpo pregado lá em baixo.
Enquanto seguia aquele curso, as pontas dos dedos ardiam, revelando que a linha era feita da mais pura prata. A partir da cruz, o curso ígneo estendia-se pela parede curva da caverna até um desenho contíguo. Aí, descobriu um grupo de homens com espadas, vindos para prender Cristo. A mão do Salvador tocava na têmpora de um dos homens.
Bernard sabia o que representava.
A cura de Malco.
O último milagre de Cristo, antes da ressurreição.
Nadando ao longo da parede, Bernard seguiu a linha argêntea através dos muitos milagres realizados por Jesus, durante a sua vida: a multiplicação dos pães e peixes, a ressurreição dos mortos, a cura dos leprosos. Traçava cada um deles na sua mente, como se os tivesse visto. Esforçou-se por conter a esperança, a exaltação.
Por fim, chegou à representação das bodas de Caná, onde Jesus transformara a água em vinho. O primeiro milagre do Salvador de que havia registo.
Porém, o curso de prata prosseguia para lá de Caná, ardendo através da escuridão.
Mas para onde? Revelaria milagres desconhecidos?
Bernard seguiu-o – descobrindo apenas um largo espaço de rocha fragmentada sob os dedos. Desesperado, passou as mãos pela parede em arcos cada vez mais amplos. Fragmentos de prata incrustada na pedra marcaram a sua pele a fogo. A dor fê-lo recuperar a razão, forçando-o a enfrentar o seu maior receio.
Aquela parte da gravação fora destruída.
Espalmou as mãos contra a parede, tateando em busca de mais. Segundo os antigos fragmentos de papiro, a história dos milagres de Cristo revelaria o lugar onde se escondia a arma mais sagrada de todas – uma arma capaz de destruir a alma danada mais poderosa pelo simples toque.
Permaneceu na água, ciente da verdade.
O segredo fora destruído.
E ele sabia por quem.
As palavras dela ecoaram na sua mente.
Conhecimento? Aqui, só encontrarás desilusão.
Achando-o indigno, ela devia ter vindo direta ali e apagado a imagem sagrada, antes que ele a pudesse ver. As suas lágrimas misturavam-se com a água gélida – não pelo que se perdera, mas por uma verdade mais dura.
Falhei.
Todas as mortes deste dia foram em vão.