Sangue Inocente
Capítulo 10
19 de dezembro, 07h13, CET
Roma, Itália
O caçador tinha-se tornado a presa.
Elizabeth pressentia a matilha que a perseguia pelas ruas e becos sombrios e estreitos, que aumentava enquanto seguia no seu encalço. Por agora, mantinham-se afastados, talvez na expectativa de crescer em número. Não eram crápulas humanos, nem salteadores ou ladrões visando o alvo fácil de uma mulher solitária naquelas horas precedentes à aurora. Eram strigoi, como ela.
Teria invadido o seu território de caça? Quebrado alguma regra de etiqueta? Aquela era encerrava muitas armadilhas.
Olhou para leste, pressentindo que o sol de inverno estava prestes a nascer. O medo apoderou-se dela. Queria retornar ao apartamento, escapar ao dia ardente, mas não se atrevia a conduzir a matilha até à sua toca.
Assim, à medida que o dia ameaçava, ela continuou por uma ruela estreita, o ombro rente à fria parede de estuque, as antigas e irregulares pedras da calçada sob as solas das suas botas.
As horas que precediam a madrugada tinham-se tornado as suas favoritas naquela cidade moderna. Àquela hora matutina, os automóveis roncantes calavam-se quase por completo, o seu hálito parando de conspurcar o ar. Deu-se ao cuidado de estudar os homens e mulheres da noite, reconhecendo como, de tantas formas, pouco mudara desde o seu século, identificando facilmente meretrizes, jogadores e ladrões.
Ela compreendia a noite – e pensara que era a única a dominá-la.
Até àquela manhã.
Pelo canto do seu ângulo de visão, espectros sombrios moviam-se. Eram agora mais de uma dúzia, estava certa, mas quantos mais não sabia dizer. Sem batimento cardíaco ou respiração, não podia ter a certeza até estarem em cima dela.
O que não tardaria muito.
As bestas montavam o cerco, apertavam cada vez mais a malha.
Pareciam acreditar que ela não os notara. Deixou-os continuar a acreditar. O engano ainda a poderia salvar, como tantas vezes no passado. Atraiu-os para diante, em direção a um terreno de batalha da sua eleição.
O seu destino estava longe. Receando que a pudessem atacar antes de o alcançar, apressou o passo, mas apenas um pouco, pois não queria que soubessem que pressentira a sua presença.
Precisava de uma área aberta. Encurralada naquelas ruelas estreitas, seria muito fácil para a matilha cair sobre ela e dominá-la.
Por fim, as suas botas arrastaram-na em direção ao Panteão, na Piazza della Rotonda. A praça era o terreno aberto mais próximo. A luz parda do sol nacarado aclarava as sombras sobre a cúpula redonda do Panteão. A abertura do oculum no topo aguardava o novo dia, cega à escuridão.
Não como ela. Não como eles.
O Panteão fora em tempos a casa de muitos deuses, mas era agora uma Igreja Católica votada ao deus único. Ela evitava esse santuário. O terreno sagrado no seu interior enfraquecê-la-ia – tal como àqueles que a perseguiam –, mas depois de renascer na sua nova força, recusava-se a renunciar-lhe.
Em vez disso, continuou a avançar para o terreno aberto à sua frente.
De um dos lados, uma fila de bancas vazias esperava a luz do dia para se transformar num agitado mercado de Natal. As suas luzes festivas douradas tinham sido apagadas e grandes guarda-sóis de tela branca cobertos de geada protegiam as mesas vazias. Do outro lado, restaurantes mantinham-se sem luz e de persianas corridas, os seus clientes há muito recolhidos.
Atrás dela, as sombras alteraram-se nos limites da praça.
Consciente de que o seu tempo se esgotava, apressou-se para a fonte no centro da praça. Pousou as mãos na pedra cinzenta do recetáculo. Próximo de si, um peixe de pedra esculpido cuspia água para a bacia em baixo. No centro, erguia-se um esguio obelisco. O seu granito vermelho fora extraído sob o implacável sol egípcio, para ser arrastado para ali por conquistadores. Hieróglifos tinham sido gravados de todos os quatro lados, até à extremidade cónica: luas, aves, um homem sentado. A linguagem antiga era incompreensível, tão sem sentido para ela como aquele novo mundo. Mas as imagens, gravadas por pedreiros há muito falecidos, podiam salvá-la naquela noite.
Ergueu o olhar para a ponta bicuda, onde a Igreja erigira uma cruz para reivindicar o poder desses deuses antigos.
De trás dela, ouviu-se o ranger do couro, o roçar de tecido em tecido, o suave cair de cabelo de uma cabeça voltada.
Por fim, a matilha aproximava-se.
Antes que algum deles a pudesse alcançar, saltou da borda do tanque para o obelisco, agarrando-se como um gato. Os seus dedos fortes encontraram apoio nos antigos entalhes: uma mão, uma lua, uma pena, um falcão. Içou-se pedra acima, mas à medida que o pedestal se tornava mais fino, a escalada tornava-se mais difícil. O medo impeliu-a até ao cimo.
Aí empoleirada, preparou-se para a dor cauterizante e agarrou a cruz com uma das mãos. Olhou rapidamente para baixo.
Sombras fervilhavam pelo obelisco acima como formigas, maculando cada centímetro de granito. As suas roupas eram andrajos, os seus membros esqueléticos, o cabelo emaranhado e enegrecido. Uma das criaturas tombou de costas na fonte com um esparrinhar, mas outros logo se precipitaram para o espaço deixado por ela.
Virando costas, fitou a casa mais próxima na praça e reuniu toda a força sobre si mesma, como uma capa.
Depois, saltou.
07h18
Bem abaixo da Basílica de São Pedro, Rhun rastejava de gatas por um túnel escuro, a cabeça tão baixa que o nariz chegava a roçar o chão de pedra.
Porém, murmurava preces de agradecimento.
Erin estava a salvo.
A urgência que o impelira para fora da agonizante prisão desvanecera-se. A pura força de vontade incitava-o, agora, a erguer cada mão sangrenta, a arrastar cada joelho ferido. Centímetro a centímetro, avançava pela passagem, procurando a luz.
Parando um momento para descansar, encostou o ombro à parede de pedra. Tocou o pescoço, recordando a ferida, agora sarada. Elisabeta bebera tanto do seu sangue. Deixara-o propositadamente incapacitado, mas vivo.
Para sofrer.
A agonia tornara-se a sua nova arte. Recorda os rostos das muitas jovens raparigas que tinham morrido pelas suas mãos. Essa encarnação sinistra da sua radiosa Elisabeta aprendera a esculpir a dor, como outros esculpiam o mármore. Todas essas mortes horríveis pesavam na sua consciência.
Quantas mais mortes teria de acrescentar à contagem, enquanto ela corria à solta pelas ruas de Roma?
Ainda dentro do túmulo, captara sussurros do seu deleite, do êxtase da sua saciação. Ela bebera dele, carregando o seu sangue dentro de si, ligando-os.
Sabia que ela forjara essa ligação intencionalmente.
Quisera arrastá-lo nas suas perseguições, forçando-o a testemunhar as suas depravações e assassínios. Felizmente, à medida que ela se alimentava, derramando novo sangue sobre o antigo, a ligação enfraquecia, apenas permitindo que as emoções mais fortes dela o atingissem.
Como que avivado por esses pensamentos, Rhun sentiu os limites da visão estreitarem-se, assaltado por um pânico aterrorizado – não o seu, mas o de outro. Fraca como era a ligação, podia ter resistido ao ímpeto, mas tal oposição correria o risco de esgotar ainda mais as suas já exauridas reservas.
Então, deixou-se levar.
Para preservar as suas forças e para outro propósito, também.
Onde estás, Elisabeta?
Tencionava usar a frágil ligação para a descobrir, para acabar com toda aquela violência, uma vez reencontrada a luz. Por agora, deixou-se arrastar voluntariamente para a escuridão partilhada.
Uma onda de criaturas sombrias avançava na sua direção. Presas brancas brilhavam na escuridão, vorazes, prontas a morder. Ele saltou para longe, cruzando o ar.
O céu clareava a leste, anunciando um novo dia.
Devia encerrar-se antes que tal acontecesse, ocultado do sol ardente.
Aterrou num telhado. As telhas de terracota quebraram-se sob as suas botas, as suas mãos. Fragmentos derramaram-se borda fora, despedaçando-se na pedra cinzenta da praça em baixo.
Correu pelo telhado com passo seguro. Atrás dele, um dos perseguidores tentou o salto, falhou e embateu no solo com um baque repulsivo.
Outros tentaram.
Muitos caíram, mas alguns conseguiram.
Alcançara o extremo oposto do telhado – e saltou para o seguinte. O frio ar da noite banhou-lhe as faces. Se esquecesse os perseguidores, poderia apreciar toda aquela beleza, correndo pelo topo de Roma.
Mas não os podia esquecer, por isso correu para diante.
Sempre para ocidente.
O objetivo erguia-se alto no céu ruborizado.
Rhun regressou à sua própria pele, afundando-se no túnel. Ergueu-se sobre mãos e joelhos, sabendo que não era o suficiente. Penetrando nos últimos resquícios da sua força declinante, levantou-se. Com uma mão na parede, seguiu tropegamente para diante.
Tinha de avisar os outros.
Elisabeta conduzia uma matilha de strigoi diretamente para a Cidade do Vaticano. 07h32
Nada a deteve enquanto corria por cima dos telhados, em direção a ocidente, fugindo do sol nascente a leste e perseguida por uma horda furiosa. A surpresa da sua escalada ao obelisco conquistara-lhe alguns segundos preciosos.
Se a apanhassem, estava morta.
Saltava de telhado em telhado, quebrando telhas, dobrando goteiras. Nunca correra assim na sua vida natural ou sobrenatural. Parecia que aqueles séculos aprisionada no sarcófago a tinham tornado mais forte e veloz.
A exultação apoderou-se dela, reprimindo o medo.
Estendeu os braços ao lado como asas, apreciando a carícia do vento à sua passagem. Se sobrevivesse, iria fazê-lo todas as noites. Pressentia ser mais velha do que aqueles que a perseguiam, também mais rápida – decerto não o suficiente para os manter eternamente à distância, mas talvez o bastante para chegar ao seu destino.
Lançou-se sobre o telhado seguinte, aterrando pesadamente. Um bando de pombos assustou-se e levantou voo. As penas rodearam-na como uma nuvem, cegando-a. Momentaneamente distraída, prendeu a bota na fenda de uma fileira de telhas. Teve de parar para a soltar, rasgando o couro.
Um olhar de relance para trás revelou que o avanço se esfumara.
A matilha estava quase a alcançá-la, nos seus calcanhares, agora.
Correu, com a dor a subir-lhe pelo tornozelo. A perna não conseguiria aguentar o peso. Amaldiçoou a fraqueza, saltando agora mais do que correndo, impelindo-se com a perna intacta, aterrando sobre a lesionada, castigando-a por lhe falhar.
A leste, o céu estava do mesmo cinzento-claro das asas dos pombos.
Se os strigoi não a abatessem, o sol encarregar-se-ia disso.
Lançou-se furiosamente para a frente. Não desistiria, deixando que aqueles que a perseguiam a reclamassem. Tais bestas não tinham legitimidade para acabar com a sua vida.
Concentrou-se no objetivo diante de si.
Poucas ruas a separavam dos muros da Cidade do Vaticano.
Os sanguinistas nunca deixariam tal corja de strigoi invadir a sua Cidade Santa. Extirpá-los-iam como ervas daninhas. Correu para lá, com uma esperança no seu coração silencioso.
Ela sabia o segredo da localização de Rhun.
Seria o suficiente para desviar as espadas da sua garganta?
Não sabia.