Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 35 de 59

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Sangue Inocente

Quarta Parte

A sua casa é caminho para a sepultura,

que conduz à mansão da morte.

– PROVÉRBIOS 7: 27

CAPÍTULO 33

 

20 de dezembro, 02h33, CET

Próximo de Nápoles, Itália

Com a face cheia da Lua a brilhar sobre o mar da meia-noite, Elizabeth encaminhou-se para a proa do estranho barco acerado e perscrutou a antiguidade intemporal do Mediterrâneo. Reconfortou-se com a sua imutabilidade. As luzes da cidade de Nápoles desapareceram rapidamente para trás, levando consigo a costa escura.

O avião tocara de novo o chão a meio da noite, há menos de uma hora, aterrando numa metrópole invernosa sem qualquer semelhança com a cidade do seu passado.

Ela tinha de deixar de olhar para esse passado.

Aquele era um mundo novo.

Enquanto permanecia de pé na proa, o vento frio acariciava-lhe o cabelo. Lambeu os salpicos de sal dos lábios, assombrada com a velocidade da embarcação. O navio embateu numa onda alta. Estremeceu do impacto. Depois prosseguiu, como um cavalo avançando a custo pela neve funda.

Ela sorriu face às imensas ondas negras.

Aquele século tinha muitas maravilhas para lhe oferecer. Sentiu-se tola por se ter limitado durante tanto tempo às ruas da antiga Roma. Ela devia ter-se lançado naquele novo mundo, não tentado acobardar-se no antigo.

Inspirada, puxou o manto sanguinista dos ombros. Protegera-a da luz do sol, mas o velho corte e lã densa não pertenciam àquele mundo. Ergueu o manto ao vento. O pano negro agitava-se no ar como um pássaro monstruoso.

Largou-o, libertando-se do seu passado.

O manto rodopiou num golpe de vento, depois foi arrastado e aterrou na água. Descansou aí um instante, um círculo preto mascarrado sobre as ondas iluminadas pela lua, antes de o mar o tragar.

Agora, nada carregava dos sanguinistas, nada desse velho mundo.

Voltou a olhar em frente, correndo a palma da mão pela amurada de aço do barco. Olhou ao longo dos lados do casco, para os estabilizadores sobre os quais a embarcação voava pela água.

– Chama-se um hidrofólio – disse Tommy, aproximando-se dela vindo de trás.

De tal forma enlevada pelo vento e pelo assombro, não escutara o acercar da sua pulsação.

– É como uma garça-real, deslizando sobre a água.

Ela olhou-o, rindo com o prazer de tudo aquilo.

– Para uma prisioneira, parece demasiado feliz – observou Tommy.

Ela estendeu a mão e desgrenhou-lhe o cabelo.

Comparada com a minha antiga prisão, esta é maravilhosa.

Ele parecia pouco convencido.

– Temos de saborear cada momento que nos é proporcionado – frisou ela. – Não sabemos onde termina esta viagem, por isso temos de extrair daí cada pedacinho de felicidade, enquanto dura.

Ele chegou-se mais perto e ela viu-se a passar o braço em torno dele. Juntos, partilharam as ondas escuras que se erguiam e abatiam diante da embarcação, o vento frio arrojando para trás os cabelos.

Passado um breve momento, ela sentiu-o estremecer nos seus braços, ouviu-lhe o bater dos dentes, recordando que ele não possuía a sua natureza insensível.

– Temos de te aquecer – disse ela. – Ainda morres de frio.

– Não morro, não – retorquiu ele, lançando-lhe um olhar divertido. – Pode acreditar.

Finalmente, sorriu.

Ela sorriu-lhe de volta.

– Seja como for, é melhor levar-te para dentro, para longe deste vento, para onde fiques mais confortável.

Ela conduziu-o pelo convés, por uma porta de escotilha, descendo até à cabina principal. Cheirava a homens e a café e a óleo de motor. Iscariotes estava sentado num banco ao lado de uma mesa, bebericando de uma grossa caneca branca. O corpulento servo pairava por perto de uma pequena cozinha.

– Traz chá quente para o rapaz – ordenou a Henrik.

– Eu não gosto de chá – disse Tommy.

– Então, seguras simplesmente na caneca – retorquiu ela. – Vai aquecer-te na mesma.

Henrik obedeceu, regressando com uma caneca fumegante. Tommy pegou-lhe com ambas as mãos e abeirou-se de uma das janelas, observando Iscariotes com visível suspeita.

O homem parecia absorto, movendo um braço, convidando Elizabeth a sentar-se à sua mesa. Ela aceitou a oferta e deslizou para o assento.

– Qual é o nosso destino? – perguntou ela.

– Uma das minhas muitas casas – disse ele. – Longe de olhares indiscretos.

Ela fitou pela janela o mar iluminado pela lua. Adiante, não havia nada além da escuridão. Aquela casa devia ficar longe de tudo.

– Porque vamos para lá?

– O rapaz tem de recuperar da sua provação no gelo. – Judas olhou para onde estava Tommy. – Ele perdeu muito sangue.

– Então, o sangue dele tem valor para si? – Uma preocupação súbita pelo rapaz assaltou-a.

– Tem certamente valor para ele.

Notou que ele não respondera à sua questão, mas esqueceu-a por uma preocupação mais urgente.

– Conseguirão os sanguinistas encontrar-nos lá?

Iscariotes passou a mão pelo cabelo argênteo.

– Duvido que consigam.

– E diga-me, por favor, o que deseja de mim? Compreendo que cobice o Primeiro Anjo, mas que utilidade poderei ter para si?

– Nenhuma, cara senhora – asseverou ele. – Mas tive sempre uma mulher Bathory ao meu lado, durante quatrocentos anos, dezoito mulheres no total, e sei como podem ser um poderoso aliado. Se escolher ficar, protegê-la-ei dos sanguinistas e talvez me possa proteger de mim próprio.

Mais enigmas.

Antes que ela pudesse aprofundar, Tommy apontou pela janela da frente.

– Vejam!

Ela levantou-se para ver melhor. Saída da escuridão, iluminada por centenas de luzes, uma monstruosa estrutura de aço emergia das ondas. Quatro pilares cinzentos projetavam-se do mar, como as pernas de uma besta gigantesca. Os impressionantes pilares suportavam uma plataforma plana, mais extensa do que a Basílica de São Pedro. No topo dessa plataforma, assentava um aglomerado de vigas e blocos pintados.

– É uma plataforma petrolífera – disse Tommy.

– Foi, em tempos, uma plataforma petrolífera – corrigiu-o Iscariotes. – Transformei-a numa residência particular. Não consta de nenhum mapa. Totalmente afastada das preocupações do mundo.

Elizabeth examinou as luzes tremeluzindo no centro da plataforma e que definiam as muralhas de um castelo de aço, formado por blocos. Contemplou a extensão de água escura a toda a volta, depois de novo a plataforma petrolífera.

Será esta a minha nova cela?

02h38

– Temos um problema! – gritou Christian do cockpit para a cabina do jato.

É claro que temos, pensou Jordan. Só iriam aterrar daí a mais quarenta minutos. Nas últimas horas, tinham encurtado a distância para os outros. Christian comunicara que o grupo de Iscariotes tinha aterrado quinze minutos antes, em Nápoles.

– O que se passa? – gritou Erin de volta.

Para variar, Jordan esperava que fosse um problema de motor.

– Perdi o sinal da Bathory! – Informou Christian. – Já tentei recalibrar, mas nada.

Jordan desapertou o cinto e apressou-se para o cockpit. Dispôs os braços sobre a minúscula porta e espreitou lá para dentro.

– Onde a detetou pela última vez?

– O grupo deve ter-se transferido para um outro veículo. Mais lento que um jato, mas mesmo assim veloz. Lancha, helicóptero, aeronave de pequeno porte. Não sei dizer. Afastaram-se da costa, atravessando o Mediterrâneo, deslocando-se para oeste. Então, subitamente, o sinal perdeu-se.

Erin juntou-se-lhe com Rhun.

– Talvez se tenham despenhado – disse ela. – Num acidente.

– Talvez – admitiu Christian. – Mas há explicações mais simples. Ela pode ter encontrado o localizador ou ter-se desfeito do manto onde o ocultei, ou talvez a pilha do dispositivo se tenha esgotado. Não sei dizer.

Jordan suspirou de frustração, friccionando o ardor no ombro. O fogo que grassava ao longo da sua tatuagem aquietara-se para dar lugar a um calor constante, impedindo-o de dormir verdadeiramente na viagem.

– Seja qual for a razão, ela desapareceu – concluiu Christian, espreitando por cima do ombro. – E agora?

– Aterramos em Nápoles, conforme planeado – disse Rhun. – Contactamos o cardeal em Roma e decidimos como proceder a partir daí.

Resignado por a perseguição se ter dificultado, Jordan encaminhou-se de volta ao lugar com os outros, mas antes desviou-se até à retaguarda do avião e agarrou no estojo de primeiros socorros da casa de banho.

Quando voltou ao lugar, Erin questionou:

– O que vais fazer?

Ele abriu o estojo sobre a pequena mesa de nogueira, diante dos assentos.

– Quero deitar uma olhadela a essas traças mecânicas. Se nos vamos envolver de novo com o canalha, temos de arranjar forma de neutralizar essa ameaça alada. Caso contrário, estamos feitos.

Calçou um par de luvas de látex do estojo médico e pegou na caixa onde Erin guardara o punhado de traças, que recolhera do labirinto de gelo. Com a pinça, retirou para fora uma que parecia quase intacta e pousou-a delicadamente na mesa.

Rhun recuou subtilmente no assento.

Bom instinto.

O veneno residual no interior ainda poderia provavelmente matá-lo.

Erin chegou-se para mais perto de Jordan, o que não o incomodou nem um pouco.

Ele examinou as asas esverdeadas. Pareciam definitivamente orgânicas, presumivelmente arrancadas de um espécime vivo. Voltou, depois, a atenção para o corpo, um impressionante trabalho artesanal em cobre, prata e aço. Inspecionou as minúsculas pernas articuladas, os delgados fios de antena. Mantendo os dedos afastados da probóscide afiada, voltou o corpo ao contrário e sondou a parte inferior, descobrindo pequenas dobradiças.

Interessante...

Endireitou-se no lugar.

– Sabemos que as traças têm a capacidade de injetar veneno em strigoi ou sanguinistas – observou ele. – Mas não nos afeta a nós, humanos. Talvez haja aí uma pista. É hora de conduzir uma pequena experiência.

Voltou o olhar para Rhun.

– Vou precisar de umas gotas do seu sangue.

Rhun assentiu e retirou a sua karambit da manga. Golpeou o dedo e verteu algumas gotas do líquido carmesim sobre a mesa, no local indicado por Jordan. Por sua vez, Jordan usou uma lâmina do estojo para golpear o próprio polegar e fazer o mesmo.

– E agora? – indagou Erin.

– Agora, preciso de um pouco da toxina no interior da traça.

Jordan voltou a calçar a luva de látex, depois de colocar um penso no polegar.

– Cuidado – advertiu Rhun.

– Acredite, nos meus anos de trabalho forense com o exército manuseei venenos e explosivos. Não corro riscos.

Debruçado sobre o corpo de cobre do inseto, usou uma pinça para soltar as dobradiças na base da traça. Uma vez soltas, abriu o corpo do inseto com grande cuidado, revelando minúsculas engrenagens, molas e arames.

– Parece o interior de um relógio – observou Erin, com os olhos brilhando de assombro.

A perícia da obra era sublime.

Rhun inclinou-se para diante, também, a curiosidade prevalecendo sobre a anterior cautela.

Jordan reparou que um minúsculo frasco de vidro ocupava a extremidade anterior do mecanismo. Tinha quebrado, mas ainda continha vestígios de sangue no interior.

– O sangue de Iscariotes – disse Erin.

Rhun recuou de novo.

– Cheira a morte. A contaminação é evidente.

Jordan introduziu a pinça no frasco quebrado e forçou mais a abertura. Depois, usou duas cotonetes para extrair gotas do líquido contaminado restante. Pressionou a primeira cotonete contra o seu próprio sangue.

Como era de esperar, nada aconteceu.

Até aqui, tudo bem.

Pegou na segunda cotonete e mergulhou-a no sangue de Rhun. Com um som audível, o sangue de Rhun evaporou-se, deixando apenas uma mancha de fuligem na superfície de nogueira.

No silêncio atónito que se seguiu, Jordan encontrou os olhos esgazeados do sacerdote.

– Então, o sangue de Iscariotes é definitivamente hostil ao sangue de um sanguinista.

– E ao sangue dos strigoi – acrescentou Erin.

Uma e a mesma coisa no meu dicionário, pensou Jordan, mas guardou-o para si mesmo.

Em vez disso, voltou-se para o saco com as roupas de inverno despidas e remexeu nele até encontrar uma das suas luvas de lã. Estava manchada com o sangue de Tommy, de quando ele ajudara a retirar o rapaz da escultura de gelo.

– O que estás a fazer? – indagou Erin.

– Sabemos que Iscariotes e essa criança são similarmente imortais. Quero verificar se o sangue do rapaz é igualmente tóxico.

Rhun espremeu mais algumas gotas para testar. Jordan embebeu uma cotonete no sangue do sacerdote e aplicou-o sobre a luva.

Não houve reação.

A testa de Erin enrugou-se, pensativa.

Jordan suspirou.

– Então, parece que o sangue do rapaz não lesa ninguém. Na verdade, pode ter-me salvado a vida.

– Pode ter? – Repetiu Erin. – Salvou certamente.

Jordan ignorou o ardor que lhe grassava ao longo do ombro e pelas costas e peito.

– Seja como for, o rapaz e Judas são muito diferentes, apesar da imortalidade partilhada.

– E onde é que isso nos leva? – perguntou Rhun.

– De agora em diante, eu e a Erin assumiremos a linha da frente sempre que houver traças em redor. E não apenas traças. Devemos suspeitar de tudo o que se arraste, rasteje ou voe. E sugiro que usem proteção mais espessa, com menos pele exposta. Talvez mesmo algo como uma máscara de apicultor para cobrir o rosto.

Rhun assentiu.

– Partilharei essa informação com o cardeal, para alertar quaisquer sanguinistas em campo e preparar tal equipamento para possíveis lutas.

Jordan voltou de novo a atenção para os restos da traça.

– O que nos leva ao seu mecanismo funcional. A estrutura mecânica é muito elaborada. Suspeito que qualquer contaminação externa poderia causar estrago, possivelmente afetando as engrenagens. Poeira, areia, óleo.

– Alertarei o cardeal para que o investigue, igualmente.

Jordan encarou Rhun.

– E, para o bem de todos, seria bom ter o máximo de aviso possível deste tipo de ataque. No labirinto de gelo, conseguiu ouvir as traças quando voavam pelo ar?

Imaginou que as engrenagens produzissem algum tipo de ruído.

– Lembro-me de um leve zumbido, bem mais ténue do que o batimento cardíaco. Mas reconhecê-lo-ia, se o ouvisse de novo.

– Já é um princípio – disse Jordan.

Mas seria suficiente?