Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 55 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 52

 

20 de dezembro, 16h37, CET

Siwa, Egito

Em pânico, Tommy chapinhava pela caverna inundada. Comprimiu ambas as mãos contra a boca. Incapaz de se impedir, convulsionou uma plena golfada de água para dentro do corpo, inflamando o peito. Os braços e pernas escoiceavam cegamente, embatendo nas paredes laterais da caverna, como se o corpo lutasse por expelir o fogo, tossi-lo, amordaçá-lo. Mas nada havia para o substituir, senão mais água.

Lutou, até não poder mais e ficar suspenso, inerte.

Afogado.

Mas ele era o rapaz que não podia morrer.

Os seus pulmões doíam, mas já não lutavam por expulsar a água. Abriu de novo os olhos e olhou em volta, querendo chorar.

Sabendo agora que não podia morrer, perscrutou a caverna.

A mulher devia tê-lo arrastado até ali por alguma razão.

Recordou-a a apontar-lhe a caverna.

Porquê?

A fonte de luz da caverna erguia-se de uma protuberância de vidro no centro da câmara, como um vulcão em miniatura. Era tão brilhante que tinha de proteger os olhos. Porém, vislumbrou algo de prata no seu âmago.

Inclinou-se para mais perto do brilho, capaz agora de distinguir trinta ou sessenta centímetros de prata fina emergindo do bloco, encimada por uma ponta couraçada, mais larga. Notou que o punho era indentado, para que os dedos o agarrassem firmemente.

A mão direita estendeu-se para o fazer – depois recordou a história de há pouco, sobre a espada do arcanjo Miguel. Olhou mais de perto e conseguiu mesmo perceber o longo entalhe de um dos lados, de onde fora cortado um fragmento.

A sua outra mão ergueu-se para o pescoço, recordando a dor.

Estendeu um único dedo e tocou o extremo redondo do punho. Quando a pele roçou o metal, sentiu-se percorrer de energia, como se tocasse um fio elétrico descarnado – só que este deixava-o mais forte. Sentia-se capaz de despedaçar montanhas com os próprios punhos.

Estudou a lâmina. A maior parte do seu comprimento parecia enterrada no vidro arenoso.

Como a Excalibur do Rei Artur.

Tommy sabia o que se esperava dele. Um anjo carregara aquela espada e cabia ao Primeiro Anjo libertá-la, devolvê-la à luz do dia, para ser usada contra a escuridão lá em cima.

Mas retirou a mão.

Não queria tocar-lhe.

Que lhe importava o mundo lá em cima? Ele fora raptado, torturado e raptado de novo – para, por fim, ser sacrificado num altar.

Subitamente, deu-se conta de que a espada podia acabar com a sua miséria.

Ela pode libertar-me.

A lâmina podia desferir um golpe bem mais extenso do que o corte do pescoço. Podia levar ambos os pulsos ao seu gume e empurrá-los velozmente de encontro a ele, golpeando fundo.

Poderia morrer.

Poderia voltar a ver o pai e a mãe.

O rosto da mãe emergiu na sua mente, recordando como ela prendia o cabelo curto encaracolado atrás das orelhas, como os seus olhos castanhos quase irradiavam preocupação quando ele se magoava. Uma expressão que vira frequentemente, quando lutara contra o cancro. Recordou, também, como ela lhe cantava canções de embalar no hospital, mesmo quando já era provavelmente crescido demais para elas, como ela o fazia rir, mesmo quando sabia que ela queria chorar.

Ela amava-o.

E o pai não o amava menos. Um amor mais pragmático: procurando acumular o máximo de vida naqueles últimos anos. Tommy guiou um Mustang descapotável, aprendeu a jogar bilhar e, quando estava demasiado fraco, o pai sentava-se de pernas cruzadas ao seu lado, no sofá, ajudando-o a matar zombies em Resident Evil. E, por vezes, falavam mesmo. Porque ambos sabiam que viria uma altura em que já não o poderiam fazer.

E tinha uma outra certeza.

Eu devia morrer primeiro.

Era esse o trato. Ele estava doente; eles estavam bem. Ele morreria e eles viveriam. Aceitara esse trato, fizera a paz possível com ele – até a estúpida pomba deitar tudo a perder.

Fitou a espada e tomou uma decisão.

Eles podiam travar aquela luta sem ele.

Estendeu as mãos para a espada, pronto a abrir a golpe um caminho de sangue de volta aos braços dos pais. Suspendeu a mão sobre o punho, preparando-se. Uma vez pronto, atacou bruscamente a pega argêntea.

Um abalo percorreu-o. Abaixo de si, a lâmina aumentou e aumentou de brilho, crescendo para uma supernova. Fechou os olhos com força, temendo que o brilho o cegasse. A luz penetrava-lhe as pálpebras e enchia-lhe o crânio.

Depois, lentamente, esmoreceu de novo.

Abriu um olho, depois o outro.

Entre as suas pernas, o vidro derretera-se. Nas suas mãos, uma espada gigantesca brilhava com um tom laranja mortiço. O seu peso mantinha-o ancorado ao chão de areia.

Levou o polegar ao gume. Cortou-o profundamente, ainda antes de perceber que o tocara. O sangue espalhou-se para cima numa nuvem vermelha. Seguiu-lhe o rasto, sabendo quão fácil seria passar esse gume pelo pulso.

Uma ferroada na melhor das hipóteses... e terminaria tudo.

Moveu a lâmina na direção do pulso.

Quem iria sentir a minha falta aqui?

Desviou os olhos daquela espada incrivelmente afiada para o teto sobre a sua cabeça, visualizando o deserto escaldante. Recordou uns dedos frios levantando-lhe o queixo, tocando-lhe a garganta, certificando-se de que ele estava bem.

Elizabeth.

Ela sentiria a sua falta. Ficaria zangada.

Recordou os outros: Erin, Jordan, até mesmo o sombrio padre Rhun. Eles tinham arriscado tudo para o levar para aquele deserto, para lhe salvar a vida. E naquele preciso momento podiam estar a morrer.

A morrer por mim.

 

16h39

Sem balas, Erin arrebatou a longa espada de Agmundr. Precisou de ambas as mãos para a levantar. Balançando com um movimento da anca, lançou os braços e a lâmina pelo ar, golpeando o espaço entre si e o strigoi mais próximo.

O monstro riu-se, deu um passo atrás e carregou sobre Christian, ignorando-a.

Ela procurou alguém para atacar.

Nenhum dos strigoi ou blasphemare se aproximava dela, obedecendo às ordens de Iscariotes para não a matarem. As suas tropas manteriam a distância, até ele descer para a reclamar.

Talvez essa seja a minha melhor arma.

O urro de um leão fê-la voltar-se. A alguns metros de distância, Rhun debatia-se, encurralado debaixo de um dos lúgubres leões blasphemare. Jordan precipitou-se em sua ajuda, brandindo a pistola como uma clava.

Ela largou a pesada espada e correu para eles.

Jordan foi enxotado como um moscardo, garras penetrando-lhe o blusão de pele e quase lhe arrancando uma manga. Aterrou de costas. Mas a distração permitiu a Rhun rolar e soltar-se, perdendo uma larga extensão de pele.

O leão lançou-se sobre a presa em fuga.

E Erin fez a coisa mais estúpida da sua vida.

Interpôs-se entre Rhun e o leão, abrindo os braços e bradando, empinando o peito como um lutador de espetáculo cheio de bazófia.

O leão agachou-se, silvando, os quadris em riste e a cauda vergastando furiosamente.

– Não me podes atacar, pois não? – desafiava ela.

Encurvou os lábios negros e rosnou, recuando, sobretudo quando Christian deslizou em seu auxílio.

Olhou-a de relance.

– Não sabia que domar leões fazia parte do seu currículo.

Ela sorriu, baixando a guarda cedo demais.

O leão disparou, atingindo habilmente Christian, ao mesmo tempo que rasgava o ombro dela ao passar, derrubando-a.

Erin caiu de joelhos e agarrou-se à ferida. O sangue quente escorria-lhe por entre os dedos e descia-lhe pelo braço e pelo peito. Percebeu o erro das suas ações. Iscariotes dissera que ela não podia ser morta – mas não dissera nada sobre mutilá-la.

Ao seu lado, Rhun e Christian lutavam contra o leão.

Jordan gritou o seu nome.

O mundo abrandou.

Caiu de lado, na areia. A textura arenosa sob a face confortou-a. Estava no deserto. Ela adorava o deserto.

 

16h40

Jordan correu para Erin e deslizou de joelhos para o seu lado. Ele sabia que era tarde demais para vir em sua defesa. O sangue jorrava-lhe do ombro e ensopava a areia dourada.

Erin levantou a cabeça.

Os seus olhos cor de caramelo encontraram os dele – depois olharam para além dele.

O deslumbramento inundou-lhe o rosto, inexplicável com todo o sangue, uivos e gritos que enchiam o ar. Ela ergueu uma mão sangrenta e apontou por cima do ombro dele.

Jordan virou-se para perceber.

Mas que...?

Da boca do poço, a simples curva de uma chama alaranjada ergueu-se da escuridão lá no fundo. Espiralava como um estreito turbilhão, perfeitamente vertical em direção ao céu negro.

Jordan não conseguia desviar o olhar.

A própria batalha abrandou, enquanto uma calma cautelosa e temente se estendia do centro até às extremidades.

Olhos e rostos voltaram-se na sua direção.

Quando a chama alcançou o comprimento de um braço, uma mão surgiu do fundo, como se empurrasse a labareda para cima. A língua de fogo continuou a subir. O estranho portador da tocha foi arrastado de baixo com ela, erguido do poço e suavemente baixado na borda.

Tommy.

Quando os seus pés tocaram o chão, o fogo extinguiu-se, para revelar uma espada de prata erguida ao alto, algumas réstias de chama ainda a delineá-la, dançando refulgentes ao longo de todo o comprimento.

Os olhos do rapaz encontraram os de Jordan.

O fogo dançava aí, também.

– Penso que isto lhe pertence! – bradou Tommy, meio rapaz, meio algo temível.

O miúdo – se é que ainda era um miúdo – puxou o braço atrás e lançou a espada para cima. Ela girou sobre si mesma. Jordan quis baixar-se, mas em vez disso o seu braço esquerdo ergueu-se, com vontade própria. O punho aterrou perfeitamente na palma da sua mão, como se sempre estivesse destinado a assentar aí. O ardor latente na sua tatuagem tornou-se fogo vivo. Por um rasgão no casaco e camisa, ele viu os traços ondeantes da sua velha marca de relâmpago inflamarem-se com uma chama interna.

A força fluiu pelo seu corpo.

Jordan agitou a espada em seu redor num padrão de fogo e aço, como se lançasse um feitiço arcano. Ele nunca empunhara uma espada na vida.

Um leão rugiu, voltando-se para ir novamente atrás de Erin.

Jordan pensou em bloqueá-lo e em segundos estava lá.

Desferiu a espada contra a pata do leão, quando este lha lançou com fúria.

Assim que a lâmina lhe penetrou a pele, a criatura urrou em agonia. Seguiram-se chamas na linha aberta pela espada – que depois alastraram à perna e a todo o corpo. Enlouquecido pela dor, o leão saltou para trás e fugiu por entre o exército obscuro, abrindo um trilho de fogo entre eles, inflamando tudo à sua passagem.

Jordan examinou a espada.

Era uma espada infernal!

Ou melhor, celestial.

Jordan rodou num círculo, atingindo um strigoi no braço, outro na coxa. Ambos uivaram, enquanto labaredas brotavam das suas feridas. Foi arremetendo para fora, movendo-se sobre pernas que desafiavam ossos e músculos.

Tão veloz como qualquer strigoi, como qualquer sanguinista.

Criatura após criatura tombava face à sua lâmina.

Depois atacou mais fundo – atrás do seu verdadeiro inimigo.

Iscariotes.

 

16h42

Judas viu o Homem Guerreiro cruzar a passos largos o terreno de batalha. As bestas fugiam do seu caminho, dispersando-se pelo deserto. As poucas que permaneciam eram perseguidas pelos outros. Viu a condessa agarrar o rapaz, o brilho angelical nos olhos da criança tendo esmorecido, depois de entregar a espada ao seu portador na Terra. O rapaz abraçou com força a criatura antiga.

Judas não sentia medo.

Chegara o momento.

Passara séculos a tentar encontrar um propósito para a sua longa vida e outros tantos séculos a tentar trazer o mundo àquele limiar de condenação em que poderia morrer.

E agora o tempo esgotava-se para ele.

O soldado matá-lo-ia, mas apenas se lhe desse luta. Não era homem para eliminar um inimigo desarmado. Então, Judas baixou-se e pegou numa lâmina abandonada, uma antiga cimitarra quebrada.

O último dos seus guarda-costas tentou juntar-se a ele, erguendo uma espingarda automática. O seu parceiro, Henrik, morrera na caverna em Cumas, mas aquele sobrevivera, escapando com ele.

– Vai-te embora – ordenou-lhe Iscariotes.

– O meu lugar é sempre ao seu lado.

– Perdoa-me.

Judas balançou a espada e decapitou o homem. Afastou-se do corpo. Ninguém interferiria no seu destino.

Os olhos do Homem Guerreiro arregalaram-se de espanto, mas ele não abrandou o passo.

Outros juntaram-se atrás dele, incluindo a doutora Granger, segurando um farrapo ensopado contra o ombro.

– Afasta-te, Erin – bradou Jordan. – Esta luta é minha.

A mulher pareceu querer argumentar, mas não o fez.

Judas ergueu a sua espada sangrenta, em guarda.

– Quantas vezes tenho de o matar, sargento Stone?

– Podia perguntar-lhe o mesmo.

A espada cintilava rubra-branca nas suas mãos, cuspindo faíscas ígneas.

Judas estremeceu de ansiedade.

O soldado rodeou-o, a suspeita nítida no seu rosto, como se desconfiasse de algum ardil.

Cumpre o teu papel, Guerreiro. Não me desiludas.

Para o garantir, Judas lançou-se sobre ele e o homem esquivou-se. Era anormalmente rápido. Ciente disso, Judas lutou mais intensamente, não mais precisando de fingir inépcia. Fora treinado por muitos mestres de espada diferentes, ao longo dos séculos.

Atacou uma e outra vez, apreciando o verdadeiro desafio, o derradeiro. Era justo encontrar um adversário digno. Mas não era esse o seu destino. Permitiu-se baixar a guarda, como que por acidente.

Jordan atacou.

A lâmina penetrou o flanco de Judas.

O mesmo ponto onde um soldado romano atingira Cristo na cruz.

Judas ofereceu uma breve oração de graças, antes de tombar sobre os joelhos. Sangue vermelho-vivo derramou-se do ferimento. Ensopou-lhe a camisa. Ele largou a espada.

Jordan erguia-se diante dele.

– Estamos quites.

– Não – disse Judas, estendendo uma mão à perna daquele. – Ficarei para sempre em dívida contigo.

Caiu de lado, rolando depois de costas. O céu sombrio encheu-lhe a visão. Ele criara-o. Aquele mundo rodeado de cinzas e sangue. O Sol estava a minutos de se pôr. Nada poderia impedir o que ele iniciara.

A minha morte proclama o meu sucesso.

Tomou-o como um sinal, a sua recompensa por abrir os portões do Inferno e trazer o Dia do Juízo Final.

A dor flamejante no seu flanco não se comparava a nada que tivesse experienciado, mas aceitou-a. Em breve, estaria em paz. Acolheu-a de bom grado. Deixou que os olhos se fechassem.

Depois, uma sombra derramou-se sobre ele, trazendo consigo uma fragrância a flores de lótus.

Arella.

Abriu os olhos e contemplou a sua beleza, outra recompensa pelo cumprimento do seu desígnio.

As mãos quentes dela tomaram as suas.

– Meu amor.

– Aconteceu tal como previste – disse ele.

Enquanto ela se debruçava sobre ele, as suas lágrimas caíram-lhe sobre a face. Saboreou cada lágrima quente.

– Oh, meu amor! – disse ela. – Amaldiçoo a visão que te levou a isto.

Ele procurou-lhe os olhos escuros.

– Esta foi a vontade de Cristo, não a tua.

– Esta foi a tua vontade – insistiu ela. – Podias ter seguido por um caminho diferente.

Ele tocou-lhe a face húmida.

– Eu segui sempre por um caminho diferente. Mas estou grato pelos anos em que percorremos esse caminho juntos.

Ela esforçou-se por sorrir.

– Não te culpes – pediu ele. – Se puderes conceder-me um favor, concede-me isso. És inocente em tudo isto.

O queixo dela contraiu-se, como sempre quando escondia os seus sentimentos.

Ele estendeu a mão por entre a dor e enrolou um fio do seu longo cabelo em volta do dedo.

– Somos simplesmente Seus instrumentos.

Ela colocou-lhe a mão sobre a ferida.

– Eu podia ir buscar água do poço para te curar.

O medo percorreu-lhe o corpo. Procurou palavras astutas para a persuadir contra tal caminho, mas ela conhecia-o bem. Assim, decidiu-se por uma única palavra, depositando toda a sua vontade nela, deixando a verdade transparecer dos seus olhos.

– Por favor.

Ela inclinou-se e beijou-lhe os lábios, depois caiu nos seus braços uma última vez.

 

16h49

A garganta de Erin apertou-se ao ver um anjo chorar por Judas.

Arella embalava-o e acariciava-lhe o cabelo grisalho desde a fronte, murmurando palavras numa língua antiga. Ele sorria a Arella, como se fossem jovens amantes e não duas criaturas sem idade, apanhadas no fim dos tempos.

Rhun tocou o ombro de Erin, olhando para o céu que escurecia.

O simples toque recordou-a de que, embora a batalha tivesse sido ganha, a guerra não terminara. Ela olhou para o Sol, que mergulhava no horizonte a oeste. Estavam quase sem tempo para desfazer o que Iscariotes pusera em movimento.

Ela fitou o homem que começara tudo aquilo.

O sangue de Iscariotes fluía-lhe do flanco, chorando a sua vida. Na escuridão crescente, notou o suave brilho refulgindo por entre o carmesim, recordando ter visto o mesmo quando ele cortara acidentalmente o dedo na caverna, sob as ruínas de Cumas, com a prata da mesma lâmina que agora o lancetara.

Recordou Arella, emanando o mesmo fulgor de ouro quando resgatara Tommy. E mesmo o sangue de Tommy cintilara tenuemente, na praia, em Cumas.

O que significava aquilo?

Olhou de Tommy, imóvel junto ao poço, para Judas.

Significa que ambos carregavam sangue angélico?

Recordou que ambos, Tommy e Judas, tinham igualmente encontrado uma pomba, símbolo do Espírito Santo, uma reminiscência da ave que Cristo matara. E ambos tinham a idade de Cristo, nesse tempo.

E depois, as palavras de Arella, anteriormente.

Miguel foi feito em pedaços. Carregas o melhor do Primeiro Anjo dentro de ti.

Erin começou a compreender.

Tommy não carregava Miguel por inteiro dentro de si, apenas o melhor, o mais resplandecente, uma força capaz de conceder a vida.

Um outro veículo carregava o seu pior, o mais obscuro, uma força que tirava a vida.

Percebeu que o brilho do sangue de Iscariotes era distintamente mais escuro que o sangue de Tommy.

Duas gradações distintas de ouro.

Virou-se e olhou em volta para a cratera, o vidro exposto pela escavação, a tampa redonda que selara outrora o poço. Tal como a própria cratera, uma metade era áurea escura, a outra metade mais clara.

Recordou-se de pensar que se assemelhava ao símbolo oriental do yin-yang.

Duas partes que formavam um todo.

– Precisamos de ambos – murmurou Erin.

Espreitou Arella. Antes, a sibila mantivera-se em silêncio, porque sabia que Iscariotes tinha de vir até ali também. Teria a própria Arella desenhado o símbolo na areia, para que ele soubesse onde tinha de ir?

Bernard aproximou-se de Erin, as suas vestes rasgadas e ensanguentadas, mas provavelmente pressentindo o crescente entendimento dentro dela.

– O que diz?

Rhun olhou-a também, expectante.

Ela chamou os dois a si, a par de Jordan. Eles tinham de ouvir aquilo, de lhe dizer que ela estava errada.

Por favor, que eu esteja errada.

Rhun voltou para ela o seu tão característico olhar sombrio e implacável.

– O que foi, Erin?

– O Primeiro Anjo não é o Tommy. É o arcanjo Miguel, o ser celestial feito em pedaços. Feito em dois. – Ela gesticulou para o vidro da cratera. – Ele tem de ser unido novamente. Temos de reparar o que aqui foi quebrado.

Esse fora o aviso de Arella – ou seria o fim do domínio dos homens na Terra.

– Mas onde está a outra metade? – inquiriu Bernard.

– Em Judas.

O choque alastrou pelo grupo.

– Mesmo que estejas certa – observou Jordan –, como os podemos voltar a unir?

Erin fixou Iscariotes, moribundo nas areias.

Ela também conhecia essa resposta.

– A sua capa imortal tem de lhes ser retirada.

Jordan fitou-a, boquiaberto.

– Têm de morrer?

Ela baixou a voz para um sussurro.

– É a única maneira. Por isso a espada foi aqui deixada, por isso tivemos de vir aqui.

– Iscariotes já recebeu um golpe mortal – proferiu Rhun. – Então, a lâmina tem de desferir golpe igual sobre o rapaz?

– Ousamos fazer tal coisa? – questionou Jordan. – Pensei que tínhamos decidido, em Cumas, que a vida do Tommy era mais importante do que a própria salvação do mundo.

Erin queria concordar. O rapaz não fizera nada de mal. Ele tentara ajudar uma pomba inocente e, em retorno, vira a família ser-lhe arrancada e sofrera incontáveis torturas. Seria justo que tivesse de morrer ali também?

Não podia condenar aquela criança à morte.

Mas, por outro lado, era uma vida contra as vidas dos justos e injustos de todo o mundo.

Jordan olhava-a.

Ela sabia que se lhe dissesse a palavra, ele a cumpriria, relutante mas cumpriria. Ele era um soldado – compreendia o que era sacrificar-se por um bem maior. As necessidades de muitos sobrepunham-se às necessidades de um só.

Tapou o rosto.

Não conseguia ver mais sangue inocente a ser derramado. Vira a sua irmã ser sacrificada em nome da falsa crença. Causara a morte de Amy pela sua própria ignorância do perigo em que a colocara. Não tomaria outra vida inocente, por muito que a sua mente lhe dissesse que assim devia ser.

– Não – arquejou, decidida. – Não podemos sacrificar um rapaz para salvar o mundo.

Bernard avançou bruscamente para Jordan, apontando à espada. Mas Jordan era agora igualmente ágil e ergueu a lâmina à altura do peito do cardeal, a ponta dirigida ao seu coração silencioso.

– Esta arma matá-lo-á com a mesma certeza de qualquer strigoi – advertiu Jordan.

Bernard fitou Rhun para o apoiar, para se juntar a ele contra Jordan. O cardeal queria aquela espada.

Rhun cruzou os braços.

– Confio no discernimento da Mulher Sábia.

– O rapaz deve morrer – insistiu Bernard. – Ou o mundo morrerá com ele. Num horror maior do que é humanamente imaginável. O que significa um rapaz contra tudo isso?

– Tudo – contrapôs Erin. – Assassinar um rapaz é um ato de maldade. Todo o ato de maldade importa. Todo e qualquer um. Temos de nos levantar contra todo e qualquer um desses atos, senão quem somos?

Bernard suspirou.

– E se não for um ato de maldade ou bondade, mas simplesmente um ato necessário?

Erin cerrou os punhos.

Não permitiria que Tommy fosse assassinado.

– Erin – os olhos azuis angustiados de Jordan encontraram os dela. Ele acenou a cabeça na direção do poço.

Tommy esboçou um gesto apaziguador para Elizabeth, com as mãos, mantendo-a afastada. Depois, aproximou-se e estudou cada um deles.

– Eu sei – disse ele, parecendo cansado. – Quando toquei a espada e decidi trazê-la para fora do poço... eu soube.

Erin recordou o fogo nos olhos do rapaz quando empunhava a espada.

– É uma escolha – disse ele. – Eu tenho de escolher fazê-lo, só assim tudo será corrigido.

Ao ouvi-lo, Erin percebeu quão próximo tinham estado da ruína. Se tivesse largado Jordan ou se Bernard tivesse arrebatado a lâmina, se qualquer deles tivesse lançado a espada contra o rapaz sem o consentimento deste, teriam deitado tudo a perder.

O pensamento deu-lhe um resquício de conforto, mas ínfimo.

O que Tommy dizia implicava um mesmo final.

Um rapaz morto nas areias.

– Mas Iscariotes não concordou em ser golpeado – alertou Rhun.

Erin retesou-se, percebendo que Rhun tinha razão.

Já estará tudo perdido?

Jordan engoliu em seco, baixando a espada, ciente de que Bernard não o poderia mais forçar.

– Penso que Judas concordou – disse Jordan. – Durante o combate, ele igualava-me a cada golpe. Depois, subitamente, baixou a guarda. Não percebi na altura, reagi simplesmente e atingi-o.

– Suspeito que ele sempre tenha procurado a morte – observou Rhun.

– Então o que fazemos? – indagou Jordan. – Agora que o sabemos?

Erin viu como os olhos dele nem conseguiam encarar os do rapaz.

Tommy moveu-se, aparentemente para manter as costas voltadas a Elizabeth, olhando sobre o ombro para se certificar, para a impedir de ver. Tommy notou a atenção de Erin.

– Ela vai tentar impedi-lo.

Tommy ergueu a ponta da espada de Jordan e colocou-a sobre o seu peito. Levantou o olhar para Jordan, tentando sorrir, mas o lábio inferior tremia-lhe de medo, esforçando-se por parecer corajoso, seguro, face ao desconhecido.

Por fim, Jordan encontrou também o rosto do rapaz. Erin nunca vira tal agonia e mágoa gravadas nos ângulos tensos e distorcidos do seu rosto.

– Não posso fazer isto – gemeu.

– Eu sei disso, também – disse Tommy, suavemente, a sua voz vacilando. Os seus olhos fitaram a poente, o Sol, a última luz que alguma vez veria.

Um lamento ergueu-se junto ao poço.

– Nãooooo...

Elizabeth precipitou-se para eles, pressentindo, por fim, o que estava prestes a acontecer.

Tommy suspirou e lançou-se contra a espada – levando consigo a última luz do dia ao morrer.