Sangue Inocente
Primeira Parte
«Pequei, entregando sangue inocente.» Eles replicaram: «Que nos importa?»
– MATEUS 27: 4
CAPÍTULO 1
18 de dezembro, 09h58, PST
Palo Alto, Califórnia
Uma pontada de pânico mantinha-a tensa.
Quando a doutora Erin Granger entrou na sala de conferências do campus de Stanford, olhou o espaço em toda a sua extensão para se certificar de que estava só. Até se agachou e vasculhou debaixo dos lugares vazios, confirmando que ninguém se escondia ali. Mantinha uma mão sobre a Glock 19 no coldre do tornozelo.
Era uma bonita manhã de inverno, com o sol suspenso de um quebradiço céu azul salpicado de nuvens. Com a luz radiante entrando a jorros pelas janelas altas, pouco tinha a recear das criaturas sombrias que habitavam os seus pesadelos.
No entanto, depois de tudo o que lhe acontecera, sabia que os seus semelhantes humanos eram capazes do mesmo mal.
Voltando a endireitar-se, alcançou o atril diante da sala de aula e deixou escapar um suspiro de alívio discreto. Sabia que os seus receios eram ilógicos, mas isso não a impedia de verificar a segurança da sala antes que os alunos entrassem em tropel. Por muito irritantes que os universitários pudessem ser, lutaria até à morte para manter cada um deles livre do mal.
Não voltaria a falhar a nenhum estudante.
Os dedos de Erin apertaram-se sobre a mala de couro coçado que tinha na mão. Teve de forçar os dedos a abrirem-se e pousar a mala ao lado do atril. Com o olhar ainda a percorrer o espaço, abriu a mala e tirou para fora as notas para a aula. Normalmente, memorizava as suas apresentações, mas assumira aquela aula em substituição de uma professora em licença de maternidade. Era um tópico interessante e impedia-a de repisar os acontecimentos surgidos na sua vida, a começar pela perda de dois alunos de licenciatura em Israel, alguns meses antes.
Heinrich e Amy.
O estudante alemão morrera de ferimentos prolongados na sequência de um terramoto. A morte de Amy sobreviera mais tarde, assassinada porque Erin enviara não intencionalmente informação proibida à sua aluna, dando-lhe um conhecimento que levara à sua eliminação.
Friccionou as palmas das mãos, como que tentando limpar-se daquele sangue, daquela responsabilidade. Subitamente, o espaço pareceu mais frio. Não deviam estar mais de dez graus lá fora e estava pouco mais quente na sala de aula. Contudo, os arrepios que a percorriam enquanto preparava os papéis nada tinham a ver com o insuficiente sistema de aquecimento do espaço.
Regressada a Stanford, devia ter-se sentido aliviada por estar em casa, rodeada pelo que lhe era familiar, pelas rotinas diárias de um semestre a encaminhar-se para as férias de Natal.
Mas não sentia.
Porque nada era igual.
Enquanto se endireitava e preparava as notas para a aula daquela manhã, os alunos chegaram, um a um, dois a dois, alguns descendo os degraus até aos lugares da frente, mas a maioria ficando atrás e baixando os assentos nas filas mais afastadas.
– Professora Granger?
Erin olhou para a esquerda e viu um rapaz com cinco argolas de prata numa das sobrancelhas a aproximar-se. O aluno exibia uma expressão determinada no rosto quando se colocou diante dela. Carregava uma câmara com teleobjetiva num dos ombros.
– Sim? – Não se deu ao trabalho de dissimular a irritação na sua voz.
Ele pousou um pedaço de papel dobrado sobre o atril de madeira, deslizando-o na direção dela.
Mais atrás, os outros estudantes olhavam, fingindo indiferença, mas eram atores pouco convincentes. Ela conseguia perceber que a observavam, à espera da sua reação. Não precisou de abrir o pedaço de papel para saber que continha o número de telefone do jovem.
– Sou do Stanford Daily. – Brincou com um dos piercings. – Pode conceder-me uma breve entrevista para o jornal da escola?
Ela voltou a empurrar o pedaço de papel na direção dele.
– Não, obrigada.
Recusara todos os pedidos de entrevista desde que regressara de Roma. Não quebraria o silêncio agora, sobretudo quando tudo o que lhe era permitido dizer não passava de mentira.
Para ocultar a verdade sobre os trágicos acontecimentos que tinham levado à morte dos dois estudantes, fora engendrada uma história de como ela ficara presa no deserto israelita, sepultada sob os escombros após um tremor de terra em Massada. Segundo esse falso relato, fora descoberta com vida, juntamente com um sargento do exército chamado Jordan Stone e o único estudante sobrevivente, Nate Highsmith.
Compreendera a necessidade de encobrir o acontecimento para explicar o tempo que passara a trabalhar para o Vaticano, um subterfúgio também aprovado por uma pequena elite do governo que conhecia a verdade. As pessoas não estavam preparadas para relatos sobre os monstros da noite, sobre os obscuros pilares que sustentavam o mundo.
Porém, com ou sem necessidade, não tinha intenção de desenvolver essas mentiras.
O estudante com uma fileira de argolas na sobrancelha insistia.
– Poderia rever a história, antes de ser editada. Se não ficar satisfeita com alguma parte, podemos trabalhá-la até lhe agradar.
– Respeito a sua persistência e empenho, mas isso não altera a minha resposta. – Gesticulou para o auditório meio cheio. – Sente-se, por favor.
Ele hesitou e pareceu prestes a falar de novo.
Ela endireitou-se e fitou-o com um olhar severo. Tinha apenas um metro e setenta e seis e usava o cabelo louro apanhado num descuidado rabo de cavalo que não lhe dava o ar mais intimidante.
No entanto, era tudo uma questão de atitude.
O que quer que ele tivesse visto nos olhos dela fê-lo recuar para junto dos outros estudantes, onde se afundou rapidamente no lugar, mantendo o rosto baixo.
Com o assunto resolvido, ela juntou as suas notas numa pilha ordenada e dirigiu-se à turma.
– Agradeço a todos por terem vindo à sessão final de História 104: Separar o Divino da História Bíblica. Hoje, vamos discutir equívocos comuns sobre uma festividade religiosa que está quase a chegar, nomeadamente o Natal.
Os sons dos portáteis a serem ligados substituiu o outrora familiar restolhar do papel, enquanto os alunos se preparavam para tomar notas.
– O que celebramos a vinte e cinco de dezembro? – Deixou o olhar percorrer os alunos, alguns com piercings, outros com tatuagens e vários que pareciam de ressaca.
– Vinte e cinco de dezembro? Alguém? Esta é de caras.
Uma rapariga vestindo uma camisola com um anjo bordado na frente levantou a mão.
– O nascimento de Cristo?
– Exato. Mas quando nasceu realmente Cristo?
Ninguém respondeu.
Ela sorriu, deixando para trás os receios, enquanto se acomodava no papel de professora.
– Foi inteligente da vossa parte evitarem a armadilha.
Aquilo granjeou alguns risos.
– A data do nascimento de Cristo é, na verdade, tema de disputa. Clemente de Alexandria dizia que...
Prosseguiu a aula. Um ano antes, teria dito que ninguém hoje vivo sabia a verdadeira data do nascimento de Cristo. Agora, já não o podia dizer, pois no decorrer das suas aventuras por Israel, Rússia e Roma, conhecera alguém que o sabia, que estava vivo quando Cristo nasceu. Nesse momento, apercebera-se do quanto da história aceite estava errada – mascarada pela ignorância ou obscurecida por falsidades propositadas para esconder verdades mais sombrias.
Enquanto arqueóloga, alguém que buscava a história escondida debaixo de areia e pedra, tal revelação deixara-a inquieta, à deriva. Depois de regressar ao cómodo mundo académico, descobriu que já não conseguia dar a mais simples aula sem uma reflexão cuidada. Dizer aos alunos a verdade, se não toda a verdade, tornara-se praticamente impossível. Cada aula soava-lhe a mentira.
Como posso continuar por este rumo, mentindo àqueles a quem devo ensinar a verdade?
No entanto, que outra escolha tinha? Depois de aberta por breves instantes, revelando a verdadeira natureza do mundo, aquela porta fora fechada com a mesma firmeza.
Não fechada. Arremessada na minha cara.
Separada dessas verdades ocultas atrás daquela porta, foi deixada do lado de fora, perguntando-se o que era real e o que era falso.
Por fim, a aula terminou. Rapidamente, apagou o quadro branco, como que tentando apagar todas as falsidades e meias-verdades aí contidas. Por fim, acabara. Congratulou-se a si mesma, por ter conseguido chegar ao fim da última aula do ano. Agora, só lhe restava classificar os últimos trabalhos – depois, ficaria livre para enfrentar o desafio da pausa de Natal.
Nesse cenário de dias em aberto, imaginou os olhos azuis e a superfície áspera de um rosto rugoso, os lábios cheios que sorriam tão facilmente, a testa serena sob uma madeixa curta de cabelo louro. Seria bom voltar a ver o sargento Jordan Stone. Tinham passado várias semanas desde que o vira em pessoa pela última vez – embora falassem frequentemente ao telefone. Não estava certa do destino dessa relação a longo prazo, mas queria estar presente para o descobrir.
É claro que isso significava escolher o presente de Natal perfeito para expressar esse sentimento. Sorriu perante a ideia.
Quando começava a apagar a última linha do quadro branco e se preparava para dispensar os alunos, uma nuvem abafou o sol, mergulhando a sala na sombra. O apagador parou no quadro. Sentiu-se momentaneamente atordoada, e depois sentiu-se mergulhar...
Na mais absoluta escuridão.
Paredes de pedra comprimiam-lhe os ombros. Debateu-se para se sentar. A cabeça esmagou-se contra a pedra e caiu para trás com um esparrinhar. As mãos frenéticas tatearam um mundo negro.
Pedra a toda a volta– em cima, atrás, por todos os lados. Não uma pedra áspera, como se estivesse sepultada debaixo de uma montanha. Era lisa. Polida como vidro.
Ao longo da tampa do caixão havia um desenho trabalhado a prata. Queimava-lhe a ponta dos dedos.
Engoliu e a sua boca encheu-se de vinho. O bastante para a afogar.
Vinho?
Uma porta ao fundo da sala bateu com força, trazendo-a bruscamente de volta à sala de aula. Fitou o apagador no quadro branco, os dedos apertados com força à sua volta, os nós brancos.
Há quanto tempo estou assim? Diante de todos...
Não podiam ter passado mais do que uns minutos. Tivera ataques daqueles antes, nas últimas semanas, mas nunca diante de ninguém. Menosprezara-os como stresse pós-traumático e esperara que passassem por si mesmos, mas este último fora o mais vívido de todos.
Inspirou fundo e virou-se para encarar a turma. Pareciam indiferentes, por isso não devia ter-se alheado por muito tempo. Tinha de controlar aquilo, antes que algo pior acontecesse.
Olhou para a porta que batera.
Uma figura agradável estava ao fundo da sala. Notando a atenção, Nate Highsmith ergueu um grande envelope e agitou-o na direção dela. Sorriu, em jeito de desculpa, e avançou para a sala com as suas botas de cowboy, no coxear uma evocação da tortura que sofrera no outono passado.
Ela comprimiu os lábios. Devia tê-lo protegido melhor. E a Heinrich. E sobretudo a Amy. Se Erin não tivesse exposto a jovem ao perigo, ela poderia ainda estar viva. Os pais de Amy não teriam de passar o primeiro Natal sem a filha. Eles nunca tinham querido que Amy fosse arqueóloga. Fora Erin quem acabara por os convencer a deixar a filha participar na escavação em Israel. Enquanto investigadora de campo sénior, Erin garantira-lhes que a filha estaria em segurança.
No final, falhara dolorosa e terrivelmente.
Inclinou a bota para sentir a massa tranquilizadora da arma contra o tornozelo. Não seria apanhada desprevenida de novo. Não morreriam mais inocentes sob a sua guarda.
Ela aclarou a garganta e voltou a atenção para a turma.
– E é tudo. Estão dispensados. Aproveitem as férias de inverno.
Enquanto a sala se esvaziava, forçou-se a olhar para lá da janela, para o céu radiante, procurando afastar a escuridão deixada pela visão de há um momento atrás.
Nate alcançou-a, por fim, quando o espaço ficou vazio.
– Professora. – Parecia apreensivo. – Tenho uma mensagem para si.
– Que mensagem?
– Duas, aliás. Uma é do governo de Israel. Finalmente, libertaram os nossos dados sobre o local de escavação na Cesareia.
– Isso é excelente! – Ela tentou forçar um tom de entusiasmo, mas falhou. Mais que não fosse, Amy e Heinrich receberiam algum crédito pelo seu derradeiro trabalho, um epitáfio às suas curtas vidas.
– E a segunda mensagem?
– É do cardeal Bernard.
Surpreendida, encarou Nate mais frontalmente. Durante semanas, tentara contactar o cardeal, representante máximo da Ordem dos Sanguinistas em Roma. Pensara mesmo em apanhar um avião para Itália e rondar os seus aposentos na Cidade do Vaticano.
– Já não era sem tempo – murmurou.
– Ele pede-lhe para ligar quanto antes – disse Nate. – Parecia urgente.
Erin suspirou de exasperação. Bernard ignorara-a durante dois meses, mas agora precisava de algo dela. Ela tinha inúmeras perguntas para lhe fazer – preocupações e pensamentos que se tinham adensado nas últimas semanas, desde o regresso de Roma. Olhou para o quadro branco, fitando a linha meio apagada. Também tinha perguntas sobre aquelas visões.
Seriam os episódios um efeito secundário do stresse pós-traumático? Seria um reviver do tempo que passara aprisionada debaixo de terra, em Massada?
Mas, se assim fosse, porque sinto recorrentemente o sabor a vinho?
Abanou a cabeça para clarear as ideias e apontou para a mão dele.
– O que tem o envelope?
– Está endereçado a si. – Entregou-lho.
Pesava demais para conter uma simples carta. Erin examinou a morada do remetente.
Israel.
Os seus dedos tremeram ligeiramente enquanto abria a aba do envelope com a caneta.
Nate reparou que a mão dela vacilava e pareceu preocupado. Ela sabia que ele consultava um psicólogo sobre o seu próprio distúrbio de stresse pós-traumático. Eram sobreviventes feridos, com segredos que não podiam ser totalmente revelados.
Agitando o envelope, fez deslizar para fora uma simples folha de papel escrita à máquina e um objeto do tamanho e forma de um ovo de codorniz. O coração caiu-lhe aos pés ao reconhecer o objeto.
Até Nate deixou escapar um leve arquejo e recuou um passo.
Ela não teve esse luxo. Leu a folha de papel rapidamente. Era das forças de segurança israelitas. Tinham chegado à conclusão de que o artefacto anexo já não era relevante para a investigação do caso encerrado, e esperavam que ela o pudesse devolver a quem de direito.
Aninhou o pedaço de âmbar polido na palma da mão, como se fosse o objeto mais valioso do mundo. Sob a turva luz fluorescente, parecia pouco mais do que uma pedra acastanhada brilhante, mas parecia mais quente ao toque. A luz refletia-se da sua superfície e, bem no centro, uma minúscula pena escura flutuava imóvel, preservada por milhares de anos, um pedaço de tempo congelado para sempre no âmbar.
– O amuleto da Amy – murmurou Nate, engolindo com dificuldade. Ele estava lá quando Amy fora assassinada. Manteve os olhos desviados do pequeno ovo de âmbar.
Erin pousou a mão no cotovelo de Nate, num gesto solidário. Na verdade, o talismã era mais do que um amuleto da sorte para Amy. Certo dia, na escavação, Amy explicara a Erin que encontrara o âmbar numa praia quando era miúda e que ficara fascinada com a pena aprisionada no interior, perguntando-se de onde teria vindo, imaginando a asa de onde poderia ter caído. O âmbar cativara a sua imaginação tão intensamente quanto a pena. Fora o que despertara o desejo de Amy por estudar arqueologia.
Erin fixou o âmbar na palma da sua mão, consciente de que aquele minúsculo objeto conduzira não apenas à área de estudo de Amy, mas também à sua morte.
Os dedos fecharam-se com força sobre a pedra lisa, reforçando a sua determinação, fazendo a si mesma uma promessa.
Nunca mais...