Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 24 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 22

 

 

19 de dezembro, 13h51, CET

Castel Gandolfo, Itália

Perdido em sangue e fogo, Rhun afastou os lábios da boca de Elisabeta e levou-os à garganta dela. A sua língua deslizou por veias que outrora pulsavam de vida.

Ela gemia sob ele:

– Sim, sim, meu amor...

As presas cresceram-lhe, prontas a penetrar a carne macia e beber o que ela lhe oferecia.

A sua garganta de alabastro seduzia-o.

Por fim, unir-se-ia a ela. O sangue dela correria pelas suas veias, como o dele fluíra por ela. Desceu os lábios sôfregos sobre a apetecível garganta.

Abriu a boca, descobrindo os dentes aguçados à carne macia.

Antes que pudesse morder, umas mãos agarraram-no subitamente. Foi arrancado de Elisabeta e esmagado contra a parede de pedra. Rosnou e debateu-se, mas o seu captor manteve-se firme como um lobo sobre um alce.

Ouviu dois estalidos.

Depois, um outro par de mãos uniu-se ao primeiro.

Quando o fogo se dissipou da vista, viu Elisabeta algemada à cama, lutando para se libertar. O ardor da prata empolando-lhe os delicados pulsos, arruinando o que ele acabara de sarar, de beijar.

Nadia e Christian prendiam-no contra a parede. Na sua plena força, poderia ter sido capaz de se libertar, mas ainda estava enfraquecido. As palavras deles penetravam a sua confusão, revelando-se como preces, relembrando-o de quem era.

Esgotado, cedeu à força deles.

– Rhun. – Nadia não afrouxou o aperto. – Reze connosco.

Obedecendo ao comando na voz dela, ele moveu os lábios, forçando as palavras a saírem. A sede de sangue esmoreceu lentamente, mas o consolo não ocupou o seu lugar, apenas o vazio, deixando-o exausto, consumido.

Os dois sanguinistas arrastaram-no para fora da cela e Nadia trancou a porta.

Carregando-o para uma cela mais adiante, Christian deitou-o numa cama.

Sou também prisioneiro, agora?

– Cura-te! – Nadia pressionou um cantil de vinho contra a palma da sua mão.

Ela e Christian fecharam e trancaram a porta da cela.

Ficou deitado de costas na enxerga bafienta. O odor bolorento a palha velha e pó de pedra enchia o compartimento. Ansiava por voltar à cela de Elisabeta e perder-se na fragrância do sangue. Com ambas as mãos, agarrou a cruz peitoral e deixou que a prata lhe queimasse as palmas, mas não conseguia focar a mente.

Sabia o que tinha de fazer.

Pegou no cantil, abriu-o e esvaziou todo o conteúdo num longo gole. O fogo do sangue de Cristo não deixaria lugar à dúvida. A santidade cauterizou-lhe a garganta e explodiu no seu íntimo, esvaziando-o, expulsando mesmo o vazio de há um momento atrás.

Agarrando de novo a cruz, fechou os olhos e esperou que a penitência se abatesse sobre ele. O preço da bênção de Cristo era o reviver dos piores pecados.

Mas o que lhe revelaria, desta vez, o sangue consagrado?

O que poderia ser suficientemente forte para se equiparar ao pecado na sua alma?

Com a Lua alta, Rhun fez o sinal da cruz e cruzou o limiar da taberna. Era o único lugar de reunião num pequeno lugarejo, conhecido pela qualidade do seu mel. Quando entrou, o cheiro do hidromel misturou-se com o odor férreo do sangue derramado.

Um strigoi estivera ali. Um strigoi matara ali.

Uma empregada de mesa, franzina e crivada de feridas, estava estendida no chão imundo, ao lado do corpulento estalajadeiro. Nenhum batimento ecoava do seu peito. Estavam mortos e assim permaneceriam.

Cacos de louça de barro estalavam-lhe debaixo das botas.

O fogo da lareira reluzia na sua lâmina de prata.

Bernard treinara Rhun naquela arma, bem como em muitas outras, preparando-o para a sua primeira missão como sanguinista. Fazia precisamente um ano que Rhun perdera a sua própria alma num ataque de strigoi, ao lado da campa da sua irmã.

Hoje, teria de iniciar a sua redenção.

Bernard ordenara-lhe que encontrasse a besta que andava a aterrorizar a aldeia local. O bárbaro strigoi chegara há apenas dois dias, mas já matara quatro almas. Rhun teria de converter os apetites impuros da besta em desejos sagrados, como Bernard fizera com ele, ou matar a criatura.

Um ranger chamou a sua atenção para o canto, onde uma grosseira mesa de madeira fora empurrada contra a parede. A sua visão apurada detetou uma sombra na escuridão em baixo da mesa.

O strigoi que procurava escondia-se aí.

Um outro som chegou-lhe aos ouvidos.

Choro.

Num único salto, Rhun cruzou a distância até à mesa, puxou-a com uma mão e lançou-a para longe. Com a sua outra mão, desceu a espada sobre uma garganta pálida e suja.

Uma criança.

Um rapaz de dez ou onze anos fitava-o, de olhos esgazeados, o cabelo castanho curto penteado por mãos ternas. Dedos imundos envolviam os joelhos magros e nus. As lágrimas manchavam-lhe as faces– mas o sangue marcava-lhe o queixo.

Rhun não se atrevia a mostrar misericórdia. Demasiados sanguinistas tinham morrido por subestimarem a sua presa. Um rosto jovem e inocente mascarava, muitas vezes, um assassino com séculos de idade. Recordou-se disso, mas a criança parecia inofensiva, inspirando mesmo compaixão.

Olhou rapidamente para os corpos mortos no chão, relembrando-se que não se deixasse iludir. O rapaz estava longe de ser inofensivo.

Virou o rapaz e encostou-o ao peito, agarrando-o por trás, prendendo-lhe os braços em baixo. Rhun arrastou-o até à lareira. Um espelho estava pendurado sobre a tosca prateleira de madeira.

O reflexo mostrava a criança quieta no seu aperto, não oferecendo resistência.

Uns infelizes olhos castanhos encontraram os seus no espelho.

– Porque sou um monstro? – perguntaram aqueles lábios inocentes.

Rhun vacilou perante a questão inesperada, mas buscou forças no que Bernard lhe ensinara.

– Pecaste.

– Não pequei, não o fiz de minha livre vontade. Eu era um bom rapaz. Uma criatura entrou pela minha janela durante a noite. Mordeu-me. Fez-me beber do seu sangue e depois desapareceu. Eu não quis que isso acontecesse. Lutei contra isso. Lutei com todas as minhas forças.

Rhun recordou-se da sua própria resistência inicial aos strigoi, que lhe tinham roubado a alma, e de como sucumbira no fim, abraçando a felicidade que lhe era oferecida.

– Há uma maneira de travar o mal, servindo de novo a Deus.

– Porque havia de querer servir um deus que permitiu que isto me acontecesse?

A criança não parecia revoltada, simplesmente curiosa.

– Podes transformar esta maldição numa dádiva – disse ele. – Podes servir a Cristo. Podes viver, bebendo do Seu sangue sagrado e não do sangue de humanos.

Os olhos do rapaz vaguearam pelos corpos no chão.

– Eu não quis matá-los. A sério, eu não quis.

Rhun afrouxou o aperto.

– Eu sei. E podes acabar com isso agora.

– Mas – a criança encontrou de novo o seu olhar no espelho – eu gostei.

Algo nos olhos do rapaz apelava à escuridão no seu íntimo. Rhun sabia que aquela primeira missão era tanto um teste a si próprio como ao rapaz.

– É pecado – frisou Rhun.

– Então, acabarei no Inferno.

– Não, se te desviares deste caminho. Não, se te dedicares a uma vida de serviço à Igreja, a Cristo.

A criança refletiu, depois falou.

– Promete-me que não vou para o Inferno, se fizer como diz?

Rhun hesitou. Desejava poder oferecer uma verdade mais sólida ao rapaz.

– É a tua melhor esperança.

Como tanto na sua vida, era uma questão de fé.

Um tronco incandescente deslizou do fogo e rolou contra a parede da lareira. Faíscas reluzentes precipitaram-se para o chão, extinguindo-se aí. Rhun pressentiu que a manhã se aproximava velozmente. A criança olhou para a janela, pressentindo-o provavelmente também.

– Tens de decidir em breve – avisou Rhun.

– O sol queima-o? – perguntou a criança, encolhendo-se da dor recordada.

– Sim – admitiu Rhun. – Mas com a bênção de Cristo consigo andar sob o sol do meio-dia. O seu sangue dá-me a força e a santidade para tal.

Os olhos redondos do rapaz pareciam duvidosos.

– E se eu beber do Seu sangue, sem acreditar verdadeiramente?

– Cristo reconhecerá a falsidade. O Seu sangue reduzir-te-á a cinzas.

O pequeno corpo da criança estremeceu nos seus braços.

– Deixar-me-á partir, se eu disser que não?

– Não posso permitir que continues a matar inocentes.

O rapaz inclinou a cabeça na direção do casal no chão.

– Eles eram menos inocentes do que eu alguma vez fui. Roubavam os viajantes, traficavam prostitutas e uma vez degolaram um homem para lhe roubar a bolsa.

– Deus julgá-los-á.

– Mas eu serei julgado por si? – indagou a criança.

Rhun hesitou.

Era esse o seu papel, não era?

Juiz e executor.

A sua voz esmoreceu.

– Temos pouco tempo. A madrugada está...

– Sempre tive pouco tempo e agora não tenho nenhum. – Lágrimas brotaram e correram-lhe pelas faces. – Não o seguirei. Não me tornarei sacerdote. Não fiz nada de errado para me tornar este monstro. Por isso, acabe com isto agora. O quanto antes.

Rhun fitou aqueles olhos húmidos mas resolutos.

É a vontade de Deus, relembrou-se.

Contudo, hesitava enquanto o sol abrasador ameaçava.

O que fizera aquela criança para merecer ser transformada numa besta? Fora inocente, lutara contra o mal quando atacada e perdera.

Com Rhun não fora diferente – só que escolhera servi-Lo.

O odor do sangue frio vertia dos corpos no chão. Tal destruição seria o que o rapaz deixaria para trás, até ao fim dos seus dias.

– Perdoa-me – sussurrou Rhun.

O rapaz disse uma palavra que o atormentaria por séculos sem fim.

Apesar disso, puxou a lâmina pela garganta da criança, espalhando o sangue escuro no espelho.

Rhun voltou a si no chão da cela. A dado ponto, terá rastejado para debaixo da cama, enrolando-se sobre si mesmo, a chorar. Aí se descobriu, só, fitando as ripas da cama, a apenas centímetros do rosto.

Porque me foi mostrado este momento?

Fizera o que lhe fora ordenado, obedecendo à palavra de Deus.

Como era isso um pecado que necessitasse de penitência?

Seria porque hesitara no final?

Trepou de debaixo da cama e sentou-se na borda. Cravou os cotovelos nos joelhos, baixou a cabeça entre as mãos e rogou por consolo.

Mas nenhum lhe chegou.

Em vez disso, relembrou os límpidos olhos castanhos do rapaz, a sua voz aguda, como se aninhara contra o peito de Rhun e erguera o queixo, para que a lâmina encontrasse o destino certo.

Rhun lembrou-se de lhe ter pedido perdão.

O rapaz respondera.

Não.

No entanto, em nome de Deus, ele chacinara a criança.

Desde então, muitos rostos inocentes tinham morrido sob a sua espada. Não mais se demorou, não mais hesitou. Matara sem a angústia do pesar. Os seus anos de serviço levaram-no aí – ao ponto de matar crianças sem remorso.

Cobrindo o rosto, chorou agora.

Por si e pelo rapaz de olhos castanhos.