Sangue Inocente
Capítulo 45
20 de dezembro, 07h54, CET
Cumas, Itália
Erin puxou Jordan para longe da pira fria de fumo negro. Recuperou suficientemente as forças para se levantar, mas continuava a friccionar o peito. Estaria a esforçar-se demasiado após a sua recente provação? Ela experimentou alívio ao sentir a sua mão húmida ganhar calor na dela.
Uma voz ergueu-se para lá da névoa.
– Não se podem aproximar mais.
Vinha da mulher acorrentada à parede. Vestia uma simples túnica branca e sandálias de couro, parecendo saída de uma urna da Grécia Antiga.
Erin circundou a nuvem escura o suficiente para lhe ver melhor o rosto. Inequivocamente, era a mulher do retrato, do quadro a óleo de Iscariotes e, provavelmente, a mulher que Bernard encontrara em Jerusalém. Estava amarrada a uma argola de ferro fixa à pedra, aparentemente tão prisioneira quanto o rapaz.
Mas o que era ela?
As suas meditações foram interrompidas quando Rhun lançou um strigoi alto no ar, fazendo-o voar pela bruma sobre o altar. Ao atingir a nuvem, um grito irrompeu da garganta da besta. O corpo imobilizou-se de imediato num gesto de agonia. Por um instante, Erin pensou ver uma sombra enegrecida brotar-lhe dos lábios e narinas, redemoinhando para se juntar ao negrume sobre Tommy. Recordou os esboços de Elizabeth no seu macabro diário de pesquisa, como ela descrevera a mesma essência enegrecida associada aos strigoi.
Depois, o corpo embateu na parede distante e despedaçou-se como porcelana.
Horrorizada, Erin deu um passo atrás.
Como iam conseguir salvar o rapaz? Estaria sequer vivo?
Como que lendo os seus receios, a mulher falou.
– Eu posso alcançá-lo.
Erin fitou-a.
Ela ergueu os braços atados.
– Liberte-me.
Erin e Jordan olharam-se.
Jordan encolheu os ombros, mantendo a arma apontada à luta do outro lado da câmara. Rhun combatia ao lado de Bernard e Elizabeth, para livrar a caverna dos derradeiros strigoi.
– Nesta altura – disse ele –, qualquer inimigo de Iscariotes é meu amigo.
Porém, Erin hesitava, recordando o quadro a óleo, com o braço de Iscariotes em torno dela, olhando-a ternamente.
– Alguém tem de ir até lá e salvar o rapaz – relembrou-lhe Jordan.
Ela assentiu, apressou-se em diante e, usando um punhal de Jordan, atacou a grossa corda que prendia as mãos da mulher à argola de ferro. Jordan continuou a vigiá-la.
Os olhos da mulher encontraram os de Erin, enquanto esta trabalhava, irradiando paz por entre todo o derramar de sangue.
Erin engoliu em seco, reconhecendo quem procurava libertar, mas necessitando da confirmação.
– É a Sibila de Cumas.
O queixo da mulher inclinou-se ligeiramente em reconhecimento.
– É um dos muitos nomes que carreguei ao longo dos séculos. De momento, prefiro Arella.
– E ajudará o rapaz?
Erin olhou o débil vulto deste sobre a pedra.
– Tenho de o ajudar... tal como ajudei um outro rapaz, há muito tempo.
As mãos de Arella soltaram-se, por fim, e ela juntou as palmas como que em oração, os dedos indicadores a milímetros do rosto.
Jordan e Erin recuaram, sentindo algo a avultar-se no interior daquela outra.
Uma luz dourada irradiou, subitamente, do corpo da sibila, impelindo-os mais para trás. O círculo exterior dessa luz tocou Erin, expulsando o frio dos seus ossos, como o calor aveludado de um sol de verão, cheirando a erva e a trevo. Erin sorveu o ar. Sentiu-se inundada de júbilo, recordando-se do momento em que o Evangelho de Sangue se transformara de um simples bloco de chumbo num tomo encerrando as palavras de Cristo.
Por fim, achou o termo para descrever o que sentia.
Sacralidade.
Ela estava na presença da verdadeira sacralidade.
Ao seu lado, Jordan sorria, seguramente sentindo o mesmo. Por instantes, no meio da batalha, houve paz. Encostou-se a ele, partilhando calor e força e amor.
– Há alguma coisa que possamos fazer para ajudar? – perguntou Erin.
Voltou toda a sua graça para Erin.
– Não. Nem vocês nem os sacerdotes podem salvar o rapaz. Só eu o posso fazer.
A mulher – Arella – afastou-se da parede e avançou na direção da pira ascendente de fria escuridão. Os poucos liames de negrume nas bordas foram queimados pela aproximação do seu brilho. Outros tentáculos retraíram-se de volta à nuvem, como que receosos do seu contacto.
Depois, ela impeliu-se pela própria bruma, o seu esplendor mais intenso, rechaçando a escuridão que rodopiava em volta. O seu brilho estendeu-se para cima de ambos os lados, emplumando-se contra o negrume, assumindo uma forma familiar.
Erin visualizou o desenho antigo retirado do cofre.
Asas.
Como podia tal ser existir na Terra?
Compreendeu que fora mais fácil para ela acreditar em strigoi, na presença do mal sacrílego tornado carne, do que aceitar a presença do bem. Mas não podia negar o que agora presenciava.
Arella avançou para o altar, para o lado do rapaz.
A escuridão fechou-se sobre ela, ferindo o seu brilho.
Um brado ergueu-se do lado distante.
– Não... Arella... não...
Iscariotes pôs-se de pé, o sangue ensopando-lhe a camisa. Recuou, mergulhando num túnel atrás de si e desaparecendo.
Jordan preparou-se para o perseguir, mas Erin agarrou-lhe o braço, querendo-o por perto.
– Ele sabe que está perdido, mas o rapaz pode precisar de nós.
Jordan esboçou um esgar de frustração, mas assentiu, mantendo a arma apontada ao túnel.
Arella ajoelhou-se no chão áspero. As suas asas dobraram-se, formando um manto protetor em torno do rapaz. Tommy jazia deitado de costas, com uma pesada rede a cobrir-lhe o corpo. A sua pele exibia um tom céreo e azulado, como se já tivesse morrido.
É demasiado tarde.
A garganta de Erin estreitou-se.
Mas a sibila tocou-lhe o rosto pálido e a cor floresceu aí, alastrando da ponta dos seus dedos, prometendo, pelo menos, esperança para o rapaz.
Arella levantou-lhe a cabeça da pedra, amparando-lhe o pescoço, expondo um refulgente fragmento de prata que lhe penetrava a garganta descorada, o sangue vertendo da ferida. A sua outra mão soltou um dos cantos da rede. Parecia já ter sido arrancada. Fez deslizar o braço por baixo e, gentilmente, puxou para fora o corpo magro do rapaz.
Mas a escuridão não estava disposta a deixar escapar a sua presa tão facilmente. Quando ela lhe pegou e se levantou, a escuridão fundiu-se em garras negras, que se enterraram fundo na sua luz, rasgando e dilacerando.
Arella arquejou, caindo sobre um joelho.
As costas da sua túnica rasgaram-se, revelando golpes escuros nos ombros.
Erin quis ajudar, mas os braços caíram-lhe, compreendendo que não havia nada que pudesse fazer.
Arella lutou por se voltar a pôr de pé, erguendo o rapaz nos seus braços. A sua luz dourada era agora mais fraca, devorada nos limites numa renda de frangalhos. Arqueou-se contra a tormenta, que se tornava cada vez mais feroz em seu redor. A nuvem encerrou-se mais densamente, tentando sufocar-lhe o brilho, atacando-a como uma dilacerante tempestade de gelo.
Arella deu um passo vacilante, depois outro.
Parecia concentrar o resto do seu brilho em torno do rapaz, ficando indefesa face à violenta investida.
Deu mais um passo – depois, saiu finalmente da escuridão, caindo de joelhos, aninhando o rapaz no seu colo. A sua túnica eram farrapos, a pele mosqueada de negras pústulas e escuros rasgões, o cabelo azeviche tornado num branco espectral.
Erin precipitou-se para a frente, enquanto a mulher tombava para o lado. Agarrou Tommy por debaixo dos braços e arrastou a sua forma inerte para mais longe da escuridão.
Jordan pegou em Arella e fez o mesmo.
– Temos de os tirar daqui – disse Erin. – Para o mais longe possível deste lugar horrendo.
Por essa altura, o combate cessara na caverna.
Os strigoi restantes pareciam ter fugido, na sequência da retirada de Iscariotes.
Rhun e Bernard juntaram-se a ela, mas a condessa abriu caminho por entre eles, chegando rapidamente ao lado do rapaz.
– O seu coração – disse Elizabeth, os olhos verdadeiramente assustados. – Está a ficar mais fraco.
Rhun anuiu, como que pressentindo o mesmo.
– Ele não pode sarar com isso ainda cravado – alertou Elizabeth.
Antes que alguém pudesse impor cautela, a condessa agarrou o fragmento, arrancou-o do pescoço do rapaz, e lançou-o pelo espaço. O sangue continuava a verter da ferida de Tommy.
– Porque não está a sarar? – questionou Erin.
Olharam para a lâmina.
De um túnel próximo do lugar onde jazia, surgiu uma figura, materializando-se da escuridão.
Iscariotes fitou-os com uma fúria gélida.
Depois, fitou Arella em farrapos no chão e rapidamente recuperou o pedaço de prata largado. Distraído pela dor, Iscariotes cortou-se na lâmina. Golpeou-lhe o dedo, que verteu douradas gotas de luz, em vez de sangue.
Com um grito de choque, caiu para trás.
Jordan disparou contra ele, os tiros faiscando na pedra.
Rhun precipitou-se para a frente, cruzando o espaço com a velocidade que só um sanguinista podia dominar, a sua karambit reluzindo argêntea à luz das tochas.
Então, Iscariotes foi agarrado e puxado de volta ao túnel.
E um outro irrompeu daí, para enfrentar Rhun em seu lugar.
08h06
Rhun estacou repentinamente, paralisado pelo choque e pela descrença. Fitou o monge, o familiar hábito acastanhado, cingido por um rosário, o semblante de óculos eternamente juvenil.
– Irmão Leopold?
Regressado dos mortos.
Leopold empunhava uma espada em riste, o rosto sério e determinado.
Rhun fitava-o, perplexo. A sua mente tentava explicar as ações de Leopold, o facto de ainda estar vivo. Um milhar de explicações passavam-lhe pelo espírito, mas ele sabia que eram todas falsas. Tinha de enfrentar a dura verdade.
Ali estava o traidor sanguinista, aquele que estivera aliado a Iscariotes todo esse tempo.
Quantas mortes estavam aos pés daquele, de alguém que considerara um amigo?
Rostos e nomes acorreram ao coração silencioso de Rhun. Todos aqueles que chorara. Outros que mal conhecia. Recordou o maquinista e o ajudante do comboio.
Mas um nome, mais do que qualquer outro, inflamou a fúria no seu íntimo.
– A Nadia morreu por sua culpa.
Leopold teve a dignidade de parecer triste, mas achou, contudo, justificação.
– Todas as guerras têm baixas. Melhor do que qualquer um de nós, ela sabia-o e aceitava-o.
Rhun não podia aceitar tais trivialidades.
– Quando começou a trair a ordem? Desde quando é um traidor?
– Sempre servi um propósito maior. Antes de fazer os meus votos sanguinistas, antes de beber o primeiro cálice do sangue de Cristo, já me tinha sido incumbido este desígnio pelo Damnatus. Para trazer Cristo de volta à Terra.
Rhun carregou o olhar. Como podia ser? Porque não fora Leopold consumido pelo fogo, como os outros strigoi que tentavam iludir a ordem, prestando juramento falso?
Rhun encontrou a resposta no brilho de devoção no olhar do outro.
Leopold não prestara falso juramento, quando fizera os seus votos. Ele acreditara, com todo o seu coração, que servia a Cristo.
– Chorámos a sua morte – disse Rhun. – Enterrámos o seu rosário com todas as honras no Santuário, como se tivesse caído ao serviço do Senhor.
– Eu sirvo o Senhor – afirmou Leopold firmemente. – Se assim não fosse, porque é que o vinho consagrado me continua a abençoar?
Rhun vacilou. Seria a devoção de Leopold assim tão absoluta?
– Tem de ver a verdade das minhas palavras – implorou Leopold. – Pode juntar-se a nós. Ele acolhê-lo-á.
O espanto inundou Rhun.
– Quer que eu deixe a Igreja para me aliar a esse traidor de Cristo? Um homem que une forças com os strigoi?
– Não fez o mesmo com os strigoi? – Leopold gesticulou na direção de Elizabeth. – O coração deve seguir o que julga estar certo.
Rhun ficou atordoado – que era tudo o que Leopold quisera, com a sua astúcia.
Lançou-se sobre Rhun, veloz e selvaticamente, atacando com a espada.
Rhun girou no último momento, os seus instintos reagindo mais rápido do que a mente. A espada de Leopold golpeou-o de lado, penetrando a armadura, até às costelas. Reagindo com a mesma prontidão, Rhun desferiu a sua karambit.
Leopold cambaleou para trás, largando a espada. Agarrou-se à garganta, com o sangue a jorrar-lhe por entre os dedos. Caiu de joelhos, os óculos pendentes. Contudo, o olhar permanecia fixo em Rhun – brilhando não de raiva, não de mágoa, apenas de devoção.