Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 25 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 23

 

 

19 de dezembro, 14h36, CET

Castel Gandolfo, Itália

Jordan espreguiçou-se debaixo dos lençóis, cada parte do seu corpo nu em contacto com o corpo de Erin. Ela murmurou no sono e ele puxou-a para mais perto de si.

Como sentira a falta dela.

Uma pancada na porta acordou Erin, assustando-a claramente. Sentou-se de súbito. O cabelo louro varreu-lhe os ombros e a coberta caiu do peito nu. À luz esbatida que entrava pela janela entaipada, ela era bela.

Procurou-a, incapaz de se conter.

Christian falou do outro lado da porta, em tom divertido.

– Têm quinze minutos. Por isso, terminem o que começaram... ou comecem o que quiserem terminar. Seja qual for o caso, foram devidamente avisados.

– Obrigado! – respondeu Jordan, sorrindo a Erin. – Sabes que é pecado mortal desobedecer à ordem direta de um sacerdote.

– De certa forma, não me parece que tal seja verdade – contrapôs ela, com um sorriso descontraído e apontando, depois, o chuveiro e a promessa de água quente, sabão e pele nua. – Mas, para o bem das nossas almas, talvez seja melhor jogar pelo seguro.

Ele sorriu-lhe, levantou-a nos braços e levou-a para a casa de banho.

Quando Christian voltou a bater à porta, estavam ambos de banho tomado, vestidos e equipados com as novas armas. Apesar das feridas e pisaduras, Jordan não se sentia tão bem há muito.

Uma vez no corredor, Christian levou um dedo aos lábios e passou a cada um deles uma pequena lanterna.

Para que será isto?, perguntou-se Jordan.

Porém, confiava o suficiente em Christian para não questionar as ações do homem. Jordan e Erin seguiram-no até ao fim da passagem, por uma série de escadas abaixo e por um longo túnel sem luz.

Jordan ligou a sua lanterna e Erin fez o mesmo.

Christian impôs um passo esgotante ao longo da passagem. Parecia escavada no leito rochoso natural e estendia-se, pelo menos, por um quilómetro e meio. Por fim, Christian alcançou uma porta de aço e estacou. Introduziu dígitos num teclado eletrónico e deu um passo atrás. A porta girou silenciosamente para dentro. Tinha cerca de 30 cm de espessura e, provavelmente, conseguiria suportar a detonação de uma bomba.

A radiosa luz do dia inundou a passagem escura.

Jordan sentiu a fragrância de pinheiros e terra argilosa.

Devia ser uma saída de emergência, possivelmente destinada a pôr rapidamente o papa a salvo em caso de ameaça ao castelo.

Christian transpôs o limiar, gesticulando para se manterem próximos.

Inquieto com tanto subterfúgio, Jordan ergueu a espingarda automática, mantendo Erin entre si e Christian. Ele queria-a protegida de todos os lados.

Entraram numa densa floresta de árvores perenes. Fazia frio naquela estufa sombria. À medida que caminhavam, o hálito ficava suspenso no ar parado. Um tapete de agulhas de pinheiro caídas abafava o som dos seus pés.

Erin correu até cima o fecho do blusão de pele de lobo.

Mesmo esse som subtil foi demasiado ruidoso para aquela floresta silenciosa.

Mais à frente, três figuras saíram das sombras. Enquanto Christian relaxava, Jordan mantinha o pulso firme sobre a espingarda. Depois viu que era Nadia, conduzindo Rhun e Bathory. Ou pelo menos presumiu que fosse a condessa, já que a mulher estava velada da cabeça aos pés contra o sol. Mas a algema de prata ligada a um dos seus delgados pulsos deixava pouca dúvida de que se tratava de Bathory. A outra algema estava presa a Rhun.

Os sanguinistas não corriam riscos com a condessa.

Pessoalmente, Jordan preferia estar algemado a uma cobra.

Nadia fez sinal a Jordan para trás do maciço tronco de um pinheiro para uma reunião privada. Era enervante que ninguém falasse. Apertou brevemente o cotovelo de Erin, deixando-a com Christian, e depois seguiu Nadia.

Uma vez fora de vista, Nadia puxou para fora uma única folha de papel grossa, dobrada e selada com lacre vermelho, exibindo a insígnia de uma coroa e duas chaves cruzadas.

O selo papal.

Com uma longa unha, ela quebrou o selo e desdobrou o papel para revelar um mapa de Itália traçado à mão. Uma linha azul partia de Castel Gandolfo para norte, terminando próximo de Roma. Incluía indicações rodoviárias numéricas e um plano temporal.

Nadia ergueu um isqueiro e fez brotar uma chama, pronta a queimar o papel, de olhos postos nele.

Claramente, esperava que ele memorizasse o mapa.

Suspirando sem emitir som, memorizou as indicações rodoviárias e temporais. Uma vez terminado, olhou nos olhos dela.

Ela imitou o gesto de guiar e apontou para ele.

Parece que terei de guiar.

Ela levou o isqueiro à página. Chamas amareladas lamberam o espesso papel, reduzindo-o a cinzas. O propósito de toda aquela pantomina era claro. Jordan e Nadia, e quem quer que tivesse escrito a nota – provavelmente o cardeal – eram os únicos autorizados a conhecer o destino e rota.

Não iam dar ao bombista outra oportunidade de os eliminar a todos.

Com o assunto resolvido, Nadia conduziu-o de volta a onde os outros aguardavam.

Uma vez todos juntos, atravessaram a floresta em direção a um parque de estacionamento. Havia apenas dois veículos estacionados aí: um SUV Mercedes preto com vidros escurecidos e uma moto Ducati, igualmente preta, com linhas que gritavam velocidade.

Ele contemplou desejosamente a mota, mas sabia que iria ficar com o SUV.

Comprovando-o, Nadia lançou uma perna sobre o motociclo e ergueu uma sobrancelha na sua direção. Ele sorriu, recordando a louca corrida pela Baviera, alguns meses antes. Nunca se sentira tão assustado ou inflamado. Os seus reflexos sobrenaturais permitiam-lhe conduzir a máquina a velocidades que não imaginara possíveis.

Mas não ia ser assim naquele dia.

Ela atirou-lhe as chaves do SUV, antes de ligar a moto e arrancar com estrépito.

O grupo de Jordan encaminhou-se para o SUV. Rhun ajudou a condessa a subir para trás, flanqueada do outro lado por Christian. Jordan segurou a porta do passageiro da frente para Erin. Não estava disposto a deixá-la sentar-se no banco de trás com Rhun e a condessa.

Mesmo o banco da frente era demasiado perto desse par.

 

15h14

Enquanto o veículo subia veloz uma estrada de alcatrão preto e suave, Elizabeth cerrou o punho da mão não algemada. Os automóveis aterrorizavam-na. Em Roma, fugira do seu revoltante odor, dos motores roncantes. Não tinha qualquer desejo de se aproximar de nenhum deles e agora estava dentro de um.

Era bastante como uma carruagem do seu tempo, só que as carruagens nunca foram tão rápidas. Nunca um cavalo galgara o chão a um tal ritmo. Como é que o soldado o conseguia controlar? Ela sabia que o veículo era um dispositivo mecânico, como um relógio, mas não conseguia evitar pensar que os iria cuspir para fora daquele casulo de couro, arrojando os seus cérebros de encontro à estrada dura.

Vigiou o coração dos humanos no banco da frente, usando-os como forma de avaliar potencial perigo. Naquele momento, ambos os corações batiam a um ritmo lento, tranquilo. Não receavam aquela besta expetorante e roncante.

Fez os possíveis por imitar as suas emoções.

Se eles não mostravam medo, também não se podia permitir fazê-lo.

À medida que os minutos passavam, o terror inicial desvaneceu-se, dando lugar a um simples tédio. A faixa negra de estrada desenrolava-se diante dela com uma misteriosa monotonia. Árvores, localidades e outros automóveis passavam de ambos os lados, sem serem notados, sem se fazerem notar.

Uma vez amansado o receio, os seus pensamentos voltaram a Rhun. Recordou-se dele a segurar-lhe a mão, dos seus lábios na garganta dela. Não era tão desprovido de paixão e dedicado à Igreja quanto aparentava – não agora e não outrora. Chegara de novo muito perto de quebrar os seus votos na cela.

Ela sabia que não era simples sede de sangue.

Ele desejava-a.

Ainda me ama.

De toda a estranheza daquele mundo moderno, essa era a que mais a assombrava. Pensava nisso agora, ciente de que esperaria pela oportunidade certa para tirar partido da situação.

Para se libertar.

Talvez para os libertar a ambos.

O automóvel passou por um alinhamento de casas italianas rústicas. Em algumas janelas, vislumbrou gente movendo-se no interior. Invejava-lhes a simplicidade da existência – mas também reconhecia como eram reprimidos, encurralados pela duração de um tempo de vida, vivendo vidas de fragilidade, para sempre desgastados pelo passar dos anos.

Como eram criaturas frágeis e fugazes, aqueles humanos.

Depois de mais um tempo de condução, o automóvel penetrou num vasto campo revestido do mesmo material rijo da estrada e parou ao lado de uma estrutura de metal gigante, com imponentes portas abertas.

O soldado rodou a chave e o roncar do automóvel calou-se.

– Que lugar é este? – perguntou ela.

Rhun respondeu:

– É um hangar. Um lugar que abriga aeronaves.

Ela assentiu. Sabia o que eram aeronaves, tendo visto frequentemente as suas luzes no céu noturno de Roma. No seu pequeno apartamento, estudara atentamente fotografias delas, fascinada com os prodígios daquela era.

Nas sombras do hangar, vislumbrou um pequeno aeroplano branco com uma risca azul no casco.

De uma porta lateral, Nadia surgiu, no topo de uma série de degraus. As presas de Elizabeth cresceram uma fração, o seu corpo recordando as incontáveis pequenas humilhações a que a esguia mulher a sujeitara.

Rhun guiou Elizabeth para fora do automóvel, os seus movimentos desajeitados pelas ardentes correntes que os ligavam. Seguiram os outros pelas sombras profundas do edifício.

Nadia juntou-se-lhes.

– Verifiquei minuciosamente a aeronave. É segura.

Rhun voltou-se para Elizabeth.

– Está suficientemente escuro aqui dentro. Se quiser, pode retirar o véu.

Feliz por poder fazê-lo, ergueu a mão livre e afastou o pano. O ar fresco fluiu pelo seu rosto e lábios, trazendo consigo o odor a pez e alcatrão, e outros odores que eram acres, amargos e queimados. Aquele era um tempo que parecia funcionar a fogo e óleo queimado.

Ela mantinha o rosto desviado das portas abertas. Mesmo a luz difusa do sol a feria, mas fez o possível por esconder a dor.

Em vez disso, observou o soldado enquanto este esticava as costas e fazia regressar o sangue às pernas após a viagem. Lembrava-lhe um garanhão inquieto, solto depois de estar preso num estábulo tempo demais. O título – Homem Guerreiro – assentava-lhe bem.

Ele mantinha-se perto da mulher, Erin Granger. Estava claramente enamorado por ela e mesmo Rhun parecia mais atento à presença da mulher do que agradava a Elizabeth.

Porém, Elizabeth tinha de admitir que a historiadora tinha uma certa graça atlética e uma mente astuta. Num outro tempo, numa outra vida, poderiam ter sido amigas.

Nadia voltou a encaminhar-se para o aparelho.

– Se quisermos chegar ao ponto de encontro no tempo previsto, temos de partir de imediato.

O grupo seguiu-a pelas escadas acima e entrou na aeronave.

Encolhida no interior, Elizabeth olhou para a esquerda, para um pequeno compartimento com duas minúsculas cadeiras, janelas angulares e manivelas e botões vermelhos e pretos.

– É o cockpit – explicou Rhun. – O piloto comanda o avião a partir daí.

Ela viu o mais novo dos sanguinistas, aquele de nome Christian, tomar lugar ali dentro. As capacidades dos sanguinistas pareciam ter-se adaptado àquela nova era.

Virou costas e dirigiu-se ao espaço principal. Requintados assentos de pele alinhavam-se de cada lado da pequena aeronave, com uma estreita passagem pelo meio. Prestou atenção às pequenas janelas, imaginando como seria ver o mundo do ar, as nuvens de cima, as estrelas do céu.

Aquele era sem dúvida um tempo de prodígios.

Os seus olhos vaguearam para lá dos lugares e pousaram numa longa caixa negra ao fundo, com pegas nas extremidades. A caixa era claramente de construção moderna, mas a forma não mudara desde muito antes do seu próprio tempo.

Era um caixão.

Estacou tão subitamente que Rhun colidiu com ela.

– Perdão – disse ele em voz baixa.

Os olhos dela não tinham deixado o caixão. Farejou. A caixa não continha nenhum corpo ou tê-lo-ia cheirado.

Porque está aqui?

Então, Nadia sorriu – e Elizabeth compreendeu de imediato.

Lançou-se para trás, embatendo bruscamente em Rhun. Com a mão esquerda, puxou-lhe a lâmina curva da bainha da manga. Num movimento rápido, desferiu-a na direção de Nadia. Mas o alvo dançou para trás, a lâmina acertando-lhe no queixo, fazendo sangue.

Mas não o suficiente.

Elizabeth amaldiçoou a inépcia da sua mão esquerda.

Atrás dela, uma porta bateu. Voltou-se e viu que Christian enfiara os dois humanos no cockpit por precaução. Sentiu-se lisonjeada por ele a considerar tamanha ameaça.

Apertou com mais força a faca e enfrentou Nadia.

A mulher soltara uma extensão de corrente, aprontando-a como um chicote, e empunhava uma espada curta na outra mão.

– Não! – bradou Rhun, a sua voz ecoando no espaço confinado.

Elizabeth manteve a posição. Recordou o sarcófago de onde irrompera para aquele novo mundo. Relembrou a cela emparedada na torre do seu castelo onde morrera lentamente à fome. Não seria de novo aprisionada, encurralada.

– Da última vez que me puseste num caixão – cuspiu a Rhun –, perdi quatrocentos anos.

– É só durante viagem – prometeu Rhun. – O avião viajará acima das nuvens. Não haverá como escapar ao sol enquanto voamos.

Porém, sentia pânico só de pensar em ser encerrada de novo, incapaz de se controlar. Lutou com a corrente de prata que a ligava a ele.

– Prefiro morrer.

Nadia aproximou-se.

– Se assim prefere.

Com um rápido golpe da sua curta espada, a mulher cortou a garganta de Elizabeth. A prata queimou-lhe a pele e o sangue jorrou da ferida, tentando purgar a santidade do seu corpo. Elizabeth parou de lutar, a lâmina deslizando-lhe da ponta dos dedos. Rhun estava lá, aplicando-lhe uma mão sobre a garganta, contendo o sangue.

– O que foi fazer? – sibilou para Nadia.

– Ela sobreviverá – respondeu Nadia. – O corte é superficial. Assim, será mais fácil metê-la na caixa, sem lutas desnecessárias.

Nadia levantou a tampa articulada.

Elizabeth resmoneou, mas, mutilada pela prata, não tinha forças para mais.

Rhun ergueu-a nos braços e carregou-a até ao caixão.

– Prometo vir tirá-la daqui – disse ele. – Dentro de horas.

Baixou-a suavemente para o interior do caixão. Um estalido e a algema deixou-lhe o pulso.

Ela quis sentar-se, lutar, mas não conseguiu reunir forças para isso.

A tampa fechou-se sobre a caixa e a escuridão engoliu-a de novo.