Sangue Inocente
Capítulo 48
20 de dezembro, 13h49, CET
Espaço aéreo sobre o Egito
Jordan encostava a testa ao vidro de mais um helicóptero. O zumbido constante do motor e a infindável extensão de areia incaracterística embalaram-no numa sonolência. O persistente ardor que lhe castigava o ombro esquerdo, estendendo o fogo à sua tatuagem, impedia-o de dormir. Não era tanto uma dor mas um incómodo, um mal-estar que não se deixava mitigar.
Contudo, friccionava-o ainda agora, pouco consciente do que fazia.
Mas alguém não o estava.
– Passa-se alguma coisa com o teu ombro? – perguntou Erin.
– Hum... – disse, de forma não comprometedora, não a querendo perturbar com queixas menores, quando tinham preocupações de maior peso.
Como o rapaz estendido nos lugares ao lado de Erin.
Ela amparava a cabeça de Tommy, com uma das mãos a pressionar uma gaze dobrada contra o seu pescoço. Durante as mais de cinco horas de viagem, os seus esforços pareceram abrandar o sangramento, mas ainda assim tinha de substituir regularmente os pensos de gaze ensopados por outros.
Mas pelo menos estavam quase a chegar ao destino.
Depois de deixarem a praia, Christian regressara a Nápoles e retomara o anterior jato reabastecido, levantando voo de imediato para a pequena cidade de Mersa Matruh, na costa egípcia, onde se transferiram para o atual helicóptero, um antigo aparelho militar convertido para uso civil. A partir daí, Christian conduzira-os para sul, sobre as areias.
Jordan vira muito deserto nas suas incursões pelo Afeganistão e o Iraque, mas nada da dimensão daquele. Era como se tivesse trocado o cinzento couraçado do mar Mediterrâneo por aquele oceano sariano dourado. Por muito que o helicóptero avançasse, a paisagem em baixo permanecia inalterada.
Mas pior que tudo, a nuvem de cinzas continuava a persegui-los, seguindo-os pelo oceano e pelo deserto. Segundo as informações via rádio, alastrava-se como uma imensa onda, movendo-se mais rapidamente do que previsto pelos modelos climatéricos. Eles tinham escapado do espaço aéreo europeu mesmo a tempo, antes de grande parte da região ser encerrada ao tráfego, devido às condições do ar.
Por agora, não tinha dificuldade em acreditar que as cinzas brotavam diretamente do Inferno.
Mas, pelo menos, o rapaz ainda vivia – embora a sua vida estivesse por um fio. A respiração era superficial e o batimento cardíaco tão fraco que Jordan não lhe conseguia sentir o pulso, mas Rhun assegurava-lhe que ele existia.
Por fim, algo captou a atenção de Jordan pela janela, junto à linha do horizonte, uma faixa de verde.
Esfregou os olhos agredidos pela areia e olhou de novo.
Ainda lá estava.
Pelo menos, os meus olhos não me deixam ficar mal.
Fitou Rhun, a mulher estendida ao lado dele, tapada por um cobertor azul-marinho. Tal como Tommy, nunca se mexera. Fora com base na sua palavra não expressa que tinham vindo até ali.
Que não fosse em vão.
Se a criança morresse, Erin ficaria destroçada, sabendo que fora por insistência sua que tinham feito aquele longo desvio para nenhures, com um rapaz moribundo.
Jordan voltou a olhar pela janela e viu a faixa verde crescer.
Segundo Erin, Siwa era um oásis, não longe da fronteira líbia. Tinha água corrente, palmeiras e uma pequena aldeia em redor. Vestígios antigos pontilhavam, igualmente, aquela esmeralda do deserto, incluindo as ruínas do tempo do famoso oráculo e um conjunto de túmulos, designado Gebel al Mawta, ou a Montanha dos Mortos.
Quisesse Deus que não tivessem de sepultar os seus dois passageiros nesse último local.
Não sabendo o que poderiam enfrentar em Siwa, Jordan voltou-se para a única pessoa que tinha essas respostas. Fitou o corpo encoberto da sibila do lado oposto – descobrindo-a a fixá-lo, de olhos bem abertos.
Retesou-se, surpreendido, e tocou o braço de Erin.
Ela voltou-se e teve a mesma reação de surpresa.
– Arella...?
Erin olhou para Tommy, no seu colo, mas ele continuava inconsciente.
Rhun soltou as correias que a prendiam em segurança no lugar e ajudou-a a sentar-se.
Ela manteve o cobertor sobre os ombros, apesar do calor da cabina, claramente ainda fria, ainda a recuperar. Vacilava ligeiramente, sentada.
– Como se sente? – perguntou Jordan, falando alto para se sobrepor ao ruído do helicóptero.
Ela voltou-se para a janela, fitando a faixa de árvores que se estendia na direção deles.
– Siwa...
– Estamos quase lá – disse Erin.
Arella fechou os olhos, inspirando fundo.
– Sinto-o.
Enquanto a observavam, a cor voltou-lhe lentamente, libertando a sua pele morena do cinzento apagado. Mesmo o cabelo espectral começara a ganhar tonalidade. Estava claramente a reanimar, como uma planta ressequida depois de regada.
– Deve estar a ganhar forças, à medida que nos aproximamos do oásis – sussurrou Erin a Jordan, ao seu lado.
– É da água – disse Arella, abrindo de novo os olhos, uma parte do seu brilho irradiando de novo. – Está no próprio ar.
Jordan olhou para fora. Via, agora, palmeiras a deslizar em baixo, a par de arbustos floridos, jardins de pátio e reflexos azuis de fontes e lagos artificiais, provavelmente tudo alimentado pelo lençol aquífero local.
Mais adiante, dois lagos de um azul leitoso emolduravam a aldeia. Avistou barcos de pesca e o rasto de um jet ski, tão incongruente ali, no meio daquele extenso deserto. Para lá dos lagos, uma série de mesetas elevava-se, interrompendo o deserto.
Christian circundou o lago a oeste e desviou-se em direção a uma das elevações vizinhas. No topo, erguia-se uma desordem de edifícios de pedra desmoronados, ruínas que rodeavam uma velha torre. Esta apontava ao céu, como um dedo acusador.
Era tudo o que restava do templo do oráculo.
Erin dera instruções a Christian para os levar aí.
Jordan olhou de volta Arella, que continuava a fitar o exterior, uma lágrima correndo-lhe por uma das faces perfeitas.
– Há muito que não o via – disse ela.
Jordan não sabia como responder.
– Esta era a sua casa? – indagou Erin.
A mulher inclinou a cabeça em reconhecimento.
– Isso faz de si a Sibila de Cumas e a Sibila da Líbia. – Os olhos de Erin arregalaram-se, compreendendo subitamente. – Aqueles cinco símbolos, as cinco profetisas que prenunciaram o nascimento de Cristo eram todas uma única, você.
De novo, um inclinar do queixo respondeu-lhe.
– Estabeleci a minha morada em muitos lugares no mundo antigo.
Ela voltou a olhar ansiosamente pela janela enquanto Christian descrevia um círculo em direção às ruínas.
– Esta era uma das minhas preferidas. Embora, claro, fosse bem mais grandiosa, noutros tempos. Deviam tê-la visto nos dias de Alexandre.
– Alexandre Magno? – indagou Rhun, a surpresa na voz.
Erin encarou Arella.
– A História diz que ele veio até aqui. Que a veio consultar.
Ela sorriu.
– Ele era um belo homem, de cabelo castanho encaracolado e olhos brilhantes, tão jovem, tão cheio da necessidade de descobrir o seu destino, de o tornar realidade. Como tantos outros que vieram antes... e depois dele.
Ficou pensativa.
Rhun imaginou que pensasse em Judas.
Arella suspirou.
– O jovem macedónio veio confirmar se era o filho de Zeus, se o seu destino era de conquista e glória. O que lhe disse ser verdade.
Jordan sabia que Alexandre criara um dos maiores impérios do mundo antigo, por volta dos trinta anos, e morrera não derrotado em batalha.
– E o outro filho de um deus? – perguntou Erin. – A lenda diz que a família sagrada veio para aqui, depois de fugir à ira de Herodes.
Ela sorriu suavemente.
– Um menino tão bonito.
Rhun remexeu-se, nervoso. Jordan não o censurava. Estaria ela a recordar Cristo em criança?
Erin estudou Arella.
– A Bíblia diz que foi um anjo que apareceu a Maria e José e os avisou para fugirem para o Egito e escaparem ao massacre que se seguiria. Foi também você?
Arella sorriu. A mulher voltou-se para a janela, fitando lá fora as árvores e os lagos.
– Trouxe-O para aqui, para que pudesse crescer em paz e segurança.
Das suas lições de catequese, Jordan sabia dos anos perdidos de Cristo, de como Ele desaparecera no Egito, pouco depois de nascer, só reaparecendo por volta dos doze anos, quando visitou o templo de Jerusalém e repreendeu os fariseus.
Erin olhava agora pela janela também, provavelmente imaginando Cristo em criança, a correr por aquelas ruas, a chapinhar naquele lago.
– Eu quero saber tudo...
Arella retorquiu:
– Nem eu posso ter essa pretensão. Mas partilharei consigo o primeiro milagre de Cristo. Para compreender o resto, é preciso começar por aí.
As sobrancelhas de Erin franziram-se de perplexidade.
– O primeiro milagre? Quando ele transformou a água em vinho, nas bodas de Caná?
Arella voltou os olhos tristes para Erin.
– Esse não foi o primeiro milagre.
14h07
Não foi o primeiro milagre?
Erin estava aturdida, querendo perguntar mais, mas esse segredo teria de esperar. Ela repreendera Bernard por colocar tais segredos acima da vida do rapaz. Recusou-se a fazer o mesmo.
– E o Tommy? – inquiriu, colocando-lhe uma mão sobre a testa fria. – Disse na caverna que o podia salvar. É verdade?
– Posso – confirmou Arella. – Mas temos de o fazer quanto antes.
A sibila virou-se e inclinou-se para Christian, falando rapidamente e apontando mais longe para oeste, para lá das ruínas do seu templo.
Christian assentiu e inclinou a aeronave nessa direção.
Abaixo dos patins, passaram velozmente por uma aldeia de casas de tijolos de adobe, tendo resistido a novecentos anos, algumas delas permanentemente ocupadas. Erin tentou imaginar viver na mesma casa, geração após geração. O seu atual apartamento da universidade era mais jovem do que ela. Não tinha seguramente a mesma impressionante carga histórica que a rodeava naquele momento.
Mas o Egito, mais do que qualquer outro lugar, encerrava um sentido de intemporalidade e de mistério, uma terra de grandes reinos e dinastias findas, berço de uma multitude de deuses e heróis. Tocou o pedaço de âmbar no seu bolso, recordando o fascínio de Amy pela história daquele país. Como todos os arqueólogos, Amy quisera um dia dirigir uma escavação no Egito, deixar a sua marca aí.
Mas, infelizmente para Amy, esse dia não viria mais.
Erin manteve o aperto sobre o ombro de Tommy, enquanto o helicóptero descrevia uma curva para lá das ruínas do templo.
Não voltará a acontecer, prometeu ela.
O templo avultou-se diante dela. As paredes tinham ruído, os tetos desaparecido e as salas abriam-se ao céu escurecido de fumo. Mesmo no seu estado atual, conservava reminiscências da grandeza original. Teria a mulher à sua frente realmente vivido entre aquelas paredes de pedra e determinado o destino do mundo com as suas profecias? Teria ela convencido Alexandre Magno de que podia conquistar o mundo? Teria encontrado Cleópatra quando esta se banhara naquelas águas? Se sim, o que teria dito à rainha?
Erin tinha mil perguntas, mas todas teriam de esperar.
Christian passou pelas ruínas, na direção do deserto distante.
Para onde os levava Arella?
A mulher continuava a orientar Christian, de costas voltadas para eles.
Rhun lançou a Erin um olhar intrigado, igualmente confuso, mas ela encolheu os ombros. Tinham ido até tão longe com base na palavra daquela mulher angelical. Era demasiado tarde para não confiar.
O helicóptero passou por uma ocasional meseta e voou sobre ondulantes dunas de areia. Adiante, o céu continuava a carregar-se de cinzento, à medida que a nuvem de fumo avançava sobre eles.
Por fim, o helicóptero começou a baixar. Erin procurou referências, mas era como se escolhessem uma extensão de dunas ao acaso onde aterrar. As hélices arrancavam tiras de areia das cristas mais próximas.
O ruído dos motores mudou e o helicóptero pairou no mesmo lugar.
Mas porquê ali?
Jordan não parecia mais feliz.
– É igual às centenas de milhares de quilómetros de deserto que já sobrevoámos.
Erin estava tentada a concordar com ele, mas depois a sua visão começou a detetar subtis diferenças. A crista de dunas mais próxima não seguia o padrão do deserto envolvente. Olhou por ambas as janelas para o confirmar. A crista prolongava-se a toda a volta, formando um círculo em torno de uma cova gigantesca de cerca de trinta metros de diâmetro e seis de profundidade.
– Parece uma cratera – disse Erin, apontando a Jordan a borda a toda a volta.
– Outro vulcão? – indagou Jordan.
– Acho que pode ser da queda de um meteorito.
Erin olhou para Arella em busca de resposta, mas a mulher limitou-se a dirigir Christian para baixo.
Instantes depois, os patins tocaram a areia. O helicóptero imobilizou-se, ligeiramente inclinado num ângulo da concavidade, não distante do centro. Christian manteve as pás do helicóptero a girar, como que soprando deliberadamente a areia para fora da cratera.
Uma forma diferente de escavar.
Areia em tons de ouro rodopiou com o movimento das hélices, cegando-os momentaneamente.
Depois, os motores pararam por fim e as hélices abrandaram. Após tantas horas de constante zunido, o silêncio derramou-se sobre ela como uma onda. A areia levantada assentou, tamborilando no solo como uma chuva dourada.
Arella encarou-os finalmente, pousando uma mão no ombro de Christian, agradecendo-lhe.
– Podemos ir, agora.
Rhun abriu a porta e saltou para fora, à frente. Deteve-os atrás de si, sempre cauteloso, algo que Erin sabia ser bem justificado.
– Não há nada a recear aqui – assegurou-lhes Arella.
Depois de Rhun o confirmar com um «não há perigo», a mulher saiu do aparelho, seguida de Erin.
Uma vez de pé, Erin esticou-se, inspirando fundo, sorvendo a secura para dentro dos pulmões, inalando o aroma rochoso do puro deserto. Deixou-se aquecer, por um momento, ao sol. A areia significava o luxo do tempo nas escavações – horas passadas ao sol a escavar para libertar segredos há muito enterrados, dos pacientes grãos que os haviam ocultado.
Não tinha esse luxo, agora.
Semicerrou os olhos ao sol. Tão avançado no inverno, o Sol pôr-se-ia por volta das cinco, em menos de três horas. Recordou o aviso de Bernard sobre os portões do Inferno, mas afastou tais receios de momento.
Tommy, certamente, não teria sequer essas três horas.
Ela voltou-se, quando as botas de Jordan pisaram a areia ao seu lado, ajudando Christian a carregar o corpo de Tommy para o deserto, para aquela estranha cratera.
– Onde estamos? – perguntou Christian, os seus olhos estreitando-se à luz do sol, embora fosse esbatido pelas cinzas a um brilho incómodo.
– Não sei – disse Erin, brandamente, sentindo que devia sussurrar por alguma razão.
Estudou as paredes que se encurvavam para cima em seu redor, notando que a linha da crista não era tão suave como pensara do ar, mas parecia mais denteada, formando uma paliçada natural na borda da concavidade. O calor irradiava sob os pés, mais do que esperaria naquele dia encoberto pelas cinzas. Tremulava pela cratera de areia, dançando com grãos de areia.
Arella afastou-se deles, dirigindo-se ao centro da cratera.
– Tragam o rapaz, rápido – foi tudo o que disse.
Eles seguiram-na, desorientados e confusos – sobretudo quando ela se pôs de joelhos e começou a escavar com ambas as mãos.
Jordan ergueu uma sobrancelha.
– Talvez devêssemos ajudá-la.
Erin concordou. Enquanto Christian ficava com Tommy nos braços, ela juntou-se a Jordan e Rhun, escavando lado a lado, removendo a areia quente. Felizmente, quanto mais fundo escavava, mais fresca a areia se tornava.
Arella chegou-se para trás, deixando-os trabalhar, claramente ainda fraca.
A cerca de quinze centímetros de profundidade, as pontas dos dedos de Erin tocaram algo sólido. Um arrebatado misto de ansiedade e maravilhamento percorreu-a. O que estaria ali escondido? Quantas vezes teria sido enterrado e descoberto pelas constantes tempestades de areia?
– Tenham cuidado – alertou os outros. – Pode ser frágil.
Abrandou os movimentos, removendo quantidades menores de areia, desejando ter consigo as ferramentas de escavação, as escovas e pincéis. Depois, uma partícula de cinza negra caiu, saltando-lhe à vista e relembrando-a de que tinham de se apressar.
Acelerou o ritmo de novo e os outros seguiram-lhe o exemplo.
– O que é? – perguntou Jordan, quando se tornou claro que havia uma camada de vidro por baixo deles, encurvado e tosco, natural, como se algo tivesse fundido a areia.
– Acho que é vidro de impacto, talvez na sequência da queda de um meteorito. – Erin martelou a superfície com a unha, fazendo-a retinir. – Há um extenso depósito deste tipo de vidro meteórico no deserto líbio. O escaravelho ocre do amuleto de Tutankhamon foi esculpido num fragmento deste vidro.
– Fixe – murmurou Jordan, voltando ao seu labor.
Erin parou um instante para limpar a testa com as costas do pulso. Enquanto Jordan e Rhun continuavam a retirar a areia do vidro, ela deu-se conta de quem se esforçava por libertar o que estava ali enterrado.
A Trindade Profética... reunida de novo.
Confortada pela ideia, redobrou os seus esforços e, em poucos minutos, tinham removido areia suficiente para revelar os limites do vidro – embora se estendesse mais para fora ainda. Erin olhou à sua volta.
A cratera inteira seria de vidro?
Teria algum meteorito embatido ali, moldando aquela concavidade perfeita?
Seria possível?
Parecia pouco provável. Quando o meteorito atingira a Líbia, há vinte e seis milhões de anos, dando origem ao amuleto de Tutankhamon, espalhara fragmentos de vidro por quilómetros em redor.
Sem respostas ao seu alcance, Erin voltou a sua atenção para o que tinham exposto. Era como se alguém tivesse pegado numa faca com ponta de diamante e cortado um círculo perfeito naquele fundo de vidro, formando um disco de um metro e pouco de diâmetro.
Não era diferente do ralo de uma banheira.
Erin debruçou-se para examinar a superfície mais de perto, inclinando a cabeça em vários ângulos. O disco era de um âmbar translúcido, mais escuro de um lado do que do outro, os dois tons separados por uma linha em forma de S de prata apagada, formando uma versão fundida de um símbolo yin-yang.
Notou que o mesmo padrão se estendia a partir dali.
O vidro na parte oriental da cratera parecia ser de um âmbar escuro e a metade ocidental era nitidamente mais clara.
Mas o que era aquilo no centro?
– Parece uma tampa de túnel de acesso gigante – comentou Jordan.
Ela viu que ele tinha razão. Cuidadosamente, tateou as bordas do largo disco de vidro, sentindo uma aresta suficiente para a levantar, se tivesse força para isso.
– Mas o que há aqui por baixo? – Erin fitou Arella. – E como vai ajudar Tommy?
Arella desviou o rosto dos céus a norte e acenou para Erin.
– Coloquem o rapaz junto aos meus pés – ordenou. – Depois, levantem a pedra que desenterraram.
Christian baixou suavemente Tommy na areia. Depois, ele e Rhun assumiram lados opostos da tampa em forma de disco. Agarraram-na com as pontas dos dedos e levantaram-na de uma vez, com um raspar de vidro e areia. A placa parecia ter trinta centímetros de espessura e devia pesar muitos quilos, relembrando Erin da força hercúlea dos sanguinistas.
Carregando-a à altura da cintura, desviaram-na uns passos e baixaram-na sobre a areia. Erin rastejou para diante e espreitou para ver o que revelava. Parecia ser um túnel com um espelho a reluzir alguns centímetros abaixo, refletindo o céu e o seu rosto.
Não é um espelho, compreendeu ela.
Era a superfície imóvel de água escura.
Olhou Arella.
– É um poço.
A mulher sorriu, aproximando-se, tornando-se visivelmente mais forte, mais radiante, o seu corpo reagindo a alguma essência desse poço.
Arella ajoelhou-se reverentemente na borda e mergulhou um braço no interior. Quando o tirou para fora, água argêntea pingou da sua mão.
Devia ser uma fonte natural, possivelmente outrora parte do oásis vizinho.
Arella moveu-se para junto de Tommy e deixou cair água das pontas dos seus dedos sobre a ferida no pescoço, depois lavou-lhe delicadamente a garganta. O sangue desapareceu da pele, parou de correr do golpe e mesmo os bordos rosados da ferida começaram a unir-se.
Erin fitava-a com assombro. A cientista dentro de si necessitava de compreender, mas a mulher dentro de si simplesmente exultava, caindo de joelhos, aliviada.
Arella voltou ao poço, com as mãos em concha cheias de água. Ergueu a dupla carga sobre Tommy.
Erin susteve a respiração.
Quando a água límpida se derramou sobre o rosto pálido de Tommy, os olhos abriram-se sobressaltados, como se acordasse subitamente de uma sesta.
Tossiu e limpou o rosto, olhando em volta.
– Onde estou? – crocitou ele.
– Estás a salvo – disse Erin, chegando-se mais perto, desejando que fosse verdade.
Os seus olhos encontraram os dela e sossegou.
– O que aconteceu?
Erin voltou-se para Arella.
– Eu não sei explicar, mas talvez ela o possa fazer.
Arella levantou-se e limpou as mãos na sua túnica.
– As respostas estão escritas no vidro. A história está aqui para quem quiser ver.
– Que história? – indagou Erin.
A mulher agitou o braço em volta para abarcar toda a cratera.
– Aqui jaz a história não contada de Jesus Cristo.