Sangue Inocente
Capítulo 28
19 de dezembro, 22h02, CET
Estocolmo, Suécia
Erin debatia-se com o peso da história que se agigantava diante de si, para impedir que esse peso a reduzisse à imobilidade. Se aquele homem falasse a verdade e não fosse alguma alma iludida, diante de si estava Judas Iscariotes, o homem mais infame de toda a história, o traidor que enviara Cristo para a cruz.
Ela ouvira a sua confissão, o seu objetivo de acabar com o mundo.
– E acredita que esse é o seu desígnio? – desafiou-o. – Acredita que Cristo o colocou nesse longo calvário para orquestrar o Seu regresso?
Ao longe, ouviu-se o queixume de sirenes da polícia, relembrando-a daquele mundo moderno, daquele tempo em que poucos acreditavam em santos e demónios. Contudo, diante dela, estava um homem que alegava abarcar ambos. Se ele falasse a verdade, os seus olhos teriam testemunhado os milagres de Cristo, os seus ouvidos teriam escutado as Suas parábolas e lições, aqueles mesmos lábios teriam beijado Jesus no Jardim do Getsémani, condenando o Cristo à morte.
As sirenes tornaram-se mais fortes, aproximando-se deles.
Teria a sua invasão sido notada pelos vizinhos? Teria sido dado o alarme?
O olhar de Iscariotes voltou-se nessa direção, depois focou-se de novo neles.
– O tempo da discussão acabou. Vou pegar no anjo e desaparecer daqui.
Pressentindo a ameaça por detrás das palavras, strigoi e sanguinistas prepararam-se para a batalha.
Jordan puxou Erin para trás de si.
Iscariotes limitou-se a erguer o dedo indicador, como quem chama o empregado de mesa – mas em vez disso convocou o estranho bando que precedeu a sua chegada. O esvoaçar de traças no ar imobilizou-se sobre as forças ali reunidas.
Uma delas pousou na mão de Erin quando ela levantou o braço, protegendo-se de toda a ameaça que aqueles fragmentos de brilho colocassem. Minúsculas patas de cobre dançaram sobre a lã da sua luva, até encontrarem um pedaço de pele exposta na ponta da manga. Uma diminuta probóscide de prata atingiu-lhe a pele, penetrando profundamente.
Ela baixou o braço e agitou a mão da picada.
A traça desprendeu-se e, com um vagaroso bater de asas, voou para longe.
Que diabo?
Ela examinou a gota de sangue que se adensava no ponto da picada.
Jordan praguejou, dando uma palmada na parte de trás do pescoço, esmagando uma traça que caiu na neve. Observou enquanto os outros eram similarmente atacados. Mas ainda não conseguia entender a ameaça – até que viu Olga afastar-se a cambalear do grupo de crianças strigoi.
Asas verde-esmeralda agitavam-se sobre a sua face miúda. Então ela gritou, caindo de joelhos. A traça ergueu-se do seu pouso no nariz da criança e voou para longe. Uma corrupção negra iniciou-se na face, devorando-lhe rapidamente o rosto, expondo os ossos, o sangue a fervilhar por entre as fissuras. O seu pequeno vulto convulsionava-se. Mais membros do bando de Rasputine caíram por terra, contorcendo-se, sucumbindo na neve.
Erin fitou o ponto de sangue no seu pulso, percebendo o que acontecia.
Veneno.
As borboletas carregavam um tipo de material tóxico.
Friccionou o braço, mas continuava a não ser afetada.
Tal como Jordan.
Rasputine caiu entre o seu bando, não por ação do veneno, mas pela mágoa.
– Para! – gemeu.
Erin recordou-se de outra criatura que morrera por uma corrupção semelhante. Recordou o lobo nos túneis sob o Vaticano. Ela matara a besta com balas tingidas do sangue de Bathory Darabont. A mulher carregava alguma forma de veneno no seu sangue que era mortal para os strigoi – e mesmo para os sanguinistas.
Em pânico, voltou-se para Rhun, para os outros sanguinistas.
Nadia estava de joelhos, amparada por Christian, enquanto Rhun se batia contra a tormenta cor de esmeralda em seu redor, usando o blusão de pele reforçado como escudo.
Erin apressou-se para eles, arrastando Jordan consigo.
– Ajuda-os! – incitou. Enquanto humanos, pareciam imunes ao veneno. – Afasta as traças!
Porém, recordou a primeira traça, as suas asas esmeralda pousando sobre Nadia.
– Queima – gemeu a mulher. Os seus dedos aferravam-se à garganta enegrecida, apertando como se pudesse deter o veneno.
Mas era inútil. A negrura subiu-lhe às faces, consumindo-a – embora se espalhasse mais lentamente do que com os strigoi, parecia inevitável.
Christian olhou impotente para Erin.
– O que podemos fazer?
A resposta chegou-lhe do lado distante da tormenta.
– Nada – disse Iscariotes, escutando o apelo. – A não ser vê-la morrer.
O corpo de Nadia arqueou-se, entrando em convulsão.
Algo atingiu Erin de lado. Um rapaz pequeno agarrava-se a ela, um dos strigoi, metade do seu rosto desaparecido. As lágrimas corriam do seu único olho. Ela baixou-se e amparou-o, a sua pequena mão agarrando a dela, talvez sabendo que não podia salvá-lo, mas não querendo estar só. Ele levantou o olhar para ela, com o seu único olho azul-céu. Ela segurou-lhe firmemente as mãos frias, até ele se imobilizar, a corrupção consumindo-o por completo.
Erin olhou a neve em volta.
Nenhuma das crianças se movia agora e os seus corpos devastados cobriam a neve.
Nadia exalou um suspiro final – depois imobilizou-se, sem vida.
Christian inclinou-se sobre ela, com os olhos cintilantes de lágrimas.
Erin soltou as minúsculas mãos do strigoi – ou o que restava delas.
Obedecendo a algum sinal silencioso, as traças ergueram-se em torno deles, subindo alto, mas mantendo a ameaça. Ela contou os poucos sobreviventes: Rasputine e os outros sanguinistas. Suspeitava que apenas tinham sobrevivido porque o mestre das pequenas criaturas assim o quisera.
Levantou-se e encarou Iscariotes.
– Porquê?
Judas estendeu a mão e uma traça aterrou-lhe graciosamente na palma, as asas verde-metalizadas abrindo e fechando.
– É uma lição para todos. – Apontou o corpo de Nadia. – Para provar aos sanguinistas que a sua bênção não os protegerá da minha maldição, do meu sangue.
Então, era o sangue conspurcado dele no interior dos insetos.
Erin assistiu, enquanto o corpo de Nadia se transformava em cinzas e ossos. A destemida mulher salvara-lhe a vida inúmeras vezes. Não merecia uma morte tão ignóbil e sem sentido.
E não fora só ela.
Rasputine gemia, de joelhos entre as suas crianças caídas.
– Então, para quê isto? Que lição me quer ensinar?
– Nenhuma lição, Grigori. Apenas castigo. Por esconderes segredos de mim.
Os insetos rodopiavam mais baixo de novo, ameaçadores. Um deles adejava sobre o ombro de Rhun.
A mente de Erin disparou, pressentindo que Iscariotes não terminara com eles. Evocou a impressão da palma da mão enegrecida na garganta de Bathory Darabont, assinalando o seu sangue contaminado. Erin pressentiu que a palma da mão pertencia a Iscariotes. Teria usado uma alquimia do seu próprio sangue para corromper o da mulher, para a proteger entre os strigoi que comandara? Darabont servira a Belial, um grupo de strigoi e humanos que trabalhavam em conjunto, manipulados por um mestre desconhecido.
Erin visualizou de novo a impressão da palma da mão escura e olhou para Iscariotes.
– Você é o líder da Belial.
As suas palavras chamaram-lhe a atenção.
– Parece que o seu precedente título de Mulher Sábia não era injustificado, doutora Granger. – Encarou os sobreviventes. – Mas ainda não terminei aqui.
Antes que alguém se pudesse mover, as traças desceram dos céus e cobriram os sanguinistas, pousando sobre Rasputine e até mesmo sobre Bathory, demasiadas para serem travadas. Quando eles começaram a debater-se de novo, Iscariotes gritou uma ordem:
– Parem! – ameaçou. – Se resistirem, morrerão todos! Reconhecendo a inutilidade dos seus esforços, obedeceram, imobilizando-se. As traças esvoaçaram, empoleirando-se em ombros e membros.
– Não desejo matá-los a todos, mas matarei se a tal for obrigado.
Iscariotes mantinha o olhar fixo em Rhun, que permanecia ereto como uma armadura, um verdadeiro Cavaleiro de Cristo.
Apontou um dedo a Rhun.
– Agora, é tempo de o Cavaleiro de Cristo se reunir à sua irmã de hábito. De deixar este mundo em paz e ascender ao seu lugar nos céus.
Os olhos de Rhun fixaram-se nela, como que para se despedir.
– Espere – disse Erin. – Por favor.
Iscariotes voltou-se para ela.
Erin tinha apenas uma carta a jogar, recordando as negociações anteriores de Rasputine com a Belial. Em São Petersburgo, o monge entregara o Evangelho de Sangue e Erin a Bathory Darabont, mas apenas depois de obter dela uma promessa. Erin evocou as palavras de Rasputine, da dívida jurada.
Prometo-lhe o livro em gesto de boa vontade... se um dia, em retorno, o seu mestre me conceder a vida de quem eu escolher, um dia.
Assim fora acordado.
Erin voltou-se para Rasputine. Estaria o monge disposto a reclamar a dívida agora, para salvar Rhun? Honraria Iscariotes a promessa? Não tinha escolha, senão expor o seu caso.
Encarou Iscariotes.
– Há dois meses, Rasputine fez um trato com as suas forças da Belial. Em troca da sua cooperação, ser-lhe-ia concedida a vida de quem escolhesse. O pacto foi acordado. Testemunhado por todos.
Iscariotes fitou Rasputine, ajoelhado entre os corpos das suas crianças. As lágrimas corriam-lhe pelas faces, desaparecendo-lhe na barba. Apesar da crueldade, ele amara aquelas crianças como um verdadeiro pai e vira-as morrer em agonia, vítimas da sua própria maquinação.
– É esse o seu desejo, Grigori? – indagou Judas. – Irá lançar esse véu de proteção sobre Rhun Korza? É a vida dele que irá reclamar?
Rasputine levantou a cabeça para enfrentar o olhar do homem.
Por favor, desejou ela. Diz que sim. Salva uma vida esta noite.
O monge russo fitou longamente Iscariotes e ainda mais longamente Rhun. A dada altura, ele e Rhun tinham sido amigos, trabalhando juntos enquanto sanguinistas.
Finalmente, Rasputine falou, a sua voz debilitada pela dor.
– Demasiados foram os que morreram hoje.
Iscariotes suspirou, os lábios comprimindo-se de irritação.
– Quebrei a minha palavra uma vez... e fui amaldiçoado por isso. Jurei não mais a quebrar. E não o farei agora. Apesar do que possam pensar, não sou um cobarde. – Inclinou a cabeça na direção de Rasputine. – Honro a minha dívida e concedo-lhe o seu desejo.
Erin libertou a respiração sustida, fechando os olhos.
Rhun viveria.
Iscariotes ergueu o braço e dois homens corpulentos entraram na câmara, um de cabelo escuro, outro de cabelo claro. Eram ambos altos e de constituição maciça, com pescoços e braços grossos. Cruzaram o espaço em direção ao rapaz, prontos a recolher o prémio de Iscariotes.
Erin fez menção de os impedir, mas Jordan agarrou-lhe o braço.
Não era uma batalha que pudessem vencer e qualquer agressão podia terminar com os amigos mortos pelas traças.
O imponente par examinou o corpo inerte do rapaz com ríspida atenção, arrancando um queixume do seu vulto aturdido e drogado. Puseram-no de pé, bruscamente.
– O que quer dele? – perguntou Erin.
– Não é da sua conta.
– Acho que o podemos transportar – disse um dos homens. – Perdeu muito sangue, mas parece suficientemente forte.
– Muito bem. – Iscariotes estendeu uma mão em convite a Bathory. – Quer acompanhar-me?
Bathory endireitou-se.
– Teria todo o prazer em retomar o seu conhecimento. – Ergueu o braço, exibindo as algemas. – Mas, de momento, estou ligada a outro.
– Libertem-na.
Christian hesitou, mas Rhun assentiu.
– Faça como ele diz.
Ninguém queria provocar mais o homem. Christian baixou-se, tateou no bolso de Nadia e retirou uma pequena chave. A condessa estendeu a mão, como se exibisse uma valiosa bracelete. Christian abriu as algemas.
Uma vez livre, Bathory encaminhou-se para junto de Iscariotes.
– Agradeço, senhor, pela amabilidade que me demonstra agora e que sempre demonstrou pela minha família.
Iscariotes mal lhe prestou atenção, o que provocou um ínfimo crispar de irritação nos lábios da condessa. Em vez disso, o homem sacou de uma imponente arma do bolso, apontou-a e disparou.
Erin estremeceu com o estampido – mas a arma não fora apontada a ela.
O aperto de Jordan no seu braço desfez-se.
Ele caiu na neve ao seu lado.
Gritando, ela caiu de joelhos junto dele. Uma mancha húmida espalhava-se pelo lado esquerdo do peito. Ela abriu-lhe a camisa, revelando o ferimento de bala. O sangue jorrava do buraco, atravessando as linhas azuladas da sua tatuagem de flor relâmpago, derramando-se pelo peito e formando um lago sob ele.
Ela pressionou as mãos com força contra a ferida. O sangue quente e fugidio cobriu-lhe os dedos. Ele ficaria bem. Tinha de ficar. Mas o seu coração sabia que não era verdade.
– Porquê? – gritou a Iscariotes.
– Lamento – disse friamente. – Segundo as palavras da profecia, são os únicos três no mundo com alguma esperança de me fazer face, de impedir o Armagedão. Para quebrar a profecia, um desses três teria de morrer. Feito isso, os outros dois tornam-se irrelevantes. Assim, ofereço-vos a vossa vida. Como afirmei, não sou um cobarde, meramente pragmático.
Encolheu os ombros.
Erin cobriu o rosto com as mãos, mas não poderia esconder tão facilmente a verdade. Ela matara Jordan com a sua astúcia. Ao salvar Rhun, condenara o homem que amava.
Iscariotes não se deixava deter.
Se o Cavaleiro de Cristo vivia, o Homem Guerreiro tinha de morrer.
Sob as suas mãos, o peito de Jordan deixara de subir e descer. O sangue continuava a espalhar-se, fumegando sobre a neve fria. Um floco de neve caiu sobre o seu olho azul aberto e derreteu-se aí.
Ele não pestanejou.
– Não pode ajudá-lo – sussurrou Christian.
Ela recusou-se a acreditar.
Eu posso ajudá-lo. Tenho de ajudá-lo.
Enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces, ela não conseguia respirar. Jordan não podia partir. Ele era sempre forte, conseguia sempre superar. Não podia morrer de um simples tiro. Não podia ser e ela não deixaria que assim fosse.
Levantou o olhar para Christian, agarrando-lhe a perna das calças com uma mão ensanguentada.
– Pode trazê-lo de volta à vida. Torne-o um dos seus.
Ele fitou-a horrorizado.
Ela não se importou.
– Torne-o um dos seus. Deve-lhe isso. Deve-me isso.
Christian abanou a cabeça.
– Mesmo que não fosse proibido, não poderia fazer nada. O seu coração já parou de bater. É tarde demais.
Ela fitou-o incrédula, tentando dar sentido às palavras.
– Lamento, Erin – disse Rhun. – Mas o Jordan já partiu.
O som de neve a ser esmagada indicou-lhe que alguém se movia na sua direção, mas não quis saber quem. Uma mão, com a pele estalada e ensanguentada, tocou o peito de Jordan.
Ela ergueu a cabeça para encontrar o rapaz agachado ao seu lado, mal se segurando de pé. Tirou o casaco dos ombros – o casaco de Jordan – e devolveu-o ao seu antigo dono, colocando-o gentilmente sobre a ferida.
O rapaz lambeu os lábios gretados.
– Obrigado.
Erin sabia que ele agradecia a Jordan por muito mais do que o casaco.
– Basta – disse Iscariotes, enquanto as sirenes explodiam mais nítidas à sua volta. – Tragam-no.
Um dos corpulentos assistentes pegou no rapaz como se fosse um saco de batatas, carregando-o nos braços. O rapaz gemeu do rude tratamento, sangue fresco vertendo das suas inúmeras feridas e abrindo buracos na neve.
Erin levantou-se parcialmente, querendo ir com ele.
– Por favor, não lhe faça mal.
Mas foi ignorada. Iscariotes virou costas e estendeu a mão, e Bathory tomou-a, a sua mão pálida repousando sobre a dele, fazendo a sua escolha de quem seguir.
– Fica, Elisabeta – pediu Rhun. – Não conheces esse homem.
A condessa tocou o lenço que cobria a recém-sarada incisão no pescoço.
– Mas conheço-te a ti, meu querido.
Ameaçado pelas traças, Rhun apenas podia vê-los partir.
Erin voltou ao corpo de Jordan. Acariciou-lhe a face sem vida, o restolho da barba rijo sob as pontas dos seus dedos. Tocou-lhe o lábio superior, depois inclinou-se para diante, beijando-o uma última vez, os lábios já frios, mais como os de Rhun.
Apressou-se a afastar esse pensamento.
Atrás do seu ombro, os dois sanguinistas entoavam uma prece. Reconhecia as palavras, mas permaneceu muda. As preces não a confortavam.
Jordan estava morto.
Nenhuma das suas palavras podia mudar isso.