Sangue Inocente

James Rollins e Rebecca Cantrell · Capítulo 20 de 59

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Sangue Inocente

Capítulo 18

 

 

19 de dezembro, 13h34, CET

Castel Gandolfo, Itália

Rhun carregava Elisabeta por uma passagem escura, que cheirava a madeira e vinho envelhecido. Aquela zona dos níveis subterrâneos do castelo servira, em tempos, como adega pessoal do papa. Alguns compartimentos há muito esquecidos ainda abrigavam grandes pipas de carvalho ou filas de garrafas verdes carregadas de pó.

Seguiu Nadia por mais um lanço de escadas, em direção ao piso reservado à sua ordem. Sentia os braços a tremer, enquanto segurava Elisabeta. Bebera um rápido gole de vinho consagrado, a bordo do helicóptero. Fortificara-o o suficiente para fazer aquela viagem ao subsolo, mas a fraqueza ainda o atormentava.

Por fim, depois de percorrer uma passagem de pedra escavada no leito vulcânico, Nadia estacou numa arcada emparedada a tijolo, um aparente beco sem saída.

– Eu posso pagar a penitência – ofereceu Rhun.

Nadia ignorou-o e tocou quatro tijolos, um junto à cabeça, um junto ao estômago e um junto a cada ombro – formando uma cruz.

Depois, pressionou a pedra do centro e sussurrou palavras proferidas pelos membros da sua ordem, desde o tempo de Cristo.

– Tomai e bebei todos.

O tijolo central deslizou para trás, revelando uma minúscula bacia escavada no tijolo de baixo.

Nadia desembainhou a sua adaga e espetou a ponta no centro da palma da sua mão, no lugar onde outrora os pregos foram cravados nas mãos de Cristo. Colocou a mão em concha, até conter várias gotas do seu sangue, depois verteu a poça carmesim na bacia de pedra.

Nos braços de Rhun, Elisabeta ficou tensa, provavelmente sentindo o odor do sangue de Nadia.

Ele recuou alguns passos, permitindo que Nadia terminasse.

– Pois este é o cálice do meu sangue – prosseguiu ela –, do novo e eterno Testamento.

Com a última palavra da prece, fendas surgiram entre os tijolos da arcada formando os contornos de uma estreita porta.

– Mysterium fidei – concluiu Nadia e empurrou.

A pedra a raspar contra o tijolo, enquanto a porta girava para o interior.

Nadia deslizou para dentro primeiro e ele seguiu-a, tomando cuidado para não bater com o corpo de Elisabeta nas paredes de ambos os lados. Transposto o limiar, Elisabeta descontraiu nos seus braços. Devia ter percebido que estava, agora, bem fundo no subsolo, onde o sol não a poderia atingir.

A delgada silhueta de Nadia deslizava adiante, revelando a ágil velocidade e força de membros que possuía, em comparação com ele. Passou apressadamente além da entrada para a capela sanguinista do castelo, conduzindo Rhun a um domínio raramente trespassado – as celas.

Ele seguiu-a. Por muito graves que fossem as suas feridas, Elisabeta continuava a ser uma prisioneira.

Embora as celas raramente fossem usadas nestes tempos, o chão de pedra estava polido e reluzente dos séculos de botas que por ali tinham passado. Quantos strigoi teriam sido ali aprisionados e sujeitados à questão? Tais prisioneiros entravam como strigoi e ou aceitavam a proposta de se juntarem aos sanguinistas ou morriam ali como almas danadas.

Nadia alcançou a cela mais próxima e abriu uma porta de ferro maciça. Os pesados gonzos e robusta tranca eram suficientemente fortes para conterem até os mais poderosos strigoi.

Rhun carregou Elisabeta para o interior e pousou-a sobre a solitária enxerga. Ele sentiu o cheiro da palha fresca e dos lençóis novos. Alguém preparara o quarto. Ao lado da cama, uma vela de cera de abelha repousava sobre a tosca mesa de madeira, lançando uma luz tremulante pela cela.

– Vou buscar unguentos para tratar as queimaduras – disse Nadia. – É seguro deixá-lo sozinho com ela?

Primeiro, a indignação cresceu dentro de si, mas controlou-a. Nadia estava certa em preocupar-se.

– Sim.

Satisfeita, ela desapareceu, a porta fechando-se com estrondo atrás de si. Ele ouviu a chave rodar na fechadura. Nadia não corria riscos.

Agora a sós, sentou-se ao lado de Elisabeta na enxerga e, suavemente, moveu o manto para expor as delicadas mãos. Estremeceu à vista do líquido que vertia das bolhas rebentadas, a pele por baixo destas em carne viva. Sentiu o calor que lhe irradiava do corpo, como se quisesse expulsar a luz do sol.

Ele retirou o resto do manto, mas ela desviou-se, a cabeça escondida no capuz da sua capa de veludo.

– Não quero que me vejas o rosto – disse ela, a sua voz rouca e áspera.

– Mas eu posso ajudar-te.

– A Nadia que o faça.

– Porquê?

– Porque – e desviou-se mais ainda – o meu aspeto irá repugnar-te.

– Achas que isso me importa?

– A mim importa – murmurou ela, as suas palavras pouco mais sonoras que o fôlego.

Honrando o seu desejo, ele não moveu o capuz e tomou uma das mãos queimadas dela na sua, notando que a palma estava intacta. Imaginou-a a cerrar as mãos em agonia, enquanto o sol a engolia com o seu fogo. Ele encostou-se aos tijolos de pedra e descansou, continuando a segurar-lhe a mão.

Os dedos dela fecharam-se, lentamente, sobre os dele.

Um cansaço profundo penetrou-o até à medula. A dor disse-lhe onde fora ferido – lacerações nos ombros, escoriações nos braços, algumas queimaduras nas costas. Os olhos começavam a fechar-se, quando uma brusca pancada soou na porta. Uma chave rodou na fechadura e os gonzos chiaram.

Nadia entrou no compartimento. Semicerrou os olhos, ao ver a mão de Rhun entrelaçada na de Elisabeta, mas nada disse. Transportava uma taça de barro coberta com um pano de linho acastanhado. O odor fluiu pela cela, inundando o espaço.

O corpo dele acelerou e Elisabeta rosnou ao seu lado.

Sangue enchia aquela taça.

Sangue quente, fresco, humano.

Nadia devia tê-lo colhido de algum voluntário entre o pessoal do castelo.

Cruzou o espaço até à enxerga e passou-lhe a taça.

Ele recusou-se a tomá-la.

– Elisabeta prefere que seja você a tratar-lhe as feridas.

Nadia arqueou uma sobrancelha.

– E eu prefiro não o fazer. Já lhe salvei a sua real vida. Nada mais farei.

Ela soltou um cantil de couro e estendeu-lho.

– Vinho consagrado para si. Quer tomá-lo agora ou depois de atender a condessa Bathory?

Ele pousou o frasco na mesa.

– Não a vou deixar sofrer mais.

– Então, virei buscá-lo mais tarde.

Ela retrocedeu para a porta e saiu de novo, voltando a trancar a cela.

Um gemido de Elisabeta relembrou-lhe a sua missão.

Mergulhou o pano de linho na taça, ensopando-o generosamente no sangue. O odor férreo penetrava-lhe as narinas, mesmo sustendo a respiração. Para se fortalecer contra o desejo que se agigantava no seu íntimo, tocou a cruz peitoral e murmurou uma prece para ganhar forças.

Depois, pegou na mão que segurara e fez deslizar o pano por ela, o tecido raspando-lhe a pele.

Ela arquejou, a voz abafada pelo capuz.

– Magoei-te?

– Sim – sussurrou ela. – Não pares.

Ele lavou-lhe uma mão, depois a outra. Onde tocava, as bolhas regrediam e a pele ferida sarava. Terminado isso, estendeu por fim a mão para a borda do capuz.

Ela agarrou-lhe o pulso com os seus dedos manchados de sangue.

– Não olhes.

Sabendo que não podia fazê-lo, puxou o capuz para trás, revelando primeiro o queixo alvo, manchado de fuligem e encarniçado do ardor. Os seus lábios macios tinham gretado e sangrado. O sangue secara em regatos escuros pelos cantos da boca.

Ele retesou-se e retirou de uma vez o capuz. A luz da vela recaiu sobre os seus ossos malares salientes. Onde antes a límpida e alva pele o cativara ao toque, via agora uma ruína enegrecida e empolada, tudo coberto por uma camada de fuligem. As suaves ondas do seu cabelo quase tinham desaparecido por completo, consumidas pelo sol.

Os seus olhos argênteos encontraram os dele, as córneas enevoadas, quase cegas.

Contudo, ele leu aí o medo.

– Sou repugnante para ti, agora? – perguntou.

– Nunca.

Ele ensopou o pano e levou-o ao seu rosto devastado. Mantendo o toque leve, passou-o pela fronte, pelas faces, pela garganta. O sangue cobria-lhe a pele, impregnava-se nas bolhas e tingia-lhe a zona nívea sob o queixo.

O cheiro inebriava-o. O seu calor excitava-lhe os dedos frios, aquecia-lhe as palmas das mãos, incitando-o a saboreá-lo. Todo o seu corpo ansiava por isso.

Só uma gota.

Passou de novo o pano pelo rosto dela. A primeira passagem quase só lavara a fuligem. Agora, ele tratava a sua pele arruinada. Lavou-lhe o rosto, uma e outra vez, contemplando em assombro a cada passagem, vendo a ruína dissipar-se – e surgir lentamente pele imaculada. Um campo de caracóis negros ganhou raiz, cobrindo-lhe o escalpe com a promessa de um novo florescimento. Mas era o seu rosto que o encantava, tão perfeito como no dia em que por ela se apaixonara, num roseiral há muito morto, à beira de um castelo agora em ruínas.

Delineou os lábios dela com o pano macio, deixando para trás um delicado brilho de sangue. Os seus olhos argênteos abriram-se para ele, límpidos de novo, mas agora enevoados de desejo. Inclinou-se sobre os lábios dela e esmagou-os contra os seus.

O gosto do fogo carmesim espalhou-se pelo seu corpo, tão rápido como um fósforo lançado em erva seca. Ela entrelaçou os dedos húmidos de sangue no seu cabelo, abraçando-o numa névoa de fome e desejo.

A boca dela abriu-se sob o seu beijo e ele perdeu-se no cheiro, no sangue, na macieza dela. Ele não tinha tempo para brandura e ela não a pediu. Ele esperara tanto para a ela se unir de novo, e ela a ele.

Naquele momento, jurou exercer vingança implacável sobre quem a lançara ao fogo do sol.

Mas até lá...

Caiu sobre ela, deixando o fogo e o desejo queimarem todo o pensamento.