Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo XXIII
Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,
Minhas se póde ser, sendo a alma vossa: De meus annos a flor entre as espinhas
Passarey, sem perder esta fé nossa;
Mas antes perderâõ seu bruto alento
O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.
XXIII.
Mas oh! que he tal a dor de meus retiros, E taõ firme na ley da tyrannîa,
Que vendo, que me assistem meus suspiros, Talvez delles me roube a companhia:
Mas inda mais, e mais acérbos tiros
Contra mim fulminar amor porfia;
Pois sem dar attençoens á minha queyxa, Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.
XXIV.
Qual quando na manhaã naufrága o dia
Nos undósos crystaes, que o Céo desata, O Jasmim desmayado se agonîa
Dos acháques da gotta, que o maltrata:
Em desares trocando a galhardia,
Icaro já nas agoas se retrata,
O que lisonja foy taõ prateada,
Se no prado jasmim, nas ondas nada.
XXV.
Tal Ignez já de lagrimas banhada,
De seus olhos gentîs mortaes desares,
Que quiz a natureza acautelada
Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares. Exhalava de todo agonizada