Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 9 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XXIII

Vos buscaraõ, Senhor, lagrimas minhas,

Minhas se póde ser, sendo a alma vossa: De meus annos a flor entre as espinhas

Passarey, sem perder esta fé nossa;

Mas antes perderâõ seu bruto alento

O mar, o fogo, o ar, a terra, o vento.

 

XXIII.

Mas oh! que he tal a dor de meus retiros, E taõ firme na ley da tyrannîa,

Que vendo, que me assistem meus suspiros, Talvez delles me roube a companhia:

Mas inda mais, e mais acérbos tiros

Contra mim fulminar amor porfia;

Pois sem dar attençoens á minha queyxa, Por mais só me deyxar, sem mim me deyxa.

XXIV.

Qual quando na manhaã naufrága o dia

Nos undósos crystaes, que o Céo desata, O Jasmim desmayado se agonîa

Dos acháques da gotta, que o maltrata:

Em desares trocando a galhardia,

Icaro já nas agoas se retrata,

O que lisonja foy taõ prateada,

Se no prado jasmim, nas ondas nada.

 

XXV.

Tal Ignez já de lagrimas banhada,

De seus olhos gentîs mortaes desares,

Que quiz a natureza acautelada

Que o Occaso de dous Sóes fosse dous mares. Exhalava de todo agonizada