Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LXI
Aquelle brando afleyo da ternûra,
Aquelle doce Argél da liberdade,
Aquelle emblema só da formosura,
Aquelle bello encanto da vontade,
Aquelle gentil pasmo da ventura,
Aquelle rico erario da vaidade,
Nos alinhos se vê já confundida,
Troféo da morte, lastima da vida.
LXII.
Que pouca duraçaõ, que mal segura,
Tem nas prendas da vida huma bellesa!
Só vive em quanto nasce a formosura,
Espira, em quanto vive a gentilesa:
Em fim, mais morre, quãto em fim mais dura, Mortalidades traz por naturesa;
Quanto mais alentada, e mais lusida,
Mais accidentes logra, e menos vida.
LXIII.
Mas se saõ melindrosa enfermidade
Prendas de amor, e dotes de huma vida,
Que muito, bella Ignez, que essa beldade Fosse de teus alentos homicida:
Comtigo a morte foy no Abril da idade,
Menos ambiciosa, que atrevida,
Sem reparar, Ignez, que teus rigores
Perdessem fructos por cortarem flores.
LXIV.