Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo LVIII
Mas deyxai-me fallar, talvez que possa
Ouvir na minha voz eccos da vossa.
LVIII.
Aqui, meu doce amor, meu bem querido,
Se me duplîca a dôr ao pensamento,
Pois quando em vós, me falta meu sentido, Naõ me póde faltar meu sentimento:
Em vós lamenta a dor meu bem perdido,
Em mim renova a dor novo tormento;
Mas creyo, doce amor, que sentir possa
Menos a minha dor, que a falta vossa.
LIX.
Menos dor, menor danno em fim tivéra,
Menos cruel sentira o meu cuidado,
Quando neste rigor, que padecera,
Me podéra esquecer do que hey logrado: Mas ay! que nesta dor outra me espera,
E hum mal outro me traz apensionado;
Pois chego a padecer em meu sentido
O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.
LX.
Bem conheço, que posso na lembrança
Vossas prendas lograr, meu doce esposo, Mas o bem, que se perde na esperança,
Fica, quando lembrado, mais penoso:
Mas nesta triste dor, dura esquivança,
Se me duplica amor mais rigoroso;