Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 20 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo LVIII

Mas deyxai-me fallar, talvez que possa

Ouvir na minha voz eccos da vossa.

 

LVIII.

Aqui, meu doce amor, meu bem querido,

Se me duplîca a dôr ao pensamento,

Pois quando em vós, me falta meu sentido, Naõ me póde faltar meu sentimento:

Em vós lamenta a dor meu bem perdido,

Em mim renova a dor novo tormento;

Mas creyo, doce amor, que sentir possa

Menos a minha dor, que a falta vossa.

 

LIX.

Menos dor, menor danno em fim tivéra,

Menos cruel sentira o meu cuidado,

Quando neste rigor, que padecera,

Me podéra esquecer do que hey logrado: Mas ay! que nesta dor outra me espera,

E hum mal outro me traz apensionado;

Pois chego a padecer em meu sentido

O mal, que passo, o gosto, q̃ hey perdido.

LX.

Bem conheço, que posso na lembrança

Vossas prendas lograr, meu doce esposo, Mas o bem, que se perde na esperança,

Fica, quando lembrado, mais penoso:

Mas nesta triste dor, dura esquivança,

Se me duplica amor mais rigoroso;