Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 62 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo X

Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.

 

X.

Vestem a perversaõ com sua nobreza,

Querem fazer da noite claro dia,

Sua maldade cobrem, com a riqueza,

Rebução com poder a tyrannia:

Disfarçaõ sua furia em fortaleza,

A vontade cruel julgaõ por pia,

Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ, E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.

 

XI.

Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ A seus filhos mataraõ por peccarem,

Mas estes mais crueis que os que passaraõ Querem-lhos inventar para os matarem;

Os bens dignos de premio nunca olharaõ, Sò vem os males para os castigarem,

E o que he furia cruel digna de espanto,

Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.

 

XII.

Falo com reprovados, que abterno

Foraõ por culpa sua condemnados,

Ao fogo abrazador do escuro inferno,

Sepulchro dos que jà saõ reprovados;

Juizo foy divino, e sempiterno,

Que os juizos humanos traz cançados,

Que vivaõ de mistura os escolhidos,

Com os que se haõ de perder, e já perdidos.