Saudades de D. Ignez de Castro
Capítulo X
Filhos da perdiçaõ, e vasos de ira.
X.
Vestem a perversaõ com sua nobreza,
Querem fazer da noite claro dia,
Sua maldade cobrem, com a riqueza,
Rebução com poder a tyrannia:
Disfarçaõ sua furia em fortaleza,
A vontade cruel julgaõ por pia,
Sò tem o mal por bem, que o naõ aborrecẽ, E o bem temno por mal, que o naõ conhecẽ.
XI.
Por peccados que Lucio, e Casso acharaõ A seus filhos mataraõ por peccarem,
Mas estes mais crueis que os que passaraõ Querem-lhos inventar para os matarem;
Os bens dignos de premio nunca olharaõ, Sò vem os males para os castigarem,
E o que he furia cruel digna de espanto,
Chamaõ-lhe sò rigor, e zelo Santo.
XII.
Falo com reprovados, que abterno
Foraõ por culpa sua condemnados,
Ao fogo abrazador do escuro inferno,
Sepulchro dos que jà saõ reprovados;
Juizo foy divino, e sempiterno,
Que os juizos humanos traz cançados,
Que vivaõ de mistura os escolhidos,
Com os que se haõ de perder, e já perdidos.