Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 7 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo XVI

Mas naõ, que he contra amor esta porfia: Mas naõ, que deyxo amor nisto aggravado: Muitas almas naõ quero, que sería

Repartir o tormento a meu cuidado:

Mas se a pena permitte a companhia

Nesta ausencia cruel, oh triste Fado!

Antes que a dor ma roube da partida,

Levai-me, vida minha, a minha vida.

 

XVII.

Só com vosco, Senhor, irá segura,

Sem que mortal achaque lhe aconteça;

Porque talvez do Fado a sorte dura

Fóra deste meu peito a desconheça:

Nem poderá temer minha ventura,

Que sombra de pesar vos entristeça;

Pois farey no tormento mais esquivo

Correr por conta da alma o sensitivo.

 

XVIII.

Se só para viver na ley de amante

Forçosa seja a vida repetida;

Ay! Senhor, que naõ póde ser bastante

Para viver ausente huma só vida:

Porém se amor de vidas taõ possante,

Huma nos deo para ambos repartida,

Postoque a dôr entre ambos se accommóda, Melhor vos partireis levando-a toda.

 

XIX.