Saudades de D. Ignez de Castro
Oitavas
Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum
Mosteyro de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que
poderia vir, segundo as pennas, que à acompanhava.
I.
Ficay esteriles campos, calvos montes,
Incultas serras, tristes arvoredos,
Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,
Medonhos valles, asperos rochedos;
Ficai mal assombrados orizontes,
Parados rios, desiguaes penedos,
Que jà me naõ vereis como me vistes,
Inda que o ser mudeis de serdes tristes.
II.
Meus sentidos trouxestes jà fechados,
Que agora sem vos ver já trago abertos,
De ouro, e de azul vestistes meus cuidados, Mas agora os vereis de dò cubertos;
Se os vistes andar sempre acompanhados, Metidos os vereis pelos desertos,
Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ
E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.
III.
Sempre senti pezar, nunca alegria,
Nunca em vòs descançei, sempre cançava, O bem que achava em vòs, de mim fugia, Mas se me achava o mal, em mim parava: A treição me dava, e me feria