Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 59 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Oitavas

Que fes de despedida quando de Villa-Viçosa veyo para hum

Mosteyro de Lisboa, nas quaes descreveo o triste estado, e o que

poderia vir, segundo as pennas, que à acompanhava.

 

I.

Ficay esteriles campos, calvos montes,

Incultas serras, tristes arvoredos,

Ribeiras seccas, peçonhentas fontes,

Medonhos valles, asperos rochedos;

Ficai mal assombrados orizontes,

Parados rios, desiguaes penedos,

Que jà me naõ vereis como me vistes,

Inda que o ser mudeis de serdes tristes.

 

II.

Meus sentidos trouxestes jà fechados,

Que agora sem vos ver já trago abertos,

De ouro, e de azul vestistes meus cuidados, Mas agora os vereis de dò cubertos;

Se os vistes andar sempre acompanhados, Metidos os vereis pelos desertos,

Porque naõ vendo, vejaõ o que naõ viaõ

E sentindo, naõ sintaõ o que sentiaõ.

 

III.

Sempre senti pezar, nunca alegria,

Nunca em vòs descançei, sempre cançava, O bem que achava em vòs, de mim fugia, Mas se me achava o mal, em mim parava: A treição me dava, e me feria