Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 52 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo IV

E pois que Deos aos Ceos o tinha dado,

E vòs só do emprestado possueis,

Porque haveis de chorar de ver que Deos, Da terra quer levar o que he dos Ceos?

 

IV.

Tanto o amador melhor padece,

O trabalho por mais duro que seja,

Quanto delle o pezar mais enriquece,

A cousa que mais ama, e mais deseja.

Pois se Deos que nos Ceos, quiz que estivesse, Naõ quer que a terra indigna mais a veja, Possa mais o seu bem para alegrar-vos,

Do que pòde esse mal para cançar-vos.

 

V.

He tençaõ do amor à razaõ dada,

Que os bens que busca ainda em seu perigo, Mais saõ para os dar à cousa amada,

Que naõ para logralos sò comsigo:

Pois se estes a que esta alma foy chamada, Sem vòs lhos quiz dar Deos, se sois amigo, Folgay de carecer da parte vossa,

Porque ella a parte, e o todo lograr possa.

 

VI.

Quem vive no terrestre Purgatorio,

Vive para ir gozar de hum bem eterno,

E em quanto tinheis nella o transitorio;

Em tanto naõ tinha ella o sempiterno,

Pois se he ponto de fé, claro, e notorio,

Que acaba o bem antigo, e o bem moderno, Se lhe querieis bem, num bem está posta, No qual todos os bens possue, e gosta.