Saudades de D. Ignez de Castro

Manoel de Azevedo · Capítulo 57 de 95

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Saudades de D. Ignez de Castro

Capítulo X

Fingir, andando sempre atormentado,

Para o alheyo bem grande alvoroço,

Fingir que desejais de ser creado

De quem pudera ser creado vosso:

Fingir alegre rostro, a rostro irado,

Que vos desejais ver sem seu pescoço,

Fingir palavras vãs tintas com cores,

Que sendo ellas de fel, pareçaõ amores.

 

XI.

Temer que seja falsa a esperança;

Que tanto tarda, cansa, e tanto custa,

Temer que os bens, que a fama vos alcansa, Vos negue a Corte ingrata, dura injusta,

Temer que este temor que tanto cança,

Seja da esperança a paga justa,

Que sejaõ os cortesaõs prometimentos

Sem nenhuma largura comprimentos.

 

XII.

Estar queixoso de ver quanto alcançaraõ, Os que parios em paz nunca correraõ,

Queixoso de ver bens que transbordaraõ, Fóra dos que estes bens naõ mereceraõ, Queixoso de ver que inda naõ pagaraõ,

Serviços que fiados se fizeraõ

Queixoso porque o mào sem seu trabalho, Faz bigorna do bom, faz de si malho.